Publicação: Entre o estigma e a subversão: a pedagogia da maldade feminina e as tensões psicanalíticas em (re)leituras de contos de fadas clássicos
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CNPQ::LINGUISTICA, LETRAS E ARTES
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Esta dissertação analisa a construção da maldade feminina nos contos de fadas clássicos e em suas releituras contemporâneas, tomando como eixo central a relação entre vilania, punição e pedagogia de gênero. Parte-se do entendimento de que figuras como madrastas, bruxas e rainhas más não operam apenas como antagonistas em narrativas que caracterizam o gênero, mas como dispositivos simbólicos de disciplinamento moral dirigidos às mulheres, especialmente no que se refere ao corpo, ao desejo, ao envelhecimento e à maternidade. O objetivo do trabalho consiste em investigar de que modo essas personagens são produzidas como obstáculos cuja eliminação ou punição funciona como condição de fechamento moral das histórias, bem como examinar se e como as releituras contemporâneas rompem com esse mecanismo. A pesquisa adota metodologia qualitativa, de caráter teóricoanalítico, baseada na leitura crítica de um composto por contos canônicos – com destaque para Branca de Neve, A Bela Adormecida e A Pequena Sereia – e por releituras literárias, audiovisuais e performativas contemporâneas. O referencial teórico articula contribuições da crítica feminista, da psicanálise e dos estudos culturais, mobilizadas de forma não dogmática, com atenção especial aos limites de explicações que naturalizam construções históricas de gênero. Os resultados indicam que, embora muitas releituras contemporâneas atribuam voz, interioridade e motivação às vilãs, grande parte delas somente desloca a punição do plano moral para o psicológico, promovendo apenas a humanização, que neutraliza o potencial crítico dessas figuras. Observa-se que a subversão efetiva ocorre apenas quando a narrativa abdica da exigência de punição feminina como restauração da ordem simbólica. Nesse sentido, as estéticas performativas contemporâneas, sobretudo no teatro e na dança, revelam-se espaços privilegiados de resistência, ao suspenderem o julgamento moral e ao deslocarem o conflito para o nível estrutural. Conclui-se que a maldade feminina, mais do que atributo individual ou psicológico, constitui uma construção narrativa historicamente situada, cuja crítica exige a desmontagem dos mecanismos que a produzem e a mantêm como instrumento disciplinar
Abstract
This dissertation examines the construction of female evil in classical fairy tales and in their contemporary retellings, focusing on the relationship between villainy, punishment, and gendered moral pedagogy. It argues that figures such as stepmothers, witches, and evil queens function not merely as narrative antagonists but as symbolic devices of moral discipline directed at women, particularly in relation to the body, desire, aging, and motherhood. The main objective of the study is to investigate how these characters are produced as narrative obstacles whose elimination or punishment operates as a condition for moral closure, as well as to assess whether and to what extent contemporary rewritings effectively disrupt this mechanism. The research adopts a qualitative, theoretical-analytical methodology, based on the critical reading of a corpus composed of canonical fairy tales—especially Snow White, Sleeping Beauty, and The Little Mermaid—and contemporary literary, audiovisual, and performative reinterpretations. The theoretical framework brings together feminist criticism, psychoanalytic approaches, and cultural studies, mobilized in a non-dogmatic manner and with particular attention to the risks of naturalizing historically situated gender constructions. The findings indicate that, although many contemporary retellings grant villains voice, interiority, and motivation, a significant number of these narratives merely shift punishment from the moral to the psychological realm, promoting a form of humanization that ultimately neutralizes the critical potential of these figures. Genuine subversion is shown to occur only when narratives abandon the requirement of female punishment as a means of restoring symbolic order. In this regard, contemporary performative aesthetics, especially in theatre and dance, emerge as privileged spaces of resistance by suspending moral judgment and relocating conflict to a structural level. The study concludes that female evil should be understood not as an individual or psychological attribute but as a historically constructed narrative device whose critique requires dismantling the mechanisms that sustain it as a disciplinary instrument.
Palavras-chave
contos de fadas, vilania feminina, punição., releituras contemporâneas, pedagogia de gênero
Citação
CURY, Jussara Dutra. Entre o estigma e a subversão: a pedagogia da maldade feminina e as tensões psicanalíticas em (re)leituras de contos de fadas clássicos. 2026. 100 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2026. DOI https://doi.org/10.14393/ufu.di.2026.278.
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