Publicação: O universal construído: tipos naturais a partir de Locke
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::FILOSOFIA
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Resumo
A presente dissertação explora o problema dos universais a partir do convencionalismo de
John Locke, que propõe uma inflexão no debate ao deslocar o foco ontológico para uma
abordagem epistemológica, centrada em sua teoria das ideias abstratas. Locke, em contraste
com o essencialismo de tipos tradicional (de Platão e Aristóteles), introduz a distinção entre
essências reais (inacessíveis) e essências nominais (convencionais), estas últimas
prevalecendo na classificação das espécies. Seu ceticismo sobre a acessibilidade às essências
reais e a adesão ao problema sorítico inerente à doutrina da Grande Cadeia do Ser levam-no a
defender que a demarcação entre as espécies é arbitrária. A pesquisa analisará a viabilidade do
convencionalismo moderado de Locke no debate contemporâneo. No primeiro capítulo, será
apresentado um panorama histórico do problema dos universais, desde a Antiguidade até
Locke, analisando teorias realistas e nominalistas, e detalhando a teoria das ideias abstratas de
Locke e as objeções de Hume e Leibniz. O segundo capítulo investigará as implicações da
proposta lockeana para o debate posterior, abordando a recepção da abstração no sistema
kantiano, o problema das cores, e a influência da nova teoria da referência de Kripke e
Putnam, bem como as críticas a essas abordagens. O terceiro capítulo explorará a polarização
realista/nominalista nas ciências biológicas, discutindo a tensão entre abordagens
essencialistas e históricas, a teoria espécies-como-indivíduos de David Hull, os Clusters de
Propriedades Homeostáticas (CPH) de Richard Boyd, e o realismo promíscuo de John Dupré,
além de abordar a vaguidade ontológica e as noções de individuação e identidade. A
dissertação parte da hipótese de que o convencionalismo moderado de Locke, reinterpretado à
luz das discussões recentes, oferece um recurso adequado para compreender o problema dos
tipos naturais e uma via promissora para a metafísica e a epistemologia. A análise demonstrará
que elementos muito simples (como átomos e moléculas elementares) podem ser classificados
como tipos naturais com essências fixas. No entanto, em seres mais complexos, como as
espécies biológicas, a teoria da evolução e os avanços na biologia demonstram que o
essencialismo de tipos é inadequado, tornando inevitável a arbitrariedade na delimitação das
espécies e reforçando o papel fundamental do convencionalismo.
Abstract
The present dissertation explores the problem of universals from John Locke's
conventionalism, which proposes an inflection in the debate by shifting the ontological focus
to an epistemological approach, centered on his theory of abstract ideas. Locke, in contrast to
the traditional natural kind essentialism (from Plato and Aristotle), introduces the distinction
between real (inaccessible) and nominal (conventional) essences, the latter prevailing in the
classification of species. His skepticism about the accessibility of real essences and adherence
to the soritic problem inherent in the doctrine of the Great Chain of Being lead him to argue
that the demarcation between species is arbitrary. The research will analyze the viability of
Locke's moderate conventionalism in contemporary debate. The first chapter will present a
historical overview of the problem of universals, from Antiquity to Locke, analyzing realist
and nominalist theories, and detailing Locke's theory of abstract ideas and the objections of
Hume and Leibniz. The second chapter will investigate the implications of Locke's proposal
for the subsequent debate, addressing the reception of abstraction in the Kantian system, the
problem of colors, and the influence of Kripke and Putnam's new theory of reference, as well
as criticisms of these approaches. The third chapter will explore the realist/nominalist
polarization in biological sciences, discussing the tension between essentialist and historical
approaches, David Hull's species-as-individuals theory, Richard Boyd's Homeostatic Property
Clusters (HPC), and John Dupré's promiscuous realism, in addition to addressing ontological
vagueness and the notions of individuation and identity. The dissertation starts from the
hypothesis that Locke's moderate conventionalism, reinterpreted in light of recent discussions,
offers an adequate resource for understanding the problem of natural kinds and a promising
path for metaphysics and epistemology. The analysis will demonstrate that very simple
elements (such as elementary atoms and molecules) can be classified as natural kinds with
fixed essences. However, in more complex beings, such as biological species, the theory of
evolution and advances in biology demonstrate that natural kind essentialism is inadequate,
making the arbitrariness in species delimitation inevitable and reinforcing the fundamental
role of conventionalism.
Palavras-chave
John Locke, Tipos Naturais, Natural Kinds, Convencionalismo, Conventionalism, Espécies Biológicas, Biological Species, Sorites, Filosofia, Philosophy
Citação
SILVA, Danival Lucas da. O universal construído: tipos naturais a partir de Locke. 2025. 159 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2026. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.di.2025.627.