Publicação: Demarcar a terra com sangue: discurso, memória e resistência indígena
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CNPQ::LINGUISTICA, LETRAS E ARTES
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A história da colonização das Américas está marcada por discursos de morte, mas também pela
resistência que os povos opuseram à necropolítica europeia desde a invasão. As formas de
resistência na formação dos Estados nacionais na América latina, no entanto, são um tópico
relegado a lugar secundário em parte significativa da historiografia. No século XXI, presenciamos
movimentos difusos de grupos de estudo, de associações e coletivos - nas universidades e além
delas - que se ocupam de pautas e demandas específicas das gentes quilombolas, indígenas,
ribeirinhas, bem como outras coletividades marginalizadas. Muitos estudos contemporâneos na
América latina trabalham sobre as memórias das comunidades de insurgentes, de pessoas e
grupos violentados. Partimos da percepção de que a resistência indígena ocorre em um
continuum desde a invasão, e que os dispositivos coloniais se perpetuam em discursos
neocoloniais, o que implica a consideração de uma memória larga (Cusicanqui, 1987; 2010) das
insurreições contra o poder de matar - a necropolítica do Estado-nação (Mbembe, 2018). Se,
ao longo da história, a posse/propriedade da terra constitui um marco fundacional de conflitos,
a colonização das regiões interiores do continente sobrepôs as antigas formas de habitar,
provocando o desterro, o aldeamento, a captura e escravidão de negros/as e indígenas. Assim
é que os movimentos das populações de fugitivos e refugiados descrevem linhas na geografia
do continente, e marcas remanescentes da condição de cativeiro, memórias da lavoura, da
sujeição, do massacre. As políticas de terras e os discursos da monocultura e da ocupação dos
“vazios demográficos” (Tavares, 2018) - sobretudo nas ditaduras - vão se reproduzindo nas
práticas de apropriação das terras indígenas. No século XX, em diferentes contextos na América
latina, comunidades formam alianças e passam a agir em diversos meios para salvaguardar o
direito à terra, à vida e aos processos próprios. Recortamos eventos específicos para análise: a
criação do Parque Indígena do Xingu em 1961 marca mudanças significativas nas formas de
organização de coletivos indígenas que, na década de 1980, se materializam nas mobilizações
da Assembleia Constituinte (1987). A promulgação da Constituição brasileira de 1988 marcou a
emergência de novas condições na ordem jurídica que, no entanto, demandariam novas lutas
por demarcações para serem direitos de fato. As retomadas de Terras Indígenas, no plano
macropolítico, acompanham produções micropolíticas, táticas, na literatura, na pesquisa
acadêmica, no teatro, na música, no direito, nas artes visuais - terrenos da resistência indígena
contemporânea. As novas formas de comunidade que se formam no trânsito indicam diferentes
atores da resistência em diferentes lugares sociais, que produzem enunciados diversos,
atravessados, contudo, por traços de parentesco de memórias. Logo, nosso intuito é analisar as
produções de memória da resistência indígena, em diálogo com os estudos dos discursos e
práticas descolonizadoras propostos por Silvia Rivera Cusicanqui (1987; 2010; 2015a; 2015b;
2018). Nossas análises dos indícios encontram marcas e rastros de uma larga memória da
resistência indígena, tomando dispersões enunciativas que circulam na internet, em imagens,
textos verbais e vídeos. Analisamos enunciados difusos em mídias marginais às correntes
principais: os longas-metragens Raoni (1978), A última Floresta (2021), os videodocumentários
Índio cidadão? (2014), O Espírito da Floresta (2012) e Nixi pae (2015), os curtas metragens: Já
me transformei em imagem – Ma É Dami Xina (2008), Pirinop: Meu primeiro contato (2007),
Fôlego vivo (2021), Nalimo: Resistência Abya Yala (2021), a série de documentários Índios no
Brasil (CARELLI, 2000), as produções de Aryel Ortega Kuaray Poty, Larissa Yepadi’ho e Takumã
Kuikuro, bem como alguns vídeos do projeto Vídeo nas Aldeias (Carelli, 2015), além de obras
de artevistas indígenas publicadas em seus blogs, como o MAHKU – Movimento de Artistas
Huni Kuĩ e expostas em galerias. Selecionamos materiais produzidos por indígenas, em que
eles/as têm parte ativa na concepção e podemos ouvir suas falas. Encontramos que o devir-
indígena implica a reapropriação da memória histórica, e que as práticas de resistência, as
grandes marchas e acampamentos por espaços e instituições públicas, bem como as micro-
insurreições cotidianas, performam gestos memoriosos. As (ins)urgências dos corpos de saberes
indígenas na pesquisa acadêmica operam a crítica das imagens/discursos sobre o/a indígena. Mais além, percebemos a luta pela reapropriação da voz e da memória da terra (Tavares, 2018)
como vias de possibilidades para o futuro indígena. Nas epistemes indígenas, a terra é uma
entidade de direitos.
Abstract
Resumen: La historia de la colonización de las Américas está caracterizada por discursos de Muerte, pero
también de resistencia que los pueblos opusieron a la necropolítica europea desde la invasión.
Las formas de resistencia en la formación de los Estados nacionales en América Latina, sin
embargo, son un tópico rezagado a un lugar secundario en gran parte de la historiografía. En el
siglo XXI, presenciamos movimientos difusos de grupos de estudio, de asociaciones y colectivos
- en las universidades y más allá de ellas - que se ocupan de pautas y demandas específicas de
gente de quilombos, gente indígena, gente que vive en el margen de ríos, como también otras
colectividades marginalizadas. Muchos estudios contemporáneos en América Latina trabajan
sobre las memorias de comunidades de insurgentes, de personas y grupos violentados. Partimos
de la percepción de que la resistencia indígena ocurre en un continuum desde la invasión, y que
los dispositivos coloniales se perpetúan en discursos neocoloniales, lo que implica la
consideración de una larga memoria (Cusicanqui, 1987; 2010) de las insurrecciones en contra
del poder de matar - la necropolítica del Estado-nación (Mbembe, 2018). Si, a lo largo de la
historia, la posesión/propiedad de la tierra constituye un marco fundacional de conflictos, la
colonización de las regiones interiores del continente se sobrepuso sobre las antiguas formas de
habitar, provocando el destierro, la formación de aldeas, la captura y la esclavización de
negros/as e indígenas. De este modo, los movimientos de las poblaciones de seres que huían y
de refugiados describen líneas en la geografía del continente, y marcas remanecientes de la
condición de cautiverio, memorias de los cultivos, del sometimiento, de la masacre. Las políticas
de tierras y los discursos del monocultivo y de la ocupación de los "vacíos demográficos"
(Tavares, 2018) - sobre todo en las dictaduras - se van reproduciendo en las prácticas de
apropiación de las tierras indígenas. En el siglo XX, en diferentes contextos en la América Latina,
comunidades forman alianzas y pasan a actuar en diversos ambientes para salvaguardar el
derecho a la tierra, a la vida y a los procesos propios. Recortamos eventos específicos para
análisis: la creación del Parque Indígena do Xingu en 1961 marca cambios significativos en las
formas de organización de colectivos indígenas que, en la década de 1980, se materializan en
las movilizaciones de la Asamblea Constituyente (1987). La promulgación de la Constitución
Brasileña de 1988 marcó la emergencia de nuevas condiciones en el orden jurídico, que, sin
embargo, demandarían nuevas luchas por demarcaciones para que se volvieran derechos de
facto. Las retomadas de Tierras Indígenas, en el plan macropolítico, acompañan producciones
micropolíticas, tácticas, en la literatura, en la investigación académica, en el teatro, en la música,
en el derecho, en las artes visuales - territorios de la resistencia indígena contemporánea. Las
nuevas formas de comunidad que se forman en el tránsito indican diferentes actores de la
resistencia en diferentes lugares sociales, que producen enunciados diversos, atravesados, sin
embargo, por rasgos de parentesco de memorias. Luego, nuestro objetivo es analizar las
producciones de memoria de la resistencia indígena, en diálogo con los estudios de los discursos
y practicas descolonizadoras propuestos por Silvia Rivera Cusicanqui (1987; 2010, 2015a; 2015b;
2018). Nuestros análisis de los indicios encuentran marcas y vestigios de una larga memoria de
la resistencia indígena, tomando dispersiones enunciativas que circulan en la internet, en
imágenes, textos verbales y videos. Analizamos enunciados difusos en mídias marginales a las
corrientes principales: los larga-metrajes Raoni (1978), A Última Floresta (2021), los
videodocumentarios Índio cidadão? (2014), O Espírito da Floresta (2012) y Nixi pae, los cortas-
metrajes: Já me transformei em imagem - Ma É Dami Xina (2008), Pirinop: Meu primeiro
contato (2007), Fôlego vivo (2021), Nalimo: resistencia Abya Yala (2021), la serie de
documentarios Índios no Brasil (CARELLI, 2000), las producciones de Aryel Ortega Kuaray Poty,
Larissa Yepadi'ho y Takumã Kuikuro, como también algunos videos del Projeto Vídeo nas
Aldeias (Carelli, 2015), además de obras de artevistas indígenas publicadas en sus blogs y
expuestas en galerías. Seleccionamos materiales producidos por indígenas, en que ellos/as tienen
parte activa en la concepción y podemos oír sus hablas. Encontramos que el devenir-indígena
implica la reapropiación de la memoria histórica, y que las prácticas de resistencia, las grandes
marchas y campamentos por espacios e instituciones públicas, como también las micro
insurrecciones cotidianas, constituyen gestos memorables. Las (ins)urgencias de los cuerpos de
saberes indígenas en la investigación académica operan la crítica de las imágenes/discursos sobre
el/la indígena. Más allá, percibimos la lucha por la reapropiación de la voz y memoria de la
tierra (Tavares, 2018) como vía de posibilidades para el futuro indígena. En las epistemes
indígenas, la tierra es una entidad de derechos.
Palavras-chave
imagem/discurso, resistência à necropolítica, memória larga, epistemes indígenas
Citação
ABREU, Tiago Eric de. Demarcar a terra com sangue: discurso, memória e resistência indígena, 2024. 220 f. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.te.2024.353.
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