Publicação: Eu não tenho o que escolher, não. Já está escolhido por eles! Estudo qualitativo sobre expectativas e exercício da autonomia de mulheres acerca da escolha da via de nascimento no Brasil
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CNPQ::CIENCIAS DA SAUDE
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Freitas, Efigenia Aparecida Maciel de
Resumo
Introdução: A assistência ao parto sofreu grandes mudanças ao longo dos anos e o parto
fisiológico deu espaço a uma assistência cada vez mais medicalizada e intervencionista. O
modelo biomédico contribuiu para que as mulheres perdessem sua autonomia e protagonismo
no momento do parto. Nesse modelo atual de atenção obstétrica a maioria das mulheres não
tem suas escolhas da via de nascimento respeitadas e há um desencontro entre o desejo pelo
parto vaginal e o desfecho em cesariana. Objetivos: Analisar as concepções de mulheres
grávidas sobre suas expectativas relacionadas à via de nascimento bem como o exercício da
autonomia na (não) escolha do modo de nascer de seus filhos (as). Material e Métodos:
Estudo qualitativo, realizado a partir de quatro grupos focais, com 31 gestantes primigestas e
não primigestas, em quatro unidades básicas de saúde da família de um município de Minas
Gerais com elevadas taxas de cesárea. Fizemos análise lexical através de Nuvem de Palavras e
Árvore de Similitude e análise temático-categorial. Para a análise quantitativa de variáveis
categóricas realizamos cálculo de frequência de palavras, classificação hierárquica
descendente por similaridade e análise fatorial de correspondência. Para análise qualitativa
das variáveis categóricas realizamos análise de conteúdo. Resultados: A partir da inferência
de quatro classes (rede de saúde; recursos e tecnologias de saúde; expectativas sobre as vias
de nascimento e expectativas sobre o trabalho de parto), identificamos a peregrinação das
gestantes devido à desarticulação dos serviços de saúde, a indicação rotineira de
procedimentos desnecessários associados ao excesso de intervenções e o modelo de
assistência centrado no médico como fatores que influenciaram na decisão das mulheres pela
via de nascimento. As mulheres não se sentem participativas nem respeitadas na escolha da
via de nascimento e suas decisões não são pautadas no exercício da autonomia. A (não)
escolha da via de nascimento esbarra na imposição profissional, na falta de disponibilidade
profissional para acompanhar o trabalho de parto e parto, no receio de vivenciar uma
experiência ruim e nas indicações falaciosas de cesariana. Por não terem escolha, as mulheres
optam pela “cesárea a pedido” visando fugir da violência obstétrica. Existe uma “autonomia
limitada”, exercida sem conhecimento prévio dos riscos e benefícios de cada modo de nascer.
Conclusões: A peregrinação atrelada à desarticulação da rede de saúde, ao uso excessivo de
recursos e tecnologias de saúde, ao excesso de indicações de cesárea e à baixa atuação de
enfermeiras obstétricas, inviabilizou uma experiência de parto positiva, em contraposição às
expectativas das mulheres. Na perspectiva das parturientes, o modo de nascer é determinado
pelos profissionais que assistem o parto e as mulheres não têm exercido autonomia nessa
decisão. Há um retrocesso no reconhecimento dos direitos femininos que impossibilita o
exercício pleno da autonomia no trabalho de parto e nascimento.
Abstract
Introduction: Childbirth care has undergone major changes over the years and physiological
childbirth has given way to increasingly medicalized and interventionist care. The biomedical
model contributed to women losing their autonomy and protagonism during childbirth. In this
current model of obstetric, care most women do not have their birth route choices respected
and there is a mismatch between the desire for vaginal birth and the outcome with a cesarean.
Aims: Analyze the conceptions of pregnant women about their expectations related to the
way of birth, as well as the exercise of autonomy in (not) choosing the way their children are
born. Material and methods: Qualitative study, carried out from four focus groups, with 31
pregnant women primiparous and non-primiparous women, in four basic family health units
in a city in Minas Gerais with high rates of cesarean section. We did lexical analysis through
Word Cloud and Similitude Tree and analysis thematic-category. For the quantitative analysis
of categorical variables, we performed word frequency calculation, descending hierarchical
classification by similarity and factorial correspondence analysis. For qualitative analysis of
categorical variables, we performed content analysis. Results: From the inference of four
classes (health network; resources and technologies of health; expectations about the routes of
birth and expectations about labor), we identified the pilgrimage of pregnant women due to
the disarticulation of health services, the routine indication of unnecessary associated
procedures to the excess of interventions and the doctor-centered care model as factors that
influenced the decision of women about the route of birth. Women do not feel participative or
respected when choosing the route of birth and their decisions are not based on the exercise of
autonomy. The (non) choice of birth route it comes up against professional imposition, the
lack of professional availability to accompany the labor and delivery, the fear of experiencing
a bad experience and the fallacious indications for cesarean delivery. Because they have no
choice, women opt for “cesarean on demand” in order to avoid obstetric violence. Exists a
“limited autonomy”, exercised without prior knowledge of the risks and benefits of each
mode of birth. Conclusions: The pilgrimage linked to the disarticulation of the health
network, the excessive use of health resources and technologies, the excess of indications for
cesarean sections and the low performance of obstetric nurses, made a positive birth
experience impossible, in contrast to the expectations of women. From the perspective of
parturients, the mode of birth is determined by the professionals who attend the birth and
women have not exercised autonomy in this decision. There is a setback in the recognition of
women's rights that makes it impossible to fully exercise autonomy in labor and birth.
Palavras-chave
parto vaginal, cesárea, grupos focais, autonomia pessoal, decisões, violência obstétrica, vaginal birth, cesarean section, focus groups, personal autonomy, decisions, obstetric violence
Citação
GONTIJO, Bárbara Dias Rezende. Eu não tenho o que escolher, não. Já está escolhido por eles! estudo qualitativo sobre expectativas e exercício da autonomia de mulheres acerca da escolha da via de nascimento no Brasil. 2021. 163 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2021. DOI http://doi.org/10.14393/ufu.te.2022.125