Publicação: Necropolítica, soberania e corpos descartáveis: dos corpos não ontológicos ao fim do humanismo
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::FILOSOFIA::ETICA
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Resumo
O presente trabalho busca elucidar os desdobramentos imperados pela necropolítica ao elencar
indivíduos matáveis utilizando-se do racismo e da colonização como pressuposto classificatório
dos corpos, contribuindo para a forja de uma sociedade sustentada pelo ditame da raça e
marcada pela possibilidade do fim do humanismo. Para tal, utiliza-se nesta pesquisa,
primordialmente, os escritos do filósofo camaronês Achille Mbembe, possibilitando uma
fecunda análise da sociedade hodierna. Objetiva-se, por conseguinte, demonstrar como a
necropolítica está relacionada à soberania, atuando por meio dela. O contexto soberano está
sempre direcionado à administração da vida e da morte dos indivíduos, dispondo deles como
bem desejar. Os suplícios configuram-se a partir do poder soberano em teatralizar a reconquista
do poder lesado, direcionando-se a um criminoso como forma punitiva. Com o fim dos
suplícios, há a transição para a época da disciplina e do biopoder, dando-se, assim, vazão ao
racismo de estado. Concomitante a esses fatores, a possibilidade de um poder de morte só é
viável tendo-se como fundamento a demarcação de estados de exceções constantes e a
classificação de corpos matáveis a partir do homo sacer. Demonstra-se, em consequência, como
a necropolítica se relaciona com o racismo e a colonização, tendo em vista a subalternização de
corpos e populações. Entre colonizado e colonizador, forma-se uma dialética unilateral, pela
qual o poder se apresenta sempre de forma desproporcional. Aquele é rechaçado, este é
vangloriado, este afirma seu posto de poder enquanto aquele é subalternizado. Já no zoológico
da raça, onde corpos estão expostos para a venda, encontra-se o corpo negro alojado em uma
zona de inexistência, caracterizado como um não ser. Vê-se que a sociedade é sustentada por
um sistema de garantias raciais, na qual a ascensão de corpos negros e subalternos não é
possibilitada, estabelecendo um sistema de rejeite de corpos considerados descartáveis. A morte
de um negro e de um subalterno é justificável a partir desse código social. Por fim, analisa-se a
formação dos “mundos de morte” contemporâneos, visando compreender como uma sociedade
da inimizade está relacionada às transformações dos combates armados e na especialização dos
meios do fazer morrer. As demarcações territoriais contemporâneas reconfiguram o espaço
combativo e asseguram a formação de uma soberania vertical, impetrando-se contra corpos
considerados abjetos e estrangeiros, colocando-se em questão o direito a cidadania. Segregar,
capturar, anular a existência e impossibilitar a transmissão genética de geração em geração.
Todas estas perspectivas coagulam a análise de um possível fim do humanismo, possibilitado
pela transformação do corpo em moeda mercantil do sistema neoliberal e pela substituição do
corpo humano pela máquina, caracterizado como devir-negro de mundo e brutalismo
Abstract
This work seeks to elucidate the consequences imposed by necropolitics by designating
individuals as killable through racism and colonization as classificatory presuppositions of
bodies, contributing to the creation of a society sustained by racial dictates and marked by the
potential end of humanism. To this end, this research primarily relies on the writings of
Cameroonian philosopher Achille Mbembe, allowing for a fruitful analysis of contemporary
society. The objective is, therefore, to demonstrate how necropolitics is related to sovereignty,
operating through it. The sovereign context is always directed towards the administration of the
life and death of individuals, disposing of them as desired. Punishments arise from sovereign
power by dramatizing the reconquest of injured authority, targeting a criminal as a punitive
form. With the end of punishments, there is a transition to the era of discipline and biopower,
thereby giving way to state racism. Concurrently, the possibility of a death power is only viable
with the foundation of constant states of exception and the classification of killable bodies based
on the concept of homo sacer. It is consequently demonstrated how necropolitics relates to
racism and colonization, considering the subalternization of bodies and populations. Between
the colonized and the colonizer, a unilateral dialectic is formed, in which power always presents
itself disproportionately. The colonized is rejected, while the colonizer is glorified, affirming
their position of power while the former is subalternized. In the racial zoo, where bodies are
exhibited for sale, the Black body is situated in a zone of non-existence, characterized as a non being. It is evident that society is maintained by a system of racial guarantees, in which the
ascent of Black and subaltern bodies is not allowed, establishing a system of rejection for bodies
deemed disposable. The death of a Black person and a subaltern is justifiable according to this
social code. Finally, the formation of contemporary "worlds of death" is analyzed, aiming to
understand how a society of enmity relates to changes in armed conflicts and the specialization
of death-inducing means. Contemporary territorial demarcations reconfigure combat spaces
and ensure the formation of vertical sovereignty, opposing bodies considered abject and foreign,
and questioning their right to citizenship. To segregate, capture, annul existence, and prevent
genetic transmission from generation to generation. All these perspectives consolidate the
analysis of a possible end to humanism, enabled by the transformation of the body into a
neoliberal system commodity and the replacement of the human body by machines,
characterized as the becoming of the Black body in the world and brutalism.
Palavras-chave
Necropolítica, Necropolitics, Corpos descartáveis, Subalternization, Corpos descartáveis, Disposable bodies, Soberania, Sovereignty, Filosofia, Amitrano, Georgia Cristina, Universidade Federal de Uberlândia. Pós-graduação em Filosofia
Citação
JORGE, João Vitor Alcântara. Necropolítica, soberania e corpos descartáveis: dos corpos não ontológicos ao fim do humanismo. 2024. 152 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.di.2024.91
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