Publicação: Alfabetização Visual e Educação Bilíngue no Ensino de Física para Estudantes Surdos
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::EDUCACAO
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Resumo
Nesta tese, buscou-se compreender como se configuram as práticas pedagógicas envolvendo
estudantes surdos em escolas públicas de Ensino Médio, especialmente na interação entre
professores de Física e Tradutores Intérpretes de Libras (TILS). A partir da negação da surdez
como deficiência e da perspectiva bilíngue de orientação visual, este estudo abordou como as
concepções de linguagem, visualidade, inclusão e ensino de Ciências se manifestam nos
discursos e nas ações destes profissionais. A pesquisa foi organizada em três frentes: (1) análise
de questionários respondidos por professores de Física e TILS; (2) organização de um grupo
focal envolvendo estes profissionais; e (3) conexão dos resultados com os referenciais dos
Estudos Surdos, da alfabetização visual, do Desenho Universal para a Aprendizagem, da
Tecnologia Assistiva, da Comunicação Aumentativa e Alternativa, da Natureza da Ciência e da
crítica bachelardiana à utilização de imagens. Os resultados apontam para um domínio repleto
de contradições. Entre os professores de Física, constatou-se a presença de formações
discursivas que variam desde a inclusão adaptativa — focada em flexibilizações tardias,
simplificações intuitivas e preservação do currículo regular, até a emergência, ainda que em
menor escala, de práticas mais dialógicas, que incorporam o uso planejado de recursos visuais,
a conexão com a vivência cotidiana dos estudantes e o reconhecimento da Libras como língua
de ensino. Junto aos TILS, ressaltou-se uma sensibilidade apurada em relação às necessidades
dos estudantes surdos e às limitações das abordagens pedagógicas, especialmente no que se refere à ausência de planejamento colaborativo, à carência de formação continuada em Ciências
Exatas e ao uso frequente de imagens improvisadas, geralmente consideradas evidências
autoexplicativas. O grupo focal acentuou essas tensões. Foram levantadas oportunidades para
a reestruturação do currículo e a formação de uma colaboração efetiva com os TILS,
fundamentada em diálogos prévios, negociação de sinais e a criação de ambientes que
favoreçam a participação dos estudantes surdos. Também foram destacadas as condições
precárias do trabalho bilíngue: avaliações comparáveis às dos ouvintes, falta de adequação,
ausência de materiais visuais adequadamente elaborados, falta de preparação prévia dos
conteúdos, escassez de recursos e ausência de formação continuada. Foi identificada uma
argumentação que desvia o foco da análise, enfatizando que a inclusão não falha por “falta de
vontade”, mas sim por uma estrutura que mantém o currículo de Física inalterado e atribui ao
TILS a tarefa de “traduzir” o que exige uma reconstrução conceitual. Relacionados ao
referencial bachelardiano, os resultados sugerem que a questão não se resume apenas a “utilizar
imagens”, mas sim a confrontar as ilusões de transparência associadas à visualidade. Ministrar aulas de Física para estudantes surdos requer a utilização de representações visuais
cuidadosamente planejadas em colaboração pedagógica, em vez de improvisações visuais que
perpetuam barreiras epistemológicas. Dessa forma, a tese avança ao argumentar que abordagens
bilíngues no ensino de Física requerem a implementação de políticas institucionais que
assegurem o planejamento colaborativo, condições adequadas de trabalho, formação
especializada e a coautoria entre docentes e TILS.
Abstract
This thesis investigates how pedagogical practices involving deaf students are configured in
Brazilian public high schools, with special attention to the interaction between Physics teachers
and Brazilian Sign Language (Libras) interpreters (TILS). Grounded in a bilingual and visually
oriented perspective that rejects deficit-based views of deafness, the study examines how
conceptions of language, visuality, inclusion, and science teaching emerge in the discourse and
practice of these professionals. The research unfolded in three stages: (1) analysis of
questionnaires answered by Physics teachers and TILS; (2) organization of a focus group with
these professionals; and (3) articulation of the findings with theoretical frameworks from Deaf
Studies, visual literacy, Universal Design for Learning, Assistive Technology, Augmentative
and Alternative Communication, Nature of Science, and Bachelard’s critique of scientific
images. The results reveal a field marked by tensions and contradictions. Among Physics
teachers, discursive formations range from adaptive inclusion—focused on late-stage
flexibilizations, intuitive simplifications, and preservation of the regular curriculum—to the
emergence of more dialogical practices that integrate planned visual resources, connections to
students’ everyday experiences, and recognition of Libras as a legitimate language of
instruction. Among TILS, the analyses highlight a refined sensitivity to the needs of deaf
students and to the limits of current pedagogical approaches, revealing a persistent lack of
collaborative planning, insufficient training in the sciences, and frequent reliance on improvised
images often treated as self-explanatory evidence. The focus group amplified these tensions,
pointing to opportunities for curricular restructuring and the development of genuine collaboration with TILS through prior dialogue, negotiation of signs, and the creation of
learning environments that support deaf students’ participation. At the same time, it brought to
light the precarious conditions of bilingual work: assessment practices identical to those used
with hearing students, lack of adaptation, absence of adequately designed visual materials,
insufficient preparation of content, scarcity of resources, and lack of continuing education. A
recurring theme was the displacement of responsibility: inclusion does not fail due to “lack of
will”, but because Physics curricula remain unchanged and place on the interpreter the task of
“translating” concepts that actually require conceptual reconstruction. Drawing on Bachelard’s
philosophy, the findings suggest that the challenge is not merely to “use images”, but to
confront the illusion of transparency associated with visual representations. Teaching Physics
to deaf students requires visual representations that are purposefully designed and built through
pedagogical collaboration, rather than improvisations that reinforce epistemological barriers. This thesis argues that effective bilingual approaches in Physics education demand institutional policies that guarantee collaborative planning, adequate working conditions, specialized training, and co-authorship between teachers and TILS.
Palavras-chave
Ensino de Física, Physics education, Estudantes surdos, Deaf students, Tradução/interpretação de Libras (TILS), Libras interpreting, Alfabetização visual, Visual literacy, Educação bilíngue, Bilingual education
Citação
BATISTA, Heloisa Fernanda Francisco. Alfabetização Visual e Educação Bilíngue no Ensino de Física para Estudantes Surdos. 2025. 284 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2025. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.te.2025.666.
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