Publicação: “Era só uma criança”: compreensões sobre a maternidade vivida antes dos 14 anos
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CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::PSICOLOGIA
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Resumo
A gravidez e a maternidade de meninas menores de 14 anos evidenciam uma questão grave de
saúde pública, por decorrerem sempre de uma violência presumida. As construções sobre a
saúde e o cuidado e as compreensões sobre a infância e a adolescência se modificaram, ao longo
do tempo, assim como os debates sobre violência sexual e consentimento. Por isso,
compreende-se a relevância de estudos que identifiquem percepções das mulheres que tiveram
filhos antes dos 14 anos sobre a gravidez e a maternidade, para ampliar o entendimento dos
profissionais sobre a situação e qualificar a assistência. Assim, o objetivo deste estudo foi
compreender como mulheres que atualmente têm mais de 18 anos, percebem a gravidez e a
maternidade vividas antes dos 14 anos. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em
Pesquisa e se caracteriza como uma pesquisa qualitativa. As participantes foram dez mulheres,
maiores de 18 anos que passaram por uma ou mais gestações e tiveram seus filhos antes dos 14
anos. Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo temático e temporal. As
participantes foram mulheres entre 28 e 72 anos, que engravidaram entre os anos de 1964 e
2007. Atualmente, nenhuma delas está casada com o genitor dos filhos que tiveram antes dos
14 anos. A partir da análise de dados, foi possível identificar três categorias: 1) “Como se eu
fosse uma mulher” – o contexto da gravidez, 2) “Parabéns, é uma menina” – os (des)cuidados
em saúde, 3) “Muito pequena para dar conta” - repercussões das experiências. Inicialmente,
observa-se que o contexto era de obrigatoriedade do casamento, após a descoberta da gravidez.
Nas décadas seguintes, a rede de apoio auxiliou no cuidado da gravidez e da maternidade. Com
avanço do feminismo, as meninas mães, a partir de 1980, começaram a identificar a gravidez
como consequência de uma violência sexual. O acesso aos serviços de saúde era restrito e com
o surgimento de políticas públicas, foi ampliado e priorizado a saúde materno-infantil. Porém,
as especificidades da gravidez de meninas ainda não são cuidadas de modo integral, além de
informações sobre prevenção, possibilidade de interrupção da gestação, vias de parto e
amamentação não serem fornecidas. As experiências de violências repercutiram na
maternidade, na relação consigo mesmo, no trabalho e no estudo, o que gerou consequências a
curto e a longo prazo. Dessa forma, é necessário debates acerca da violência contra crianças e
adolescentes e sobre a maternidade nesse período, a fim de ofertar proteção, cuidado e o
desenvolvimento integral a essa população.
Abstract
Pregnancy and motherhood of girls under 14 years of age highlight a serious public health issue,
as they always result from presumed violence. Constructions about health and care and
understandings about childhood and adolescence have changed over time, as have debates about
sexual violence and consent. Therefore, studies that identify the perceptions of women who had
children before the age of 14 about pregnancy and motherhood are relevant to expand
professionals' understanding of the situation and qualify assistance. Thus, the objective of this
study was to understand how women who are currently over 18 years old perceive pregnancy
and motherhood experienced before the age of 14. The research was approved by the Research
Ethics Committee and is characterized as qualitative research. The participants were ten
women, over 18 years of age, who had one or more pregnancies and had their children before
the age of 14. Data were analyzed using thematic content analysis. The participants were
women between 28 and 72 years old, who became pregnant between 1964 and 2007. Currently,
none of them are married to the parent of the children they had before the age of 14. From the
data analysis, it was possible to identify three categories: 1) “As if I were a woman” – the
context of the pregnancy, 2) “Congratulations, it’s a girl” – the (lack of) health care, 3) “ Too
small to handle it” - repercussions of the experiences. Initially, it is observed that the context
was that marriage was mandatory after the pregnancy was discovered. In the following decades,
the support network helped with pregnancy and maternity care. With the advancement of
feminism, girl mothers, from 1980 onwards, began to identify pregnancy as a consequence of
sexual violence. Access to health services was restricted and with the emergence of public
policies, maternal and child health was expanded and prioritized. However, the specificities of
girls' pregnancies are still not fully addressed, in addition to information on prevention, the
possibility of terminating the pregnancy, modes of delivery and breastfeeding not being
provided. Experiences of violence had an impact on motherhood, relationships with oneself,
work and study, which generated short and long-term consequences. Therefore, debates are
needed about violence against children and adolescents and about motherhood during this
period, in order to offer protection, care and integral development to this population.
Palavras-chave
Maternidade, Maternity, Saúde materno-infantil, Violência, Maternity, Maternal and child health, violence
Citação
DIAS, Marina Abreu. “Era só uma criança”: compreensões sobre a maternidade vivida antes dos 14 anos. 2024. 52 f. Trabalho de Conclusão de Residência (Residência em Ciências da Saúde) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024.