Publicação: Do nariz coletivo à preparação de uma fisionomia própria: um
estudo sobre o fascismo nos escritos do cárcere de Antonio Gramsci
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::FILOSOFIA
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Resumo
A presente dissertação é um estudo do fascismo à luz dos conceitos do filósofo marxista
Antonio Gramsci (1891-1937). Nesta pesquisa investigou-se como o fascismo perpassa e
interconecta a obra desse pensador que, opositor do referido regime político, permaneceu por
cerca de 11 anos até praticamente a sua morte nas prisões de Benito Mussolini (1883-
1945). A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica e documental. Nesses limites,
fixamo-nos na pesquisa de seus escritos do período em que esteve preso (1926-1937), os
quais se concentram em duas fontes principais: os Cadernos do cárcere e as Cartas do
cárcere. Devido às inóspitas condições da escrita nos cárceres e às frágeis condições de
saúde, o pensador não teve a oportunidade de realizar uma sistemática organização e revisão
de sua obra para uma posterior publicação. Assim, nosso objeto de estudo, além de
fragmentário, é fugaz; Gramsci deveria driblar a censura fascista em seus escritos, o que o
levou, por vezes, a se comunicar por meio de códigos e, ao mesmo tempo, numa linguagem
filosófica que tornou possível a elaboração de seus conceitos de análise da realidade social.
Isso posto, a pergunta que conduz esta pesquisa se delineia nos seguintes termos: Como
Gramsci caracterizou o fascismo em sua obra do período carcerário? O percurso adotado
frente a esse problema, como indicado pelo próprio pensador, desencadeou-se a partir da
teoria da revolução passiva como critério histórico-político de análise . Nesse sentido,
investigamos os eventos históricos que Gramsci classificou em seus escritos como revoluções
passivas, a saber: o Risorgimento, o americanismo e o fascismo. Tais fenômenos são
distintos, mas se interligam através desse conceito, propriamente nas reflexões sobre o
processo histórico e os acontecimentos políticos do tempo em que o filósofo escreve.
Outrossim, o conceito de revolução passiva interconecta-se com o de guerra de posição. Por
conseguinte, americanismo e fascismo são respostas ao processo revolucionário iniciado com
a Revolução de Outubro, na Rússia de 1917. O mundo no início do século XX estava imerso
numa crise orgânica do sistema capitalista, e duas forças sociais, burguesia e proletariado,
disputavam a hegemonia. Contudo, a disputa ocorria de modo desigual: se a classe dominante
possuía inesgotáveis recursos para a manutenção de sua hegemonia, as subalternas deveriam
se unificar para poderem se tornar uma classe hegemônica e consciente de seu compromisso
histórico. Nessas condições, as revoluções passivas vertem-se em imponentes estratégias que
reforçam a classe dominante e desarticulam as classes dominadas. Gramsci, frente a esse
intrincado e obstaculizado entrave da classe dominante, elabora uma estratégia de ação para
as classes subalternas dos países ocidentais de capitalismo avançado: a guerra de posição.
Logo, este estudo apresenta os conceitos de análise de Gramsci, tendo em vista o combate ao
fascismo e, mais além, da própria civilização burguesa que, ao não conseguir se desenvolver
em vias, de fato, progressistas, tornou possíveis a massificação humana e as condições de
barbárie dos regimes autoritários modernos. O homem moderno, no mais alto grau do
individualismo perdeu a sua fisionomia em um nariz coletivo na massificação, o que o
tornou supérfluo. Resta a busca de um novo encontrar-se , criando uma nova sociedade,
numa nova concepção de mundo, que permita ao homem o desenvolvimento da sua
individualidade, a sua humanidade integral que, ao mesmo tempo, só pode se encontrar na
coletividade humana; eis uma sugestão gramsciana para isto: por intermédio da filosofia da
práxis.
Abstract
This dissertation is a study of Fascism according to the concepts of the Marxist philosopher
Antonio Gramsci (1891-1937). In this research it was investigated how Fascism crosses and
interconnects the work of this thinker who, opposing the referred political regime, remained
for about 11 years almost until his death in the penal institutions of Benito Mussolini
(1883-1945). The methodology used was the bibliographical and documentary research. In
such limits, we have looked at a research of his writings from the period when he was
imprisoned (1926-1937), which are focused on two main sources: Prison notebooks and
Prison letters. Because of the inhospitable conditions of writing in prisons and his fragile
health, the thinker did not have the opportunity to conduct a systematic organization and
proofreading of his work for a post publication. So, our object of study is fragmented as well
as fugacious; Gramsci would circumvent the fascist censure in his writings, which took him at
times to communicate through codes and, at the same time, with a philosophical language
that made possible the development of his analysis concepts about the social reality.
Accordingly, the question that leads this research is outlined as it follows: How did Gramsci
characterize Fascism in his work on prison system time? The trajectory adopted about this
problem, as indicated by the thinker, was triggered from the theory of passive revolution as a
historical-political criteria of analysis . In this sense, we investigate the historical events
that Gramsci in his writings classified as passive revolutions, namely: Risorgimento,
Americanism and Fascism. Such phenomena are distinct, but interconnected through this
concept, properly in the reflections on historical process and political events from the epoch
the philosopher writes. Furthermore, the concept of passive revolution is interconnected with
the notion of war of position. Therefore, Americanism and Fascism are responses to the
revolutionary process started with the October Revolution in Russia, in 1917. The world in
the early 20th century was immersed in an organic crisis of the capitalist system, and two
social forces, bourgeoisie and proletariat, disputed the hegemony. However, the dispute
occurred in an unequal way: if the ruling class had inexhaustible resources to maintain its
hegemony, the subaltern ones should be unified in order to become a hegemonic class and
conscious of its historical commitment. In these conditions, the passive revolutions shed in
imposing strategies that reinforce the ruling class and come apart the dominated ones.
Gramsci, in this elaborated and hampered obstacle of the ruling class, develops an action
strategy for the lower classes of western countries that have an advanced capitalist: the war
of position. Hence, this study presents Gramsci s analysis of concepts, in view of the fight
against Fascism and going beyond the bourgeois civilization that, by failing to develop in the
progressive process, made possible the human massification and barbaric conditions of
modern authoritarian regimes. The modern man, in the highest degree of individualism, have
lost his physiognomy in a collective nose in massification, which made him superfluous. It
still remains the search for a new meet , creating a new society in a new conception of the
world that allows man to develop his individuality, his full humanity that, in the same time,
can only be found in the human community; here is a Gramscian suggestion for this aspect:
through the philosophy of praxis.
Palavras-chave
Fascismo, Marxismo, Revolução passiva, Guerra de posição, Hegemonia, Fascism, Marxism, Passive revolution, War of position, Hegemony, Socialismo
Citação
FERREIRA, Fernanda de Assis. Do nariz coletivo à preparação de uma fisionomia própria: um
estudo sobre o fascismo nos escritos do cárcere de Antonio Gramsci. 2015. 113 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2015. DOI https://doi.org/10.14393/ufu.di.2015.435