Publicação: Dor crônica, subjetividade e laço social: a experiência paradoxal da liminaridade
Carregando...
Arquivos
Tipo do documento
Data
Direito de acesso
Coleções
Área do conhecimento
CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::PSICOLOGIA
Título da Revista
ISSN da Revista
Título de Volume
Autores
Orientador
Coorientador
Resumo
A dor crônica apresenta-se como uma experiência interna que perdura e, ao se inscrever na
economia psíquica, traz grandes implicações subjetivas para os sujeitos que dela sofrem. Diante
das especificidades levantadas por esse fenômeno, esta pesquisa teve como principal objetivo
investigar as relações entre sujeito e laço social que são tecidas a partir do e no campo da dor.
Partimos da observação de que, nesses casos, frequentemente é possível constatar um acentuado
isolamento social, que indica um investimento precário do sujeito na sua vida familiar, afetiva
e profissional. Usualmente, esses retraimentos são exclusivamente atribuídos aos efeitos das
experiências dolorosas, conhecidas por provocar um empobrecimento dos investimentos
objetais, que torna o sujeito fixado em seu próprio sofrimento. No entanto, o isolamento, o
silêncio, a petrificação e a ausência de apelo ao Outro, remetidos às dores crônicas, não
conseguem ofuscar totalmente a participação da dor nos enredamentos do sujeito no laço social.
Assim, este estudo abordou como a relação do sujeito com sua dor participa dos seus modos de
relação com os outros. Essa pesquisa adotou o método psicanalítico. Foi construído um estudo
de caso a partir de uma entrevista realizada com uma mulher que sofria de dores crônicas, que
recebeu o nome de Fátima. Seguindo a trilha marcada pela tríade − laço, sujeito e dor − foi
possível traçar o friso da vida de Fátima: cheio de experiências e narrativas que se situam muito
além das descrições monotemáticas de sofrimento corporal. A apresentação e construção do
caso levantou como problema principal uma condição paradoxal diante do laço e diante da dor,
com dinâmicas complexas que escapam aos enquadramentos habituais. Essa condição, que foi
apreendida como a permanência do sujeito em uma peculiar zona de passagem, foi qualificada
como um estado de liminaridade. Desse conceito, proveniente do campo da antropologia,
extraímos elementos relevantes para a discussão do caso, que foram trabalhados a partir da
teoria psicanalítica. Entre eles, estão: as experiências de perda; a condição transitória; a dor
como um elemento que se faz presente nesse entre-lugar; a indeterminação que se apresenta a
partir do infamiliar, da angústia, do trauma e do gozo; e os tipos de impasses que podem ocorrer
durante as passagens, especialmente a sua cronificação. Assim, foi possível fundamentar a
hipótese central de que, a condição paradoxal diante do laço constatada nesse caso pode ser
compreendida como uma cronificação de um estado de passagem, em que o sujeito habita de
maneira prolongada o que deveria ser um momento indeterminado e transitório em sua
existência. Esse estado mostrou-se marcado pelo descentramento, pela dor e pela
indeterminação, que implicam em uma perturbação do laço, mas não somente. A cronificação
mostrou-se relacionada a uma dificuldade de elaboração das perdas e a uma despotencialização
do negativo e das experiências de indeterminação, em que as rupturas não conseguem operar
transformação ou novas ligações. A força disruptiva contida nessas experiências é necessária
para que o sujeito possa movimentar-se e completar sua passagem: da vertigem da dor, de volta
ao desejo e à vida.
Abstract
Chronic pain is presented as an internal experience that lasts and, when inscribed in the psychic
economy, brings great subjective implications for the subjects who suffer from it. Given the
specificities raised by this phenomenon, this research aimed to investigate the relationships
between subject and social bond that are woven from and in the field of pain. We start from the
observation that, in these cases, it is often possible to observe a marked social isolation, which
indicates a precarious investment by the subject in his family, affective and professional life.
Usually, these withdrawals are exclusively attributed to the effects of painful experiences,
known to cause an impoverishment of object investments, which makes the subject fixated on
his own suffering. However, isolation, silence, petrification, and lack of appeal to the Other,
linked to chronic pain, cannot completely obfuscate the participation of pain in the subject's
entanglements in the social bond. Thus, this study addressed how the subject's relationship with
his pain participates in his ways of relating to others. This research adopted the psychoanalytic
method. A case study was built from an interview with a woman who suffered from chronic
pain, who was named Fatima. Following the trail marked by the triad − social bond, subject,
and pain − it was possible to trace the frieze of Fatima's life: full of experiences and narratives
that go far beyond the descriptions of bodily suffering. The presentation and construction of the
case raised as a main problem a paradoxical condition in the face of the bond and in the face of
pain, with complex dynamics that escape the usual frameworks. This condition, which was
apprehended as the subject's permanence in a peculiar passage zone, was qualified as a state of
liminality. From this concept, which comes from the field of anthropology, we extract relevant
elements for the discussion of the case, which were worked from the psychoanalytic theory.
Among them are: the experiences of loss; the transient condition; pain as an element that is
present in this in-between place; the indeterminacy that arises from the unfamiliar, the anguish,
the trauma and the jouissance; and the types of impasses that can occur during passages,
especially their chronification. Thus, it was possible to substantiate the central hypothesis that
the paradoxical condition before the tie found in this case can be understood as a chronicle of a
passing state, in which the subject inhabits in a prolonged way what should be an indeterminate
and transitory moment in his existence. This state was marked by decentering, pain and
indeterminacy, which imply a disruption of the bond, but not only. Chronification was shown
to be related to a difficulty in working through the losses and to a depotentialization of the
negative and experiences of indeterminacy, in which ruptures are unable to operate in
transformation or new connections. The disruptive force contained in these experiences is
necessary for the subject to be able to move and complete his passage: from the vertigo of pain,
back to desire and life.
Palavras-chave
Dor crônica, Laço social, Psicanálise, Liminaridade, Chronic pain, Social bond, Psychoanalysis, Liminality, Psicologia
Citação
JESUS, Ludmila Madeira. Dor crônica, subjetividade e laço social: a experiência paradoxal da liminaridade. 2023. 154 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2023. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.di.2023.402
Coleções
Avaliação
Revisão
Suplementado Por
Referenciado Por
Licença Creative Commons
Exceto quando indicado de outra forma, a licença deste item é descrita como Acesso Aberto
