Publicação: Direito à cidade e arquitetura hostil: análises a partir de Uberlândia/MG
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::GEOGRAFIA
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Resumo
Este trabalho investiga a prática da arquitetura hostil e suas implicações para o direito à cidade,
com especial atenção aos impactos sobre a inclusão social e o acesso ao espaço urbano, tendo
como recorte empírico a zona sul de Uberlândia-MG. Compreende-se a arquitetura hostil como
um conjunto de intervenções físicas deliberadas, como a instalação de bancos desconfortáveis,
barreiras metálicas, pedras pontiagudas e outros dispositivos, cujo objetivo é afastar
determinados segmentos sociais considerados indesejáveis, sobretudo pessoas em situação de
rua. Tais práticas são fundamentadas na aporofobia, isto é, na aversão à pobreza e à presença
pública dos pobres, e configuram uma estratégia de ordenamento urbano que busca a
higienização dos espaços e a produção de uma cidade seletiva, onde a sociabilidade é regulada
por critérios socioeconômicos e estéticos. A partir da análise da dinâmica urbana na Zona Sul
de Uberlândia, propomos uma ampliação conceitual do fenômeno da arquitetura hostil,
incluindo práticas que, embora não sejam tradicionalmente classificadas como tal, operam de
modo semelhante na produção da exclusão socioespacial, tais como a construção de muros, a
proliferação de sistemas de vigilância eletrônica e a adoção de estratégias de segurança privada.
Estas práticas, muitas vezes legitimadas pelo discurso da segurança, consolidam dispositivos
de separação e reforçam fronteiras simbólicas e materiais entre os diferentes grupos sociais.
Embora o ordenamento jurídico brasileiro assegure o direito à cidade, à dignidade e à igualdade,
observa-se a persistência e até a intensificação dessas formas de segregação, sobretudo por meio
de iniciativas privadas vinculadas à valorização imobiliária e à reprodução das lógicas do
mercado. Tais práticas contradizem os preceitos constitucionais e operam como mecanismos
de negação do espaço urbano como esfera democrática, comprometendo o ideal de cidade como
bem comum e acentuando as desigualdades socioespaciais. A pesquisa adota uma abordagem
qualitativa, articulando revisão bibliográfica com pesquisa de campo, por meio de observação
direta e registro fotográfico, para identificar e analisar elementos urbanos excludentes e seus
efeitos sobre o cotidiano urbano. Os resultados indicam que a arquitetura hostil, ao promover a
expulsão dos indesejáveis e a estetização excludente dos espaços, atua como um instrumento
de controle social e de gestão dos pobres, intensificando desigualdades e restringindo o acesso
pleno à cidade. Conclui-se pela necessidade de formulação de políticas urbanas inclusivas,
comprometidas com a justiça socioespacial, bem como pelo fortalecimento da regulação estatal
sobre os processos de urbanização, a fim de coibir práticas que naturalizam a exclusão e
aprofundam as clivagens socioespaciais.
Abstract
This study investigates the practice of hostile architecture and its implications for the right to
the city, with a particular focus on its impact on social inclusion and access to urban space. The
empirical scope centers on the southern zone of Uberlândia, in the state of Minas Gerais, Brazil.
Hostile architecture is understood as a set of deliberate physical interventions—such as the
installation of uncomfortable benches, metal barriers, spiked surfaces, and other devices—
designed to deter specific social groups deemed undesirable, especially individuals
experiencing homelessness. These practices are rooted in aporophobia, the aversion to poverty
and the public presence of the poor. They reflect an urban planning strategy aimed at the
sanitization of public spaces and the production of a selective city, where sociability is governed
by socioeconomic and aesthetic criteria. Based on an analysis of urban dynamics in
Uberlândia’s southern zone, this study proposes a broader conceptualization of hostile
architecture—one that includes practices not traditionally labeled as such, but which similarly
contribute to socio-spatial exclusion. These include the construction of walls, the proliferation
of electronic surveillance systems, and the adoption of private security strategies.
Often legitimized by discourses of security, these practices consolidate mechanisms of
separation and reinforce both symbolic and material boundaries between social groups.
Although Brazilian law guarantees the right to the city, as well as dignity and equality, such
forms of segregation persist and even intensify, particularly through private initiatives tied to
real estate speculation and the reproduction of market logics. These practices contradict
constitutional principles and operate as mechanisms that deny the urban space as a democratic
sphere, undermining the ideal of the city as a common good and deepening socio-spatial
inequalities. The research adopts a qualitative approach, combining bibliographic review with
fieldwork—through direct observation and photographic documentation—to identify and
analyze exclusionary urban elements and their effects on everyday urban life. The results
indicate that hostile architecture, by promoting the expulsion of the "undesirable" and the
exclusionary aestheticization of public spaces, functions as a tool of social control and
management of the poor, intensifying inequalities and restricting full access to the city. The
study concludes by emphasizing the need for inclusive urban policies committed to sociospatial
justice, as well as the strengthening of state regulation over urbanization processes, in
order to curb practices that normalize exclusion and deepen socio-spatial divisions.
Palavras-chave
Arquitetura hostil, Desigualdade social, Direito à cidade, Exclusão territorial, Espaços públicos, Urbanismo, hostile architecture, Social inequality, Right to the city, Territorial exclusion, Public Spaces, Urbanism
Citação
AZAMBUJA, Samuel Soares. Direito à cidade e arquitetura hostil: análises a partir de Uberlândia/MG. 2025. 144 f. Dissertação (Mestrado em Geografia Pontal) - Universidade Federal de Uberlândia, Ituiutaba, 2026. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.di.2025.638
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