UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM HISTÓRIA DOUTORADO EM HISTÓRIA RADAMÉS VIEIRA NUNES FRANCISCO AYRES, LEMBRANÇAS DE UM PORVIR: PORTO NACIONAL E A MODERNIZAÇÃO NO NORTE DE GOYAZ UBERLÂNDIA-MG 2016 RADAMÉS VIEIRA NUNES FRANCISCO AYRES, LEMBRANÇAS DE UM PORVIR: PORTO NACIONAL E A MODERNIZAÇÃO NO NORTE DE GOYAZ Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da UFU – Universidade Federal de Uberlândia, como exigência final para obtenção do título de doutor em História. Área de concentração: História Social Linha de pesquisa: Política e Imaginário Orientadora: Profª. Drª. Regma Maria dos Santos UBERLÂNDIA-MG 2016 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sistema de Bibliotecas da UFU, MG, Brasil. N972f 2016 Nunes, Radamés Vieira, 1983- Francisco Ayres, lembranças de um porvir : Porto Nacional e a modernização no norte de Goyaz / Radamés Vieira Nunes. - 2016. 344 f. : il. Orientador: Regma Maria dos Santos. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em História. Inclui bibliografia. 1. História - Teses. 2. Ayres, Francisco, 1903- - Teses. 3. Porto Nacional - Teses. 4. Norte de Goyaz - Teses. I. Santos, Regma Maria dos. II. Universidade Federal de Uberlândia. Programa de Pós- Graduação em História. III. Título. CDU: 930 RADAMÉS VIEIRA NUNES FRANCISCO AYRES, LEMBRANÇAS DE UM PORVIR: PORTO NACIONAL E A MODERNIZAÇÃO NO NORTE DE GOYAZ Relatório de Tese defendido e aprovado como requisito parcial para obtenção de título de doutor em História, do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia ___/___/______. BANCA EXAMINADORA: ____________________________________________________________________ Profª. Drª. Regma Maria dos Santos (UFU) - Orientadora ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Antônio de Almeida (UFU) ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Cássio Santos Melo (UFAC) ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Gilberto Cezar de Noronha (UFU) ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Ismar da Silva Costa (UFG) SUPLENTES: ______________________________________________________________________ Florisvaldo Paulo Ribeiro Junior (UFU) ______________________________________________________________________ Valdeci Rezende Borges (UFG) AGRADECIMENTOS Agradecimento é o item opcional mais obrigatório das normas da ABNT. Para alguns é a parte mais importante da tese, para outros é a única que interessa, como se toda pesquisa fosse feita apenas para que se pudesse agradecer a alguém. De alguma forma penso que estão com a razão, por isso ignorar esse item não é uma opção, como bem me alertou uma amiga. A forma de agradecimento na língua portuguesa não deixa dúvida: Obrigado! Assim, é Muito Obrigado que pinço meus agradecimentos. Já sem fôlego, tempo e inspiração é Muito Obrigado que agradeço. Não que eu tenha deixado o resto para vocês, mas porque vocês são tudo que me restam. Convicto de que esse papel não é para-choque de Caminhão e que agradecimento não se coloca no papel, Muito Obrigado, deixo aqui estas palavras de gratidão. Agradeço primeiramente, de forma geral, aos que abriram essa tese procurando direto pelos agradecimentos, na expectativa de ter sido lembrado. Se você teve essa preocupação, com certeza é digno do meu mais sincero agradecimento, a despeito de ter sido ou não citado. Caso você tenha sido lembrado, todavia não da forma que esperava, lembre-se que agradecimento não se coloca no papel. Assim como os gregos edificaram um altar ao deus desconhecido. Eu erijo este parágrafo aos amigos esquecidos. Para estes, meu muito obrigado segue como pedido de desculpas. Agradeço a todos os descendentes de Joaquim Ayres da Silva, especialmente, a Márcia Ayres, que abriu as portas do arquivo da sua família, na rua Francisco Ayres, para este curioso, insistente e inoportuno pesquisador. Obrigado UFT-Porto Nacional, alunos, funcionários, colegas e amigos é bom fazer parte desse time. Ao Ricardo Augusto dos Santos, pesquisador da Fiocruz, pela gentileza e presteza em ajudar um desconhecido. Dificilmente um conhecido acertaria no presente, como você acertou na encomenda que me enviou via correio. Sou grato aos orientandos, agora colegas de ofício, João Carlos e Samuel, que me ajudaram a combater as traças, poeira, fungos, dúvidas, animais, calor excessivo e outros obstáculos que apareceram pelo caminho. Se depender de mim a próxima reunião será na beira do rio ou da cachoeira. Sou grato a professora Diana Coelho sempre tão solícita aos meus pedidos de socorro. Agradeço a todos os meus professores do Programa de Pós-Graduação da UFU, aos meus professores da linha Política e Imaginário, especialmente a professora Jacy Alves de Seixas que me atordoou com suas aulas a ponto de me fazer perder noites de sono. Os meus queridos professores de graduação da UFG, meus professores do magistério, meus professores do ensino fundamental, especialmente a Maria Helena de Paula, que me ensinou a gostar de redação. Minha professora de alfabetização, professora Mara, que teve toda paciência para me ensinar a escrever legível a letra que tive mais dificuldade em aprender, o f de Francisco. Josianne Francia Cerasoli, impossível não se encantar, sua generosidade, atenção, perspicácia me constrangem. Abria os e-mails que me respondia com a mesma ansiedade e alegria de uma criança quando ganha presente. Agradeço pela inspiração e pelo diálogo, que foi muito mais do que você deveria e muito menos do que eu gostaria. A julgar pela minha admiração intelectual nunca seria o bastante. Aos membros da banca examinadora pela disposição em fazer parte dessa etapa tão importante da minha trajetória acadêmica. Provavelmente serão os leitores mais atentos que este trabalho vai ter. Confesso que meu desejo era agradecê-los somente após a defesa, mas é melhor fazer agora porque desconfio que possa mudar de ideia caso deixe para depois. Agradeço ao professor Cássio Santos Melo, pela disposição em colaborar. Ao professor Antônio uma referência encorajadora de dedicação apaixonado à vida acadêmica. Ao professor Gilberto Noronha por apontar caminhos com suas observações sempre tão percucientes. Ao professor Ismar por ter me deixado de prova final no primeiro ano da graduação. À minha Professora e orientadora Regma, que quase no final do percurso apareceu providencialmente para me acolher quando estava, sem exagero retórico, perdido e abandonado. Como Bússola me indicou o norte para a autonomia intelectual. Agradeço pelo auxilio que ofereceu na complicada tarefa de ser simples, bastou alguns minutos de conversa para as mais complexas elaborações da vida universitária e da existência parecerem simples. Sou grato a minha turma de doutorado, não me lembro de ter tido disciplinas, viagens, festas, lanches e debates tão agradáveis, pena que passou rápido demais. Especialmente aos meus companheiros de linha, Ricardo e Mauro, que fizeram o percurso não parecer tão solitário. Nada mais animador do que saber que não está sozinho na embarcação do desespero. Aprendi que compartilhar sufoco aplaca temores e desesperanças, ainda mais com a risada do Mauro e o refinado senso de humor do Ricardo que torna risível até as maiores dificuldades. Agradeço ao Tadeu, amigo que provocou um verdadeiro desmatamento de tanto galho que me quebrou. Sem esperar contrapartida foi meu olho, pé, mão e abrigo em Uberlândia. Em minha opinião, o melhor e mais precioso patrimônio da UFU. Agradeço a Vera pelos debates, indicações e confidências, porque de dissertações e teses também se faz uma amizade. Sou grato a Carol Marques por me tornar mais aventureiro. Já estou pronto, podemos escolher o próximo ponto no mapa. Meus amigos de Porto Nacional, representados por Lucas, Ylanna e Andreia Fão, que me apresentaram a cidade que se tornou objeto dessa pesquisa. Agradeço aos Boleiros pela parceria nas partidas de futvolei, futebol e churrascos. Não vou tentar explicar, só convivendo com eles pra entender a relação entre a resenha da bola e a feitura da tese. O trabalho acabou, podemos jogar sem preocupação! Aos amigos da ICEC que me ajudavam a recarregar as baterias para a próxima semana de trabalho, e principalmente, porque para eles eu nunca deixei e nunca deixarei de ser o Mé. Agradeço a linda de todas as lindas, Juliana Vaz. Seu colo e seus carinhos tem força reparadora. Através dos seus olhos tudo fica mais interessante, são com eles que pretendo enxergar o mundo a partir de agora. À Minha família, pelos desafios de escrever uma tese em casa de vó. Nunca foi tão agradável ser atrapalhado e importante ser interrompido, para não me deixar esquecer, sequer por um minuto, que a existência não se resume simplesmente a vida acadêmica. Isso foi libertador! Aos meus pais João Alfredo e Rosinália por me ensinarem a fazer cara feia para as dificuldades. Na cabeça deles sou muito mais capaz do que realmente sou, por vezes conseguiram me convencer disso. Agradeço aos meus irmãos e família, a melhor parte de mim. Lucas, Silvinha, Lana e Lara; Alfredo, Leirelene, Adonai e Adan, com lágrimas nos olhos e com muito amor, leveza e paz que penso em vocês. Para mim vocês são, sem exagero, a personificação da definição de amor feita pelo apóstolo Paulo. Sou grato, pela graça, Ao Autor da minha fé. Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. Lembrando-lhes que no século da electricidade não há impossíveis para o homem... Francisco Ayres da Silva RESUMO Na virada do século XIX para o século XX muitas cidades brasileiras experimentaram transformações em diversos aspectos, como urbanização, aceleração da experiência com o tempo devido às novas possibilidades de transporte e comunicação, descobertas científicas, surgimento de novas técnicas, como vapor, fotografia, telégrafo, eletricidade, crescimento demográfico, novos hábitos, costumes e a normatização de práticas do cotidiano, racionalização da política, crescente impessoalidade nas relações sociais, entre outros elementos que alteraram a percepção sobre a cidade. Este estudo tem como objetivo refletir sobre as formas de se vivenciar a modernização, essa é a indagação de fundo que permeia todo o trabalho, acompanhada por meio do Jornal Norte de Goyaz e do significativo personagem Francisco Ayres da Silva. Intenta-se a partir da sua trajetória e do periódico produzido por ele perceber qual o lugar de Porto Nacional face ao projeto de modernização e os resultados daí oriundos. Em outras palavras, o que o anúncio do novo e a avalanche do progresso provocaram na cidade localizada no interior do interior da parte central do Brasil. Francisco Ayres passou a chamar a atenção, nem tanto pela sua proeminência como figura pública de/em Porto Nacional, mas principalmente pela maneira como formou, transitou, participou, leu, compreendeu, interpretou e interferiu naquele processo de modernização, que pode até não ter explodido na cidade portuense como desejou, mas lá deixou muitos estilhaços, atingindo seus habitantes. Nessa perspectiva, (re)contar a trajetória de Ayres, foi o caminho adotado para tornar mais inteligível a maneira como uma cidade, do que se constituiu como norte goiano, região supostamente alheia aos grandes centros e a modernização do espaço urbano, passou por esse processo no século da electricidade, momento em que se acreditou, ou se quis acreditar que não havia impossíveis para o homem. Os dias de Francisco Ayres não se os tem na palma das mãos, porém os fragmentos desses dias estão impressos nos hebdomadários, produzidos na tipografia Nortense no início do Século XX, neles são dados a ler suas formas de sentir, pensar e experimentar o contexto em que viveu, bem como seus projetos “utópicos” para a cidade, que remetiam também ao que vislumbrava para a região, como expectativa de esplendoroso porvir. PALAVRAS-CHAVE: Porto Nacional, Modernização, Norte de Goyaz, Francisco Ayres. ABSTRACT At the turn of the nineteenth to the twentieth century many Brazilian cities have experienced changes in several aspects, such as urbanization, accelerating the experience over time due to new possibilities of transport and communication, scientific discoveries, development of new techniques, such as steam, photography, telegraph , electricity, population growth, new habits, customs and norms of everyday practices, rationalization of politics, increasing impersonality in social relations, among other elements that altered the perception of the city. This study aims to reflect on ways of experiencing the modernization, this is the bottom question that permeates all the work, accompanied by the newspaper Norte de Goyaz and significant character Francisco Ayres da Silva. Attempts up from its trajectory and periodical produced by him realize what is the place of Porto Nacional against the modernization project and the results arising therefrom. In other words, the announcement of the new and the progress of the avalanche caused in the city located within the interior of the central part of Brazil. Francisco Ayres began to draw attention, not so much for its prominence as a public figure of / in Porto Nacional, but mainly for the way formed, moved, took part read, understood, interpreted and interfered in this process of modernization, which might not even have exploded in Porto city as desired, but there left many splinters, reaching its inhabitants. From this perspective, (re)tell the trajectory of Ayres, was the path taken to make more intelligible the way a city, which was constituted as northern goiano, supposedly alien to large centers region and modernization of urban space, went through this process in the electricity century, at which time it was believed, or wanted to believe it was not impossible for man. The days of Francisco Ayres did not have them in the palm of the hand, but the fragments of these days are printed in weekly papers, produced in Nortense typography in the early twentieth century, in them are given to read their ways of feeling, thinking and experiencing the context in who lived and his “utopian” projects for the city, which also remitted to that envisioned for the region, as expected splendid future. KEYWORDS: Porto Nacional, Modernization, Norte de Goyaz, Francisco Ayres. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Homenagem a Joaquim Ayres da Silva: datas significativas da sua existência .............................................................................................. 128 FIGURA 2 Primeira página jornal Faceto .............................................................. 135 FIGURA 3 Primeira página do jornal Norte de Goyaz de 15/07/1906 ................... 144 FIGURA 4 Bancada Goiana no Congresso Nacional ............................................. 183 FIGURA 5 Entrevista de Francisco Ayres da Silva para Gazeta de Notícias ......... 193 FIGURA 6 Anúncio com o nome de Francisco Ayres na Revista Careta .............. 197 FIGURA 7 Mapa - Schema das linhas Telegraphicas do Brazil, 1917 ................... 226 FIGURA 8 Mapa do Sistema ferroviário sugerido por Paulo Frontin, 1927 .......... 234 FIGURA 9 Mapa do Projeto de modernização de Francisco Ayres da Silva ......... 242 FIGURA 10 Primeira página do Jornal do Povo ..................................................... 285 FIGURA 11 Porto Nacional: Templo dominicano, Convento e rua 7 de setembro em 1912 .................................................................................................... 315 FIGURA 12 Brasão Oficial de Porto Nacional ........................................................ 328 FIGURA 13 Fotografia do automóvel Chevrolet e do caminhão Ford adquiridos por Ayres .................................................................................................... 328 FIGURA 14 Tipografia Nortense em 1911 ............................................................... 331 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 13 1 DOS AYRES À PORTO NACIONAL: VIDA(S) E CIDADE(S) EM (TRANS)FORMAÇÃO ................................................................................................................................. 37 1.1 QUE HÁ EM UM NOME? ....................................................................................... 37 1.2 DA BIOGRAFIA: NORTE DE GOYAZ COMO INDÍCIO E/OU ARQUIVO DOS CISCOS DE FRANCISCO ......................................................................................................... 45 1.3 DAS ESTRATÉGIAS DE APROXIMAÇÃO AO BIOGRAFADO: A VIDA POR TRÁS DO NOME ................................................................................................................ 51 1.4 VIDA NO NOME: O LEGADO DE JOAQUIM AYRES DA SILVA ................................. 63 1.5 FRANCISCO AYRES NA “PICADA” DO PAI ........................................................... 70 1.6 FRANCISCO AYRES NA “PICADA” COM O PAI: DO LEGADO À CONSTRUÇÃO DAS PERCEPÇÕES ...................................................................................................... 85 1.7 ENTRE PAI E FILHO: POLÍTICA, RELIGIÃO, IMPRENSA E CIDADE(S) EM (TRANS)FORMAÇÃO .......................................................................................... 96 2 NORTE DE GOYAZ: MODERNIZAÇÃO (BIO)GRAFADA NO ESPAÇO DE UMA VIDA 108 2.1 FRANCISCO AYRES NA SUA PRÓPRIA “PICADA” ................................................ 108 2.2 O INCENTIVO PARA PORTO NACIONAL: A ATUAÇÃO DE AYRES NO JORNALISMO 129 2.3 O JORNAL DE FRANCISCO AYRES: UM NORTE PARA GOYAZ ................................ 142 2.4 FRANCISCO AYRES E A POLÍTICA NO NORTE PARA O NORTE .............................. 164 2.5 PORTUENSE NO CONGRESSO NACIONAL ............................................................. 170 2.6 SOCIEDADE, CULTURA E MODERNIDADE NA BIOGRAFIA DE FRANCISCO AYRES 191 3 MODERNIZAÇÃO SEGUNDO FRANCISCO, UM PROJETO QUE FOI PELOS “AYRES”? ............................................................................................................................... 211 3.1 OS (D)EFEITOS DOS MELHORAMENTOS: PORTO EM FOCO .................................. 211 3.2 MELHORAMENTOS (CON)SENTIDOS: PROJETO DE AYRES PARA O NORTE E SEUS (E)LEITORES ...................................................................................................... 220 3.3 FUTURO/PRESENTE: FÉ DEMAIS NO PORVIR “NÃO CHEIRA BEM”? ....................... 258 3.4 MODERNIZAÇÃO E SENSIBILIDADES: ATRASO, ABANDONO E (ISO)LAMENTO .... 270 3.5 NORTE DE GOYAZ, O JORNAL DO POVO ENSINANDO O QUE É SER-TÃO NORTENSE 284 3.6 NORTE DE GOYAZ: FORMAS (CON)TORNADAS EM PAPEL E TINTA ...................... 298 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 319 FONTES E BIBLIOGRAFIA ................................................................................. 332 13 INTRODUÇÃO Era natural que esse progredimento não fosse egual para todos. Francisco Ayres da Silva É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, ou então o seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas e que todas as coisas escondam uma outra coisa. Ítalo Calvino Melhor é o que domina o seu próprio espírito do que o que toma uma cidade Salomão (Provérbios 16:32) Porto Nacional? Que cidade é essa? Como ela é? Quantos habitantes têm? O que há na cidade? Por onde passo, nos mais diferentes ambientes e espaços, essas são algumas perguntas que sou frequentemente convocado a responder, desde que me tornei morador da cidade em função do trabalho. Em Porto Nacional 1 , os mesmos questionamentos ocorrem em relação a minha cidade natal, Catalão, que fica no interior de Goiás, mais precisamente no sudeste goiano, o lugar de onde vim. Em todas as 1 Conforme os documentos preservados no arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, o Município de Porto Nacional, do Estado do Tocantins, tem o seguinte histórico: Em meados de 1738 era povoadode Porto Real do Pontal; em 1809 “o lugarejo foi elevado à categoria de julgado”; com a denominação de Porto Imperial tornou-se vila pelo decreto de 1831; pela lei provincial de 1861 ganhou a condição de cidade; em 1890 o município de Porto Imperial, passou a ser denominada de Porto Nacional. Segundo Mauricio Silva “Sua situação geográfica compreende entre os paralelos 09º 59’ 21” e 11º 06’ 31” de latitude Sul e meridianos 48º 07’ 54” a 48º 52’ 07” de longitude Oeste de Greenwich, com área de 4.449, 89 Km² reresentado 1.60% do Estado; a população total do Município era de 44.991 de Habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (2010). Situado na parte central do Estado do Tocantins, faz parte da microrregião homogênea de Porto Nacional, onde abrangendo abrange os Municípios de Brejinho de Nazaré; Silvanópolis; Monte do Carmo; Porto Nacional; Palmas; Aparecida do Rio Negro; Lajeado; Tocantínia; Pedro Afonso; Bom Jesus do Tocantins e Santa Maria do Tocantins, conforme divisão regional do IBGE em 1989. O acesso é possibilitado partindo de Palmas, capital do Estado, pela TO-050, em direção Sul, da qual a sede do Município dista 65 Km. Faz seus limites com os municípios, ao Norte, Miracema do Tocantins, ao Sul, Ipueiras e Silvanópolis, a Leste, Palmas e Monte do Carmo, a Oeste, Paraíso do Tocantins, Pugmil, Nova Rosalândia, Oliveira de Fátima, Fátima a Brejinho de Nazaré. Ao Longo do século XIX e XX, a principal via de acesso era o Rio Tocantins. [...] Na década de 1970, com a construção da BR-153, o fluxo de pessoas e mercadorias passou a ser por via terrestre. Foi uma das principais cidades do então Norte goiano, antes da divisão do Estado de Goiás.” SILVA, Mauricio Alves. Geotecnologia aplicada ao ordenamento territorial do município de Porto Nacional, Tocantins. Tese (Doutorado em Geografia) - Programa de Pós-Graduação em Geografia, Uberlândia, MG: UFU, 2013. p. 67-69.; Disponível em: http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=171820&search=tocantins|porto- nacional|infograficos:-historico. Acesso em: 14/04/2016. 14 cidades que vou, de passagem, as perguntas se repetem, tanto em relação à cidade em que nasci, quanto à cidade onde trabalho, até mesmo em relação à cidade em que estudo. Esta última trata-se de Uberlândia, cidade do interior de Minas Gerais, localizada no chamado Triângulo Mineiro. Nos últimos anos, devido minhas obrigações, perambulei mais do que gostaria pelas três cidades não apenas respondendo, mas também fazendo as mesmas perguntas sempre que necessário ou oportuno. Como sujeito triplamente do sertão, em outras palavras, formado em cidades interioranas, percebi que as referidas interrogações, só aparentemente fáceis de responder, contêm algo além do legítimo desejo de saber mais sobre cidades pouco ou nada conhecidas pelos interlocutores, algo além do simples desejo de saber quais são as minhas impressões sobre as mesmas. Há um não dito nas indagações que parece apontar para um parâmetro que classifica, quantifica, compara, coloca em relação, pressupõe referência, estabelece padrão. Via de regra, o que se quer entender é até que ponto determinada cidade se assemelha ou se aproxima das grandes cidades de maior visibilidade no Brasil que foram, historicamente, transformadas em referência, padrão e medida para todas as outras, indicando que o projeto moderno de intervenção no espaço urbano, a partir do século XIX, pautado sobretudo no processo de urbanização e modernização das cidades, foi vencedor. Isso não significa que se trata de um projeto que deu certo, mas inegavelmente foi vitorioso. Sob essa perspectiva as cidades que mais próximas chegaram de uma modernização efetiva, digo, que alcançaram os ambicionados benefícios modernizantes, assumiram posição de destaque em relação às outras que não puderam ou não quiseram passar pela experiência da mesma forma. Nesse sentido, as cidades interioranas são colocadas numa posição relativamente desconfortável ante as chamadas metrópoles, especialmente nos aspectos em questão. Por vezes me perguntei por que o Rio de Janeiro e outras metrópoles chamam tanta atenção. Desconfio que a explicação mais plausível seja, dentre outros fatores, o fato de que tais cidades são as maiores e melhores expressões das formas urbanas modernas implementadas, sobretudo, no mundo ocidental. Talvez só recentemente tenha tomado consciência das razões que me levaram a optar por estudar, durante o mestrado, o debate entre os cronistas em torno do processo de modernização do Rio de Janeiro no início do século XX 2 , mesmo sendo nascido e 2 NUNES, Radamés Vieira. Sobre crônicas, cronistas e cidade: Rio de Janeiro nas crônicas de Lima 15 criado no interior de Goiás e estudante no interior de Minas Gerais. Dentre outras, foi principalmente a influência da mídia e da historiografia o que me fez preocupar com as transformações urbanas na capital do Rio de Janeiro, ou mesmo pensar que esta cidade constituísse o lugar mais apropriado para tratar sobre o assunto, que poderia ser abordado apenas nas cidades que foram efetivamente, ou melhor, concreta e materialmente, remodeladas e que, por isso, tornaram-se símbolos de cidade considerada moderna. A experiência de pensar, a partir dos cronistas Olavo Bilac e Lima Barreto, o espaço urbano do Rio de Janeiro e a relação da crônica e do cronista com as discussões sobre os rumos da Capital da República em um momento de passagens, durante as primeiras décadas do século XX, ajudou-me a compreender o fascínio pelas metrópoles e como a(s) cidade(s) e os paradigmas de progresso e modernidade se tornaram naquele momento, como em nenhum outro anteriormente, tema de debate e encantamento em todo Brasil. Assim, movido pela curiosidade investigativa fui conduzido a compreender como uma cidade do interior do interior do país, supostamente alheia às tensões da modernidade e da modernização, vivenciou esse processo de transformações em todos os aspectos, inclusive o urbano. Ao expor sobre meu interesse, que consiste na questão central desta pesquisa, a primeira e espontânea reação da maioria das pessoas é de estranhamento, pois consideram equívoco associar a realidade de Porto Nacional aos termos de modernidade e modernização, esta entendida como uma das expressões possíveis daquela. Seria qualquer coisa como se estivesse preocupado com algo que não aconteceu. As perguntas subsequentes, principalmente advindas daqueles que conhecem minimamente a cidade, são quase inevitáveis: Modernização em Porto? Que modernização? Esse estranhamento se constitui numa forte evidência de que o caminho que resolvi trilhar faz sentido. Quanto às perguntas, não pude desconsiderá-las, não pela indicação da ausência de modernização e dos elementos de modernidade que a materialidade da cidade parece sugerir, mas pela pertinência em indagar sobre a maneira diferente de experimentar, sentir e viver as tensões do período, que não corresponde exatamente com a forma do projeto vencedor, conforme ocorreu nos grandes centros. Barreto e Olavo Bilac – 1900-1920. Dissertação (Mestrado em História Social), UFU-PPGHIS, 2008. Experiência que me permitiu pensar, a partir dos cronistas Olavo Bilac e Lima Barreto, o espaço urbano do Rio de Janeiro, e a relação da crônica e do cronista com as discussões sobre os rumos da Capital da República em um momento de passagens, durante as primeiras décadas do século XX. 16 O fato de Porto Nacional ter passado boa parte do século XX sem os principais melhoramentos, como ferrovia, telégrafo, navegação a vapor, iluminação elétrica, pavimentação, entre outros elementos modernizantes, não significa que a cidade esteve alheia, ausente, distraída quanto às transformações das e nas cidades, não significa que nela não há nada para ser observado nessa dimensão. Pelo contrário, Porto Nacional esteve muito envolvida. Caso se queira discutir a modernização tendo como referência apenas a materialidade, em comparação a outras cidades ditas modernas realmente Porto Nacional não é o lugar mais recomendável. Todavia, caso se queira perseguir a questão sob a perspectiva dos sentimentos, sensibilidades e subjetividades ela se torna um excelente campo de observação, pois é rica em significados e possibilidades. Conforme pontuou Otávio Velho, a Revolução Industrial fez com que “o modo de vida urbano – e mais ainda o metropolitano”, possibilitado dentre outros justamente por ela, “levado pela técnica, pelos meios de comunicação e transporte, vá tendendo a permear cada vez mais todos os níveis da vida social nos mais remotos rincões do globo”.3 Weber, na tentativa de elaborar uma definição de cidade, reconhece a dificuldade de propor uma noção que consiga contemplar a diversidade existente tanto no tempo como no espaço, aponta ainda que o tamanho por si só, o mercado e o ponto de vista econômico são fatores imprecisos e não decisivos para tal finalidade. 4 Os impactos da Revolução Industrial e as alterações na vida social foram sentidos de diferentes maneiras e intensidade nos mais diversos espaços. Louis Wirth, tendo como base os Estados Unidos da década de 1930, também chama a atenção para o fato de que o tamanho da cidade e da população, dito de outro modo, os números unicamente, não são critérios satisfatórios, muito menos precisos para investigar as influências que o crescimento das cidades e a urbanização provocaram nas “localidades mais remotas do mundo”. Ao definir urbanismo, entendido como modo de vida urbano, característico das cidades, mas não confinado a elas, o autor alerta para o cuidado de não identificar a noção exclusivamente associada à determinada “entidade física da cidade”, como algo delimitado no espaço, pois é apreendido e manifesto para além das linhas fronteiriças da mesma. Para Louis Wirth, não basta denotar as características que as cidades têm em comum, mas também se deve prestar atenção em suas variações, já que o urbanismo manifesta-se em graus variáveis porque elas são diferentes. A nova 3 VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p. 10. 4 WEBER, Max. Conceitos e Categorias da Cidade. In: VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p. 73-74. 17 época das cidades com papel central e dominante na realidade ocidental, propiciada pelos desenvolvimentos tecnológicos em diversas áreas, especialmente no transporte e comunicação, ampliou extraordinariamente o modo de vida urbano, inclusive em lugares como Porto Nacional, em que a urbanização não ocorreu tão intensamente. 5 As influências que as cidades exercem sobre a vida social do homem são maiores do que poderia indicar a proporção da população urbana, pois a cidade não somente é, em graus sempre crescentes, a moradia e o local de trabalho do homem moderno, como é o centro iniciador e controlador da vida econômica, politica e cultural que atraiu as localidades mais remotas do mundo para dentro de sua orbita e interligou as diversas áreas, os diversos povos e as diversas atividades num universo. 6 Para Raymond Williams, os fatos e imagens sobre a cidade, desde as visões de esplendor até as apocalípticas, devem ser percebidos não como algo isolado, mas sim como parte de um contexto maior de um processo histórico mundial. As ideias e imagens de Porto Nacional foram e ainda são, consciente ou inconscientemente, afetadas por esse contexto maior. As novas formas urbanas que surgiram a partir do século XIX e ofereceram novas definições para as cidades tornaram-se um fenômeno internacional que abrangeu a Europa Ocidental, América do Norte, Ásia, América Latina e África. De acordo com o autor, em muitas partes do mundo, “velhas cidades transformaram-se em metrópoles” e passaram a enfrentar os problemas típicos de uma cidade que se expandiu acelerada e caoticamente, não apenas Londres, Nova York, Berlim, Viena, mas também muitas outras cidades africanas, asiáticas e latino- americanas. 7 Raymond Williams, tendo como referência o caso inglês, todavia reconhecendo que se trata de uma dinâmica em certo sentido universal, assinala que as chamadas novas cidades industriais cresceram mais rápido que as capitais, transformando a experiência urbana, foram importantes, pois “embora ainda emergentes, elas anunciavam, de modo ainda mais decisivo do que o crescimento das capitais, o novo caráter de cidade e as novas relações entre cidade e campo”.8 Povos diferentes passaram pela experiência de transformação das cidades e da percepção sobre as mesmas, as diversas experiências históricas possuem semelhanças 5 WIRTH, Louis. O Urbanismo como modo de vida. In: VELHO, Ótavio Guilherme (org.). O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p. 100. 6 Ibdem; Idem, p. 98. 7 WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 451, 468. 8 Idem; Ibdem. p. 259. 18 porque fazem parte do mesmo processo, são parecidas, mas com significativas diferenças. A própria noção de semelhança indica que não são idênticas e que há peculiaridades na forma de vivenciá-las, principalmente pelas características locais que fazem com que o conjunto de ideias, valores, objetos, problemas, categorias entre outros elementos sejam sentidos, representados e apresentados de maneira diversa e até mesmo divergente. De acordo com Talcott Parsons, a tendência para a modernização assumiu proporção mundial, com base no autor, pode-se afirmar que Porto Nacional, bem como o Norte de Goiás, é uma expressiva evidência dessa afirmativa, pois foi invadida pelo sistema das sociedades modernas e seus valores, assim como ocorreu inclusive com sociedades não-modernas, ou seja, sociedades não ocidentais. Porém, vale ressaltar que a institucionalização de tais valores cruciais da modernidade é desigual e repleta de conflitos. 9 Em seu livro O sistema das Sociedades Modernas, Parsons faz questão de acentuar o plural presente no título, para defender a ideia de que as sociedades modernas plurais não são necessariamente variações casuais, mas podem em sentidos muito importantes constituir um sistema cujas unidades são diferenciadas entre si e interdependentemente integradas. Essa Interdependência evidentemente inclui, nitidamente, os fatores de tensão e conflito muito claros. 10 A maneira como Porto Nacional passou pelas últimas décadas do século XIX e especialmente as primeiras do século XX, como espaço político de/em debate, sobretudo quanto à questão urbana e seus melhoramentos modernos que a colocariam em sintonia com outras cidades, indica que sua experiência foi ao mesmo tempo distinta, porém interligada as transformações do momento. O objetivo desse estudo reside em apresentar como o fenômeno se desenrolou na realidade de Porto Nacional, já que essa cidade se configura num exemplo capaz de elucidar que a universalização do moderno foi eficaz até certo ponto. Não porque necessariamente se realizou, e sim 9 PARSONS. Talcott. O sistema das sociedades modernas. Trad. Dante Moreira Leite. São Paulo: Pioneira, 1974. p. 165. O que o autor considerou como os aspectos cruciais da modernidade são principalmente “o desenvolvimento econômico, a educação, a independência política e certa forma de “democracia””, ou seja, as três revoluções que ocorreram nas sociedades modernas, Revolução Industrial, democrática e educacional. Talcott Parson, na tradição de pensamento de Max Weber, chama de modernização o que este chamou de processo de racionalização. 10 Idem; Ibdem. p. 10. 19 porque se tornou explicitamente numa exigência até mesmo para cidades do interior do estado central do Brasil. 11 Para se ter noção, o município de Porto Nacional em 1908 tinha uma população de 6.000 habitantes, “sendo a da cidade cerca de 1.200 Almas”, que naquele ano contava com os seguintes prédios públicos: câmara municipal, cadeia pública e matriz, mas já se anunciava o “projeto de construcção do mercado público, casa de escola, etc”. Em 1925, a população do município chegou a 16.000 habitantes conforme foi registrado na imprensa do Rio de Janeiro, mas em termos de obras públicas ainda não havia mudado, continuava contando com a câmara municipal, a cadeia pública e ainda anunciando o projeto de construção/reforma do mercado público, casa de escola, etc. 12 A cidade teve crescimento demográfico expressivo, embora a sua fisionomia tenha permanecido quase inalterada nas primeiras décadas do século XX, mas a movimentação em torno das projeções e expectativas para ela, mirando os melhoramentos, foi intensa e constante. A definição de modernização que permeia este trabalho é devedora das contribuições, ao mesmo tempo inspiradoras e instigadoras, de Josianne Francia Cerasoli. Ao tratar sobre a questão urbana na cidade de São Paulo, na passagem do XIX para o XX, a autora considera que modernização, essa expressão material da modernidade que suscita transformações para além da materialidade, trata-se de uma experiência polissêmica que deve ser entendida sempre no plural. Preocupada com os debates sobre as obras públicas, em que os diversos grupos sociais com interesses variados participaram da construção e reconstrução da capital paulista, Josianne Cerasoli afirma que “o próprio processo de modernização se define intrinsecamente como tenso, conflituoso e plural”.13 Munido dessa compreensão é que abordo a experiência em Porto Nacional, numa tentativa de fazer eco às considerações da historiadora, no sentido de indicar que “modernização no plural” tem pelo menos dupla significação. A primeira, que está na maneira como os diferentes sujeitos sociais, com 11 CASTORIADIS, Cornelius. A ascensão da insignificância. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 200. 12 ALMANAK LAEMMERT: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1908. Relatório sobre porto nacional. Rio de Janeiro: [s. n], 1908. p. F-18.; ALMANAK LAEMMERT: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1908. Relatório sobre porto nacional. Rio de Janeiro: [s. n], 1910. p. 25.; ALMANAK LAEMMERT: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1908. Relatório sobre porto nacional. Rio de Janeiro: [s. n], 1925. Paginação irregular. 13 CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004. p.31, 317. 20 seus múltiplos interesses e projetos, estavam envolvidos na demanda dos melhoramentos urbanos, apreendidos, sentidos e utilizados de maneira diversa. A segunda, de caráter mais amplo, está na maneira como as diferentes cidades vivenciaram o processo. A modernização em São Paulo certamente não foi a mesma ocorrida em Porto Nacional, se o termo é plural, compreendido no interior de uma mesma cidade, muito mais o será se compreendido nas diferentes cidades. A autora assinala: “(...) os sentidos plurais que podiam ter os espaços e mesmo as novidades, dificilmente lidas pelo conjunto da sociedade com as mesmas perspectivas e raramente vivenciadas de maneira uniforme, embora comungassem seus pressupostos”.14 Outra contribuição de Josianne Cerasoli diz respeito à possibilidade de tratar o tema no nível discursivo e não necessariamente apenas no nível material, perceber as tensões, dissonâncias e as complexas relações em torno dos projetos que não se efetivaram, aquelas obras que apesar de não terem saído do papel foram exaustivamente discutidas, provocando mudanças na cidade. Planejamentos, sonhos, necessidades e desejos presentes nos discursos sobre a cidade, que a despeito da materialização mobilizou forças, interferiram no campo das relações políticas e sociais, promoveram negociações, criaram problemas e soluções, tencionaram a sensação de identificação e pertencimento, alteraram as sensibilidades. Na investigação sobre Porto Nacional os discursos sobre a cidade, bem como sobre a região norte de Goiás assumiram maior importância do que propriamente as obras implementadas, porque o desejo por interferir na fisionomia da cidade foi maior do que as modificações realizadas. 15 Ao iniciar a investigação para entender como Porto Nacional vivenciou o processo de modernização, percebi, não sei ao certo se por intuição, predileção, ou por influência bibliográfica, que partir dos jornais produzidos na cidade seria um bom caminho para me debruçar sobre a temática. O jornal Norte de Goyaz, pelo conteúdo, conservação, acesso, duração e importância, apesar de todas as dificuldades para pesquisá-lo 16 , tornou-se o documento privilegiado para esse estudo. Durante esse percurso notei que o nome de Francisco Ayres da Silva aparecia recorrentemente tanto nos documentos quanto na bibliografia, aos poucos foi ganhando espaço, atenção e 14 Idem; Ibdem. p. 334. 15 Idem; Ibdem. p.194, 236. 16 Algumas das principais dificuldades foram localizar a família Ayres que não reside em Porto Nacional, sobretudo os responsáveis pelos documentos, e negociar o acesso ao arquivo particular da família, que fica numa casa, sem morador, localizado na rua Francisco Ayres da Silva, a mesma onde funcionava a Tipografia Nortense, responsável pela produção do Norte de Goyaz, principal rua do que hoje constitui o centro histórico da cidade. 21 importância nas reflexões, até se tornar o personagem principal por meio do qual persigo a questão. Em outras palavras, foram as indagações que me levaram até Francisco Ayres da Silva e não o contrário. Sua trajetória me pareceu o caminho mais apropriado para apresentar as tensões da modernidade na cidade portuense e na região que pretendeu representar. Comerciante com negócios ao longo do rio Tocantins, médico formado no Rio de Janeiro, jornalista responsável pelo Norte de Goyaz, político na esfera Federal, foi um dos muitos portuenses que atuou em Porto Nacional, como espaço político, participando do debate na, pela e sobre a cidade. Foi um dos entusiastas dos tão mencionados melhoramentos modernizantes que promoveriam o desenvolvimento; ele próprio como personalidade se configurou num desses melhoramentos, que deram a sensação e expectativa de Porto como espaço com projeções promissoras. Francisco Ayres da Silva ajudou a estruturar a cidade, elaborou seus projetos políticos e modernizadores de acordo com sua posição social, princípios e convicções construídos ao longo de uma vida; participou das relações tensas e conflituosas que num percurso de disputas quis definir o que seria ou não moderno, o que seria ou não progresso, o que seria ou não atraso, o que seria ou não melhoramento; foi um dos protagonistas nos embates para se tornar representante dos interesses dos portuenses e nortenses ajudando a determinar e direcionar, em meio a outros projetos concorrentes, tanto o que deveria ser aceito como interesses para população, quanto o que significava ser portuense e nortense, pertencimento construído mais social e politicamente do que espacialmente; esforçou-se para colocar Porto Nacional no rol das cidades modernas e em contato com o que compreendeu como sendo o mundo moderno. Na opção por seguir a picada de Francisco Ayres da Silva para chegar à questão mais ampla, o trabalho da professora Regma Maria dos Santos foi fulcral. Em busca das especificidades da produção jornalística do interior de Minas Gerais no século XX, ela utilizou o cronista Lycidio Paes como guia. Dessa experiência fui impactado pela breve, complexa e instigante afirmação que inspirou este estudo a seguir um caminho parecido: “a partir de uma escrivaninha, um mundo se revela”. Nessa perspectiva, interessa entender como Francisco Ayres percebeu e interpretou de maneira singular aquele complexo processo de mudanças, não necessariamente ocorridas em Porto Nacional, a maneira como o mesmo articulou o local e o global fazendo suas próprias comparações. Conforme orienta a autora, “não se trata apenas de elencar datas, parentescos e 22 realizações, mas de imprimir aspectos da existência e da produção de um sujeito para pensar questões comuns aos homens que lhe foram contemporâneos”.17 A memória atual da cidade trata o período em que Ayres viveu como um tempo glorioso, enaltece alguns de seus feitos como marcos importantes para a cidade, mas não evidência sua atuação e projeto político. Como se os benefícios que proporcionou para Porto Nacional estivessem descolados de sua trajetória política, quando são, a meu ver, partes indissociáveis do mesmo projeto. A memória atual remete aos feitos de Ayres, mas não propriamente a ele. Isso provocou estranhamento e curiosidade para conhecer mais sobre o período, as questões que estavam em jogo, a disputa por memória e a maneira como aquele momento ainda afeta não apenas a cidade portuense, mas o estado do Tocantins. Há um bom tempo que em todo ano se comemora a Semana da Cultura em Porto Nacional, celebração responsável pela manutenção da condição, atribuída à cidade, de capital cultural do Estado do Tocantins. Grande parte dos nomes e obras apresentados e destacados na celebração, como símbolos, evidências ou suportes de sustentação dessa condição, são produtos do final do século XIX e início do século XX. 18 A forma como o passado é apresentado nas representações da Semana da Cultura e o discurso que a cidade mantém sobre si nos dão a sensação de que algo se encontra desajustado, aparentemente fora do lugar, mais uma vez o estranhamento é inevitável. A cidade que celebra não se parece (ter aspecto de, a aparência de, assemelhar-se; dar a impressão de; aparentar; apresentar-se de determinada forma ao entendimento de alguém) com a cidade celebrada que aparece (revelar-se subitamente; tornar-se perceptível; apresentar-se; tornar-se repentinamente visível). Podemos observar nisto o que Jacy Alves Seixas chamou de posturas/imposturas, “as maneiras de apresentar-se 17 SANTOS, Regma Maria dos. Memórias de um plumitivo: impressões cotidianas e históricas nas crônicas de Lycidio Paes. Uberlândia: Asppectus, 2005. p. 14, 25, 210. O conjunto de textos produzidos pela Professora Regma Maria dos Santos, sobretudo o referido trabalho, foi decisivo, consciente e inconscientemente, nas escolhas desse estudo. O uso da imprensa escrita como fonte, a atenção com a história do universo jornalístico, a preocupação com cidades interioranas na relação com outros espaços e com as transformações em curso na modernidade, o interesse pela virada do XIX para o XX como um momento efervescente de passagem, a já citada opção de por meio de um personagem perscrutar uma dimensão mais ampla. 18 Produtos símbolos da almejada cidade moderna em Porto Nacional, que proporcionou a sensação de estar em sintonia com o mundo e de projetar boas expectativas futuras. A saber: a imprensa, ordem dominicana de origem francesa, escola, cinema, código de posturas, clube recreativo portuense “club oratório, dramático e dançante”, um médico da cidade, dois automóveis, entre outras pequenas obras pontuais. 23 aos outros, de identificar-se e reconhecer-se, que acarretam, também, artifícios e engodos”? 19 O legado reivindicado, objeto de contemplação, parece mais espólios de uma guerra que ainda faz vítimas. Trata-se de uma guerra das e nas cidades, não simplesmente entre cidades de diferentes espaços geográficos, mas também entre cidades possíveis que ocupam o mesmo espaço e nele existem simultaneamente numa interrelação. Guerra esta estimulada pelo projeto de modernização das cidades, responsável também pelas regras e a ética estabelecidas nos confrontos. Marcada pelas noções cristalizadas de linearidade e progresso, característicos da modernidade, da virada do XIX para o XX. Conforme nos orienta Walter Benjamin, sobre a irrevogabilidade do passado, ao que tudo indica o passado da história de Porto Nacional não foi apagado, nem anulado. De maneira que se faz necessário apreender no tecido do presente uma semelhança nos eventos anteriores, daí a exigência, que nos cabe, de perceber e compreender de que forma o passado é constitutivo do presente. O passado da cidade portuense, com suas tramas e urdiduras, precipita-se no tempo presente. 20 Giorgio Agamben, perpassando as ideias de Walter Benjamin, especialmente sua noção de tempo de agora, convoca-nos à urgência de sermos contemporâneos na lida com nosso objeto, pois só assim poderemos colocar em ação “uma relação especial entre os tempos”. Concordando com Agamben, “é o contemporâneo que fraturou as vértebras de seu tempo (ou, ainda, quem percebeu a falha ou o ponto de quebra), ele faz dessa fratura o lugar de um compromisso e de um encontro entre os tempos e as gerações”.21 Seguindo ainda a direção apontada por Giorgio Agamben, nosso intuito é que, tomados por essa “invisível luz”, que é o “escuro do presente”, expresso no estranhamento com as imagens da cidade de Porto Nacional, possamos projetar a sua sombra sobre o passado, especialmente aquele vinculado e veiculado por Francisco Ayres via Norte de Goyaz, em que a cidade moderna e suas fantasias permeiam o sertão 19 SEIXAS, Jacy Alves. Linguagens da perplexidade: personas, infinitos, desdobramentos (três narrativas, três tempos). In. SEIXAS, Jacy Alves; CESAROLI, Josianne; NAXARA, Márcia Regina Capelari. Tramas do político: linguagens, formas, jogos. Uberlândia: EDUFU, 2012, p. 285. 20 BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 222, 223, 229. 21 AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009, p. 71. 24 goiano, e este passado tocado por esse “facho de sombra” nos permita adquirir a capacidade de tornar mais inteligível às “trevas do agora”.22 A finalidade é pensar, a partir do jornal Norte de Goyaz e da trajetória de Francisco Ayres da Silva, especificamente a cidade de Porto Nacional, que se tornou uma das principais cidades do norte de Goiás nos primeiros anos da República no Brasil, momento em que a cidade e os paradigmas de modernidade estavam, intensamente, em debate em todas as regiões do país e do mundo. Como Francisco Ayres da Silva viveu e narrou as transformações, projetos, medos, desejos, encantos, desencantos, conflitos e tensões da modernidade? Como o projeto de modernização das cidades que interferiu nas relações do norte goiano foi utilizado politicamente por ele? A modernidade como projeto iluminista, racionalista, que fez o homem crer na possibilidade de alcançar a perfectibilidade de forma processual, apresentou-se com promessas sem limites, nutrindo grandes expectativas, quase sempre seguidas por proporcionais decepções. Projeto que visava à libertação da civilização, mas que promoveu justamente o contrário, por isso, no diagnóstico de muitos intelectuais, um projeto fracassado com desdobramentos difíceis de se mensurar. O homem moderno dotado de razão e da liberdade criou instrumentos para conhecer o universo, viu-se capaz de intervir no mundo e na natureza. Enquanto homem livre e fazendo uso da razão instrumental criou formas que mudaram a noção de cidade, bem como sua experiência social e espacial. Já em Pico Della Mirandola, na obra Discurso sobre a dignidade do Homem, do século XV, é possível identificar a presença da razão moderna na figura do homem que se pôs a conhecer o mundo e experimentá-lo, mesmo sem romper com a metafisica religiosa. Jacy Alves Seixas, valendo-se das reflexões de Frances Yates e Agnes Heller, aponta para o fato de que a razão científica moderna, por mais paradoxal que isso possa parecer, tem uma matriz na filosofia hermética. 23 A razão científica moderna naturalizada no século XIX há muito rompeu com o hermetismo, especialmente no que se refere ao objeto que se afasta do sujeito e à noção de progresso, temporalidade acumulativa, todavia a questão levantada por Pico Della Mirandola de que o homem não é um ser fixo, é antes um camaleão com potência para se elevar ou se degradar, ainda 22 AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009, p. 72. 23 SEIXAS, Jacy Alves. Linguagens da perplexidade: personas, infinitos, desdobramentos (três narrativas, três tempos). In. SEIXAS, Jacy Alves; CESAROLI, Josianne; NAXARA, Márcia Regina Capelari. Tramas do político: linguagens, formas, jogos. Uberlândia: EDUFU, 2012. 280, 281. 25 lhe era contemporânea, pois o homem ainda se via com a liberdade para ser o que quisesse e fazer tudo, inclusive o mau. 24 Na virada do XIX para o XX, a interferência dos homens no espaço urbano testifica essa máxima. Vários autores com formação, formas e abordagens distintas com diferentes conceitos, em diversos momentos históricos se propuseram a perscrutar a modernidade e suas configurações; alguns diagnósticos são temerários e evidenciam que os caminhos do par razão-liberdade, outrora tomados com euforia na lógica do progresso, levaram ao abismo, tragédia, decomposição da sociedade, desengajamento, fluidez das relações, a uma crise do sujeito e à degradação do homem, sua miséria psíquica e moral. Cornelius Castoriadis, afirma que: Na história da humanidade não há progresso, salvo no domínio instrumental. (...) se falarmos do plano moral, basta olhar para parar de falar de progresso. O progresso é uma significação imaginária essencialmente capitalista, pela qual o próprio Marx se deixou pegar. 25 A situação apresentada por Castoriadis na década de 1990 pode ser identificada também no final do século XIX e início do XX. No estudo sobre as metrópoles, Paris de Walter Benjamim e Berlim de Georg Simmel são exemplos emblemáticos de como o espaço urbano foi visto, ao mesmo tempo, com fascínio e medo. Os estudos destes intelectuais evidenciam que nem tudo se explica estritamente por vias racionais, revelando que na modernidade é preciso observar para além da razão, mas também aquilo que não é dado por ela, suas relações com a dimensão do psíquico, da imaginação, do sensível, da afetividade. 26 A historiografia tratou sobre o projeto de modernização das cidades, pautada na perspectiva de progresso e razão científica modernos, tomando as grandes metrópoles como referência, como foco privilegiado de observação. Essa abordagem aponta para as diferentes formas de como as cidades e as pessoas nas cidades se transformaram ao longo da modernidade. 27 A literatura também tratou sobre o assunto, basta observarmos, 24 MIRANDOLA, Pico Della. Discurso sobre a dignidade do homem. Areal Editores, 2005. p. 69, 70. 25 CASTORIADIS, Cornelius. A ascensão da insignificância. In. As encruzilhadas do labirinto IV. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 110. 26 BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 3.ed. São Paulo: Brasiliense , 1994.; Paris, Capital do século XIX. Espaço e Debates, nº11, NERU, 1984.p. 5-13.; SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Ótavio Guilherme (org.). O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. 27 BOLLE, Willi. Fisionomia da Metrópole Moderna: Representação da História em Walter Benjamin. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.; BRESCIANI, Maria Stella Martins. Cidade e História. In: OLIVEIRA, Lúcia Lippi (org.). Cidade: história e desafios. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2002, 26 por exemplo, o Flâneur de Baudelaire, ou mesmo O homem da multidão de Edgar Alan Poe, O homem da cabeça de papelão de João do Rio, até as produções mais recentes os exemplos são incontáveis. As vitrines, avenidas, obras, saber autorizado da ciência, multidões de pessoas e coisas, emaranhado de sensações e ausência de referência denunciam a imensidão da metrópole e as mudanças de natureza social, política e espacial das relações, que são ao mesmo tempo encantadoras e assustadoras. Novo tipo de forma urbana ganha evidência, sendo que nenhuma forma anterior da cidade se assemelha à moderna que surgiu a partir do século XIX. A vida urbana nas grandes cidades se revelou perturbadora, cheia de belezas e monstruosidades. Novas sensibilidades foram produzidas nos centros urbanos modernos, a cidade parece ter se tornado estranha aos seus moradores, ela assumiu uma lógica espacial e produtiva caracteristicamente moderna. Tal discussão me faz pensar em algumas questões, que tomo como direção no enfrentamento com o texto: existe algo que une esse momento das grandes cidades com Porto Nacional, de que maneira Francisco Ayres transitou pelos diferentes espaços? Por meio de uma vida é possível identificar se houve perplexidade na experiência urbana de Porto Nacional? O mal-estar da vida moderna atingiu de alguma maneira os portuenses e nortenses? Será que existe algo que liga as representações criadas sobre uma cidade do Norte de Goiás, na virada do XIX para o XX, ao debate em torno dos centros cosmopolitas travado em outros lugares, inclusive para além do Brasil? A partir dessas indagações, acredito que Walter Benjamim, na reflexão Sobre o conceito da história, aponta uma perspectiva interessante para se perseguir. Segundo o autor: Quando o pensamento para, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto monôda. O materialismo histórico p. 16-35.; Palavras da Cidade. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2001.; Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1990.; CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004.; CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Cia das Letras, 1996.; LOPES, Myriam Bahia. Práticas Médico-Sanitarias e remodelação urbana na cidade do Rio de Janeiro – 1880-1920. Dissertação (Mestrado em História Social), Campinas: IFCH-Unicamp, 1988.; SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na Metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.; CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana 1890-1915. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2000.; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidades invisíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira de História. São Paulo, jan/jun. 2007. 27 só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto monôda. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. 28 Dentre outras considerações desse trecho, da tese de Benjamim, gostaria de destacar o conceito de mônoda. O objeto histórico confrontado enquanto mônoda, ou seja, como unidade atômica e indivisível, remete à totalidade do processo histórico. Baseado nesse princípio o debate sobre a cidade Porto Nacional aparece como uma parcela da realidade que espelha o todo. Sendo assim, analisar a modernidade vivenciada e experimentada nela pode sim remeter, ou ligar este objeto, a outras parcelas da realidade. As transformações da e na cidade nos diversos aspectos que a constitui foi tema muito explorado, sobretudo em relação às metrópoles como França, Berlim, Londres, Nova Iorque, no Brasil Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, entre outras. Mudar a escala de observação e encadeamento para perceber como esse fenômeno se deu fora dos grandes centros permite identificar novos significados que noutra escala e encadeamento são imperceptíveis. Nesse sentindo, investigo a cidade de Porto Nacional não para apresentar mais um exemplo do projeto de modernização das cidades. Não se trata de estudar o contexto global ou brasileiro para dar significado ao processo ocorrido na então região do norte Goiano, mas sim de estudar o fenômeno em Porto Nacional para dar significado ao contexto geral, ou projetar sobre este as obscuridades ou, nos termos de Giorgio Agamben, “o facho de trevas”.29 Paul Ricoeur, teorizando sobre o conceito de escala, chama-nos atenção para o fato de que mesmo sendo tomada de empréstimo da cartografia, da arquitetura e da óptica, a noção de escala quando utilizada por historiadores possui algo próprio, que é: (...) a ausência de comensurabilidade das dimensões. Ao mudar de escala, não vemos as mesmas coisas maiores ou menores, em 28 BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 231. 29 AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009, p. 72.; LEVI, Giovanni. Sobre a Micro-História. In: Burke, Peter (org.). A Escrita da história: Novas Perspectivas. São Paulo: EDUNESP, 1992, p. 155. 28 caracteres grandes ou pequenos, como disse Platão na República sobre a relação entre a alma e a cidade. Vemos coisas diferentes. Não se pode mais falar de redução de escala. São encadeamentos diferentes em configuração e em causalidade. 30 Tendo em mente essa perspectiva, seguirei com as reflexões. Ao analisar a partir de Francisco Ayres como Porto Nacional sentiu a modernidade não se trata de colocá-la simplesmente em oposição em relação às metrópoles, muito menos de partir de uma lógica binária naturalizada e excludente. Trata-se antes de pensar como a cidade portuense, bem como o Norte de Goiás, foi inserida numa lógica internacional do final do século XIX e início do XX, e se constituiu numa interrelação com outros espaços urbanos. Ao lidar com o Norte de Goiás não se pode excluir outros lugares, muito menos as forças culturais, sociais e políticas absolutamente ativas na região. De acordo com as críticas tecidas por Durval Muniz contra a História Regional, considerada atada ao campo de dizibilidade do regionalismo que colabora para a compreensão do espaço regional como continuidade histórica, não entendo aqui o norte de Goiás como uma região naturalizada, fixa, cristalizada, fora das relações de poder que a institui. 31 O chamado antigo Norte de Goiás, do tempo de Francisco Ayres da Silva, estava longe de ser a expressão exata do atual estado do Tocantins, no máximo talvez representasse apenas uma de suas formas dentre tantas outras possíveis. Nesse quesito a obra de Gilberto de Noronha é cara, pois, estudando as configurações do Oeste de Minas Gerais, oferece um caminho interessante para se refletir sobre as relações dos homens com o espaço expressas na enunciação. Com base nesse historiador considero o Norte de Goiás como uma estratégia de regionalização que deve ser observada historicamente, levando em consideração os sujeitos que a anunciam e a escala adotada para tal finalidade. Uma categoria que aparece nas fontes revelando um processo aberto e inacabado, mas em plena construção em meio às forças políticas e sociais. Por isso, utilizo-a como recurso linguístico para “designar uma imprecisão geográfica, um espaço ainda destituído de formas”, uma invenção da qual Francisco Ayres tomou parte através do seu jornal, principalmente por motivações políticas, que precisa ser problematizada. 32 Sendo assim, resta tornar 30 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2007, p. 222. 31 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.p.38-41. 32 NORONHA, Gilberto Cezar de. Viangens aos sertões enunciados: Comphigurações do Oeste de Minas Gerais. Uberlândia: UFU/Pós-graduação em História, Linha Política e Imaginário, Universidade Federal 29 inteligível o que esse personagem entendia como Norte de Goiás, ou ainda mais, o que ele desejou que o norte de Goiás representasse para dele se tornar representante, a maneira como ajudou a construí-lo, a ganhar forma por meio do periódico que teve o mesmo nome, e quais as questões em jogo que permearam os diferentes usos, significações e configurações da referida categoria de regionalização. Para Gilberto Noronha, Quase sempre, na própria enunciação do espaço parece explícito que não estamos diante de uma região natural, mas de uma invenção – nem sempre consensual – que não é algo puramente objetivo ou de todo subjetivo mas que é passível de analise em seus processos de objetivação e de subjetivação. É justamente aqui, que nos parece está sua fragilidade e sua força. 33 Essa pesquisa faz coro com outros trabalhos historiográficos, surgidos nos últimos anos para pensar a modernidade e sua expressão material entendida como modernização, em cidades do interior de diversos estados do Brasil, para além do circuito Rio de Janeiro e São Paulo. Os trabalhos ao trazerem para o debate outras experiências históricas têm problematizado e combatido a rigidez de alguns conceitos gerais como o que significa ser moderno e/ou tradicional ou o que significa ser do sertão ou cosmopolita, tencionando como as representações sobre melhoramentos, progresso, civilização, entre outras são construídas em meio a conflitos. Esses estudos apresentam formas alternativas e diversas para se pensar a temática indicando que a realidade histórica é mais complexa e plural do que se supõe. O estudo de João Carlos de Souza, a partir da imprensa corumbaense, aborda a implementação dos símbolos da modernidade na cidade de Corumbá entre 1872-1918. Aborda como a urbanização e o anúncio do novo provocaram tensões entre as principais cidades do Mato Grosso, sobretudo entre a capital Cuiabá e a portuária Corumbá, acentuando as diferenças entre as regiões do estado e a disputa pelos investimentos e status de capital. 34 Outro trabalho importante é o de Eudes Guimarães que lida com a modernização no alto sertão da Bahia, mais precisamente na cidade de Caetité; o autor apresenta as sensações que os habitantes daquele lugar tiveram diante da chegada dos primeiros produtos vindos dos grande centros urbanos. Os sentimentos distintos de Uberlândia, 2011. (Tese de Doutorado). 33 NORONHA, Gilberto Cezar de. Op. cit.. p. 28. 34 SOUZA, João Carlos de. Sertão Cosmopolita: tensões da modernidade de Corumbá (1872-1918). São Paulo: Almeida, 2008. 30 provocados pela modernidade expressos nas imagens do caranguejo e da bicicleta, o primeiro expressando a experiência e o segundo a expectativa daquele povo diante da possibilidade da chegada de novos melhoramentos. Através da pesquisa de diversos documentos Eudes apresenta o imaginário moderno em Caetité e arredores, onde a atmosfera de um viver moderno foi propiciada por poucos produtos industrializados e apresentações que lá chegaram e despertaram o desejo por alterar a fisionomia da cidade. 35 Esses entre outros trabalhos com os quais dialogo e tomo como referências ajudam a identificar, através de Porto Nacional, que, cidades de diferentes regiões brasileiras também receberam impulsos de crescimento no período. Não se constituíram em grandes centros industriais e econômicos, muitos menos em metrópoles, mas tiveram significativa importância em suas regiões. São pequenas cidades que requerem um olhar mais atento no estabelecimento de seu lugar no fenômeno da urbanização ocorrido no Brasil. 36 O espaço urbano e os elementos que o constituem na cidade moderna, ou em vias de modernização, tratados pelo termo de “melhoramentos” no Norte de Goyaz, são tomados nesse texto como formas culturais. Entendo a noção de forma, conforme conceituou Georg Simmel em O conceito e a tragédia da cultura. Segundo Simmel, a vida se reveste de formas culturais, pois ela apenas pode se manifestar a partir das formas. A forma é objeto da criação humana, portanto, a cultura humana pode ser entendida por ela. Para o autor, o estilo moderno de articular as formas fez com que a relação entre vida e forma se desgastasse. A modernidade é caracterizada pela efemeridade e mobilidade das formas, caos de formas atomizadas. 37 Simmel, ao refletir sobre a fissura que tem a cultura na modernidade, que faz a síntese entre sujeito e objeto se transformar, anunciou a tragédia visível nas grandes cidades metropolitanas. Nosso esforço é tentar entender, a partir de Francisco Ayres, se essa tragédia pode ser identificada, com algumas peculiaridades, numa pequena cidade do recôndito sertão goiano. 35 GUIMARÃES, Eudes Marciel Barros. Um painel com cangalhas e bicicletas: os (des)caminhos da modernidade no alto sertão da Bahia (Caetité, 1910-1930). 2012. 151 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2012. 36 SOUZA, João Carlos de. Op. cit. p. 18. 37 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005. 31 Em linhas gerais, para Simmel, a tragédia consiste no fato da quebra do elo entre sujeito e objeto, entre vida e forma. Segundo o autor, “o fato de o espírito criar algo objetivo autônomo que se torna o caminho para o desenvolvimento do sujeito de si mesmo para si mesmo, constitui o conceito de toda cultura”.38 O problema é quando o objeto abandona sua função mediadora no processo de subjetivação e não conduz o sujeito “à sua própria altura”. Depois de criado, o objeto se autonomiza de tal forma que se desenvolve em sua própria lógica, independente do sujeito. Se subjetivar nessa relação vida e forma se tornou um risco, uma tragédia. Nas palavras de Simmel: A fórmula da cultura é que as energias anímicas subjetivas alcançam uma forma objetiva, independente do processo de vida criador, e que essa, por sua vez, é reinserida no processo de vida subjetivo de uma maneira que leve o sujeito a uma perfeição acabada de seu ser central. Essa corrente de sujeito, via objeto, para sujeito, na qual uma relação metafisica entre sujeito e objeto adquire uma realidade histórica, pode agora, entretanto, perder sua continuidade. O objeto pode, em principio (...) abandonar sua significação mediadora e com isso quebrar a ponte sobre a qual passara seu caminho cultivador. 39 Como tento mostrar, Porto Nacional não estava isolado dos acontecimentos que ocorriam no restante do país e do mundo, as informações, novidades, euforia, chegavam, com sutil defasagem, via impressos, objetos e pessoas. Quase sempre chegavam apenas como notícia, ou como rumores, às vezes como materialidade mesmo. Cada viagem feita para as grandes cidades ou cidades pequenas em processo de modernização, ou a cada viajante que de lá chegava a Porto Nacional, ou a cada símbolo que delas faziam menção, eram motivo de notícia de destaque na imprensa e nas ruas portuenses. Boa parte do que ocorria nas cidades consideradas foco por excelência, das luzes da civilização40, tornavam-se objeto de desejo para Porto Nacional, que começava a se constituir como espaço urbano tendo como referência outras cidades. Aos poucos aquilo que era apenas desejo se transformava em necessidade. Elementos nunca pensados antes pelos portuenses se tornariam indispensáveis para sua condição de cidade, em sintonia com os modelos modernos espalhados pelo mundo. 38 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.18. 39 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.24. 40 O incentivo. Porto Nacional, n.8, 1902. 32 A cada aproximação com os paradigmas de uma cidade moderna, a cidade portuense era reconhecida como centro de excelência, como a referência para a região e o estado, o que lhe conferia a condição de cidade mais importante do norte goiano. A cada desejo frustrado ou inviabilizado pela configuração urbana da cidade a condição de defasada e isolada saltava aos olhos. Não se trata apenas de infraestrutura ou do campo da técnica, isso se dava em todos os aspectos como moral, artístico, hábitos, normas sociais, ciência, política. Dessa forma, Porto Nacional, como cidade, e seus habitantes, como sujeitos, vão se constituindo, refazendo-se na relação com os outros e com as coisas. Conforme nos orienta Jacy Alves de Seixas, “ao longo da modernidade as formulações sobre os processos de identificação e constituição do sujeito em sua relação com os outros, os jogos de ser e parecer em seu registro dual ou ambivalente, foram sempre desafios eivados de perplexidade”.41 De acordo com Georg Simmel: O acervo do espírito objetivado, que cresce interminavelmente, atiça pretensões no sujeito, desperta nele veleidades, invade-o com sentimentos de insuficiência e desamparo peculiares e finalmente entrelaça-o em relações totais cuja totalidade ele não pode se esquivar, a menos que domine seus conteúdos específicos. 42 O sujeito sempre se objetiva em formas culturais. As formas culturais normatizam ações e como efeito dessa ordenação produzem valores morais e efeitos psíquicos. Os objetos constituintes das cidades modernas, ou que caracterizaram cidades como modernas, multiplicaram-se desenfreadamente e provocaram sentimentos morais e éticos em Francisco Ayres da Silva, que pareciam apresentar certa fragilidade e inocência quando em face dos mesmos. Os objetos se impunham de tal maneira a ele que a possibilidade de recusar ou descartar determinada mercadoria não se apresentou como opção. Mesmo que os objetos estivessem a certa distância dos portuenses, mesmo os objetos não integrados satisfatoriamente à dimensão psíquica, não havia como se libertar. Seria isso uma espécie de perplexidade e desencantamento às avessas? Visto que a modernidade se institui a partir de diversos dispositivos, podemos perceber, pela trajetória de Porto Nacional, que na virada do século XX ela atuou entre 41 SEIXAS, Jacy Alves. Linguagens da perplexidade: personas, infinitos, desdobramentos (três narrativas, três tempos). In. SEIXAS, Jacy Alves; CESAROLI, Josianne; NAXARA, Márcia Regina Capelari. Tramas do político: linguagens, formas, jogos. Uberlândia: EDUFU, 2012. 285. 42 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.25. 33 outros dispositivos através das formas urbanas e seus elementos constituintes. Aqui faço uma aproximação das noções de forma e efeito de Georg Simmel com a noção de dispositivo de Giorgi Agamben, visto que, segundo este último, dispositivo “é qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, condutas, as opiniões e discursos dos seres viventes”.43 Os dispositivos criados em Porto Nacional, bem como os criados noutros lugares, mas lá propagados, parecem ter atuado dessa maneira em Francisco Ayres. Francisco Ayres, quanto ao desejo por modernizar a região de Porto Nacional, apresentado via Norte de Goyaz, dá a impressão de que não se trata simplesmente de obter aquilo que realmente era necessário aos indivíduos, mas aquilo que projetasse Porto Nacional no rol dos grandes centros. Nesse sentido, as ruas largas, o saber autorizado da medicina, o automóvel, as pontes, o código de postura, a ferrovia, navegação a vapor, cinematografo, telégrafo, sistema de correios eficiente, mercado municipal, entre outros tantos objetos culturais, eram desejados não pela sua origem e finalidade em si, mas pela possibilidade de projeção que eles poderiam oferecer. Francisco Ayres da Silva por onde circulou esteve cercado por elementos culturais, um monstro urbano se impôs, despertando fascínio e medo. A fantasia urbana se tornou símbolo da vida moderna e, mesmo vendo a modernização de outras cidades a certa distância, o espírito de modernidade com sua ideologia do progresso o capturou de súbito, parte da população se esforçou para mantê-lo, outra parte se esforçou para dele se esquivar, mas ambos os esforços foram inúteis. A problemática típica do homem moderno definida por Simmel pode ser aplicada aos “caboclos do norte”. Os objetos se tornaram superiores ao sujeito, oprimindo-o em todas as definições que o termo pode conter. o sentimento de ser circundado por inúmeros elementos culturais que não lhe são desprovidos de significação, mas que também não são, em seu fundamento, plenos de significação – elementos culturais que no conjunto possuem algo de opressivo, porque ele não pode assimilar interiormente a todos individualmente, e tampouco pode simplesmente descartá-los, uma vez que eles pertencem potencialmente à esfera de seu desenvolvimento cultural. 44 43 AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó, S C: Argos, 2009, p. 39. 44 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.25. 34 Se valendo de Marx, seu contemporâneo, Simmel chama a atenção para o caráter fetichista contido nos conteúdos culturais, cada vez mais apartados da sua finalidade cultural. De forma ilimitada, os conteúdos culturais se proliferaram, seguindo sua própria lógica, emancipados do sujeito, mas promovendo nele necessidades superficiais e artificiais. Na trilha de Francisco Ayres quero perceber como Porto Nacional consumiu, passivamente e/ou criativamente, aquilo que Simmel chamou de “superficialidades”, ou “peso morto”. Será que isso provou e/ou agravou a angústia, a aflição e a perplexidade do personagem que principalmente através da imprensa e da política desejou a todo instante consumir esses conteúdos culturais? Na linha do pensamento de Simmel, os objetos se desenvolvem em sua própria lógica, tornando o ser humano num mero suporte. O sujeito não pode mais seguir a via tomada pelo objeto, caso o faça ele se extravia. 45 Os habitantes de Porto Nacional se subjetivaram nessa ruída relação entre vida e forma. Extraviaram-se na via trágica dos objetos culturais, mesmo sem usá-los efetivamente, ou seja, espécie de suportes vazios, mas que receberam o registro de informações atribuídas pelos objetos culturais para os quais servem de suporte. Nesse sentido, pode-se afirmar que a tragédia anunciada por Simmel, em Francisco Ayres, tem dupla dimensão? Nos termos de Reinhard Koselleck, a modernidade é entendida como o momento em que a diferença entre experiência e expectativa não para de crescer, distanciando-se cada vez mais, expresso na “história em si” através do conceito de progresso, novo horizonte de expectativa que gerou a possibilidade de alcançar a perfeição na existência terrena, criou a certeza de um futuro melhor a despeito da experiência. Os conceitos de “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” são caros para entender a maneira como o progresso afetou a cidade portuense. Se para o autor “quanto menor o conteúdo de experiência, tanto maior a expectativa que se extrai dele (...) eis uma formula para a estrutura temporal da modernidade, conceitualizada pelo progresso”, pode-se afirmar, com base nessa fórmula, que as expectativas geradas em Porto Nacional foram grandes diante das invenções, descobertas científicas e outras novidades. Embora a cidade não tenha modificado seu espaço físico de forma expressiva, não tenha obtido a maioria dos melhoramentos desejados e batalhados por Francisco Ayres, pode-se apreender o horizonte de expectativa criado e compartilhado pelo Norte de Goyaz. 46 45 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p. 24. 46 KOSELLECK, Reinhard. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de 35 Sendo assim, esse trabalho divide-se em três capítulos. No primeiro capítulo proponho inicialmente uma discussão teórico-metodológica sucinta, sobre como compreendo e utilizo o gênero biográfico como estratégia narrativa para produzir conhecimento histórico sobre e a partir da vida de Francisco Ayres da Silva, e a maneira como lido com as fontes e arquivos para fazê-lo, sobretudo o jornal Norte de Goyaz. Em seguida, apresento algumas estratégias de aproximação do biografado para averiguar sua vida, em múltiplos aspectos, bem como o contexto e as questões da época, quando ainda não se podia prever exatamente o que esse nome representaria e no que se tonaria para o lugar onde nasceu. Na trilha do aspecto político, boa parte do capítulo se dedica a perambular pelo cenário em que Francisco Ayres da Silva cresceu e obteve suas primeiras referências. Nesse sentido, seu pai Joaquim Ayres da Silva irrompe como personagem determinante e indispensável, para tornar inteligível como Porto Nacional, o estado de Goiás e o próprio Francisco Ayres da Silva estavam, em diversos aspectos, em pleno processo de (trans)formação. Observa-se especialmente a maneira como Joaquim Ayres se inseriu na dinâmica política do momento. Acompanhar a vida do filho pela trajetória e legado do pai se mostrou revelador, pois, aproximar-me desse me permitiu vislumbrar o universo de possibilidades aberto para aquele, e a maneira como o debate sobre o moderno e suas expressões assumiu variadas formas. No segundo capítulo, a atenção se volta para perceber como as mudanças em curso naquela época permeiam a trajetória de Francisco Ayres e interferem na realidade de Porto Nacional, ressaltando-se a maneira como as tensões da modernidade e seus elementos modernizadores foram grafados na vida desse personagem bem como em seu torrão natal. Nesse capítulo as experiências de Porto Nacional em face às possibilidades do progresso, ampliadas para o Norte de Goiás, são descortinadas na medida em que se analisa as ações, opções, opiniões, intenções, intervenções, projeções e perambulações de Francisco Ayres da Silva enquanto se constituía e/ou se inventava como médico, jornalista, político, principal representante do norte goiano e entusiasta de sua modernização. Sendo assim, nesse capítulo se encontra uma leitura sobre as passagens de Francisco Ayres por várias cidades distintas e em diferentes condições, sua formação em medicina e os usos do saber autorizado na referida área do saber, sua atuação na imprensa e através dela, sua inserção e participação no universo político seja institucionalizado ou não, sua sensibilidade diante da complexidade das relações com os Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. 316-326. 36 indivíduos e com as coisas, sua atuação e disputas na e pela cidade de Porto Nacional, bem como na e pela região buscando realizar aquilo que o progresso prometeu cumprir. Leitura que tentou identificar em todas essas experiências de uma vida as exigências da modernidade que se assentaram na cidade portuense promovendo expectativas. O terceiro e último capítulo versa sobre as imagens de cidade e a ideia de região construídas no jornal Norte de Goyaz, analisando por onde passaram e o que representaram alguns termos largamente utilizados na virada do XIX para o XX, como moderno, progresso, atraso, abandono, melhoramento, entre outros também presentes nos discursos do jornal de Francisco Ayres, além de explorar os usos políticos desses termos e entender como as mesmas palavras carregam significados diferentes dependendo de quem fala, quando, onde, por que e para quem falam. Discute, ainda, o que o debate em torno da modernidade e modernização interferiu na sensação de pertencimento, nessa perspectiva elucida o que Ayres defendeu como o que significa ser nortense e pretende perceber como a disputa pelos melhoramentos urbanos de infraestrutura, transporte e comunicação, bem como o anúncio do novo provocou tensões entre as regiões e (re)coloca as diferenças entre norte e sul de Goiás. É objetivo discutir o projeto viabilizado via Norte de Goyaz para modernizar o norte do estado e colocar Porto Nacional em evidência, nesse sentido, investigar as expectativas, as frustações, o que foi realizado, o que existiu apenas como desejo, como a crença de que os melhoramentos criariam um mundo novo e melhor para a cidade, um futuro promissor aberto e prestes a ser realizado. 37 CAPÍTULO I DOS AYRES À PORTO NACIONAL: VIDAS(S) E CIDADE(S) EM (TRANS)FORMAÇÃO Os homens não são totalmente semelhantes, nem inteiramente diferentes. Tzvetan Todorov Contamos histórias porque afinal de contas as vidas humanas precisam e merecem ser contadas. Paul Ricoeur este aprasível arraial pode ser o empório de todas as riquezas do centro do Brasil. Tem um excelente terreno para levantar uma cidade mais extensa do que qualquer das mais famosas do universo. Brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos 1.1 – QUE HÁ EM UM NOME? Não é tarefa fácil escolher as primeiras palavras que constituem uma narrativa histórica. Creio que não haveria outra forma de começar essa apresentação senão a partir deste nome, Francisco Ayres da Silva. Tarefa mais difícil ainda é dar continuidade à empreitada para organizar formalmente, com sentido e plausibilidade, todo conhecimento obtido, através da pesquisa das fontes, que elegeu como fio condutor o nome que abre esta discussão. 47 Na literatura há inúmeras referências à importância (sobre)nome na sua (rel)ação com o possuidor e com o lugar, além das múltiplas relações daí advindas no meio em que vive. Dentre elas, quem não se lembra da reflexão de Shakespeare, em Romeu e Julieta, (sobre)nome na celebre indagação de sua personagem Julieta, “Que há em um nome? O que chamamos de rosa, se tivesse outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável”.48 Há muito em um nome, tanto que é em função do e sobre(nome) que se desenrolou toda a tragédia Shakespeareana. O nome pertence a uma pessoa, diz respeito a alguém, que de uma forma ou de outra estará sempre a ele ligado, mesmo postumamente. Independente do uso que dele o dono faça, ou qualquer outra pessoa, o nome só faz sentido porque pressupõe um sujeito e sua existência, ou, mais que isso, porque pressupõe formas de ver, (re)conhecer, dizer e evocar um sujeito em suas formas de existência, até mesmo aquela que independe da 47 RÜSEN, Jörn. Reconstrução do passado. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2010. p. 128. 48 SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. São Paulo: Martim Claret, 2002. p. 54. 38 presença corpórea do mesmo. Diante de algum desconhecido a primeira coisa que, normalmente, se quer saber é o nome. Por ele se vai descortinando os contornos da existência de determinado ator social. Em muitos casos o conhecimento do nome antecede, e até mesmo independe, de se conhecer a pessoa que o possui. Em se tratando de história, parece mais fácil conhecer a pessoa pelo nome do que o nome pela pessoa. Daí a máxima comumente proferida de que o nome não morre com o sujeito. Ignacio Padilha, em sua obra Amphitryon 49 , um excelente trabalho sobre a questão do nome, indivíduo e identidade, mostra através dos personagens que existiram pessoas “cuja vida acabou sendo menos importante que o nome”.50 Alguns nomes continuam, apesar da morte do seu possuidor, a ecoar na memória, nos arquivos, nos documentos, nas obras literárias, na materialidade da cidade, nos discursos, nos símbolos etc. Certamente, Francisco Ayres da Silva é um desses nomes que perpetuou e possui existência para além da vida, o que não significa necessariamente que esta seja desprovida de importância ou seja menos importante que o dito nome. Se for verdade que o nome evoca o sujeito e sua existência em suas múltiplas formas, consequentemente evoca também espaço e tempo. A pergunta é quase inevitável. Onde e quando esse nome ecoa com maior intensidade? Francisco Ayres da Silva em muitos lugares ainda é, e talvez sempre continue a ser, apenas mais um dentre tantos outros Franciscos no mundo. Nome desconhecido e desprovido, ou melhor, mais pobre de significados, símbolos, relações, adjetivos e imagens, que revela apenas mais um sujeito sem rosto em meio à multidão. Diferente seria o mesmo nome no espaço e no tempo em que ele se fez. Nesse sentido, torna-se evidente a importância do espaço- tempo para a relação entre o nome e o possuidor, assim como para sua visibilidade. O nome Francisco Ayres da Silva se situado no espaço-tempo, sobretudo a partir das últimas décadas do século XIX, no espaço constituído como a região central do Brasil; está envolto num emaranhado de significados, sentidos, títulos e mensagens, ligados a uma personalidade que assume posição de “destaque” em meio à multidão. Na 49 Anphitryon é um Romance escrito por Ignacio Padilha, escritor mexicano, cuja trama principal acontece na Áustria, na Polônia e na Sérvia entre 1916 e 1945. Em linhas gerais o romance consiste “Em sucessivos relatos que se complementam e se anulam, Amphitryon revela uma trama de mentiras, trapaças e crimes entre personagens anônimos que viveram as duas grandes guerras do século XX. Nada é o que parece à primeira vista: nomes são trocados, biografias são reescritas, sósias vão para a prisão no lugar dos verdadeiros culpados. Em meio à loucura das trincheiras austro-húngaras e à tragédia moral do nazismo, Ignacio Padilla narra a diluição da ideia de indivíduo num dos períodos mais cruéis da história.” 50 PADILLA. Ignacio. Anphitryon. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 98. 39 medida em que se reduz a escala de observação maior a visibilidade e mais diversos os sentidos e significados que se ligam ao nome. Da mesma maneira acontecem, caso se leve em consideração, as marcas do tempo no espaço. Em outras palavras, os sentidos, significados e imagens atrelados ao nome se transformam mediante a mudança de referência em que se observa. Ao que parece, o controle que uma pessoa tem para determinar a maneira como seu nome será conhecido e/ou (disse)minado é o mesmo, ou talvez pouco maior, que o controle e domínio que se tem na escolha do próprio nome. Quem sabe o nome de Francisco Ayres da Silva guarde alguma semelhança com Jacob Efrussi, um dos controvertidos personagens de Amphitryon, que, ao ser questionado sobre como se chamava, respondeu: “meu nome é Legião, porque somos muitos”.51 Ou quem sabe com Tadeus Dreyer, nome que, no desenrolar do romance de Padilla, pertenceu a muitas pessoas em função dos diferentes espaços e momentos. Francisco Ayres da Silva é um nome que aparece com contornos diferentes em Porto Nacional como uma cidade do estado de Goiás, ou em Porto Nacional como uma cidade do Norte de Goiás, ou ainda em Porto Nacional como cidade central do estado do Tocantins, apontando para a capacidade de se construir novas imagens de um sujeito sem a necessidade de lhe conferir outro nome. Michel Foucault, através de Pierre Rivière, alerta para os cuidados e dificuldades de contar a história de uma existência por meio dos discursos produzidos sobre ela, vez que estão envoltos por uma complexa relação de poder. Por vezes, assim como o personagem do livro de Foucault, Francisco Ayres da Silva foi evocado por discursos diversos e contraditórios, produzidos por outros e por si mesmo, fazendo com que seu nome assumisse diferentes formas e múltiplos enquadramentos, dando a impressão de ser mais de um. 52 Mas, é justamente no entrecruzamento de falas, na peleja de discursos, que pretendo, ao modelo de Foucault, mostrar Francisco Ayres da Silva. Diante da incessante pergunta que direcionei ao nosso personagem na tentativa de apreendê-lo: quem é você? Qual o seu verdadeiro nome? Nas fontes, sobretudo nos 51 Clara menção feita pelo autor do romance à referência bíblica sobre o Possesso Geraseno, localizada no Evangelho segundo Marcos 5:1-20. Ver: BÍBLIA SHEDD. São Paulo: Vida Nova; Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997, p. 1392. Pode-se ainda, nessa mesma perspectiva, fazer uma aproximação de Francisco Ayres da Silva com o personagem do poema de Walt Whitman que reconhece em si multidões, condição esta que o faz, ao mesmo tempo, contraditório e amplo: "Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo, Sou amplo, contenho multidões". 52 FOUCAULT, Michel. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. São Paulo: Graal, 2003. 40 periódicos, a resposta parece vir, acompanhada de um sorriso irônico, como a de Efrussi, “fui todos e ninguém (...) Roubei tantos nomes e tantas vidas que o senhor nunca conseguiria contá-las”.53 Quem sabe Efrussi somos nós, roubando nomes e vidas a partir dos vestígios que foram transformados em fontes históricas 54 . Perscrutando as fontes históricas e perambulando pelos arquivos, não por acaso, surgiu a figura de Francisco Ayres da Silva. Ao contrário do que ocorreu com Ginzburg 55 , em seu encontro inusitado com o moleiro Menocchio, o encontro com o médico portuense foi marcado a duras penas. Falei com seus familiares, entrei na casa, mal improvisada de arquivo, folheei livros, mexi nas suas cartas, jornais, revirei seus manuscritos, demorei-me nas fotografias, tentando encontrar qualquer pista que me levasse à experiência de uma cidade, do norte goiano, no contexto da modernização do início do século XX, mas estranhamente durante quase todo esse período tentei evitá-lo, não olhei em seu rosto e, de certa maneira, ignorei sua voz, e as vozes que dele falavam. Ao sair daquela casa, nos arredores da Praça Nossa Senhora das Mercês, o nome de Francisco Ayres da Silva parecia me perseguir, e continuava a aparecer então, agora sim, de forma inusitada nos vestígios mais improváveis. Não houve como fugir. Até mesmo diante de uma trégua na perseguição, ou seja, diante da sua ausência em determinados documentos, comecei a me perguntar o motivo da não aparição, o porquê da ausência. Ficando uma dúvida no ar, creio ainda não resolvida. Quem perseguia quem? Desde então, a curiosidade sobre esse nome e sua (lig)ação com Porto Nacional e a chamada região Norte cresceu vertiginosamente. Ao ponto de, nas inúmeras ocasiões, as mais diversas possíveis, quando convocado a falar sobre o objeto de pesquisa pelo qual enveredei o nome de Francisco Ayres se sobressair em minha fala, de maneira natural e quase inconsciente. Gradativamente suas experiências de vida foram ganhando espaço nas preocupações e questionamentos que movem a pesquisa, consumindo boa parte da minha atenção. O fato é que a figura de Ayres passou a chamar a atenção, nem tanto pela sua proeminência como figura pública de/em Porto Nacional, mas principalmente pela maneira como transitou, participou, leu, compreendeu, interpretou e interferiu naquele processo de modernização, que pode até não ter explodido na cidade portuense, mas lá 53 PADILLA. Ignacio. Anphitryon. Op. Cit. p. 79. 54 KOSELLECK. Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. p. 305. 55 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 2006. 41 deixou muitos estilhaços, atingindo seus habitantes. Nessa perspectiva, (re)contar a trajetória de Ayres parece um bom caminho para tornar mais inteligível a maneira como uma cidade, do então norte goiano, região supostamente alheia aos grande centros e à modernização do espaço urbano, passou por esse processo na virada do século XIX para o século XX. Para esta apresentação narrativa elege-se o gênero biográfico 56 . Uma modalidade de escrita que permite, a partir de um sujeito, conduzir os leitores a uma realidade histórica mais ampla, a movimentos mais profundos da vida social. 57 Travestido de historiador-biógrafo tomo Francisco Ayres da Silva não como um fim em si mesmo, não como tentativa de projetar sua figura na historiografia local, ou apresentar para além do estado do Tocantins uma trajetória exemplar, nem resgatar o seu nome para história, mas para acessar, ainda que em parte, os impactos que o modelo capitalista ocidental de modernização provocou em regiões, consideradas e/ou tornadas, as mais remotas do Brasil. O Historiador Alexandre de Sá Avelar, ao pensar o gênero biográfico, nos recentes debates da teoria da história e historiografia, a partir de Jose Luis Gómez- Navarro, Em torno a la biografia histórica (2005), permite pensar que a vida de Francisco Ayres da Silva está voltada para além de si mesma, O interesse pelo indivíduo se justifica não por sua personalidade ou vida, mas pelo que ele concentra de características coletivamente partilhadas. A partir dele, se chega ao conhecimento da realidade social, intelectual, econômica ou política de uma época, de um país ou de um grupo. 58 Portanto faz-se necessário superar a ideia tradicional e linear de biografia como mero e exclusivo relato personalista para conceber Francisco Ayres da Silva em sua complexa relação com o todo social. As perguntas que movem esta pesquisa biográfica estão para além do sujeito, porque buscam apreender a forma como Porto Nacional se inseriu, ou foi inserida, numa dinâmica de contexto mundial, no mínimo, do mundo 56 “Biografia, palavra que, dicionarizada em 1721, designava um gênero que tinha por objeto a vida dos indivíduos.” PRIORE, Mary Del. Biografia, Biografados: uma janela para a história. In. R. IHGB. Rio de Janeiro, ju/set 2010. p.179-197. “(...) a aparição de um “eu” como garantia de uma biografia é um fato que remonta a pouco mais de dois séculos somente, indissociável da consolidação do capitalismo e do mundo burguês.” ARFUCH, Leonor. O espaço Biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. p. 35. 57 AVELAR, Alexandre de Sá. Figurações da escrita biográfica. In. ArtCultura. Uberlândia, v. 13, n. 22, p. 137-155, já.-jun. 2011. p. 141. 58 Idem; ibdem, p. 142. 42 ocidental. 59 A trajetória de Ayres, em suas múltiplas interações, só interessa na medida em que remete a uma conjuntura que transcende o espaço da casa, os limites geográficos da cidade e as fronteiras do estado, ainda que também trate dessas dimensões da vida. 60 Francisco Ayres não é um grande personagem, segundo os moldes da historiografia tradicional, nem se configura exatamente como uma singularidade conforme reivindica a micro-história. 61 Mas a existência desse entusiasta da modernização no sertão goiano é como uma porta aberta para a vida cultural, social, para os intercâmbios de práticas, valores, experiências e projetos, num período de intensas transformações em todos os sentidos. Ele foi um dos responsáveis por intensificar o contato de Porto Nacional com espaços, objetos e mentalidade caracterizados como modernos. As tensões, conflitos e interações, inevitáveis naquele período, estão evidenciadas nos rastros deixados por Ayres. De forma que, sua vida tomada como objeto para investigação histórica, elucida como o indivíduo e a sociedade estão entrelaçados de maneira indissociável, numa interação dialógica. 62 Conforme alerta François Dosse, não é tarefa fácil escrever uma vida. O grande desafio para o historiador-biógrafo é transpor para a linguagem escrita uma existência fraturada. Em outras palavras, criar uma narrativa plausível, dotada de sentido, de uma vida disposta em fragmentos. 63 Uma vida é imensamente mais complexa que a escrita, parece impossível reduzir a segunda à primeira. Só mesmo dotado de potência divina, que permite ter nas mãos todos os dias de uma vida, tornaria possível esgotá-la em todas as suas dimensões. Ainda que fosse possível reunir todos os rastros de uma existência, através dos quais se alicerça a escrita biográfica, nem um, nem outro corresponderiam à existência 59 PRIORE, Mary Del. Biografia, Biografados: uma janela para a história. Op. cit. p.187-188. 60 DUBY, Georges. A história continua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Editora UFRJ, 1993. p. 137-138. 61 DAVIS, Natalie. O retorno de Martin Guerre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987; BROWN, Judith. Atos Impuros. São Paulo: Ed Brasiliense, 1986; LEVI, Giovanni. A herança imaterial: trajetória de um exorcista no Pemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000; GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 2006; MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: uma santa negra no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992. 62 ARFUCH, Leonor. O espaço Biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. p. 92, 347. A autora dialoga com Norbert Elias ao tratar sobre a questão do público e privado, indivíduo e sociedade. “Para Elias, não é possível pensar num individuo primigênio, livre de intenção e vontade, cuja somatória conformaria o social, nem, pelo contrario, numa maquinaria previa de cujas engrenagens se desprenderia o individual, mas antes numa interação dialógica, que o título de um de seus livros expressa com uma economia feliz: “A sociedade dos indivíduos”. 63 DOSSE, François. O desafio Biográfico: escrever uma vida. São Paulo: EDUSP. 2009. p.18. 43 de uma vida em sua integralidade. Alcançar tal capacidade de onisciência é qualquer coisa como se tornar Deus, conforme definido pela tradição judaico-cristã. Todavia essa impossibilidade não é privilégio apenas do gênero biográfico, qualquer realidade, em sua plenitude, é inapreensível por qualquer linguagem escrita. Portanto, a escrita histórica, seja qual for a modalidade, é sempre lacunar, construtora de representações da realidade, por mais minuciosa que pretenda ser. Os dias de Francisco Ayres não se os tem na palma das mãos, porém, os fragmentos desses dias estão impressos nos hebdomadários, produzidos na tipografia nortense, neles são dados a ler suas formas de sentir, pensar e experimentar o contexto em que viveu. Como os documentos que dão acesso ao passado de Ayres têm suas limitações, logo a narrativa que se constrói a partir deles é fragmentada, por isso limitada em suas conclusões. De acordo com Paul Ricoeur, “assim como é impossível lembrar-se de tudo, é impossível narrar tudo. A ideia de uma narração exaustiva é uma ideia performativamente impossível. A narrativa comporta necessariamente uma dimensão seletiva”.64 Reconhecer as restrições desta construção discursiva não anula sua importância. Não se quer reduzir o cidadão portuense a uma imagem definitiva, feita em algumas linhas de texto escrito, mas a partir delas explorar partes da sua existência, da sua movimentação social, política e cultural no estado de Goiás, onde protagonizou mudanças no meio em que (con)viveu, sobretudo no que correspondia à região norte daquele estado, não exata e necessariamente o atual estado do Tocantins. Nesse caso, a narrativa ganha forma, ciente de que estabelecer paralelo entre vida e obra de um ator social, numa biografia, é tarefa demasiado complexa, às vezes impossível, como sugere André Voigt, a partir de Gaston Bachelard sobre Lautrèamont. 65 Na construção da trama que envolve o personagem e sua relação com a questão da modernização no sertão goiano pouco interessa a linearidade cronológica do biografado. Durante o processo de busca essa forma de tempo ganhou certa atenção pela necessidade de uma referência temporal. Mas, a apresentação narrativa não se pauta pela cronologia, os fragmentos foram reunidos de acordo com as distintas temporalidades, pelas quais Francisco Ayres transitou. Nesse sentido, conforme pontuou 64 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2007. p. 455 65 VOIGT, André Fabiano. Gaston Bachelard e a biografia: o caso “Lautréamont”. In. Oficina do Historiador. Porto Alegre: EDIPUCRS, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2012. p. 55-69. p. 58. 44 Paul Veyne, na construção da trama na forma escrita, o historiador pode dedicar um parágrafo para décadas e páginas para um dia. Por isso, pode-se demorar em determinados momentos, mesmo que estes ocupem um espaço ínfimo no tempo linear e cronológico de Ayres. 66 Afinal, o ordenamento do passado, na narrativa, ainda é fruto da seleção daqueles momentos ou acontecimentos, dentre muitos, que mais interessa para a tessitura da trama que se deseja articular, na tentativa de estabelecer com argumentos e interpretações o que da trajetória de um sujeito corresponde, ou não, às questões de sua época. 67 A biografia, na história, por sua mescla com a literatura pode levar certa vantagem e dificuldade em relação a outras modalidades de escrita na construção das tramas e preenchimento das lacunas deixadas pelas evidências do passado. De acordo com Alexandre Avelar, a modalidade de escrita biográfica exige “flexibilidade” e “hibridismo”, do historiador-biógrafo é preciso articulação entre a “erudição documental e a vocação romanesca, entre o escrúpulo da ciência e o encanto da arte”.68 Há, ainda, certa relação com o jornalismo, não é por acaso que grande parte da produção biográfica atual é realizada por jornalistas. Algumas regras do jornalismo podem permanecer na produção de uma biografia, feita a partir dos pressupostos da história. Segundo Benito Bisso Schimidt, o desejo por um “furo”, algo até então oculto, é um exemplo, bem como o “imperativo da comunicabilidade”.69 Não se trata de criar a biografia verdadeira e definitiva, muito menos de enaltecer ou heroificar a figura de Ayres, nem de tornar uma vida num produto com boa aceitação no mercado. Longe disso, a intenção é pensá-lo a partir dos seus projetos e ações dentro de um campo de possibilidades, permeado por disputas. Nessa perspectiva, o desejo por um furo está no sentido de evidenciar historicamente algum projeto, filiação política, construção discursiva ou qualquer outro elemento da trajetória de Ayres que ajude a elucidar os caminhos de um homem, na sua 66 “Um século é um branco nas nossas fontes, e o leitor mal sente a lacuna. O historiador pode dedicar dez páginas a um só dia e comprimir dez anos em duas linhas: o leitor confiará nele, como um bom romancista, e julgará que esses dez anos são vazios de eventos.” VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 27. 67 RANCIÈRE, Jacques. The historian, literature and the genre of biography. In: The politics of literature. Londres: Polity, 2011, p. 168-182. p. 179. 68 MAUROIS apud AVELAR, Alexandre de Sá. Figurações da escrita biográfica. In. ArtCultura. Uberlândia, v. 13, n. 22, p. 137-155, já.-jun. 2011. p. 148. 69 SCHIMIDT, Benito Bisso. O debate atual sobre as biografias: contribuições desde o ponto de vista do conhecimento histórico; SCHMIDT, Benito B. Entrevista com Benito Bisso Schmidt por Manuela Areias Costa. In. Revista Cantareira. Rio de Janeiro, 15ª edição, jul.-dez., 2011. 45 cidade, em plena euforia/agonia com a modernização do mundo ocidental. Não se trata de revelar segredos íntimos ou obscuros do biografado. Quanto ao imperativo da comunicabilidade, pode ser uma boa contribuição na tentativa de se produzir algo que consiga transitar para além das demarcações da academia, sem ter que pagar o preço do abandono das suas onerosas exigências, e atingir um público de leitores mais plural. Desse modo, é necessário lembrar que apesar da mescla do gênero biográfico, do seu hibridismo entre história, literatura, e porque não com o jornalismo, cada campo do conhecimento tem seus próprios métodos, interesses e preocupações que se diferem muito uns dos outros. Tão distintos que se um mesmo homem fosse biografado por três profissionais, um de cada área do conhecimento, provavelmente o resultado seriam três biografias absolutamente distintas, quase incomunicáveis ou até mesmo divergentes. Que fique claro que este trabalho não se trata de uma biografia literária, muito menos jornalística, mas de uma produção biográfica da, na e para a história. Em outras palavras, é como historiador que opto pelo biográfico, como recurso para me debruçar sobre a trajetória de Francisco Ayres da Silva, mesmo que a construção da narrativa escrita tenha certa proximidade com o jornalismo, sobretudo com a literatura, proximidade esta fulcral na construção de uma biografia histórica. 70 1.2 DA BIOGRAFIA: NORTE DE GOYAZ COMO INDÍCIO E/OU ARQUIVO DOS CISCOS DE FRANCISCO Como já dito neste estudo tenho como fio condutor, na verdade, duplo fio: um está na questão documental, que pode ser acompanhada por meio do jornal Norte de Goyaz e desse significativo personagem Francisco Ayres, o outro está na indagação de fundo sobre as formas de se vivenciar a modernização. Ao longo do percurso, que culminou nesse trabalho, um clássico de Voltaire veio à memória, romance do século XVIII, intitulado Zadig ou o destino. Este livro inspirou outros trabalhos como, por exemplo, O nome da rosa, de Umberto Eco e seu 70De acordo com Leonor Arfuch, sobre o espaço biográfico: “A multiplicidade das formas que integram o espaço biográfico oferece um traço comum: elas contam, de diferentes modos, uma história ou experiência de vida. Inscrevem-se assim, para além do gênero em questão, numa das grandes divisões do discurso, a narrativa, e estão sujeitos, portanto, a certos procedimentos compositivos (...). Espaço biográfico como horizonte de inteligibilidade e não como mera somatória de gêneros já conformados em outro lugar.” ARFUCH, Leonor. O espaço Biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. p. 16, 73, 111. 46 personagem, monge franciscano, chamado Guilhermo de Baskerville. 71 O historiador Sidney Chalhoub escreveu uma belíssima introdução em Visões da Liberdade, fazendo referência ao controvertido personagem de Voltaire, para falar do ofício do historiador na produção historiográfica e da sua experiência nos arquivos. 72 No capítulo do livro de Voltaire, o cão e o cavalo, Zadig, sábio babilônico, cansado do seu casamento com Azora decidiu se dedicar ao estudo da natureza. Adquiriu tamanha agudeza que “onde outros viam uniformidade ele via mil diferenças”. Numa de suas andanças pelo bosque foi indagado pelo eunuco sobre o paradeiro da cadela da rainha e, logo em seguida, pelo monteiro-mor sobre o cavalo do Rei, pois estavam desaparecidos. Mesmo sem nunca ter visto os animais, valendo-se dos seus conhecimentos e dos rastros deixados pelos mesmos, ele os descreveu com detalhes. E por isso foi preso, por afirmar não ter visto o que, na opinião dos servos do rei e da rainha, parecia ter visto pela forma como descreveu. Com o aparecimento da cadela e do cavalo, Zadig, após pagar uma multa, foi solto, mas não antes de dar os devidos esclarecimentos e responder à pergunta: “como se pode descrever algo que se não viu?”73 Ou ainda, a questão feita nos termos de Marc Bloch: “Como posso saber o que vou lhes dizer?”74 O sábio babilônico então explicou que, como bom observador da natureza, “grande livro colocado por Deus ante nossos olhos”75, levou em consideração os rastros deixados pelos animais que por ali passaram antes dele. A partir dos rastros, das marcas espalhadas pelo bosque, Zadig elaborou suas conclusões, após a indagação que lhe fora feita pelos oficiais do reino sobre a cadela e o cavalo. 76 Sidney Chalhoub, ao observar as 71 ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 21-22. 72 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade - uma história das últimas décadas da escravidão na corte, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 13-28. 73 AROUET, François Marie (Voltaire). Zadig ou do Destino. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 10-12. 74 BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2002. p. 83. 75 AROUET, François Marie (Voltaire). Zadig ou do Destino. Op. cit. p. 10. 76 Zadig se explica da seguinte forma: “juro-vos que nunca vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo dos reis dos reis. Aqui está o que sucedeu: andava eu passeando pelo pequeno bosque onde depois encontrei o venerável eunuco e o muito ilustre monteiro-mor. Percebi na areia pegadas de um animal, e facilmente conclui serem as de um cão. Leves e longos sulcos, visíveis nas ondulações da areia entre os vestígios das patas, revelaram-me tratar-se de uma cadela com as tetas pendentes, e que, portanto, devia ter dado cria poucos dias antes. Outros traços em sentido diferente, sempre marcando a superfície da área ao lado das patas dianteiras, acusavam ter ela orelhas muito grandes; e como além disso notei que a impressões de uma das patas eram menos fundas que as das outras três, deduzi que a cadela da nossa augusta rainha manquejava um pouco. Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando pelos caminhos do referido bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam todos a igual distancia. “eis aqui – considerei – um cavalo que tem um galope perfeito, a poeira dos troncos, num estreito caminho de sete pés de largura, fora levemente removida à esquerda e a direita, a três pes e meio do centro da estrada. Esse cavalo disse comigo – tem uma calda de três pés e meio a qual movendo-se de um lado para outro, varreu assim a poeira dos troncos. Enfim pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri eu que era prata de onze denários.” Idem; ibdem. p. 11. 47 semelhanças do método de Zadig com o fazer do historiador, chama a atenção para a necessidade de se analisar os diferentes vestígios e relacioná-los entre si para se obter uma imagem coerente da cadela da rainha e do cavalo do rei, ou seja, do objeto de pesquisa do historiador. Chalhoub considera que “assim como os rastros não eram a cadela da rainha, os documentos espalhados no tempo não podiam ser o movimento da história. Era preciso articular uma forma de ler as fontes tendo em vista o objetivo de entender” o que interessa ao pesquisador, naquilo que se refere às tentativas de responder seus questionamentos. 77 Assim como Zadig o historiador não se depara com o fato histórico pronto a sua espera no arquivo, é preciso articular os vestígios para construir visões possíveis sobre o mesmo. O fato histórico nunca está à espera do historiador, é preciso construí-lo a partir dos interesses de cada autor e da investigação controlada característica da disciplina histórica. Não posso compreender a trajetória de Francisco Ayres da Silva e as formas de vivenciar a modernização em Porto Nacional sem “vê-las estampadas em documentos estrategicamente espalhados no tempo”.78 Nesse sentido, os rastros transformados em documentos são para este trabalho, na sua pretensão de construção do conhecimento histórico, o que a observação direta ou instrumental representou para Zadig. Através deles que se produz o discurso que intenta organizar a “presença faltante” de Francisco Ayres da Silva.79 Na cidade de Porto Nacional, principalmente, bem como noutras cidades dos estados de Tocantins, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Pará, Bahia e Rio de Janeiro, estão esparramados vários rastros da passagem de Francisco Ayres da Silva. A maioria deles procurado e achado, como resultado de uma busca exaustiva conduzida pelos questionamentos. Outros chegaram a minha mão aparentemente por acaso, espécie de prêmio por insistir no percurso da procura, com anúncio revigorante de que minhas preocupações estavam em sincronia com as preocupações de outros trabalhos. Nos diferentes tipos de suporte, seja na forma física ou virtual, organizados sistematicamente ou entulhados aleatoriamente, preservados cuidadosamente, guardados de forma 77 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade - uma história das últimas décadas da escravidão na corte. Op. cit. p. 22-24. 78 Idem, ibdem. p. 22. 79 CERTEAU, Michel apud HARTOG, François. Evidências da história: o que os historiadores veem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011. p. 255. “À semelhança de Robinson Crusoé na praia de sua ilha, diante do vestígio de um pé descalço que deixou uma marca na areia, o historiador percorre as bordas de seu presente; ele visita as praias em que o outro aparece apenas como vestígio do que aconteceu [...] Assim, produz-se o discurso que organiza uma presença faltante.” 48 inapropriada ou abandonados à própria sorte, boa parte desses rastros foram constituídos, instituídos documentos a partir das indagações. Na esteira de Marc Bloch, estive atento para o fato de que “os documentos não surgem, aqui ou ali, por efeito [de não se sabe] qual misterioso decreto dos deuses. Sua presença ou ausência em tais arquivos, em tal biblioteca, em tal solo deriva de causas humanas que não escapam de modo algum à análise”.80 Cada espaço que guarda as marcas do passado do médico e político portuense no presente foi analisado cuidadosamente, no sentido de perceber a história e as relações de poder que envolvem as fontes históricas reunidas. Visto que guardiões da memória, para além de lugar físico ou virtual, é também lugar social, capaz de conferir maior visibilidade a determinados registros em detrimento de outros, de tornar um vestígio em importante documento ou condená-lo ao esquecimento. Os rastros de qualquer atividade têm relação com o meio social que o conserva. Não por acaso o historiador é chamado de “devorador de arquivo”. Foi como tal que garimpei nos arquivos por onde peregrinei, sobretudo, no acervo particular da família Ayres, tudo que poderia se tornar documento, cartas, mapas, bilhetes, rascunhos, fotografias, recibos, escrituras, mobílias etc. Pautado pela definição proposta por Paul Ricoeur, em que se torna documento “tudo que pode ser interrogado pelo historiador com a ideia de nele encontrar uma informação sobre o passado”.81 Paul Ricoeur adverte que o arquivo tem certa autoridade sobre quem o consulta, na decisão sobre o que se deve preservar ou não, na forma como conserva e organiza os vestígios do passado, nas técnicas de classificação, na maneira como estabelece as regras para o acesso, nos prazos de consulta. 82 Enfim, tanto o arquivo público quanto o privado exercem certa imposição sobre o pesquisador, que precisa ser levado em consideração no processo de produção do conhecimento histórico. Os registros da passagem de Francisco Ayres da Silva estão espalhados em diferentes arquivos, dispostos em diferentes formas de conservação, registro e classificação, que dizem respeito ao que sua figura e seu testemunho do passado representam para as respectivas instituições e/ou pessoas responsáveis no presente. Em contrapartida, ainda na esteira de Paul Ricouer, a despeito dos limites 80 BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Op. cit. p. 83. 81 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2007. p. 189. 82 Idem; Ibdem. p. 179. 49 impostos pelo arquivo ao pesquisador, o documento arquivado não sabe a quem se dirigir, passa por pessoas que lhe conferem atenção, mas também por aqueles que não se interessam por ele. Fica na espreita a espera das perguntas, ligadas a projetos de explicação. Para o autor, o (...) documento de arquivo está aberto a quem quer que saiba ler; ele não tem, portanto, um destinatário designado, (...) além disso, o documento que dorme nos arquivos é não somente mudo, mas órfão; os testemunhos que encerra desligaram-se dos autores que os puseram no mundo; estão submetidos aos cuidados de quem tem competência para interrogá-los (...) 83 O jornal Norte de Goyaz constitui o principal documento para esta abordagem historiográfica, principalmente porque serve como fio condutor para apreender a trajetória de Francisco Ayres e as formas de vivenciar a modernização em Porto Nacional, e não no sentido de ter maior valor que outras fontes, numa escala hierárquica valorativa de importância na produção do conhecimento histórico. O jornal Norte de Goyaz se trata de um veículo de comunicação criado para participar dos debates e questões próprias do seu tempo de produção, sem grandes pretensões de longa durabilidade. Ou seja, foi feito inicialmente para as questões do presente a que foi contemporâneo e não para ser arquivado e registrar informações a serem investigadas no porvir, embora em algum momento essa preocupação possa ter sentido, já que hoje serve como fonte histórica, talvez a contragosto daqueles que o puseram no mundo. Focado principalmente nas preocupações do momento, o próprio espaço do jornal nos serve, ele mesmo, como espécie de arquivo em papel e tinta de onde se pode analisar os debates e discursos sobre a cidade, os projetos utópicos (a)típicos da modernidade no século XX, o cotidiano social, cultural, administrativo, político e econômico de uma cidade da então região norte de Goiás, as rivalidades políticas, as visões de mundo, expectativas e decepções. Embora seja um hebdomadário, que jamais esgotaria uma vida, quem dirá uma cidade inteira ou a região norte, esse periódico serve muito bem como fio que conduz para aquilo que se tornou motivo de menção, de divulgação, aquilo que foi colocado em destaque ou negligenciado. Não restam dúvidas que Francisco Ayres da Silva, como jornalista responsável do Norte de Goiaz, deixou marcas da sua vida no Jornal portuense, seja como médico, político, pai de família, religioso, cidadão portuense, comerciante, mecenas, empreendedor etc. O Norte de 83 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Op. cit. 179. 50 Goyaz pode até não ser uma vida, mas são os projetos de uma vida, quem sabe os projetos de um fragmento da cidade portuense e porque não de um estado, ou pelo menos de uma parte dele, travestido em texto escrito e impresso. O jornal supracitado foi escolhido e instituído fio condutor deste trabalho, na questão documental, porque acompanha a trajetória de uma vida pela qual me interesso, porque foi criado para (com)partilhar projetos e visões de mundo com uma região de poucas e/ou diferentes mudanças, num período de intensas transformações em todos os sentidos pelo mundo, porque é, ao mesmo tempo, parte da materialização de sonhos de modernidade e instrumento propagador dos mesmos, porque é, de uma só vez, receptor, emissor e criador de opinião sobre a agenda da época, essa também resultado de construção. Caso Bronislaw Baczko, em A imaginação social, tenha razão sobre a importância e influência dos imaginários sociais como elemento constituinte da realidade, bem como sobre a relevância dos meios que asseguram sua difusão; caso o autor ainda tenha razão quanto à conclusão de que “em e mediante a propaganda moderna, a informação estimula a imaginação social e os imaginários estimulam a informação, contaminando-se uns aos outros numa amálgama extremamente activa, através da qual se exerce o poder simbólico”84, pode-se afirmar que o Norte de Goyaz, em meio às disputas, manipulação das informações e exercício do poder simbólico, serviu como instrumento para controlar, produzir e difundir imaginários e representações sociais, apresentando em seu bojo projetos de sociedade, com valores e crenças a serem interiorizados pelos nortenses. Por isso, a opção por esse jornal, porque assumiu um papel privilegiado na emissão dos discursos de Francisco Ayres da Silva e suas tentativas de manejar as projeções de imaginários no e para o norte goiano de maneira a orientar a sensibilidade da população ampliando sua capacidade de influência sobre os comportamentos individuais e coletivos. Sobre o jornal, Simmel diz que a unidade, em termos de aspecto e significação, se deve a uma personalidade dirigente, mas o jornal é também, principalmente, resultado das mais variadas contribuições de personalidades distintas e estranhas entre si. Como objeto cultural ele surge da atuação de diversas pessoas, como totalidade o jornal não provém de um sujeito anímico. Para o autor, “os elementos reuniram-se como que seguindo uma lógica e intenção de formação – que não foram atribuídos a eles por 84 BACZKO, Bronislaw. A imaginação social. In: Leach, Edmund et Alii. Anthropos-Homem. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. p. 314. 51 seu criador – interior a eles como realidades objetivas”.85 O periódico oferece pistas que levam a outros documentos, sinaliza arquivos a se vasculhar, interlocução entre atores, aponta para os discursos divergentes bem como para as divergências dos discursos, indica as batalhas travadas em papel e tinta com outros periódicos rivais, assim o faz também em relação aos impressos tomados como inspiração e/ou aliados. 86 Comenta os assuntos locais, regionais e mundiais de um ponto de vista peculiar, constrói imagens da cidade concreta e da cidade desejável. A partir do jornal Norte de Goiaz, relacionado e confrontado com outras fontes, é possível fazer um “mergulho nas profundezas de uma época” para analisar os rumos de uma vida em meio às formas, sempre plurais, de vivenciar a modernidade e a modernização. Seguindo as recomendações de Robert Darnton, influenciado pela antropologia, analisando-se os documentos nas suas dimensões de maior opacidade é que se pode descobrir um sistema de significados “estranho”, sob o ponto de vista de quem observa, e assim acessar o universo mental complexo que envolveu Francisco Ayres da Silva, seus contemporâneos e conterrâneos. Os significados da modernidade em seus múltiplos e complexos aspectos certamente assumiram na região norte de Goiás e no periódico que leva o mesmo nome configurações estranhas 87 , ou seja, não compreensíveis ao primeiro olhar para a maioria das pessoas de outras épocas, e por que não de outros lugares. Mas, conforme apontou Darnton, é diante daquilo que aparece de forma incompreensível, nebulosa e/ou bizarra que se tem a certeza de que algo relevante sobre o passado foi encontrado. 88 1.3 DAS ESTRATÉGIAS DE APROXIMAÇÃO AO BIOGRAFADO: A VIDA POR TRÁS DO NOME 85 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.19. 86 ALONSO, Angela. “Crítica e mobilização”. In. Ideias em movimento. A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 277. ; CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana 1890-1915. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2000. 87 Estranho aqui também pode ser entendido conforme destacou Zygmunt Bauman, ou seja, algo que surge na ambivalência e nos permite desviar de uma analise dualista do mundo. Que possibilita subverter escapar das interpretações dicotômicas. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. In: FEATHERSTONE, Mike (cord.). Cultura Global. Nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 155-182. Conforme Márica Regina Capelari Naxara, apontou usando o mesmo termo: o estranho não se acomoda ou se deixa acomodar com facilidade; não é repelido como um outro e não é, ou dificilmente é, assimilado como igual. NAXARA, Márcia Regina Capelari. Pertencimento e alteridade: romance e formação – leituras de Brasil. In: NAXARA, Márcia Regina Capelari; MARSON, Isabel Andrade; MAGALHÃES, Marion Brepohl de (orgs.). Figurações do outro na história. Uberlândia: EDUFU, 2009. p.244. 88 DARNTON, Robert. O grande Massacre dos gatos: e outros episódios da História Cultural Francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. XIV, XV. 52 Ao tratar sobre os caminhos de Francisco Ayres da Silva, antes dos títulos e funções que o transformaram no Dr. Francisco Ayres da Silva, levo em consideração a crítica feita pelo sociólogo Pierre Bourdieu, no texto A ilusão biográfica, sobre uma prática comum nas produções que se dedicam a contar a história de uma vida. De acordo com o autor, é preciso evitar o caminho previamente orientado, já definido de antemão, que busca, nos acontecimentos de uma vida, com significados e direção já preestabelecidos, os elementos que confirmam ou condizem com a imagem já consagrada do sujeito. Pierre Bourdieu critica a postura que consiste em evidenciar tudo aquilo que corresponde a um fim específico, que tenta conferir, a partir da escrita, continuidade, essência e previsibilidade para existência do biografado. 89 Assumir tal posicionamento seria qualquer coisa como mostrar que Francisco Ayres da Silva, desde criança, apresentava características de médico, jornalista e deputado. Não conformado com essa ilusão retórica é que procuro ponderar que os caminhos assumidos por Francisco Ayres são mais resultados das possibilidades que estavam disponíveis em sua época, do que propriamente fruto de escolha pessoal baseada na aptidão, predisposição e vocação para determinadas áreas e funções. A primeira questão que salta aos olhos é a razão pela qual não se encontram, nos arquivos e livros que o citam, muitos registros sobre sua infância e adolescência. Sua visibilidade na fase adulta, sobretudo quando já havia se sagrado médico, jornalista e político, é disparadamente maior do que quando era apenas o filho do Coronel Joaquim Ayres da Silva. Certamente isso ocorre em virtude daquilo que se considera como digno de lembrança, ou seja, o momento em que a figura de Francisco Ayres da Silva ganha proeminência no cenário estadual, quando ganha distinção devido aos títulos associados ao seu nome. O interesse maior em sua figura se dá no exato momento em que começa a participar, de forma mais efetiva, nas decisões políticas de Porto Nacional e da então região compreendida como Norte de Goiás. Pouco se sabe dos caminhos percorridos por ele nos últimos anos do século XIX até se tornar umas das figuras mais distintas daquelas paragens, no período que compreende os primeiros anos do século XX. A ausência de documentos sobre o período anterior a sua fase adulta tem alguns significados que gostaria de destacar. Primeiro, a imprevisibilidade de que este sujeito 89 BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, J. ; FERREIRA, M (Coord.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 183-191. 53 possuiria um nome próprio, que o tiraria da vala comum. Caso houvesse garantias de que Francisco Ayres da Silva se tornaria o Dr. Francisco Ayres da Silva, os vestígios deixados quando ainda era apenas um garoto portuense, com tenra idade, provavelmente seriam arquivados. Segundo significado, os acervos de Porto Nacional dão especial atenção aos aspectos da memória política e econômica, o que acredito não ser uma peculiaridade apenas daquela cidade. Terceiro, que a memória de Ayres só interessa na medida em que promova de alguma maneira a cidade Portuense, dando a entender que seu nascimento ocorre junto com a obtenção do título de médico, ou com a criação do Jornal Norte de Goyaz. Certamente se faz necessário perscrutar a vida pregressa de Ayres antes da fase da maturidade adulta, porque expressa particularidades daquela época, importantes na definição dos contornos que ajudam a tornar mais inteligível o campo de possibilidades de ação numa região central do Brasil em plena configuração. Por isso dedico certa atenção para esse momento pouco documentado da trajetória do personagem/sujeito social em questão. Foi preciso escarafunchar os acervos para encontrar os rastros dessa passagem que estão, em boa parte, espalhados nos periódicos que circularam pelo país, especialmente, no Estado de Goiás, em meados do Século XIX, mas que agora servem como documentos reunidos para tratar sobre a história de uma vida, embora tenham sido arquivados com outros propósitos. Então vejamos o que foi possível mapear da vida de Francisco Ayres da Silva antes do título de doutor, do veículo de comunicação que dirigiu e dos cargos políticos que ocupou. Francisco Ayres da Silva nasceu na cidade de Porto Imperial, pouco mais de uma década depois do momento em que aquele lugar deixaria a condição de Vila, do ponto de vista legal, para adquirir o status de cidade. 90 Nos anos de 1870, Porto Imperial era uma das oito cidades que constituíam a organização administrativa da Província de Goiás. 91 É interessante observar que Francisco Ayres nasceu numa cidade que acompanhou, através do próprio nome, todo o debate político e administrativo na história do Brasil oitocentista. Quem sabe uma das poucas cidades que teve o nome alterado em razão das principais mudanças políticas e administrativas, que expressa a atenção por parte das autoridades, em todos os níveis, para com o lugar. Antes de ser denominada Porto Imperial, o lugar era uma vila chamada Porto Real. Foi no contexto do processo de 90 Conforme resolução provincial lei n. 333 de 13 de Julho de 1861. 91 Correio Official. Goyaz, 21/03/1874, p. 3. 54 emancipação política do Brasil, durante as primeiras décadas do século XIX, como uma forma de estabelecer, pela via legal, o domínio do Império sob aquele lugar, mesmo diante dos diferentes projetos que concorriam na província de Goiás, com o Império Brasileiro ainda em construção, que se tornou então Porto Imperial 92 , como forma de demarcação de território, estratégia para o estabelecimento do poder e domínio do governo Imperial de um país emancipado politicamente, até mesmo nos lugares mais distantes do Rio de Janeiro, naquele momento o centro do poder e capital do país. Sendo assim, Francisco Ayres da Silva, com nascimento registrado em 11 de setembro de 1872, tem como palco inicial de sua formação uma cidade da província de Goiás, que ainda estava se construindo enquanto tal. Mas que, mesmo assim, já gozava de certo destaque para a realidade de Goiás, sobretudo porque era uma das pouquíssimas cidades que se localizavam na região chamada de Alto-Tocantins, talvez uma das primeiras definições do que se configurou como Norte de Goiás. O Rio Tocantins, como referência para aquele espaço ocupado, é significativo na medida em que teve papel decisivo para visibilidade da cidade Porto Imperial. Devido a ligação com o rio, foi possível desenvolver atividades comerciais, especialmente com o estado do Pará, e de influência sobre as Vilas e Povoados que o cercavam. Tendo em vista que naquele contexto, as poucas ações efetuadas em termo de transporte, no nível de Goiás, estavam relacionadas com a navegação fluvial, por isso o Rio Tocantins era visto como uma via de esperança para possibilidades de desenvolvimento econômico da província, e consequentemente para o Brasil. 93 De acordo com a autora Ana Lucia da Silva, Porto Imperial era um município estratégico comercialmente em relação ao norte, “por ser importante porto do Rio Tocantins, seus comerciantes possuíam flotilhas cujas embarcações de 18, 20 e 24 toneladas, que desciam até Belém, estabelecendo um ativo comércio entre Goiás e Pará”.94 A cidade em que Francisco Ayres da Silva nasceu já tinha lugar de destaque na organização administrativa da província de Goiás, embora não tão próxima da Cidade 92 Mais informações sobre como foi o processo de emancipação política do Brasil, na província de Goiás, ver: VIEIRA, Martha Victor. O movimento separatista do Norte Goiano (1821-1823): Desconstruindo o discurso fundador da formação Territorial do Estado do Tocantins. In. Revista Sapiência: sociedade, saberes e práticas educacionais. UEG/Unu Iporá, v. 3, n. 1, p.63-84 – jan/jun 2014, ISSN2238-3565.; ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Anais da Província de Goiás (1863). Brasília: Gráfica Ipiranga, 1979.; RIBEIRO, Fabrízio de Almeida. A invenção do Tocantins: memória, história e representação. Goiânia. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal de Goiás, 2001. 93 OLIVEIRA, Maria de Fátima. Cidades Ribeirinhas do Rio Tocantins: Identidades e fronteiras. Goiânia. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Goiás, 2007. p. 77-135. 94 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. Goiânia: Cânone Editorial, 2005. p. 79. 55 de Goyaz, como as cidades da região sul, mas também não tão distante da Capital como a cidade Boa Vista, do extremo norte, atual Tocantinópolis. Porto Imperial era uma das sedes na divisão política e administrativa, e uma das comarcas na divisão judiciária que ocupava a região do Araguaia e Tocantins. Conforme indicou a autora Ana Lucia da Silva, em meados do século XIX, Porto Imperial, apesar de exercer figura de destaque e influência no norte de Goiás, já era menos desenvolvida, do ponto de vista econômico, que a maioria das cidades da região sul, visto que estas estavam mais próximas das regiões economicamente mais dinâmicas do país naquele momento, como por exemplo, Minas Gerais e São Paulo. 95 É significativa a década em que Francisco Ayres da Silva veio ao mundo, trata- se de um período em que algumas mudanças ocorreram no Brasil, que resvalaram de uma maneira ou de outra na província de Goiás, acabando por preparar o terreno que tornou possível alguns dos caminhos posteriormente trilhados pelo então recém- 95 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 87-88. De acordo com Ana Lucia da Silva, que toma como referência as bacias hidrográficas do Tocantins e Araguaia, acima do paralelo 16, a província de Goiás se dividia em região centro-norte e região sul. A região norte, que abrange a região do Planalto, o nordeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia e o extremo norte do estado. A região sul, que abrange o Mato Grosso Goiano, o sudoeste e o sudeste. Segundo a autora: “Em 1872, a região centro-norte abrangia 60% do território goiano. Os habitantes somavam 72.807 pessoas, que representavam 40% da população global. A área compreendia 14 unidades municipais. Pode-se dividir a região em duas áreas de ocupação: 1. A faixa centro-oriental, com cerca de 80.430 Km², dividida em 8 municípios: Formosa, Forte, Posse, Cavalcante, São Domingos, Arraias, Taguatinga e Conceição. A população totalizava 39.298 habitantes. A comunicação com o sul da província era feita pela estrada do norte que, partindo de Meia Ponte, passava pelas vilas de Cavalcante, Arraias, Conceição, e arraial de São Miguel das Almas. Outra estrada partia de Santa Luzia em direção a Vila Formosa da Imperatriz, alcançando pelo vão do Paranã a povoação do Chapéu e a vila de Arraias. As articulações econômicas da região eram principalmente com a Bahia e Pernambuco, para onde exportavam gado e de onde importavam sal, ferragens, secos e molhados. Por meio de Formosa da Imperatriz, via Paracatu, a região ligava-se também com Minas, para onde exportava gado. 2. A região do Araguaia e Tocantins, com uma população de 33.590 habitantes, espalhada em 302.007 km², compreendendo os municípios de Pilar, São José do Tocantins, Palma, Natividade, Porto Imperial e Boa Vista. As articulações da região eram principalmente com o Pará, por meio da exportação de gado, couros, peles e da importação de produtos manufaturados essenciais ao consumo. As comunicações inter- regionais eram feitas utilizando-se os rios que servem a região. No mesmo período a região sul do estado abrangia 40% do território, com uma população de 87.588 habitantes, formada por 12 unidades administrativas. Era a área economicamente mais desenvolvida já que a região gozava de melhores condições naturais (...) E, principalmente, a região se beneficiava de sua proximidade com as regiões mais dinâmicas da economia nacional, com as quais mantinha relações econômicas constantes por intermédio do comércio de exportação e importação, além de beneficiar-se de constantes fluxos migratórios, que se deslocavam para a região atraídos pela fertilidade do solo. Convém notar porém que excetuando-se o sudoeste, a área estava relativamente ocupada, tendo administrativamente 13 municípios: Goiás (capital), Jaraguá, Meia Ponte, Bonfim, Pouso Alto, Vila Bela de Morrinhos, Santa Cruz, Santa Luzia, Entre Rios, Catalão, Pilar, Rio Verde e Rio Bonito. Suas estradas interligavam os núcleos sedes dos municípios e os articulavam com a Corte. A estrada do sul, que conduzia a província de São Paulo, ligava a caital a arraia de Anicuns e à Vila Bela de Morrinhos e daí ao Paranaíba, continuando pelo Triângulo, rumo a São Paulo. A estrada do sudeste, saindo da capital, passava por Meia Ponte, Jaraguá, Corumbá, Santa Luzia, Bonfim, Santa Cruz, Entre Rios, Catalão e depois Minas.” SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 87-88. 56 chegado cidadão portuense. Não se trata necessariamente de mudanças efetivas na política, mas, no mínimo, de se olhar para a forma como a configuração política brasileira sofreu alterações. A historiadora Angela Alonso, na obra Ideias em Movimento, ajuda a pensar o Brasil nessa década de 1870, quando o desmoronamento do Império se tornava cada vez mais evidente. Enquanto Francisco Ayres da Silva estava nos primeiros anos de vida, havia crise no Império, surgiram vários grupos de contestação ao status quo imperial que se organizavam em torno de partidos, clubes, associações, jornais, entre outros. Isso não quer dizer que antes não havia críticas à tradição imperial, contra a escravidão e monarquia, bem como a defesa da República, no entanto, essas críticas foram acentuadas e ganharam grande visibilidade e circulação através das mobilizações por meio de passeatas, recitais, banquetes, comícios, viagens, obras de interpretação de conjuntura etc. As autoridades goianas estavam atentas aos novos rumos dos debates, sobretudo em razão das possíveis alianças políticas que seriam necessárias para manutenção e ampliação do poder. Essas mobilizações se alastraram pelo país de forma descentralizada, porém, não anárquica do ponto de vista doutrinário, através do que a autora chama de redes informais de solidariedade, que deram suporte aos movimentos de contestação para germinarem nas diversas províncias do país apontando para uma nova forma de fazer política. 96 Segundo a autora, trata-se de um contexto em que se acentuou a urbanização e aumentou o acesso ao ensino superior, de maneira que as instituições de ensino se tornaram meios de ação, mais úteis do que a própria política. Formaram-se então grupos contestadores que ambicionavam mais as novas possibilidades de poder frente à marginalização política característica do Segundo Reinado do que efetivamente novas alternativas políticas. De maneira que a formação dos grupos não se explica tanto pelas ideias, mas sim pelas oportunidades políticas que cada grupo poderia oferecer, estabeleceu-se, portanto, uma nítida política de oportunismo. Por isso em Goiás, principalmente a partir desse momento, tornou-se difícil, praticamente impossível, compreender o trânsito dos membros de um grupo para o outro pela lógica das ideias, mas nem tanto pela lógica da oportunidade política. Goiás era uma província que sofria marginalização política e viu nessa guerra contra o regime monárquico uma forma de 96 ALONSO, Angela. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 265-268. 57 mudar a situação. 97 No seu relacionamento com as províncias, a política imperial brasileira caracterizou-se pela imposição de presidentes. Eles normalmente não tinham nenhuma representatividade e legitimidade local. Mesmo que os grupos locais se beneficiassem da política econômica imperial, a partir da década de 1870 buscaram se articular em algumas tendências partidárias, a fim de exercerem maior influência junto ao poder politico local, tentando controla-lo. Não possuindo interesses econômicos fundamentalmente divergentes, na medida em que pertenciam à classe dominante agropastoril, as lutas entre as diferentes facções locais travam-se na instância política. 98 As alianças, rupturas, articulações, rearticulações, conflitos, dissidências entre as classes dominantes se tornaram mais frequentes e intensas nos últimos anos da Monarquia. Não houve homogeneidade de pensamento nos movimentos contestadores do regime monárquico, os projetos que se apresentaram pelo Brasil são diversos, por vezes contraditórios, unificados, em certo sentido, apenas pelo antagonista, ou seja, pela crítica e oposição à tradição imperial que limitava o acesso de muitos ao poder político. 99 Goiás entra nessa discussão como uma província pouco assistida pela corte imperial, que deu eco às insatisfações dos grupos oligárquicos por maior participação no poder e controle. Embora Goiás não tenha se transformado de forma significativa do ponto de vista da estrutura social e econômica, as ideias republicanas ganharam espaço no cerne das oligarquias dominantes, resultando num emaranhado de posições dentro de tendências partidárias, todavia nenhuma delas ameaçou diretamente os interesses da elite agrária e comercial goiana. Enquanto Francisco Ayres da Silva crescia em estatura, cresciam também os debates sobre Abolicionismo, República, Monarquia, Federalismo, Positivismo, reformas, revolução dentre outros temas. As questões nacionais eram discutidas não apenas na capital do império, mas também nas províncias, cada um interpretando as 97 Idem; ibdem; p. 268. 98 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 61-63 99 Para Angela Alonso existia uma pluralidade de projetos que conviviam e concorriam. Havia aqueles que defendiam a revolução, outros que queriam apenas reformas, alguns que desejavam simplesmente medidas pontuais, outros que dissociavam República de Abolição, como também aqueles que defendiam a indissociabilidade entre a Abolição e República. Para alguns o momento ainda não era ideal para a República, defendendo uma implementação gradual das reformas possíveis na monarquia, sob a responsabilidade dos republicanos. ALONSO, Angela. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Op. cit. p. 320- 322. 58 informações conforme seus próprios interesses. 100 Conforme elucida Maria Tereza Chaves de Mello, para além das questões de dimensão política, social e econômica é necessário observar o sistema simbólico que tomou forma nesse momento de crise do Império. Trata-se de um quadro de “disposição mental para o novo, socialmente difundida no Brasil do final do Oitocentos. A palavra de ordem era, então, reforma. Reformas para acelerar o advento do télos – de qualquer maneira inevitável, segundo entendiam – do progresso e civilização”.101 Prevaleceu a ideia de que as reformas eram absolutamente indispensáveis para uma construção futura, porém, irrealizáveis pelo regime monárquico e suas instituições, que foram severamente dessacralizadas e desestabilizadas. Goiás, nesse contexto, foi invadido por um novo repertório intelectual, mas também adaptou, criou e disseminou a seu modo, não necessariamente nessa ordem, as chamadas “ideias novas”, “ideias avançadas”, sobre o progresso, o futuro rumo à civilização, à democratização, que foram atreladas à República e incorporadas aos discursos dos liberais, conservadores ou republicanos. A percepção da crise monárquica e das suas instituições foi acompanhada por uma percepção de futuro que almejava reformas que colocariam o país no “nível do século”, adequando o estado de Goiás à civilização. O cenário internacional quanto à modernização entendida como expressão material da modernidade, urbanização e novas tecnologias contribuiu para promover um clamor pelo progresso, associado ao debate político, mas não limitado a ele. 102 As contestações, as manifestações, o novo clima, a percepção do progresso que ocupou a consciência dos goianos a partir da década de 1870 se consolidaram na década de 1880 e perduraram mesmo depois do advento da República. Poucas mudanças provocaram na organização política, visto que a facção dos Bulhões 103 permaneceu no poder sempre se 100 Mais informações sobre os últimos anos do Império ver: MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República consentida: cultura democrática e cientifica do final do Império. Rio de Janeiro: Editora FGV; Editora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2007.; GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial. Vol. II e III. (1831-1870). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. 101 MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República consentida: cultura democrática e cientifica do final do Império. Rio de Janeiro: Editora FGV; Editora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2007. p. 10. 102 Idem; ibdem; p. 14, 125. 103 Aqui se faz necessária uma rápida e geral apresentação sobre os principais grupos políticos da história de Goiás no período estudado. Dentre outras famílias e/ou oligarquias existentes no estado de Goiás, duas se destacaram, são elas: os Bulhões e os Caiados, que dominaram e se afirmaram no cenário político desde o período imperial, e de uma maneira ou de outra, até a contemporaneidade, visto que ainda exercem forte influência política no estado goiano e, por conseguinte, na esfera federal. A melhor, não a única, expressão dessa máxima pode ser personificada na figura do atual senador Ronaldo Caiado. Para se ter uma ideia Lena Castelo Branco estabeleceu como marcos de sua obra em Paixão e Poder: a saga dos 59 Caiados (2009), os anos de 1770 a 1960, respectivamente o ano do registro de uma sesmaria concedida a Manoel Cayado de Souza e o ano da inauguração de Brasília, fixada pelo deputado federal Eival Caiado. Durante o período ao qual este estudo se dedica as duas famílias exerceram a hegemonia no poder e garantiram a manutenção dessa condição, principalmente porque controlaram os principais meios de comunicação, os mais altos cargos políticos, construíram uma consistente rede de poder a nível local, estadual e nacional, entre outros fatores. Os Bulhões e Caiados representaram duas forças que conviveram e concorreram na história política goiana, hora se afastavam e hora se aproximavam, ao sabor das circunstâncias. As duas oligarquias se revezaram no poder, mas também o compartilharam em alguns momentos, como nas ocasiões em que dividiram entre si a direção do estado para garantir a permanência no poder frente às ameaças ou inimigos em comum. Alternaram com certa frequência, sempre que conveniente, entre as posições de aliados e adversários, situação e oposição, disputaram a liderança em partidos diferentes, mas também no interior do mesmo partido, como ocorreu no Partido Democrata. De um lado, a oligarquia dos Bulhões e, de outro, ainda que nem sempre oposto, os Caiados, em meio a essas relações de poder se constituiu a família Ayres. Como veremos no decorrer desse trabalho, nas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, a família Ayres se equilibra em meio a essas duas forças, assumindo papel relevante na dinâmica política de Goiás. Participou ativamente do jogo político, constituindo-se como peça importante em meio às disputas entre as oligarquias supracitadas, especialmente como extensão das mesmas no norte do estado. Ou seja, grupo coronelístico local, com forte influência regional articulado às facções dominantes para auxiliar na difusão de ideias, imposição de interesses, distribuição de jornais, controle do processo eleitoral, adesão de votos, criação e aplicação das leis, combate aos adversários, organização administrativa, articulação dos partidos no norte goiano entre outros mecanismos típicos da rede de poder baseada no pacto oligárquico-coronelista. A seguir, apresento sucintamente alguns marcos da alternância das duas oligarquias no poder, apenas para orientar os leitores que desconhecem absolutamente a história política de Goiás: Desde 1830 a oligarquia Bulhões se manteve organizada de forma familiocrática, mas foi entre 1889 a 1912 que os Bulhões se consolidaram no poder. Apesar de algumas dissidências, os membros da família ocuparam a presidência do Estado durante esse período com raras exceções, para isso contavam com o apoio de outros grupos oligárquicos dentre os quais, os Caiados. Em 1892, por exemplo, venceram as eleições tendo Leopoldo de Bulhões como presidente e Antônio José Caiado de vice. Em 1897 ocorre uma ruptura entre os Caiados e os Bulhões, devido à cassação do mandato de um integrante do grupo caiadista, bem como pelo desejo dos Caiado em ocupar espaço mais proeminente e não simplesmente um lugar secundário no domínio dos Bulhões. Até 1905, o cenário favoreceu a consolidação dos Caiados. Entre os anos de 1909 a 1912 houve uma reaproximação das oligarquias para derrubar o grupo de Xavier de Almeida que, a partir de 1906 aproximadamente, ameaçou a hegemonia do grupo bulhônico. Após um período de certa instabilidade, caracterizado por lutas entre as oligarquias pelo controle político de Goiás, a oligarquia Caiado ganha força, especialmente a partir de 1914, e assume a hegemonia política a partir de 1917, dominando a estrutura do poder, em meio a lutas, divergências, dissidências, contestações e rupturas, até 1930 quando o movimento de 1930 derrota a oligarquia caiadista. Após esse período os caiados se tornaram em Goiás forte oposição dos aliados de Getúlio Vargas no estado, sobretudo de Pedro Ludovico. Para alguns estudiosos como Victor Amorim o período que compreende 1912-1926 é marcado pelo domínio de Eugênio Rodrigues Jardim e não de Antônio Ramos Caiado, que apenas se tornou a principal liderança após a morte do primeiro. O que, em minha opinião, embora tenha pensamento divergente, não altera a hegemonia Caiado, vez que a liderança de Eugênio Rodrigues Jardim se configura como parte dela, já que o mesmo era casado com a irmã de Antônio Ramos Caiado, vulgo Totó, chamada Diva Fagundes Caiado. Para saber mais sobre Bulhões e Caiados, ver: BRANCO, Lena Castello. Poder e paixão: a saga dos Caiado. Goiânia: Cânone Editorial, 2009. RIBEIRO, Mírian Bianca Amaral. Memória, família e poder: História de uma permanência política – os Caiado em Goiás. Goiânia: UFG, 1996. Dissertação de Mestrado.; ROSA, Maria Luisa Araújo. Dos Bulhões aos Caiados. Goiânia: Editora da UFG, 1984.; FREITAS, Lena Castelo Branco Ferreira de. Poder e Paixão: a saga dos Caiado. Goiânia: Cânone Editora, 2010.; AMORIM, Victor. A história panfletária em Goiás. In: Jornal Opção, ed. 1933. 22-28/07/2012. Disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-historia-panfletaria-de-goias-. Acesso em: 25/11/2015.; RIBEIRO, Mírian Bianca Amaral. Memória, família e poder: História de uma permanência política – os Caiado em Goiás. Goiânia: UFG, l996. Dissertação de Mestrado.; SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. Goiânia: Cânone Editorial, 2005.; JERÔNIMO, Marilena Julimar Ap. Fernandes. Pedro Ludovico X Antônio (Totó) Ramos Caiado: memórias, ressentimentos, esquecimentos e 60 equilibrando e articulando com os grupos coronelísticos locais, mas mudaram o contorno dos debates, de maneira que não havia mais como ignorar as novas ideias seja qual fosse o interesse. Mas, qual a relação desse contexto, dos últimos anos da monarquia, com a vida de Francisco Ayres da Silva? Foi justamente nessa realidade, como morador de um pequeno núcleo urbano no interior de Goiás, predominantemente rural, que ele se formou, sentindo e acompanhando em seu próprio cotidiano, bem como no cotidiano daqueles que o cercavam, as implicações do período, que, para seus contemporâneos, estava repleto de incertezas quanto aos possíveis desdobramentos. Obviamente que Francisco Ayres não se ajustava completamente ao seu tempo, mas não há como negar que as marcas de seu tempo, de alguma forma, não tenham interferido em suas escolhas. Os movimentos contestatórios, as manifestações contra as instituições monárquicas, a percepção do progresso e as ideias novas, que incendiaram os debates inclusive políticos, entraram em Goiás por todos os lados, não apenas pelo Rio de Janeiro. Muitas dessas questões antes de se assentar em terreno goiano passaram pelo filtro de outros estados como Pará, Maranhão, Bahia, Piauí, Mato Grosso, Minas Gerais. Mas é necessário destacar o que considero as três principais mudanças que provocaram em Goiás e que se relacionam diretamente com Ayres. A primeira se trata da ampliação do acesso ao ensino superior, houve uma valorização da formação superior como elemento de distinção e ascensão social, que passou a ser o caminho para os membros das famílias mais abastadas que podiam ser bancados durante a formação superior. Além de distinguir socialmente, a formação superior conferia a detenção do saber autorizado tão importante naquele momento de valorização da ciência e da razão. Foi para muitos jovens da época uma alternativa diante da incerteza de uma carreira política, e ao mesmo tempo um facilitador para encurtar o caminho para inserção nos tão ambicionados cargos políticos. Esse aspecto foi um dos elementos responsáveis por aumentar a movimentação, sobretudo da elite goiana, para outras regiões do Brasil, especialmente nas metrópoles. Segunda mudança perceptível em Goiás se deu em relação às regras do jogo político, que se transformaram gradativamente, estava em formação um pequeno espaço público em que as questões eram discutidas, em sintonia com os debates e temáticas silêncios (1930-1970). Goiânia: UFG, 2013. Tese de doutorado em História, Universidade Federal de Goiás – PPGH.; MORAES, Maria Augusta Santana. História de uma oligarquia: os bulhões. Goiânia: Oriente, 1974.; CAMPOS, Francisco Itami. Coronelismo em Goiás. Goiânia: Editora da UFG, 1987. 61 nacionais, com significativa importância para legitimação do poder e das ações governamentais. Não que isso tenha minado a política do mando, pelo contrário, conferiu a ela uma nova roupagem para se perpetuar por mais tempo. No contexto do final do Império, as oligarquias goianas se agitaram, tornando mais intensas do que qualquer outro período anterior as movimentações em torno da construção de partidos, a agitação em torno dos jornais, as articulações políticas com grupos coronelísticos locais para manutenção do poder, as dissidências, em outras palavras, para colocar os interesses de um pequeno grupo em negociação com a população foi necessário algo mais do que simplesmente o poder econômico associado ao político. 104 Nesse sentido, soma-se à redefinição das regras do jogo político, a incorporação em projetos e discursos, os mais divergentes possíveis, das temáticas do momento, civilização, progresso, melhoramentos, liberdade, adiantamento da sociedade e demais elementos considerados modernos que tornaram para muitos, sobretudo aqueles que se articulavam via imprensa, bandeira de luta e estratégia para justificar ações e interesses. 105 Não estou com isso ignorando o fato de que a cultura patriarcal, coronelística, autoritária fortemente presente e característica de um espaço ainda predominantemente rural, foi transposta para o espaço público, entendido como Estado que, por sua vez, estava em pleno processo de formação. Levo em consideração as contribuições de Sergio Buarque de Holanda, quando afirma que houve uma invasão do privado sobre o público, tornando esses domínios de tal maneira confundidos que se tornou difícil distingui-los. Como se verá em alguns exemplos pontuais ao longo do texto, continuou recorrente a tentativa por vezes exitosa de tornar a esfera pública em grande medida uma extensão do familiar. 106 O que estou afirmando é que mesmo diante dessa realidade os supracitados conceitos da modernidade foram debatidos. Alguns jornais do final do século XIX, criados, sustentados e controlados pelas famílias mais poderosas do estado, como Goyaz, Correio Official, A tribuna Livre de Goiás, a Gazeta Goyana, Publicador Goyano, entre outros, testificam essa máxima. Tendo em vista o propósito desse estudo, seria demasiado e enfadonho discutir tal assertiva mais a fundo, por isso me limitarei ao 104 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 61-82. 105 Todos os jornais pesquisados evidenciam essa afirmação. No entanto, é preciso destacar que nos últimos anos do Império e primeiros anos da República, as noções que os termos citados carregavam não estavam acabadas e definidas, pelo contrário, estavam em construção e por isso em disputa. Não havia consenso sobre o que era considerado moderno, civilizado, progresso, liberdade, entre outros, mas muitos queriam ter o poder de definir. Posteriormente isso será tratado de forma mais acurada, sobretudo quando tentarei analisar como Francisco Ayres da Silva entendeu e utilizou alguns desses termos. 106 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das letras, 1995. p. 145. 62 já exposto, embora ela reapareça sutilmente mais adiante no desenrolar da narrativa. A terceira e última mudança provocada em Goiás com implicações para Francisco Ayres da Silva, que considero importante apontar, tem relação direta com a segunda. Trata-se da proliferação de periódicos e a redefinição do seu uso, bem como a construção de um terreno propício para consolidação do espaço jornalístico em Goiás. A mudança nas regras do jogo político contribuiu para ampliação dos jornais na província de Goiás, e também do seu público. Era intensa a atividade política por meio dos jornais, a imprensa escrita tornou-se espaço privilegiado para se expressar opinião, uma forma de se inserir nos debates, serviu como o principal palanque para propagar ideias, projetos e indivíduos, para defender aliados ou combater inimigos. O principal instrumento de luta na disputa pelo poder funcionou como peça fundamental e indispensável para manutenção dos que já estavam no controle político do estado, bem como para aqueles que o almejavam. 107 No contexto de modernização da imprensa no Brasil, 108 Goiás foi palco de uma verdadeira guerra simbólica, travada por batalhas em papel e tinta. Muitos jornais foram criados ou sustentados pelos diferentes grupos políticos e tendências partidárias, havia ainda outros periódicos de caráter mais independentes, politicamente, que desferiam suas críticas para todos os lados. Em todos eles as “novas ideias” circularam largamente, com diferentes formas, variando de acordo com os interesses daqueles que os produziam e/ou financiavam. O fato é que, com jornais de maior ou menor tempo de duração, com maior ou menor poder de alcance, com maior ou menor tiragem, com maior ou menor circulação, dispondo ou não dos melhores recursos disponíveis para época, vinculados ou não ao poder instituído, com maior ou menor atenção às causas políticas se estabeleceu em Goiás um produtivo campo jornalístico, a partir de 1870. 109 Os jornais se tornaram para muitos goianos uma ponte para iniciar a carreira política, especialmente para os egressos das faculdades que, ao retornarem para sua terra 107 ALONSO, Angela. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Op. cit. p. 277-282 108 Sobre a modernização da imprensa no Brasil a partir de meados do Século XIX ver: BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica. São Paulo: IBRASA, 1972.; MARTINS, Ana Luiza. Imprensa em tempo de Império. In. LUCA, Tânia Regina de; MARTINS, Ana Luiza (organizadoras). História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008.; SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4° edição. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 1999.; SUSSEKIND, Flora. Cinematógrafo de Letras: literatura, técnica e modernização no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. 109 A partir da década de 1870 surgiram em Goiás folhas impressas como: A tribuna livre, Alto Araguaya, Correio Official de Goyaz, Semanario Official, Revista do Instituto Histórico de Goianna, O Monitor Goiano, O Comércio, Província de Goyaz, A Thesoura, A união, Goyaz: Orgam do Partido Liberal, o Porvir, Bocayuca, Amanak de Goyaz, O Libertador, entre outros. 63 natal, valiam-se das folhas impressas para serem vistos e ouvidos, para então galgarem uma posição de maior destaque no cenário político. A imprensa em Goiás se tornou, para a maioria dos que com ela se envolviam, sinônimo de visibilidade e poder. Em linhas gerais, foi nesse contexto que Francisco Ayres da Silva nasceu e teve suas primeiras experiências como um dos filhos mais velhos de Joaquim Ayres da Silva e Raquel Pinto Cerqueira Ayres. Antes de se tornar o aclamado médico, jornalista e deputado, necessariamente nessa ordem, faz-se preciso compreender o que significou na vida de Francisco Ayres ser filho de um coronel de Porto Imperial. 1.4 VIDA NO NOME: O LEGADO DE JOAQUIM AYRES DA SILVA O pai, Joaquim Ayres da Silva nasceu em 11 de maio de 1835, na freguesia de Nossa Senhora do Carmo, ou apenas Arraial do Carmo. Filho de João Ayres da Silva e D. Caetana de Oliveira Negry, ainda criança cursou estudos elementares em Natividade, já que Arraial do Carmo não oferecia naquela época possibilidades para tal instrução pela falta de professor. 110 Arraial do Carmo, juntamente com Arraial do Pontal, ou Bom Jesus do Pontal, foram importantes áreas de extração mineral no século XVIII, que propiciaram o surgimento de Porto Real, inicialmente como ponto de passagem e apoio entre as duas áreas de mineração. Ainda jovem, possivelmente seguindo os passos dos pais, Joaquim Ayres da Silva se dedica à atividade comercial no Estado da Bahia, só mais tarde retornando para Goiás, não para o Arraial do Carmo, muito menos para Natividade, mas para Porto Imperial, onde fixa residência, constitui sua família com Raquel Pinto de Cerqueira Ayres e se consolida como importante comerciante da região, fazendo negócios entre as localidades de Goiás, mas principalmente com Belém do Pará, comércio favorecido para os habitantes daquela cidade devido sua maior proximidade com o Rio Tocantins. 111 110 OLIVEIRA, Maria de Fátima. Entre o sertão e o litoral: cultura e cotidiano em Porto Nacional. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2010. p. 73. 111 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906, p.1; O Frei Reginaldo Tournier, escrevendo sobre o território de Porto Nacional em 1906, dá indícios da razão da mudança de Joaquim Ayres para Porto, ao definir o Arraial do Carmo da seguinte maneira: “Quando o viajante despede-se da cidade do Porto Nacional e dirige-se para o nascente, folgado, em menos de um dia de viagem, alcança elle o Arraial do Carmo. Antiga Metropolis, há apenas um meio século tão opulenta e animada, ella dorme hoje um somno não de morte mas de descanso, sepultando pouco a pouco debaixo de entulhos malvaíscos casas grandes e ricos quintaes, depois de ter dado asylo aos antigos moradores nas cryptas duma igreja sem comparação a mais rica do estado pelos múltiplos objetos do culto, todos de prata lavrada em Portugal com toda perfeição. O Carmo mais do Porto que dele (...) espera impaciente o dia de um novo despertar de uma nova grandeza.” 64 A partir de meados do Século XX, Joaquim Ayres da Silva, após despontar como comerciante, principalmente porque havia poucos na região naquela época, começa a ocupar outros cargos e funções não só em Porto Imperial. Uma das áreas de influência da família Ayres foi a cidade de Carolina, onde Joaquim Ayres possuiu cargos e bens. 112 Provavelmente foi 5º e 6º suplente do Juiz Municipal e tenente coronel da Guarda Nacional de Carolina. 113 Chegou a se alistar como eleitor do município de Carolina em 1885 114 , além de possuir casa de negócio de secos e molhados naquela vila. 115 A atuação da Família Ayres em Carolina começou quando a Vila era ainda território do estado de Goiás, mas continuou mesmo depois de ser anexada à província de Maranhão. O Jornal produzido em Goyaz, intitulado O Tocantins 116 , criado principalmente para tratar sobre a administração do então presidente da província, Cruz Machado, no seu primeiro número em 1855, deu a notícia da anexação de Carolina como parte da província do Maranhão. 117 Os vínculos de Joaquim Ayres da Silva com Carolina perduraram por muito tempo. Foram legados aos seus filhos e demais familiares. Francisco Ayres da Silva circulou muito, tanto em Boavista do Tocantins como em Carolina. O jornal Norte de Goyaz registrou muitas evidências dessa influência, através dos anúncios dos negócios Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1906. p.2 112 O Paiz: Orgão especial do commercio. Maranhão, 26/07/1864. p.4. 113 Publicador Maranhense. Maranhão, 04/02/1856 - 26/07/1856. 114 O Paiz. Maranhão, 13/02/1886. p.1. 115 Almanak administrativo, Mercantil e Industrial. Maranhão, 1864. p. 289, 299.; ibdem, 1865, p. 483. Outros membros da família também tinham negócios em Carolina, como João Ayres da Silva Joca e José Ayres da Silva. Almanak administrativo, Mercantil e Industrial. Maranhão, 1866. p. 334. 116 Interessante notar que o nome do Rio Tocantins dá nome ao periódico. O Tocantins foi um jornal que se preocupou em tratar sobre as questões de maior interesse da província e do império, sobretudo no que se refere à exploração dos recursos naturais. No Rio Tocantins foram depositadas, naquele momento, as expectativas de desenvolvimento e prosperidade de Goiás, tanto que o rio foi um elemento que unificou durante parte do império os interesses dos goianos, o próprio nome do Jornal é a maior evidência disso. Na administração de Cruz Machado se concentrou significativa atenção e esperança no sentido de explorar as possibilidades do Rio Tocantins, principalmente para o comércio com as províncias do Norte do Império. Na primeira página do jornal, por ocasião da publicação do primeiro número, é possível perceber tal atenção: “a maior parte da província ignora tudo quanto se passa no império, e fora d’elle, e é também, infelizmente, muito mal conhecida; tentamos pois a publicação do Tocantins. N’elle daremos conta da marcha da administração, trataremos das questões de mais interesse para a província, examinando quaes os meios de aproveitar seus recursos naturaes, quaes suas necessidades palpitantes” O Tocantins. Goyaz, 6/01/1855. p. 1. 117 “Consta-nos que pelo correio que parte hoje para o norte vão as ordens para pôr-se em execução a resolução da Assembleia Geral do império, que separou desta, e anexou à província do Maranhão o território, que fica além do Tocantins, e do rio Sereno ou Manoel Alves grande septentrional, onde está situada a villa da Carolina. A parte maior e melhor do município da mesma villa, que ainda ficou pertencendo, foi incorporada ao município de BoaVista, que fica sendo o único termo da comarca, que passara a denominar-se – Comarca da Boavista do Tocantins, em virtude da Lei Goyana n. 7 de 6 de novembro ultimo.” O Tocantins. Goyaz, 6/01/1855. p. 3. 65 mantidos pela família na cidade, através dos correspondentes e colaboradores da família que com certa frequência escreviam para o jornal, pela relação do Norte de Goyaz com outros periódicos do Maranhão, e pela atenção que dispensavam, inclusive, às questões políticas, comerciais e educacionais daquele estado. 118 O trânsito da família Ayres, iniciado pelo pai de Francisco Ayres da Silva, por esses dois importantes pontos do Rio Tocantins, cruciais para o comércio tanto com Maranhão, mas principalmente com o Pará, foi mencionado por jornais de ambos estados no início do século XX. A doença e a morte de um dos membros da família comentadas na imprensa goiana e maranhense é um bom indicador para expressar a importância dos Ayres nos dois estados. O Norte de Goyaz fez o seguinte comentário na ocasião da morte de João Ayres da Silva Joca, Moço ainda o cel. Joca fixo definitivamente residência na visinha cidade de Carolina, com sua família e dedicou-se a vida comercial pela carreira do Tocantins. Mais tarde, ante as óbices que dia a dia iam tornando as viagens por este rio quase impossíveis, mudou suas transações, do mercado de Belém para o de S. Luiz por, via terrestre. Espirito imminentemente criativo, o cel. Joca tornou-se um dos homens de mor popularidade na sociedade carolinense (...) lembrou-se de sua terra natal e quis dota-la de um melhoramento duradouro, pelo que resolveu a mandar, por pessoa idônea, ladrilhar a nave de nossa matriz, melhoramento que sabia de alto valor e de necessidade urgente. 119 O jornal do Maranhão, chamado Pacotilha, comunicou a doença, tratamento e morte de João Ayres da Silva Joca. De acordo com o jornal, Francisco Ayres da Silva, “Ilustre médico e chefe de partido político na comarca de Porto Nacional, estado de Goyaz”, foi para Carolina tratar do Capitão João Ayres, que havia sido acometido por um brusco “soffrimento mental”. O prognóstico dado pelo médico foi animador, para ele a cura seria possível após submeter o doente a um “serio e prolongado tratamento”. O fato é que passada uma semana o mesmo jornal anunciou a morte do doente por embolia cerebral. 120 Por intermédio de Joaquim Ayres da Silva e família, Porto Nacional, porque não o Norte de Goyaz de forma geral, manteve fortes relações com a cidade de Carolina, contudo, não é objetivo do presente trabalho esmiuçar esses pormenores, mas talvez seja interessante e importante investigar de forma mais acurada os vestígios existentes nas duas cidades referentes a esse contato. Voltando à trajetória do pai de Francisco Ayres da Silva, na década de 1870 118 O amesquinhamento nortista. Norte de Goyaz. Porto Nacional. 15/03/1906. p. 1. 119 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1905. p. 2. 120 Pacotilha. Maranhão, 13/11/1905 – 20/11/1905. p. 1. 66 Joaquim Ayres da Silva volta sua atenção para Porto Imperial, dedicando-se com mais afinco às atividades comerciais com a província do Pará e se imiscuindo aos poucos à política de Goiás. Como comerciante transitou frequentemente pelas províncias limítrofes a Goiás, mas o lugar que chamou de casa foi a cidade de Porto Imperial, onde exerceu maior domínio, autoridade e influência. Nos periódicos de Belém do Pará se encontram registros de algumas das várias viagens comerciais realizadas em direção àquela cidade. O comerciante portuense costumava divulgar os detalhes de suas passagens na imprensa, comprava espaço na seção de anúncios particulares nos principais periódicos para manter seus fregueses informados e também servia como forma de evitar qualquer eventual prejuízo sob o pretexto de desinformação. Como se nota num desses anúncios no Diário de Belém: Joaquim Ayres da Silva – do Porto Imperial da província de Goyaz, aonde é commerciante, tendo vindo à esta cidade tractar de negocio commerciaes aonde chegou no dia 29 do mez p. p.; e tendo de retirar- se para sua casa e província no vapor do dia 16 do corrente mez. Pede aos seus freguezes e amigos, e a quem tiver contas com o annunciante, se digne vir liquidal-as até o dia 15 do corrente. E para que ninguém alegue ignorância faço o presente que assigno, podendo ser procurado no Porto do Colares a toda e qualquer hora do dia na casa dos srs. José da Silva Branco & C.ª. – Pará 9 de Maio de 1876.121 O comércio realizado pelo Rio Tocantins e afluentes foi muito explorado pela família Ayres e por outros comerciantes da região, por isso a grande preocupação tanto de Joaquim, como posteriormente de Francisco, em melhorar as condições de navegação do Rio, que para eles significaria, dentre outras coisas, maior dinamicidade nas atividades e consequentemente maiores lucros. Não era raro o naufrágio dos botes utilizados nesse tipo de comércio, o próprio Joaquim Ayres da Silva passou algumas vezes por “tal revez”, que significava severos prejuízos aos vitimados, tanto em razão da mercadoria como pelo bote, a cada acontecimento do tipo o desejo e as reivindicações por intervenção governamental nesse sentido aumentavam ainda mais nas folhas. 122 A mobilidade pelo Rio Tocantins foi um dos fatores que contribuíram para a influência do pai de Francisco Ayres da Silva em Goiás, principalmente a partir de meados do século XIX, quando a atenção do governo imperial, em Goiás, valorizava as 121 Diário de Belém. Pará, 14/05/1976. p. 3. 122 Tribuna Livre. Goyaz. 02/07/1880. p. 2. 67 vias fluviais como importante alternativa para o desenvolvimento. Cidades como Porto e Boa Vista adquiriam certa proeminência devido ao fácil acesso a essas vias, frente a outras vilas e cidades mais distantes dos Rios. Para além do aspecto econômico, a mobilidade que poucos podiam ter pelos Rios devido ao controle dos meios que possibilitavam o trânsito tem outra dimensão provavelmente mais importante para alimentar o poder de influência que alguns usufruíam. Trata-se do acesso às informações, do controle sobre objetos de desejos oriundos de outras localidades, do maior contato e comunicação com o mundo litorâneo. De alguma forma os homens responsáveis pelo comércio, experimentados pelas inúmeras viagens, detinham e manipulavam o contato entre os pequenos centros urbanos do interior de Goiás com o mundo. Eram considerados, por isso, como espécie de mediadores entre os espaços, sem os quais a cidade padeceria da sensação do mais enclausurado isolamento. Em Porto Imperial, devido sua localização geográfica relativamente distante das províncias limítrofes e da capital, essa imagem tem ainda mais efeito, conferindo aos comerciantes, especialmente a nível local, mais autoridade ao seu falar, ao seu agir e aos seus conselhos dirigidos aos nortenses, afinal “quem viaja tem muito que contar”.123 Joaquim Ayres da Silva, ao que tudo indica, soube aproveitar bem os benefícios materiais e simbólicos que a atividade de comerciante poderia lhe oferecer. Atividade esta desempenhada até sua morte e também legada a sua família. Em alguns periódicos é possível perceber que ele não representava uma figura qualquer para a comarca, foi apresentado nas narrativas de parte da imprensa goiana como um homem que estava se constituindo e se consolidando como alta liderança, com atitudes que evidenciam a força exercida por ele enquanto tal, como enfrentar autoridades, colocar-se como controlador e não como controlado, não sujeito a qualquer tipo de submissão absoluta. Observe como o jornal o citou ao falar sobre o resultado de um processo eleitoral, do qual ele participou como eleitor. Na véspera já da eleição o Dr juiz de direito da comaarca (muita força tem a autoridade) assentou de constituir-se campeão da gente adversária do club, apesar de haver antes dito que não queria (como devia) envolver-se nos negócios políticos da terra (...) e facto que as eleições soffrerão a pressão de tal intervenção, à qual somente resistio francamente o meo amigo Joaquim Ayres da Silva, que, prompto para satisfazer ao Dr. em parte, declarou que não deixaria de votar também 123 BENJAMIN, Walter. O narrador. In. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 198. 68 em alguns amigos da outra chapa como votou. 124 Não interessa aqui observar os detalhes do processo eleitoral mencionado quanto às coerções e pressões para o controle dos resultados, ou a tentativa de um grupo político para desqualificar a vitória dos adversários e as causas escusas que explicam a própria derrota. Nem tão pouco se o caso narrado corresponde efetivamente a um episódio que de fato aconteceu. Interessa destacar como Joaquim Ayres da Silva é apresentado como um homem destemido e corajoso que ousou enfrentar um juiz de direito, que teoricamente estaria acima da sua pessoa na escala de poder naquela comarca, atitude considerada atípica até mesmo para homens influentes, como o jornal deixa entender. O jornal Tribuna Livre, órgão do Club liberal de Goyaz, controlado pelos Bulhões, tratou Ayres como um exemplo a ser seguido por outros eleitores, para assim garantir os interesses dos membros do club. A atitude de “resistir francamente” à vontade de uma autoridade que como o próprio jornalista destacou “muita força tem”, expressa seu relevo e poder em meio à população. Nas décadas de 1880 e 1890, o pai de Francisco Ayres da Silva chegou ao ápice do seu poder, as formas de tratamento atribuídas a ele pelos jornais evidenciam como seu domínio e área de influência foram se ampliando em Goiás. As patentes que anteciparam seu nome, originárias da Guarda Nacional e conferidas às principais autoridades locais, mudaram durante aquele período até chegarem ao mais alto escalão da comarca de Porto Imperial. Em 1880 foi citado pelo jornal Tribuna Livre como “Alferes”125, logo em 1886 o jornal Goyaz trata-o como “Major”126, tornando-se “Coronel”127 na década de 1890 e assim tratado por quase todos os periódicos até o fim de seus dias. Segundo Aldrin Moura Figueiredo, Pelo interior do país, quem organizava a vida política, diretamente no contato com a população, era a figura do coronel (...) De fato era o principal elo entre a população e o Estado. Ele garantia os votos locais do governador do Estado, em troca do apoio a sua liderança municipal, e dispunha de grande prestígio e poder devido ao fato de a Constituição de 1891 ser descentralizada, garantindo aos estados e municípios grande autonomia legislativa e de polícia. Em vista disso, muitas vezes o coronel ocupava o cargo de Intendente Municipal, chefe de polícia, vereador ou, mesmo quando não ocupava cargos 124 Tribuna Livre. Goyaz, 08/11/1879. p. 3. 125 Tribuna Livre. Goyaz, 14/02/1880. p. 3. 126 Goyaz. Goyaz, 10/04/1886. p.4 127 Op. cit. 08/06/1894. p.1 69 políticos, em geral indicava os candidatos às eleições. 128 As patentes acima referidas eram comumente atribuídas aos homens como Joaquim Ayres da Silva, normalmente eles constituíam as autoridades locais legitimados pelos conchavos políticos próprios do pacto oligárquico, pelas negociações entre os subordinados que se colocavam sob sua “proteção”, mas também pela força de mando, exercida principalmente pelo controle da terra, da produção, do comércio local, do contato da cidade com outras esferas do poder e, porque não, com outras cidades e notícias. Como se verá a seguir, Joaquim Ayres da Silva representa a personificação típica do que significava ser um coronel no interior de Goiás nos últimos anos do século XIX. 129 Enquanto seu pai se estabelecia como uma das principais autoridades em Porto Imperial, mantendo boas relações com os Bulhões, grupo dominante em Goiás, Francisco Ayres da Silva ainda era apenas filho de um importante líder local. E como tal iniciou seus estudos primários na mesma cidade onde nasceu, com provável passagem pelo sudeste Goiano para realização de exames, mais precisamente na escola pública estabelecida na freguesia de Nossa Senhora da Madre de Deus, município de Catalão. 130 O ensino de primeiras letras já existia em Porto Imperial, na década de 1870 atendia em media 50 alunos. Certamente os filhos dos coronéis não ficavam sem receber tal instrução, que não era algo exclusivo às elites, embora ignorando algumas exceções, apenas eles dispunham dos recursos necessários para desfrutarem de tal privilégio. O domínio da escrita e da leitura, ou seja, a formação no ensino primário já era um elemento de distinção, principalmente nos lugares onde a educação era limitada e não era prioridade para a maioria cuja sobrevivência pouco ou nada dependia de saber ler e 128 FIGUEIREDO, Aldrin Moura. Pretérito imperfeito: arte, mecenato, imprensa e censura em Belém do Pará 1898-1908. p. 11-12. 129 Sobre as questões do coronel e do coronelismo, ver os clássicos: QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira: da colônia a Primeira República. São Paulo: Anhembi, 1957. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 3ªed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. GEFFRAY, Christian. A opressão paternalista: cordialidade e brutalidade no cotidiano brasileiro. Rio de Janeiro: Educam, 2007. CARONE, Edgar. A República Velha I. São Paulo: Difel, 1978. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira. O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976. FAORO, Raimundo. Os donos do poder. Rio de Janeiro: Globo, 1993. CAMPOS, Francisco Itami. Coronelismo em Goiás. Goiânia: Ed. UFG, 1982. PALACÍN, Luis. Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: O padre João e as Três Revoluções de Boa Vista. São Paulo: Edições Loyola, 1990. JANOTTI, Maria de Lourdes. O coronelismo, uma politica de compromissos. São Paulo: Brasiliense, 1989. MATIOLLI, Alexandre F. A teia de poder: o coronel Junqueira e a política da Primeira República – Riberão Preto de 1889-1932. (Dissertação em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia-MG, 2014. 130 Correio Official. Goyaz, 9/02/1876. p. 4. 70 escrever, em outras palavras, para muitos a formação nas primeiras letras não se convertia em benefícios práticos para a vida. 131 Francisco Ayres da Silva, pouco depois de receber a instrução primária e nela ser aprovado, deu um passo, na década de 1880, que pouquíssimos nortenses poderiam dar. Foi conduzido por seu pai para fazer o ensino secundário em Goyaz, a então capital de Goiás, para estudar no Seminário de Santa cruz. 132 A chamada Vila Boa, além de capital, era também o centro de estudos da província. Enquanto Joaquim Ayres visitava Goyaz para tratar de negócios, política e cultivar sua influência junto a algumas autoridades da capital, seu filho estudava e também tratava de discussões políticas, assim cultivou relação com boa parte daqueles colegas de aula que ocupariam num futuro breve, como ele, os principais cargos de liderança política do Estado. Ao que tudo indica, em 1888 terminou o secundário e retornou para Porto Imperial, até partir para a não mais Capital do Império, mas sim para a Capital da República, onde iniciaria a faculdade de Medicina. Antes de discorrer sobre esse marcante fato na vida de Francisco Ayres da Silva, gostaria de tratar sobre alguns episódios que envolveram Joaquim Ayres da Silva, acompanhados direta e/ou indiretamente por seu filho, naquele contexto de intensos debates em torno das questões da Abolição e da República. Pois, trata-los significa de alguma forma tornar mais inteligível a circunstância em que ocorreu o amadurecimento e a percepção do jovem portuense em relação aos assuntos políticos, na sua relação com todos outros campos que constituía sua realidade. 1.5 FRANCISCO AYRES NA “PICADA” DO PAI Em junho de 1888, o jornal que comunicou o retorno para terra natal de Francisco Ayres da Silva, que esteve na capital goiana estudando, trazia no mesmo número notas sobre o mais recém e impactante acontecimento no Brasil, a abolição da escravidão. Vários jornais da época trataram sobre o assunto poucos dias depois de 13 de maio, assunto este que já estava sendo debatido amplamente em Goiás ao longo de 131 Sobre o ensino primário em Porto Imperial, essas informações se baseiam nos dados do Arquivo Histórico Estadual de Goiânia, apresentados pela pesquisadora Maria de Fátima Oliveira em sua obra: OLIVEIRA, Maria de Fátima. Entre o sertão e o litoral: cultura e cotidiano em Porto Nacional. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2010. p. 73-79. 132 PACHECO, Moura de Altamiro. Préfacio. In. Silva, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p. 9. 71 toda aquela década. Nas páginas impressas, nas ruas, nos trieiros, clubes e outros ambientes a abolição ocupava significativo espaço nas mentes goianas, principalmente em relação às incertezas quanto aos desdobramentos que causaria. Na cidade de Goyaz, Francisco Ayres da Silva, como filho de proprietário de escravos, acompanhou de perto as conversas atento aos muitos posicionamentos sobre a questão. Na mesma página em que figura o Major Joaquim Ayres da Silva, como o pai que conduz seu filho de volta para Porto Imperial, sai numa coluna ao lado uma pequena nota comemorando a data que se tornaria o consagrado 13 de maio, como sinônimo de “liberdade, o Dia de ouro para o Brazil em que se firmou a lei mais sabia, mais sublime e mais humanitária, que figura para um povo independente. Os homens que a fizeram devem orgulhar-se assim como eu hoje me orgulho de ser brasileiro”.133 Poderia ser uma simples coincidência não fosse toda a trama que envolveu Joaquim Ayres e um negro chamado Faustino sobre a questão de o último ser escravizado pelo primeiro. Por mais de dois anos o caso foi acompanhado pelos principais jornais da capital goiana e motivo de longas e calorosas discussões. Não por acaso, as colunas se dedicaram ao caso, mas porque se tornou em símbolo do jogo de forças travado entre a população goiana sobre como as ideias abolicionistas se assentariam em Goiás. Joaquim Ayres da Silva foi acusado na capital de manter como escravo Faustino Pereira de Oliveira, homem que se dizia livre, conforme testemunhos e uma “sertidão da Tesouraria Geral da Fazenda”, que utilizou como provas da sua condição de liberto, portanto, caracterizando como ilegal o fato de ser tomado como cativo seja por quem fosse. No entanto, o pai de Francisco Ayres da Silva negou a acusação do seu escravizado e apresentou também provas que confirmaram a sua versão do fato, de que Faustino era efetivamente seu escravo desde 1877, quando o comprou do Cap. João Roiz Nogueira, com escritura firmada em 1884 na cidade de Porto Imperial, onde o mesmo se encontrava cativo, para ele, dentro dos trâmites da lei. O juiz substituto interino, vereador Antonio Jose Ignacio, tomou a seguinte decisão: Considerando que o cativeiro é contrarrazão natural (...) considerando que ção mais forte e de maor concideração as razões que há a favor da liberdade do que as que podem fazer justo o cativeiro (...) considerando que a prova emcumbe aus que requerem contra a liberdade por que a seu favor esta a prezunpção pleníssima de dereito; que em favor da liberdade muitas couzas são outorgadas contra as regras geraes. Por estas razões e por outras que desnecessário é expor 133 13 de Maio – liberdade. In. Publicador Goyano. Goyaz, 23/06/1888. p.4. 72 – julgo o autor livre e pague o réo as custas. Goyaz 16 de junho de 1885 134 O comerciante portuense se sentindo prejudicado pela sentença resolveu apelar para sua influência na capital e recorrer da decisão. Dessa vez, contando com o apoio do desembargador Antonio Felix de Bulhões Jardim, um dos homens mais poderosos da província, que, com o peso do seu nome, ficou responsável por redigir e encaminhar a apelação em favor de Ayres. A estratégia do desembargador foi desqualificar todos os argumentos utilizados pelo juiz para justificar a “inqualificável sentença” que optou pela liberdade de Faustino. Além disso, colocou em descrédito o próprio juiz, considerando-o como desqualificado, dotado de “notória e patente incapacidade” para a função. Questionou a validade da sentença já que, “ninguém pode ser chamado à juiz fora do seu domicilio”, portanto se constituindo como o verdadeiro réu do processo por ignorar ou desconhecer as leis, colocando-se como juiz fora da sua área de jurisprudência. 135 Não se pode perder de vista que por trás desse imbróglio estavam em jogo os interesses políticos dos diferentes grupos da elite goiana, em busca de hegemonia, o que explica as dissidências e alianças no interior dos mesmos. A aliança entre Joaquim Ayres e Antonio Felix de Bulhões é caracterizada pela troca de interesses em que um necessita do outro para conquista e manutenção do poder, o primeiro garante a influência necessária e o controle dos votos para que o segundo goze de benefícios na comarca de Porto Imperial, e o segundo garante ao primeiro apoio irrestrito nas outras instâncias do poder, fortalecendo sua predominância na esfera municipal. Para além da dimensão política a disputa em torno da liberdade ou não de Faustino sugere que houve em Goiás a quebra de consenso sobre a escravidão. Nota-se que as ideias abolicionistas, como a liberdade, os direitos dos escravos garantidos pelas leis abolicionistas, provocaram efeito em Goiás, tornaram-se temas decisivos para os quais não se poderia mais virar as costas e ignorar, um espaço de disputa jurídica se estabeleceu e foi utilizado como instrumento também nos embates políticos, não só pelas autoridades, mas por todos os grupos sociais, inclusive os cativos. Cada parte envolvida nessas pendências jurídicas observa a lei conforme seus interesses, convicções ou oportunidade. Os defensores de Faustino colocaram a liberdade como prioridade, já para o defensor de Ayres o que deveria ser priorizado é o 134 Publicador Goyano. Goyaz, 2/08/1885. p. 4. 135 Ibdem. 73 direito de posse do senhor. Para um a injustiça consistia em escravizar um homem livre, para o outro seria libertar um escravo, comprado legalmente, do domínio de seu dono. Felix Bulhões argumenta, tentando convencer sobre a legalidade de manter Faustino como escravo e a ilegalidade em considerá-lo homem livre: Faustino escravo fugido é açoitado em umas chácaras do lado da Bagagem, nesta capital, entendeo de conquistar (ou entenderão por elle) sua liberdade, à mercê da inocência de um vereador da câmara municipal, arvorado em juiz com jurisdição plena na causa (...) e manifesto que mão occulta tem abusado e está abusando da absoluta imperícia do juiz agravado, Este feito é tolo uma verdadeira tentativa de estelionato por meio da Justiça. Começou-se por arvorar o velhacote do escravo fugido em foro competente para reaccionar o senhor, residente em lugar diverso; e sob o argumento de que a favor da liberdade, muitas regras de direito se podem dispensar, dispensou o juiz todas as leis que regulão as competências. A lei, senhor tem disposição especial, peculiar para o caso: diz terminantemente que para todos os efeitos cíveis o foro do escravo é o do senhor – ainda mais: em causa de liberdade, o senhor é, por via de regra o réo; é para todas as demandas, salvo excepções expressas, ninguém pode ser chamado à juiz fora do seu domicilio. Em que fundão os protectores de Faustino para entenderem que seo caso está no numero de taes excepções? O réo não foi citado. [...] senhor, tudo isto reclamaria severa punição criminal do Juiz da 1ª instancia....se tudo isto não fosse atenuado por sua notória e patente incapacidade (...) V. Magestade provera com justiça a quem dela carece (...) Goyaz, 28 de junho de 1885. Antonio F. de Bulhões jardim. 136 A autora Maria Helena de Toledo Machado, no seu trabalho Teremos grandes desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas: a rebeldia dos escravos e a abolição da escravidão, ajuda-nos a tornar esse momento mais inteligível. Ao descrever alguns processos envolvendo revoltas de escravos ela analisa as lutas que passaram a “antepor diferentes autoridades locais em torno da interpretação dos fatos e episódios que exigiam definições sobre os direitos dos escravos e de seu controle social e jurídico e sobre a implementação das leis abolicionistas, cíveis e criminais, constituindo, assim, um território de disputa pública entre diferentes autoridades”.137 Nesse sentido, Goiás também foi palco, nesse contexto, de tensões entre autoridades, eram comuns as manifestações públicas de desacordos entre policiais, juízes, promotores, jornalistas, fazendeiros, comerciantes, em torno das ideias da abolição. O 136 Ibdem. 137 MACHADO, H. P. T. . ' Teremos grandes desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas : a rebeldia dos escravos e a abolição da escravidão. In: Keila Grinberg, Ricardo Salles. (Org.). Brasil Imperial, 1870-1899. 1o. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, v. 3, p. 367-400. 74 território de disputa não se limitou apenas ao mundo do governo, mas esteve presente também no mundo da casa e no mundo da rua, conforme define Ilmar Mattos, articulando esses diferentes espaços. 138 O predomínio dos proprietários de escravos no que diz respeito às relações escravistas foi ruindo gradativamente, até o ponto em que Joaquim Ayres já não possuía poder absoluto sobre a vida de seus cativos, ou sobre a vida do suposto cativo Faustino, que em épocas anteriores certamente teria sua solicitação completamente ignorada. A ação dos abolicionistas em Goiás foi determinante para levar casos como o de Faustino adiante, mesmo frente à fortíssima oposição, ainda que a defesa pela liberdade fosse apenas um pretexto para prejudicar adversários, ou para promover ou desqualificar a imagem de alguém. Seja como for, parece-me que homens como Faustino, fossem escravos ou apenas homens livres e pobres, aproveitaram-se dessa situação e jogaram com ela em prol dos seus interesses e na construção de suas táticas. 139 Como resposta à apelação de Joaquim Ayres por intermédio de Felix Bulhões, e sua insistência em garantir o direito de posse sobre o escravizado, o caso de Faustino aparece no jornal Publicador Goyano 140 , nas palavras do curador do caso Paulo Francisco Povoa, com mais riquezas de detalhes e ataques diretos à figura de Joaquim Ayres da Silva, justificando as razões que o levaram a negar a apelação. Apesar do relato tendencioso, ele pode oferecer uma ideia do que representava a figura do pai de Francisco Ayres da Silva na região norte. Apresentando uma versão completamente diferente da esboçada por Felix Bulhões, o Curador afirma que ninguém desconhece que em nossa província, principalmente no Norte, existem mandões de aldeia, que dictão a lei ao som do bacamarte. Todo mundo sabe que Joaquim Ayres é um potentado no 138 MATTOS, Ilmar Rohloff. O tempo saquarema: a formação do Estado Imperial. São Paulo: Hucitec, 1990. 139 Certamente o caso de Faustino Pereira de Oliveira, noticiado amplamente pela imprensa goiana, trata- se de um caso riquíssimo para se analisar os pormenores da abolição da escravidão em Goiás. Muitas outras considerações sobre as leis, as práticas, o comércio ilegal de escravos e as relações escravistas nos últimos anos da escravidão poderiam ser feitas a partir dos documentos citados. No entanto, não é o foco deste trabalho, que trata do assunto apenas na medida em que este oferece elementos para se compreender os caminhos de Francisco Ayres da Silva. Espero que outros trabalhos possam explorar com mais profundidade as fontes que tratam sobre o caso. 140 O jornal Publicador Goyano se define como Orgão em defesa do povo, ele só responde pelas publicações que estão na Secção Editorial, que normalmente ocupam a primeira página. As outras três paginas são constituídas por anúncios e artigos de particulares, pelos quais a redação não se responsabiliza. O jornal foi muito utilizado por opositores ao grupo dos Bulhões, de maneira que, caso o periódico não se constitua efetivamente como um veículo declaradamente contrário ao domínio dos Bulhões, foi um importante instrumento para fazer frente aos veículos controlados por aquele grupo político supracitado. 75 Porto Imperial, e que não há alli um só individuo que se anime a ir d’encontro à sua vontade, e que assim, um pobre diabo que lhe cahe nas garras como escravo, embora possa provar a injustiça do seu constrangimento, não encontra apoio, nem em autoridades nem em particulares, contra o dictador d’aquelle lugar. E o que aconteceu ao nosso curratelado. Transportado do rio do somno para a casa de Joaquim Ayres à pretexto de fazer parte da tripulação dos botes – pertencentes à este senhor, que devião seguir para o Pará, acha-se o nosso curatelado sob as garras d’este potentado, que o retem como seu escravo. Assim o affirmão as quatro testemunhas que jurarão n’este processo, e à ellas nos referimos. De volta ao Pará, onde nem ao menos consentirão que desembarcasse, encontra em Porto Imperial um moço de fora: recorre à sua proteção para promover a competente acção contra seu pretenso senhor. E o que acontece?... o moço é perseguido até o ponto de fugir e ser assassinado juntamente com o infeliz Miguel Linch. O suposto escravo é agarrado e mandado castigar pelo comandante do destacamento à pedido de Joaquim Ayres! Atterrado de ameaças, não encontrando apoio de autoridade alguma, nosso curatelado se ve constrangido à curvar-se a triste condição em que as circunstancias o collocarão. Oferecendo-se oportunidade de vir a capital da província, nosso curatelado, em sua ignorância, entendeu que podia fazer valer aqui seu direito, e procurou o promotor publico, o ilustrado Dr. Natal, o qual deu os primeiros passos a seu favor. (...) não procedem, portanto as alegações firmadas por Perillo & Viggiano, não só porque na advocacia não se admite firma social, como também porque ninguém pode requerer em juízo contencioso sem ser advogado ou obter licença, pagando os devidos direitos, e sujeitando-se a responsabilidade. Não podem ser atendidas, porque a ellas não acompanhou, como a lei exige, certidão da matricula do escravo. Finalmente, não podem ser apreciadas, porque não destroem as provas produzidas pelos depoimentos contestes de quatro testemunhas, e entre ellas (é de notar-se) um sobrinho de Joaquim Ayres. Não é tão destituída de fundamento, como parece ao ilustre advogado da parte, a presente causa. A favor da liberdade, hoje tão protegida por vossa majestade imperial, as leis dispensão muitas formalidades (...) meu curatelado não podia encontrar no Porto Imperial, pequena povoação do Norte d’esta província, onde seu pretenso senhor gosa de influencia de mandão de aldeia, justiça por sua causa. Recorreu a justiça da capital, onde a preponderância d’este não podia ter acção. (...) apesar da minha notória incapacidade para desempenhar tão importante encargo, por amor à humanidade e à grande causa da abolição que ocupa actualmente a atenção d’este vasto império, aceitei-o. (...) o tabelião que lavrou a escriptura de venda de meu curatelado, é o celebre Francisco Ignacio, que já esteve prezo na cadeia d’esta capital, por crime de falsificação de testamento. Onde temos a prova de que tanto a escriptura como a referencia não sejão falsas? A aurea lei de vite e oito de Setembro, no artigo oitavo, paragrapho segundo, diz “os escravos que, por culpa ou omissão dos interessados, não forem dados à matricula, até um anno, depois do encerramento d’esta, serão por esse facto considerados libertos. Dado mesmo o caso de que meu curatelado fosse escravo, o appelante não provou sufficietemente que este tivesse sido matriculado. (...) o cativeiro é contra o direito e a razão natural, e a liberdade tem a seu 76 favor prescripção pleníssima de direito e a quem contra ella requer imcube o ônus da prova, pois mais fortes são e de maior consideração as razões que há a favor da liberdade, do que as que podem fazer justo o cativeiro. 141 Como se pode notar, Joaquim Ayres da Silva é apresentado, nas palavras do curador do caso, com base em quatro testemunhas e na versão do próprio Faustino, como um homem que detém muito poder no Norte de Goiás, sobretudo na cidade de Porto Imperial. Importante observar que ao justificar a razão pela qual o caso foi tratado na capital, o curador de Faustino caracteriza não só a figura de Ayres, mas também o Norte de Goiás, com certa distinção em relação a outras localidades da província. Porto Imperial e o Norte aparecem como lugar de injustiças, onde homens como Joaquim Ayres ignoram as leis e as autoridades legais e criam as suas próprias regras com base em suas vontades e interesses, a partir da autoridade que possuem sustentadas pela força, riqueza e mobilização de capital político. Porto Imperial é descrita como “pequena povoação do Norte d’esta província, onde seu pretenso senhor gosa de influencia de mandão de aldeia, justiça por sua causa”. A cidade é vista como aldeia que possui um dono, diante do qual ninguém pode obter vitória; apesar do reconhecimento de que em toda a província existem os seus mandões de aldeia, há um destaque significativo, um “principalmente”, que reforça a ideia de que as práticas de injustiça realizadas em nome dos “potentados” e ao som do “bacamarte”142 estão localizadas de forma mais evidente e potencializadas no Norte, onde o Estado e a Justiça não chegam, por isso é preciso recorrer a eles onde funcionam efetivamente, ou seja, segundo relato do curador, na capital da província. Alguém poderia argumentar que as considerações feitas por Paulo Francisco Povoa têm o objetivo claro de defender Faustino e atribuir culpa a Joaquim Ayres da Silva, portanto podem não corresponder com a realidade. De alguma maneira tal argumentação não é equivocada, certamente poderá haver exageros, que devem ser ponderados tendo em vista o objetivo do relato, mas a forma como os detalhes do caso e as ações do “dictador d’aquelle lugar” são apresentados sugere que tais práticas de mandonismo eram comuns e não estranharia ninguém caso realmente tenha acontecido. Não interessa saber se 141 Publicador Goyano. Goyaz, 9/08/1855. p. 3- 4. 142 Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, Bacamarte é uma “antiga arma de fogo de cano largo e em forma de capa câmpanula”. É significativa a citação da arma Bacamarte, pois se trata de uma arma típica do século XVIII, o nome correspondia a um tipo de espada no século XVI e passou a nomear uma arma de fogo, provavelmente em razão da inovação técnica. Ao que parece citar tal arma de fogo no final do século XIX pode ser uma tentativa de apresentar descompasso, uma forma antiga e obsoleta de poder. 77 Joaquim Ayres da Silva realmente fez tudo o que o curador afirmou ter feito, mas sim que aquelas atitudes eram comuns a homens da sua posição. Nessa perspectiva o relato do curador constitui significativa pista do que Joaquim Ayres da Silva representava para a cidade e cidadãos portuenses, bem como do exercício do seu domínio que “ninguém desconhece e todo mundo sabe”. Como comerciante e fazendeiro ele carecia de mão de obra escrava, naquele período com alto valor de custo e pouca oferta, principalmente nas regiões centrais do país. Essa dificuldade se deve em grande medida às leis abolicionistas que aos poucos inviabilizaram a escravidão, ou pelo menos dificultaram sua existência dentro dos parâmetros legais da época. Adquirir um escravo de forma legal não era tarefa fácil para alguém do interior da província de Goiás. 143 Por isso, é muito provável a existência do comércio ilegal de escravos, ou mesmo o uso do poder, força e negociações entre “mandões de aldeia” para tornar um sujeito livre em sua terra de origem em escravo numa terra relativamente distante dela. Como foi sugerido ter feito Joaquim Ayres com Faustino, tirando-o das proximidades do Arraial do Rio do Sono sob o pretexto de compor a tripulação dos seus botes e levando-o para Porto Imperial, onde o mesmo se tornaria cativo. Tais práticas tornam plausível a outra ação atribuída a Ayres, ou seja, a falsificação de documentos. Mandatários locais para adquirirem posses recorriam a acordos com os tabeliões, que, por temor, favor ou por benefícios produziam documentos conforme o desejo de quem solicitou. Como o caso de Faustino ganhou atenção da justiça e publicidade pela imprensa, não é de se espantar que Ayres tenha se valido do seu poder para produzir provas em sua defesa, como a escritura de que havia realmente comprado o cativo. Ainda mais que o ônus da prova pesou sobre ele, já que naquele momento sob os fundamentos das leis abolicionistas “o cativeiro é contra o direito e a razão natural, e a liberdade tem a seu favor prescripção pleníssima de direito e a quem contra ella requer imcube o ônus da prova”. Seguindo a mesma linha de raciocínio, o poder de influência de um “potentado” se estendia a qualquer autoridade local instituída, sejam as altas patentes do 143 Sobre isso ver: CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.; CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.; FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.; FLORENTINO, Manolo (org.). Tráfico, cativeiro e liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.; NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. São Paulo: Publifolha, 2000. O a SCHWARCZ, Lilia. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo, Cia. das Letras, 1993. 78 destacamento, seja o juiz, pois seu domínio estava resguardado por um pacto de apoio recíproco entre os diferentes níveis de poder. Quase sempre os interesses dos ditos potentados se confundiam com os interesses públicos, porém a causa abolicionista na década de 1880 tratou de diminuir a coincidência de interesses o que provocou tensões pontuais entre estes com aqueles que ocupavam os cargos públicos. Faz-se necessário ressaltar que embora tenha tamanho domínio, isso não implica em total controle de todas as autoridades locais, até porque no interior de um mesmo grupo ou família havia divergências, disputas e dissidências, o que é reforçado pelo fato do próprio sobrinho de Ayres ter testemunhado contra ele, ou mesmo nos seus desafetos que também se aproveitaram da situação. Portanto a afirmação de que “não há alli um só individuo que se anime ir d’encontro à sua vontade” se configura num exagero retórico para acentuar o domínio de Joaquim Ayres da Silva e sua capacidade de manipulação dos resultados de qualquer eventual disputa. Havia quem rivalizava com ele, inclusive na disputa pelo controle político de Porto Imperial, como por exemplo, os tenentes Luiz Leite Ribeiro e Frederico Ferreira Lemos, detentores de poder semelhante ao de Ayres, também comerciantes, fazendeiros e influentes social e politicamente, que hora se aproximavam por interesses convergentes, hora se distanciavam em razão de algum objeto ou objetivo colocado em disputa. 144 Quanto a ter perseguido, ameaçado e assassinado as pessoas que tentaram ajudar Faustino, isso se constitui uma prática recorrente na província de Goiás, principalmente em se tratando de pessoas com menor prestígio social que se colocam como obstáculo aos desejos de homens de poder. Todavia, há que se observar que nesse caso não se trata de qualquer tipo de perseguição, trata-se de perseguição aos prováveis abolicionistas que em Porto Imperial tentaram fazer valer os direitos dos cativos, conforme as leis abolicionistas no caso de Faustino. Uma forma de conter o avanço das ideias abolicionistas, que contrariavam os donos de escravos, era mesmo o uso indiscriminado da força contra aqueles que as defendiam e tentavam colocá-las em prática. Segundo Maria Helena Toledo Machado, a historiografia quase sempre esquece como os abolicionistas eram perseguidos em algumas regiões e localidades do Brasil pelos donos de escravos, sofriam constantes ameaças de morte e todos os tipos de intimidação. Faz- se necessário pontuar que essas práticas de perseguição, intimidação, falsificação e 144 Publicador Goyano. Goiaz, 01/05/1886. 79 ilegalidade não dizem respeito unicamente a Goiás. 145 As considerações atribuídas a Joaquim Ayres da Silva não foram desferidas apenas pelo curador de Faustino, foram reforçadas também por um procurador da coroa que interpôs no caso para desconsiderar os argumentos da apelação feita por Ayres, confirmando a versão de Faustino e os vereditos favoráveis a ele. Ao dar seu parecer, fez um histórico do processo entendendo que a venda de Faustino ao Alferes Ayres da Silva, feita por um residente do Arraial do Rio do Sono, foi indevida. O representante da coroa, que atende pelo nome F. de P. Lins dos Guimarães Peixoto, manifestou-se da seguinte maneira: Por vezes Faustino quis libertar-se do injusto cativeiro a que estava reduzido, e foi sempre contrariado e ameaçado por seu pretenso senhor, que naquella localidade é homem de influencia partidária e poderoso, como dizem as testemunhas, temido até pelo próprio juiz de direito (...) chegando a mandal-o castigar publicamente pelo commandante do destacamento Alferes Pedro Nunes, com duas dúzias de bolos de palmatória como igualmente juram as testemunhas!!! Na impossibilidade de rehaver sua liberdade no foro da residência de seu presumido senhor, Faustino veio para esta capital, onde esteve por algum tempo como pessoa livre que era, ate que pode apresentar-se as autoridades expondo a injustiça e crueldade que sofria, e afinal, bem ou mal aconselhado porpoz contra o apellante a presente acção. No qual demonstrou ser pessoa livre, e como tal foi reconhecida na 1ª instância (...) que foi confirmada em grão de appellação para a relação pelo accordão (...) que se baseou nos jurídicos fundamentos das razões do curador de Faustino e outras provas constantes nos autos. Sendo embargado este accordão (...) e nada se allegando como também se vê dos embargos, em que seu pretenso senhor reconheceu o direito de Faustino a sua libertação, contentando-se apenas com o reconhecimento de sua boa fé, foi apesar disso reformada a 1ª decisão, para julgar nulla a causa, e reformada sem fundamento algum jurídico, o que se vê do accordão (...) no qual assignou-se vencido o terceiro juiz, que bem fundamentou sua razão de decidir. Senhor, que recurso restará a um infeliz quando reduzido a escravidão para demandar sua liberdade em uma pequena localidade do interior desta província, onde não há advogados, e o seu pretenso senhor é um mandão, um potentado que o manda castigar só por temer que elle tentasse provar o seu sagrado direito de personalidade?!! Certamente nenhum outro senão o de procurar justiça fora da localidade do tal mandão; pois foi o que fez Faustino. [...] Senhor! O accordão do que se recorre contem uma decisão que trouxe ao infeliz Faustino Pereira de Oliveira uma injustiça notória é de manifesta nullidade por ser proferida contra as expressas disposições das ord. Citadas. E para reparar-se semelhante injustiça, interpuz o presente recurso de revista, que espera-se ser 145 MACHADO, H. P. T. . ' Teremos grandes desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas : a rebeldia dos escravos e a abolição da escravidão. In: Keila Grinberg, Ricardo Salles. (Org.). Brasil Imperial, 1870-1899. 1o. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, v. 3, p. 368-378. 80 attendido. O desembargador procurador da coroa interino. F. de P. Lins dos Guimarães Peixoto. 146 O procurador da coroa, a partir dos relatos das testemunhas que suplantam todas as outras provas dos autos, trata Joaquim Ayres como “homem de influência partidária e poderoso, temido até pelo próprio Juiz de Direito”. Mais uma vez é reforçada a ideia de que naquela “pequena localidade do interior desta província, onde não há advogados”, não haveria como fazer justiça contra o pretenso senhor de Faustino, porque o mesmo possui tamanha autoridade ao ponto de mandar castigar publicamente, com punição de escravo, o juiz de direito, “primeira autoridade da comarca de Porto Imperial”. Este último se trata do promotor de justiça Dr. Ignácio Soares de Bulhões Jardim, irmão de Antonio Felix Bulhões que apoiou Ayres no caso. Pelo histórico apresentado acima é possível notar as tentativas de negociações que o “mandão” nortense tentou fazer, acionando sempre que necessário a rede de poder em que estava inserido. 147 Mas ao que tudo indica, as ideias abolicionistas e a defesa pela liberdade estavam bem assentadas no território goiano, quase inquestionáveis pelo menos na dimensão pública, inclusive na cidade de Porto Imperial. O próprio Ayres em algum momento se preocupou com a imagem que teria quando “reconheceu o direito de Faustino a sua libertação, contentando-se apenas com o reconhecimento de sua boa fé”. O juiz de direito da Comarca de Porto Imperial dificilmente iria contra Joaquim Ayres da Silva, não por temor, mas pelos pactos estabelecidos com a família, em contrapartida, ir contra a causa natural da liberdade, naquele contexto, também o denunciava, principalmente quando a demanda chegava à capital. Talvez a ideia da coerção tenha sido um argumento, uma forma de se isentar de qualquer culpa e justificar sua posição. Em outras palavras, a ideia do temor deixa a mensagem de que se posicionar de forma favorável a Ayres, ou se omitir diante do caso, não significou ser contra a liberdade de Faustino. O jornal que publicou a peça jurídica do procurador da coroa foi o Jornal Goyaz, como já foi dito, pertencente a Felix Bulhões, por meio do qual se articulavam os interesses do seu grupo político que se afirmou por um tempo como sendo de tendência liberal, grupo do qual Ayres também fazia parte, mais pela aliança do que pela doutrina. O periódico em questão não explorou o caso, como o Publicador Goyano, certamente porque denunciava contra alguns dos seus membros. Mesmo assim, curiosamente, 146 Goyaz. Goyaz, 03/12/1886. p. 2-3. 147 Publicador Goyano. Goyaz, 11/12/1886. p. 4. 81 tornou público aquele parecer anunciando o desfecho do episódio e reafirmando a imagem de Joaquim Ayres da Silva que aqui se tentou evidenciar. O Publicador Goyano, sob a assinatura de A justiça, lança um questionamento: “Porque motivo o Sr. Desembargador Bulhões consentio a publicação em seu jornal de uma peça jurídica que traz uma acusação tão grave contra o seu irmão juiz de direito da comarca de Porto Imperial?” O próprio questionador apresenta uma resposta com possibilidades que soam bastante razoáveis: “ou o Sr. Bulhões não prestou a devida atenção ao escripto e mandou publical-o ou o interesse politico exige que ele prefira a boa vontade e amizade do procurador da coroa, aos laços de sangue!!!”148 Ou quem sabe foi apenas uma forma de mostrar que não eram contrários aos princípios da liberdade defendidos pelos abolicionistas. Os posicionamentos são complexos e difíceis de analisar, por vezes são aparentemente contraditórios. Mas neles é preciso observar o que se torna de conhecimento do público e o que se não torna. As práticas e ações cotidianas nem sempre correspondem às posições assumidas publicamente. Por exemplo, o poder de mando exercido por autoridades como Joaquim Ayres da Silva foi a forma mais comum na Província de Goiás, prática conhecida por todos, qualquer coronel ou similar usava seu prestígio para amedrontar, ameaçar, punir os avessos as suas vontades, mas no espaço da imprensa e noutros discursos públicos todos, até mesmo os próprios coronéis, condenavam tais práticas costumeiras. O mesmo ocorre em relação ao debate abolicionista, as ideias defendidas nos espaços públicos diferem das práticas. Dito de outro modo, não difere do que ocorre na política brasileira, para não dizer na sociedade Brasileira ou na humanidade de forma geral, não há quem não condene a corrupção, mesmo assim ela está disseminada por toda parte. Naquela ocasião, já se tornava constrangedor em Goiás condenar os princípios abolicionistas, embora a manutenção das relações escravistas não fosse estranha a quase ninguém. Os adversários políticos do grupo dos Bulhões, prováveis conselheiros de Faustino, jogaram com essa situação no Publicador Goyano, aproveitando-se do caso do seu protegido para desqualificarem Felix Bulhões e seus aliados. Antes de ser pejorativamente chamado de “Abolicionista Esclavagista Desembargador Bulhões”, coloca-se uma pergunta pertinente, a mesma que me fiz insistentemente diante da documentação: “Como é que este senhor desembargador, que se tem proclamado 148 Ibdem. 82 abolicionista enragé, vai advogar contra a liberdade encontestavel de Faustino?”149 Não se sabe ao certo se a liberdade de Faustino era incontestável, mas todos os posicionamentos dos homens de poder, sobretudo os propagandeados via imprensa, são passíveis de contestação. As convicções, via de regra efêmeras e multáveis, de homens como Felix Bulhões, Joaquim Ayres da Silva e outros membros da elite goiana, só fazem sentido se observadas à luz da ocasião e conveniências. Pregavam o abolicionismo, colocavam-se como protagonistas locais da suposta extinção da escravidão, mas atuavam em favor do escravismo. Nisso se nota a grande preocupação com a imagem pública e com a opinião pública, tudo que se tornava assunto para os jornais era pensado e criado tendo em vista o crivo dos receptores, tal preocupação constituiu os leitores também, ainda que indiretamente, como construtores dos periódicos goianos. Francisco Ayres da Silva, ainda na juventude, como estudante do ensino secundário, que viajava com certa frequência da capital para Porto Imperial, presenciou os debates abolicionistas em Goiás e viu como eles influenciaram na prática a vida de sua família. Ficou entre as ideias que se propagavam e as práticas do seu pai. Viu como, principalmente, os homens de poder tentaram conciliar o que para nós parece inconciliável, a defesa pela liberdade e manutenção das relações escravistas, a opinião pública e os interesses particulares. Assistiu às tensões e negociações entre os diferentes grupos sociais e no interior deles. Presenciou como a causa da abolição se tonou sinônimo de uma nova sociedade e desenvolvimento, irresistível até para aqueles que não queriam abrir mãos dos seus cativos sob os quais construíram suas riquezas e poder de mando. Acompanhou os diferentes projetos em disputa e a (in)flexibilidade de seu pai frente a eles. Com sua própria percepção sobre tudo, de difícil apreensão, Francisco Ayres seguia em (des)acordo na picada do pai. Seria um equívoco afirmar que o debate abolicionista não chegou ao norte de Goiás, ou se caso chegou foi com grande defasagem em relação aos outros lugares. Ou mesmo pensar que esta parte central do país era uma terra sem lei, não reconhecendo que as leis, bem como as ideias, estabeleceram-se num jogo com regras peculiares. Nesse aspecto a noção de isolamento e distância em relação a outros espaços foi um fator positivo, pelo menos para homens como o pai de Francisco Ayres que jogaram e se beneficiaram com essa condição. 149 Publicador Goyano. Goyaz, 11/12/1886. p. 3. 83 As ideias abolicionistas, como outras, chegaram ao norte no calor da hora, provocando, como vimos nesse caso pontual, efeitos na vida de muitos, alterando a percepção sobre a realidade. A principal diferença é que em cidades como a de Francisco Ayres da Silva tais ideias enfrentaram obstáculos mais intransponíveis, especialmente pela forma como os donos de escravos exerciam autoridade e pela falta de interesse e/ou dificuldade em fiscalizar as relações escravistas sob a ótica das leis abolicionistas, exemplificadas na recusa do juiz de direito da comarca de Porto Imperial em agir contra Joaquim Ayres pela liberdade de Faustino, e na disputa travada entre os envolvidos pelo lugar onde o caso seria julgado. Mesmo sendo atribuídas a Joaquim Ayres da Silva, atitudes como falsear documentos, perseguir, castigar e até mesmo assassinar pessoas, a única coisa que lhe pesou efetivamente aos ombros foi ter feito tudo isso para manter cativo um homem supostamente livre. Ser contra a liberdade havia se tornado inconfessável, pois significava ser contra o progresso, uma causa absolutamente injusta, o que lhe rendeu uma imagem construída pelos seus adversários em tom de ofensa, da qual por vezes se tentou esquivar, a de “mandão, manda chuva” que (...) em uma localidade influi tanto nas relações sociaes, civis ou particulares à ponto de obstar o desenvolvimento, progresso e administração da justiça do logar, desde que esses elementos forem contrários aos seus interesses particulares. O mandão anda sempre cercado do peor pessoal: proteje as causas injustas e inconfessáveis, que é em geral dinheiroso, conserva debaixo da sua dependência todo aquele, que recorre a sua bolsa. Enfim o mandão é uma peste ou uma calamidade social. 150 Embora tenha perdido o caso, o pai de Francisco Ayres da Silva prosseguiu como homem de muito poder no norte goiano e influência em toda província, esquivando-se das imagens negativas. No ano seguinte figurou na primeira página do Goyaz, agora Orgam Democrata, como candidato do Partido Liberal contra os candidatos conservadores 151 para ocupar o cargo de membro da Assembleia Legislativa Provincial. Na mesma página, várias notas com teor abolicionista, anunciando os últimos dias da escravidão, os passos de abolicionistas como Joaquim Nabuco, a injusta perseguição aos “valentes abolicionistas”, a libertação de escravos em espécie de 150 Op. cit. p. 4. 151 Mobilizados, dentre outros, pelo jornal A União: orgam do partido conservador. A união. Goyaz, 7/04/1888. 84 contagem regressiva, e com tom de euforia comemorando o que naquela altura já era previsível, “não há diques que possam conter a inundação abolicionista, que já atinge os tectos do edifício social”.152 De volta da capital para Porto Imperial, logo após a abolição da escravidão no Brasil, Francisco Ayres assistiu seu pai se tornar reconhecidamente um deputado liberal eleito pelo 2º distrito 153 , que corresponde aos eleitores do Norte. 154 Joaquim Ayres da Silva acompanhou, como deputado, a mudança de regime político no Brasil. No cargo de deputado, eleito consecutivamente, viu o Brasil deixar de ser Império para se tornar República. Sua presença no poder representa o grau de transformação política que ocorreu na província goiana em razão da Proclamação da República. Mudaram-se os termos e o nome dos partidos, mas nem tanto os personagens e a forma de fazer política. Paralelamente a cidade natal de Francisco Ayres da Silva mais uma vez registrou no nome a mudança de regime político, sem objeções notórias, pois, após a proclamação de que o Brasil deixaria de ser um Império para se tornar República, proclamou-se também que Porto já não poderia ser chamada de Imperial, pois tal designação perdera o sentido de ser. A mudança no nome significou uma forma de mudança de pertença, uma negação a tudo que foi associado ao termo Império, absolutamente negativado, em decorrência de décadas de debates em todo Brasil, ou seja, um sistema político e administrativamente obsoleto que se constituiu como empecilho para o desenvolvimento do país. Para fugir do estigma, negar uma pertença que tornou indesejada, confirmar o domínio republicano e consolidar o regime no estado, Porto passou a ser Nacional. Como Joaquim Ayres era o responsável pelas assinaturas do Jornal Goyaz, em Porto 155 , Francisco Ayres da Silva, de volta ao acolhimento da sua família, provavelmente leu naquele periódico da capital, em 1890, que “Porto Imperial – esta 152 Goyaz. Goyaz, 18/11/1887. p. 1. 153 Nos processos eleitorais Goiás se dividia em distritos, 1° e 2° distritos: 1º Districto – Parochias da Capital, Barra, São Jose de Mossamedes, Curralinho, Anicuns, Allemão, Morrinhos, Paracanjuba, Santa Ritta das Antas, Santa Ritta do Paranahyba, Bonfim, Santa Cruz, Meia Ponte, Corumbá, Rio Bonito, Rio Verde, Catalão, Entre Rios, Caldas Novas, Campininhas, Jatahy, Sant’Anna d’Antas, Aldeã, Pouso Alto, Bella-Vista, São Francisco das Chagas, Pyrinopolis, Campinas, Santa Luzia, Santo Antonio do Cavalheiro e Senhor Bom Jesus. 2º Districto – Parochias de Jaraguá, Pilar, Formosa, Trahyras, São José do Tocantins, Cavalcante, Nova Roma, Forte, Chapeo, Arrayas, S. Domingos, Taguatinga, Palma, Conceição, Natividade, Porto Nacional, Pedro Afonso, Carmo, São Miguel, Chapada, Boa Vista; Almas, Mestre d’Armas, Sacco, Espirito Santo do Peixe, Chapada, S. Felix, Flores, Posse e Santa Rosa. Goyaz. Goiaz, 10 de outubro de 1890; 3 de outubro de 1890; 6 de março de 1891; 13 de março de 1891. 154 Goyaz. Goyaz, 16/08/1888. P.4. 155 Goyaz. Goyaz, 10/04/1886. p. 4. 85 cidade passou a denominar-se – Porto Nacional”.156 Manter a designação anterior seria qualquer coisa como (re)afirmar e (re)assumir o descompasso em relação à dinâmica brasileira. A mudança embora não tenha redundado de imediato em transformações efetivas na materialidade da cidade ou em sua organização social, significou uma renovação, e porque não a inovação, de diferentes sonhos, esperanças e expectativas daqueles que nela habitavam e/ou nela se habituaram a viver. Para uns a possibilidade de ascender socialmente, para outros a plena liberdade, para alguns mais acesso ao poder, para muitos ampliação de direitos e igualdade social, maior integração da cidade com outras regiões de uma nação em plena construção. Enfim, entre expectativas alcançadas e frustradas não se tratou apenas de uma alteração nominal, mas a expressão de que havia na disputa pelo nomear outros aspectos em jogo. 1.6 FRANCISCO AYRES NA “PICADA” COM O PAI: DO LEGADO À CONSTRUÇÃO DAS PERCEPÇÕES O momento de transição, em que Joaquim Ayres deixou de ser um representante político do império para se tornar representante político da República, foi o período em que Francisco Ayres mais acompanhou de perto seu pai, com trocas mais intensas entre eles, principalmente porque o primeiro, já com o ensino secundário concluído, gozava de maior disponibilidade e maturidade que outrora, para seguir os passos do segundo, para ler e entender melhor as situações que se colocavam. Passou a estreitar laços com o mesmo ciclo de influência do pai, participando de atividades que o aproximaram de outros homens de poder do grupo oligárquico a que seu progenitor pertencia, bem como dos seus filhos que provavelmente os substituiriam no domínio do estado. O jovem portuense passou a figurar na imprensa, inclusive, com certo destaque em relação aos outros jovens abastados do Estado. O capital político, material e simbólico de Joaquim Ayres se estendia gradativamente para os seus filhos, especialmente para Francisco Ayres. Francisco foi membro do Club Literário Felix Bulhões, assim chamado para homenagear o influente político goiano, o mesmo que defendeu a escravização de Faustino. Clube literário também usado como forma de articular o poder do grupo no Estado e já inserir os mais jovens na dinâmica política. Por ocasião da missa de sétimo 156 Op. Cit. 8/04/1890. p. 3. 86 dia de Felix Bulhões, os filhos de Joaquim Ayres aparecem na imprensa como ilustres representantes do Clube, sendo Francisco Ayres um dos oradores e porta voz do grupo. Segundo notícia da primeira página do periódico fundado pelo homenageado, realizou-se (...) na capela do cemitério de S Miguel, uma missa por alma do desembargador Antonio Felix de Bulhões (...) o clube literário – Felix Bulhões – fez-se representar por uma commissão composta dos – josé xavier de almeida, Francisco ayres da silva, josé Joaquim de Souza, joaquim xavier de almeida, vasco e Leopoldo de Souza, Francisco Xavier de almeida, Pio Ayres da Silva, Benedicto Solon Leal, Pedro Guimaraes, Mario e Godofredo de Bulhões. No próximo numero publicaremos o brilhante discurso proferido pelo orador do club, sr José Xavier de Almeida e bem assim o do sympathico e inteligente moço Francisco Ayres que em nome da mocidade goyana, depositou uma coroa de saudades sobre o tumulo do patriota goyano. 157 A posição ocupada por Francisco Ayres da Silva no clube literário, os adjetivos a ele atribuídos que o distinguiram dentre os outros nomes citados, o fato de ter sido escolhido como representante simbólico da “mocidade goyana”, sugerem o bom trânsito que Ayres tinha em Goiás, o prestígio e proeminência que o mesmo cultivou no ceio da elite Goiana. Ou quem sabe não passou de simples estratégia para manter em evidência o nome de uma figura do norte de Goiás para os futuros pleitos político, já anunciando o sucessor natural do deputado de Porto Nacional, como parte do projeto para manutenção da hegemonia oligárquica dos Bulhões. A ocasião é emblemática no sentido de indicar que uma geração que dominou durante o Império, simbolizada por Felix Bulhões, passava as rédeas do poder para a nova geração representada pelos jovens do clube literário. De qualquer forma essa homenagem, seja como parte de uma estratégia ou apenas como ritual destituído de pretensões políticas, deixa antever que o jovem portuense era dotado de alguma habilidade, inteligência, liderança ou postura religiosa que o destoava dos demais, já que todos os nomes citados eram pertencentes a famílias abastadas e influentes no Estado. Deve-se ressaltar que o seu nome é colocado ao lado de José Xavier de Almeida, homem influente no sul, que anos depois se tornaria, entre 1901 até 1905, o Presidente do Estado. 158 Francisco Ayres da Silva teve criação e formação semelhante a de qualquer outro jovem do estado de Goiás que fosse filho de fazendeiro, comerciante e político. 157 Op. Cit. 29/03/1890. p.1. 158 CHAUL, Nasr Nagib Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: Editora UFG, 2010. p. 134. 87 Como qualquer outro jovem de sua posição social transitou, sempre que possível apesar da distância, pelos espaços e meios de sociabilidade reservados aos homens da elite. Recebeu, como tantos outros, formação para figurar nas posições de maior prestígio na escala social, no contexto em que a educação havia se tornado um fator decisivo para distinção social e projeção política, principalmente porque a organização em torno de clubes literários, partidos políticos e jornais assumiu grande relevância no Brasil, portanto também em Goiás. O acesso à formação específica fez com que a alternância nos cargos de poder se tornasse quase uma questão de hereditariedade. O jovem portuense, pelo apreço aos estudos ou pelo direcionamento do pai, ou ainda mais pela pressão do meio social a que pertencia, ou pela soma de todos esses fatores, dedicou-se ao estudo de outras línguas além do português, como francês, latim e inglês. 159 Em 1890, realizou exames das referidas línguas no Lyceo da então capital do estado, juntamente com outros jovens que também se tornariam importantes nomes no cenário político, como Antônio Ramos Caiado, que além de deputado foi representante federal no senado a partir do início do século XX, político do qual Francisco Ayres manteve proximidade, longa aliança política que redundou em inúmeras parcerias pela manutenção do poder de ambos no cenário político federal. Francisco Ayres foi aprovado plenamente em Português, latim e espanhol, mas não em inglês. 160 Alguém poderia perguntar: Qual o sentido da aprovação de Ayres nas outras línguas e não em inglês? É mesmo necessária tal informação sobre o resultado dos exames? O resultado dos exames é significativo, porque não se trata apenas de saber quais as línguas ele dominava, mas de compreender porque ele dominava estas e não aquela. A maior facilidade com latim e francês, embora tenha sido aprovado plenamente e não com distinção, o que indica que era um aluno nem abaixo nem acima da média, explica-se menos pelo gosto do que pelo maior contato que teve com essas línguas em detrimento da outra. Alguém poderia questionar ainda o sentido dessas questões já que os resultados assinalam o obvio, ou seja, que Francisco Ayres, como a maioria dos brasileiros, naturalmente teria melhor aproveitamento nas línguas de origem latina do que na língua de origem germânica. Mas prefiro pensar além dessa obviedade e não naturalizar a questão, principalmente porque é indício de informações relevantes que ajudam a compreender a trajetória do personagem deste estudo. 159 Goyaz. Goiás. 06/06/1890. p. 4. 160 Op. cit. 13/06/1890. p. 4. 88 Porto, quando ainda era Imperial, foi sede da Ordem dos dominicanos no norte de Goiás, segundo Audrin, por ser ponto estratégico da “vastíssima região que se estende entre as duas artérias fluviais do Tocantins e do Araguaia, e limita de um lado com o Pará e Mato grosso, do outro, com Bahia, Piauí e Maranhão”.161 Que para muitos Frades franceses no Brasil, “na maior parte jovens e ardentes”, era “um atrativo poderoso” para desempenhar o “trabalho missionário, social, religioso e educacional”.162 Francisco Ayres da Silva, oriundo de uma família com fé católica e muito religioso, teve estreito relacionamento com os padres dominicanos, por esse convívio se familiarizou com o latim e com o francês. É provável que para se instalarem em Porto Imperial, no ano de 1886, os dominicanos tiveram algum tipo de empenho por parte de Joaquim Ayres, em virtude da posição que o mesmo ocupava na cidade e pelas alianças posteriores com a família Ayres, perceptíveis nas páginas do jornal Norte de Goyaz. 163 O fato é que a predileção de Ayres pela França, não apenas pela língua, em parte passa pela experiência e pelo convívio com os religiosos franceses, convívio nem sempre totalmente harmonioso. Não por acaso os principais empreendimentos, em termos arquitetônicos, foram edificados por eles nas mediações em que a família residia e cuidava dos negócios. Os livros existentes e resistentes, ainda não totalmente esfacelados diante das agruras do tempo, calor, traças e bichos, que ocupam as antigas prateleiras de madeira do arquivo particular da família Ayres, testificam que Francisco Ayres da Silva durante toda a vida se ocupou com a língua francesa e tudo mais que ela poderia lhe proporcionar, parte significativa desses exemplares é escrita em francês. 164 161 AUDRIN, José Maria. Entre sertanejos e índios do Norte. Rio de Janeiro: Agir, 2007. p. 52. 162 De acordo com César Bressanin: “Espalhados por toda a Europa, em alguns países da América Espanhola como Peru, Chile, Argentina, Uruguai, México e Colômbia, pela África e outras regiões do mundo os dominicanos engajaram-se na missão do anuncio do Evangelho na busca continua por novos convertidos para o catolicismo e no controle às heresias que afrontavam a Igreja Católica. A missão dos primeiros padres dominicanos no Brasil aconteceu em 1881. [...] Em Uberaba, cidade do extremo sul da diocese de Goiás, no triângulo mineiro os dominicanos fundaram o primeiro Convento da Ordem Dominicana do Brasil. [...] Mediante o trabalho promissor dos frades dominicanos no triângulo mineiro, solicitou mais uma vez ao superior da Ordem outros missionários que pudessem adentrar o interior da diocese de Goiás. Em 1883, Frei Reginaldo Colchen, provincial em Toulouse enviou alguns frades para a sede da diocese e capital da província. Assim, em 1886, chegava em Porto Imperial, atual Porto Nacional, os primeiros padres dominicanos Frei Gabriel Devroisin, Frei Michel Berthet, Frei Domingos Nicollet e o irmão leigo Frei Afonso Valsechini (...).” p. 31-33 BRESSANIN, César Evangelista Fernandes. A diocese de Porto Nacional: o governo de dois bispos dominicanos no antigo Norte de Goiás. In. SILVA, Geraldo Silva; SANTOS, Roberto Souza (orgs). Ensaios de geografia e história do Tocantins: para uma interpretação crítica. Palmas: Nagô Editora, 2012. p. 33. 163 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1906. p.3 164 Na biblioteca de Francisco Ayres se encontram obras de diversos autores franceses ou de outras nacionalidades publicados em francês, tais como: Albert Davzat, André Breton, Louis Liard, León Tolstoi, Ernest Flammarion, Suglielmo Ferrero, René Humbert, Charles Sarolea, Gaston Doin, G. 89 Nos primeiros anos da República, Francisco acompanhou ainda mais de perto os movimentos do seu pai, e viu que apesar da mudança de regime político a hegemonia da família em Porto Nacional foi mantida e ampliada, não apenas pela força e imposição de poder, mas também, a partir de então, pela ocupação de cargos, como o de 3º suplente do Juiz de direito da cidade ou mesmo como o responsável pela mediação do contato e dialogo da região com o mundo. Conforme noticiado no jornal Goyaz, o mesmo havia recebido uma carta de um naturalista americano, solicitando amostras do Vale do Tocantins para serem apresentadas em exposição realizada em Nova York. 165 Não foi possível encontrar a referida carta, nem outros detalhes do contato com o suposto naturalista J. M. Brezet. Fantasiosa ou não, a menção da troca de correspondência noticiada pela imprensa denota dois aspectos importantes que corroboraram para construção da figura de Joaquim Ayres, reivindicadas posteriormente por Francisco Ayres. O primeiro, a imagem de homem influente não só no estado, mas nos importantes centros cosmopolitas do mundo como Nova York, que mantém contato com homens importantes, conferindo ao mesmo a capacidade para apresentar Porto Nacional ao mundo e vice e versa. O segundo aspecto, a imagem de homem preocupado em aproveitar os recursos naturais e as potencialidades do Rio Tocantins, valorizadas inclusive pelos estrangeiros que, mesmo distantes, têm interesse em saber mais sobre a riquíssima natureza daquela região do globo. No entanto, pouco aproveitada pela nação. No final do ano de 1890, a imprensa carioca registrou um significativo passo dado por Francisco Ayres, que para a realidade de Porto Nacional reafirmou a proeminência da sua imagem e consequentemente da imagem de seu pai. Foi para o Rio de Janeiro fazer “exames geraes de preparatórios”, sendo aprovado plenamente em aritmética, álgebra e geometria. 166 Exames necessários para aqueles que almejavam obter formação superior. Esta foi provavelmente sua primeira viagem para a tão comentada Capital Federal da República, a partir de então não mais conhecida apenas pelas páginas dos jornais ou por meio de relatos, seus olhos viram do que era feito o centro administrativo do país naquele momento. Não se sabe ao certo se com temor, espanto, admiração, contemplação, frustração ou perturbação, mas a partir de então era Zinoviev, René Foignet, B. Dangennes, Luigi Cossa, marcel Marion, LeonBrunschvicg, Chales Benoist, Paul Choisnard, Karl Marx, Paul Féval, Gustave Gautherot, George Edgar Bonnet, Ernest Renan, Sylvanus Stall, Georges Valois, A. Naquet, René Boneval, Joseph François Malgaigne, Gustave Le Bon, Charles Dickens, Abel Rey, Victor Hugo, Octave Uzanne, Henri Coudreau, etc. 165 Goyaz. Goiaz, 11/06/1890. p.4. 166 Diário do Commercio. Rio de Janeiro, 19/12/1890. p. 1.; Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 26/11/1890. p. 2; Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 6/12/1890. p.2. 90 ele quem compartilhava, em Goiás, suas próprias impressões e percepções a respeito do Rio de Janeiro, pois entrou no cenário que já imaginava por ouvir dizer, ter lido em papel e tinta ou visto por meio de objetos. Nesse sentido, foi cada vez mais acentuada a visibilidade de Joaquim Ayres como liderança do norte do estado de Goiás, construída e reafirmada como região que deveria ser representada por alguém como o mesmo era apresentado, ou seja, o defensor dos interesses do norte. No contexto em que o estado se organizava em formato republicano, com muita agitação política, marcado por várias dissidências, rupturas, alianças e conchavos em todos os níveis do poder, Francisco Ayres da Silva viu seu pai mais uma vez ser eleito deputado pelo Centro Republicano e se afirmar como peça fulcral para manutenção da estrutura coronelística, que manteve os Bulhões como facção hegemônica, com quadro político favorável até a primeira década do Século XX, apesar do que Ana Lúcia da Silva ponderou como sendo um “equilíbrio instável”.167 Na imprensa Joaquim Ayres agradeceu aos eleitores do norte, que correspondia às cidades do 2º distrito eleitoral, penhoradíssimo para com os eleitores do 2º districto eleitoral d’este estado pela espontaneidade com que acolheram e suffragaram a minha candidatura na eleição de 31 de janeiro ultimo, não obstante termo apresentado candidato quase a ultima hora e como durante da chapa do centro republicano a que pertenço; venho hoje que acho reconhecido deputado pelo congresso, agradecer-lhes pela segunda vez essa prova de estima e consideração, assegurando-lhes que no congresso farei tudo quanto estiver a meu alcance para beneficiar os povos do norte d’este Estado.168 No agradecimento do deputado portuense é perceptível a preocupação em se colocar como uma liderança ocupada com os interesses “dos povos do norte d’este Estado”, uma diferenciação que começa a ganhar contornos mais evidentes, embora ainda imprecisa, sinalizando que acirrou a concorrência pelos votos dos eleitores do 2º distrito 169 , tornando a promessa de representar os mesmos no Congresso, fazendo “tudo 167 Conforme a autora, “para a afirmação dos Bulhões como facção dominante foi também importante sua articulação com outros grupos coronelísticos locais. A estrutura coronelística funcionava numa relação dialética de conflitos, alianças e rupturas. O domínio da facção se manteve até 1912, com base em um equilíbrio instável, devido as contínuas rupturas que ocorreram no seio do grupo e as contínuas alianças que teve de estabelecer.” SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 66-67. 168 Goyaz. Goyaz, 18/04/1891. p. 4. 169 Do 2º Districto as parochias mais importantes e decisivas para as eleições eram: S. Domingos, Taguatinga, Conceição, Porto Nacional, Boa Vista, Posse, Palma. Goyaz. Goyaz, 10 de outubro de 1890 p.1, 3 de outubro de 1890, 6 de março de 1891, 13 de março de 1891. 91 quanto estiver a meu alcance”, num argumento necessário para alcançar as pretensões ambicionadas. Francisco Ayres, que se preparava para estudar fora do estado de Goiás, entendeu pela experiência do pai que a partir de então, mais do que qualquer outro período anterior, para alcançar projeção política seria necessário conquistar a adesão dos “povos do norte”, para ser mais exato, dos eleitores daquela parte do estado. Joaquim Ayres da Silva naquela eleição foi um dos menos votados, por isso não foi incluído inicialmente entre os vinte eleitos para a assembleia legislativa. Foi incluído apenas posteriormente após manipulação do resultado das eleições por parte dos seus correligionários, que se esforçaram para tornar nula a apuração dos lugares onde os seus candidatos tiveram minoria dos votos. 170 No início da década de 1890, Joaquim Ayres da Silva, como chefe do partido republicano em Porto Nacional e um dos poucos representantes políticos não oriundo da capital, sofreu forte oposição política dos representantes do Partido Católico, especialmente daqueles que residiam na cidade como Luiz Leite Ribeiro e Frederico Lemes, que, com o apoio dos frades dominicanos, conseguiram obter inclusive maioria de votos em alguns processos eleitorais na cidade portuense. Os votos dos eleitores do norte passaram a ser disputados de forma cada vez mais acirrada em meio a mútuas acusações entre os concorrentes, como de “plantar anachia no processo eleitoral”, apresentando que a “legitima influencia do major Joaquim Ayres da Silva”, que para seus apoiadores “jamais poderá ser ofuscada”, estava 170 De acordo com a ata da segunda comissão de verificação de poderes, “(...) tendo examinado as actas das eleições procedidas a 31 de janeiro do corrente anno no 2º districto eleitoral deste Estado e as confrontando com a acta da apuração geral feita pela intendência da capital, cujas cópias servem de diploma aos deputados a assembléa legislativa deste Estado, entende que todo processo eleitoral correo regularmente – menos na parochia de Amaro-Leite, onde a respectiva mesa deixou de mencionar o numero de votos que tiverão os cidadãos ali suffragados. Deixarão de ser apuradas pela intendência, por não terem chegado a tempo, as authenticas das parochias de Pilar, Pedro Affonso e das cinco secções do município de BoaVista do Tocantins, cujas votações alterão o resultado que consta da acta da apuração. Computado os votos das referidas parochias, menos o da de Pilar, cuja acta não foi presente a comissão, a ordem dos cidadãos votados é a seguinte (...).” Nessa relação, Joaquim Ayres da Silva, que não estava relacionado entre os vinte eleitos até então, passa a aparecer como décimo nono candidato mais votado com 2,703 votos, pouco mais da metade do primeiro candidato mais bem votado Joaquim Fernandes de Carvalho com 4, 164 votos. Ainda de acordo com a ata, “Como se vê pela relação acima, as votações das parochias não apuradas pela intendência fazem que o numero dos 20 deputados que no 2º districto incumbe eleger, seja incluído o nome do cidadão Joaquim Ayres da Silva, que ocupa o 19º lugar na lista dos votados, e excluído o do cidadão José Antonio de Oliveira, que foi diplomado pela intendência de accordo com a sua apuração. E como as parochias não apuradas não podem influir no resultado, é a comissão de parecer: 1º que sejão approvadas as eleições procedidas a 31 de Janeiro do corrente anno no 2º districto eleitoral deste Estado. 2º Que sejão reconhecidos proclamados deputados a assembleia legislativa deste Estado os vinte cidadãos mais votados (...) sala das sessões em Goyaz, aos 9 de Abril de 1891. Francisco Perillo. Manoel Alves de Castro. Francisco Leopoldo Rodrigues Jardim.” Goyaz. Goyaz., 10/04/1891. p.1 92 constantemente ameaçada. 171 Dentre os vários episódios que indicam o tumultuado cenário político da década de 1890, assistido por Francisco e protagonizado por Joaquim, pode-se destacar a disputa em torno da elaboração da Constituição do Estado de Goyaz. Pouco tempo após a Proclamação da República, Goiás se antecipou em relação à maioria dos outros estados da federação, e criou sua Constituição. Enquanto nos outros lugares se combatia com certa dificuldade projetos de restauração monárquica ou projetos de cunho separatista, em Goiás, onde tais projetos não causaram grande eco, as tensões ocorreram pelo controle do poder político entre os grupos oligárquicos mais fortes, todos, ao menos no campo do discurso, favoráveis ao regime Republicano, independente do partido político. Quem sabe por isso o pioneirismo do estado na elaboração da Constituição. 172 O pai de Francisco Ayres da Silva foi um dos membros responsáveis pela elaboração e aprovação da primeira Constituição política do estado de Goiás, feito sempre lembrado como forma de reafirmar a importância de um representante de Porto Nacional que colaborou para a organização do cenário estadual. 173 O que é pouco lembrado foi o tumulto em meio ao qual a Constituição foi construída, pois tanto os representantes do Centro Republicano, liderado pelos Bulhões, como o Partido Republicano Federal, resultado da união dos integrantes do Partido Católico com os dissidentes do Centro Republicano, pensaram e discutiram uma constituição. 174 Nas palavras do então governador Rodolpho Gustavo da Paixão, que contrariava os anseios dos Bulhões, o fato é descrito da seguinte maneira: Vinte e quatro deputados, desrespeitando o decreto n. 64 de 21 de Maio, reuniram-se em prédio particular, votaram e promulgaram, graças a absoluta inobservância das formalidades inherentes a actos de tal magnitude, uma constituição que o governo estadoal, o federal e quase todos os goyanos consideram illegitima, dando, em seguida, por finda sua missão constituinte, como se vê de documento por elles firmado. Tentei dissuadil-os de tão prejudicial proposito, conferenciando com os mais intransigentes e conspícuos; lembrei-lhes 171 Goyaz. Goyaz, 17/02/1891. p.4. 172 PAIXÃO, Rodolpho Gustavo da. Menssagem dirigida ao congresso constituinte de Goyaz. In. Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 81. 173 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906. 174 Para aqueles que queiram saber mais sobre essa disputa em torno da constituição, a Imprensa Goiana pode ser um bom caminho. Os jornais da capital que, mobilizados em torno dos partidos, acompanharam todo o processo, cada qual com sua visão sobre o episódio. Sobretudo, as publicações de 1891 dos jornais Goyaz, A Gazeta Goyana e o Estado de Goyaz. 93 o meio honesto e digno de chegar-se a um resultado, capaz de attender aos seus interesses e ao do estado, por cuja prosperidade anhelo, a despeito de haver nascido além de sua fronteira oriental. Inuteis foram os meus esforços; quebrou-se-me a boa vontade de encontro à resistência tenaz a qualquer accordo, que não visasse a entrega do governo ao presidente por elles eleito, dando força de lei à constituição clandestina. 175 O cenário político do Brasil, que ganhou forma em Goiás na rivalidade entre o Centro Republicano e o Partido Republicano Federal 176 , ou Partido Católico como os seus adversários preferiam chamar, foi caracterizado em Porto Nacional pelo acirramento do embate encabeçado por Joaquim Ayres da Silva contra Luiz Leite Ribeiro e Frederico Lemos, ou seja, entre os principais representantes dos respectivos partidos na cidade. Logo após a publicação da Constituição, foi criado em Porto Nacional o Folha do Norte 177 , primeiro jornal da cidade, com intenção de promover 175 PAIXÃO, Rodolpho Gustavo da. Op. cit. p. 82. 176 Estado de Goyaz. Goyaz, 18/09/1891. p. 2. 177 Jornal fundado por Frederico Lemos e Luiz Leite Ribeiro, membros do diretório do Partido Republicano Federal de Porto. O jornal foi fundado no mesmo mês em que o Diretório foi criado na cidade Julho de 1891. De acordo com estudiosos da Comunicação que o analisaram o periódico era “bimensal com formato 1/8, media 30cm de altura por x 21cm de largura. A mancha gráfica possuía três colunas por página nas quatro páginas por edição. A tipografia foi importada de Nova Iorque, da fábrica Joseph Watson, e veio diretamente para Porto Nacional. Instalada na antiga rua da Intendência, n. 3, recebeu o nome de “TIPOGRAPHIA TOCANTINA””. Segundo os mesmos, o único acervo completo do Folha do Norte está sob a guarda da família Ayres. “A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui apenas um exemplar do Folha do Norte, no acervo de obras raras.” COSTA, Lailton da; TEIXEIRA, Irenides; PAINKOW, Aurielly. Folha do norte (1891-1894) O jornal pioneiro da imprensa tocantina. In. II Encontro Nacional da rede Alfredo de Carvalho. Anais eletrônico. Florianópolis: UFRGS. Disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros- nacionais/2o-encontro-2004-1. Acesso em: 28/04/2015. 177 Estado de Goyaz. Goyaz, 13/02/1892. Procuramos exaustivamente por esse acervo, inclusive no arquivo particular da Família Ayres, mas não foi encontrado. Embora outros trabalhos como o de Maria do Espírito Santo Rosa Cavalcante, o de Maria de Fátima Oliveira e o próprio artigo mencionado acima, tenham pesquisado os exemplares do jornal, pesquisa evidenciada pela citação de trechos de diferentes exemplares. Curiosamente os trechos citados do jornal nos trabalhos são praticamente os mesmos, com uma ou outra exceção. No trabalho de Maria de Fatima Oliveira, intitulado Entre o Sertão e o Litoral, a autora afirma que “os números existentes deste periódico no acervo particular da família Ayres da Silva atualmente são os seguintes: Ano de 1891: n. 01 ao 12; ano de 1892: n.13 ao 35; ano de 1893: n.36 ao 46; ano de 1894: n.47 ao 51.” Diz ainda que o Folha do Norte se encontrava em melhor estado que o Norte de Goyaz (OLIVEIRA, 2010, p. 84-85). Durante nossa pesquisa encontramos apenas o Norte de Goyaz, e nenhuma informação sobre o paradeiro do que restou do Folha do Norte. Se o mesmo ainda existe, a dificuldade em encontrá-lo não é simples resultado do acaso, mas de uma disputa por memória e/ou por esquecimento. Soa no mínimo estranho o fato do jornal, que nasce da rivalidade contra Joaquim Ayres e seus filhos, está sob a guarda da família Ayres. Mesmo não encontrando o periódico não me furtarei de analisar, quando necessário e oportuno, os fragmentos que aparecem nos trabalhos de outros autores, ainda que sirva para construir interpretações divergentes das realizadas pelos mesmos. No entanto, encontrei um exemplar da segunda fase do Folha do Norte, publicado em 1907 como continuação da primeira fase, ressurgimento não comentado por nenhum trabalho acadêmico, sobre o qual trataremos no momento oportuno. COSTA, Lailton da; TEIXEIRA, Irenides; PAINKOW, Aurielly. Folha do norte (1891-1894) O jornal pioneiro da imprensa tocantina. In. II Encontro Nacional da rede Alfredo de Carvalho. Anais eletrônico. 94 seus representantes e fazer oposição e resistência ao avanço do domínio do Centro Republicano no norte do Estado. A estratégia deu certo, pois alguns meses depois do surgimento do jornal portuense, Luiz Leite se tornou deputado pelo 2º districto. 178 Francisco Ayres da Silva pôde perceber, no empreendimento dos adversários de seu pai, o poder que um jornal possibilita para aquele que o controla. Entendeu que naquele momento e naquela região não haveria outra estratégia mais eficaz para se tornar uma liderança do que um periódico. Acompanhou tanto em Porto Nacional, como na capital Goyaz, uma verdadeira batalha em papel e tinta envolvendo sua cidade natal, a região norte e as principais lideranças. Batalha não apenas em papel e tinta, mas também com armas e sangue, e mesmo estas foram transpostas para as páginas dos jornais. Na batalha impressa os principais jornais da capital se articulavam com os periódicos locais. O Folha do Norte estava vinculado, sobretudo com o Estado de Goyaz, antiga Gazeta Goyana 179 , contra o jornal Goyaz, que apesar de ironizar o poder de atuação do jornal portuense, não o ignorou. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, Francisco Ayres tomou parte de uma verdadeira guerra de acusações, denúncias, perseguições, opiniões, projetos e interesses, registrados via imprensa. Os jornais se citavam constantemente desferindo críticas contra os adversários e construindo defesas contra os ataques sofridos pelos mesmos, usavam um grande arsenal de adjetivos para desmoralizar ou heroificar autoridades de acordo com as alianças, cada um reivindicando a posse da verdade para si. A política, se não foi o motor, foi certamente o combustível que manteve a imprensa goiana em movimento. Ayres viu no dia a dia com seu pai como o jornal se constituiu num importante instrumento para mobilizar forças e direcionar opinião, mesmo onde o analfabetismo imperava. As notícias de Porto Nacional chegavam à Capital pelo filtro do hebdomadário portuense, assim como as notícias da capital, que a partir de então também passavam pelo mesmo filtro. Por ocasião da Constituição, o jornal Estado de Goyaz mencionou a forma como o Folha do Norte atuou no sentido de descaracterizar o feito do qual Joaquim Ayres participara. Os jornais, absolutamente alinhados, trabalharam juntos para conquistar a adesão dos eleitores do norte do Estado. Florianópolis: UFRGS. Disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros- nacionais/2o-encontro-2004-1. Acesso em: 28/04/2015. 178 Estado de Goyaz. Goyaz, 13/02/1892. 179 Estado de Goyaz. Goyaz, 6/06/1891. p.1. Esse é o primeiro exemplar do Estado de Goyaz, que comunica aos assinantes que entra em substituição ao Gazeta Goyana, encerrado no seu numero 92. Apesar da mudança foi reafirmado que a diretoria e o propósito do jornal que se encerrou permaneceram no que se iniciava. 95 Tendo os 24 signatários da pseudo-constituição de 1º de junho assignado um protesto que mandaram espalhar a mancheias pelo norte do Estado, no intuito de impedir que a de 15 do passado se realisassem as eleições, a directoria do partido Republicano Federal de Porto Nacional apressou-se em mandar imprimir nas officinas da Folha do Norte um manifesto concitando o eleitorado a que concorresse às urnas e desfechasses de vez o ultimo golpe no monstro oligárquico. 180 Luiz leite Ribeiro e Frederico Ferreira Lemos colaboravam com certa frequência no Estado de Goyaz como porta voz do partido Republicano no Norte, boa parte das notícias referentes àquela parte do estado eram anunciadas por eles seja em carta aberta ao jornal da capital ou por meio de citação do Folha do Norte. Quase sempre criticando a influência de Joaquim Ayres da Silva e o mau uso do poder por parte do governo. Para dar um exemplo, a crítica feita por Luiz Leite ao irmão de Francisco Ayres, Raymundo Ayres da Silva, por ter sido reformado capitão da Guarda Nacional, em sua opinião pela influência do pai junto ao governo. 181 Não por acaso o jornal Estado de Goyaz fez várias menções de saudação, mesmo após mais de um ano de circulação, do mais novo parceiro na luta pelo poder político contra a oligarquia Bulhões ou, como foi chamado, “o monstro oligárquico”. Temos à vista um bonito specimen da Typographia Tocantina, de propriedade do nosso amigo e chefe sr. Tenente coronel Frederico Ferreira Lemos, estabelecido na cidade do Porto Nacional. Grande quantidade de typos bem escolhidos e de linhas fantasias e vinhetas e o bom gosto permitiu a formação da Typographia tornam-n’a uma das melhores do Estado. Agradeço a remessa que nos foi feita do espcimen, folgamos de ver o Norte figurar com vantagem no certâmen da arte. 182 Folha do Norte – com o seu numero 25 de 8 de julho entrou em seu segundo anno de existência a nossa colega Folha do Norte, de Porto Nacional. Não obstante as dificuldades com que luctam os seus diretores, nossos distinctos amigos tenente coronel Frederico Lemos e capitão Luiz Leite, a Folha do Norte tem sabido se manter com muita independência e critério, e defender com abnegação e patriotismo os altos interesses d’aquella zona do nosso Estado. Saudamol-a com jubilo, e desejamos que sua vida se prolongue por dilatados annos, para o bem do norte de Goyaz. 183 Defender os “interesses d’aquella zona do nosso Estado”, para o bem do norte 180 Estado de Goyaz. Goyaz, 03/10/1891. p. 3. 181 Ibdem. 14/07/1892. 182 Estado de Goyaz. Goyaz, 27/10/1892. 183 Ibdem. 20/08/1892. p. 3. 96 de Goyaz, passou a ser reivindicado por diferentes autoridades, todos se arvorando como representantes políticos em defesa do distrito eleitoral que passou a ser entendido como uma região que tem seus próprios interesses. Já pelo nome do Jornal se percebe o desejo de criar uma identificação e representatividade, seria a primeira Folha do Norte, ou seja, o impresso que se dedica inteiramente às questões que envolviam aquela parte do Estado. Mas o que era o norte ainda não estava geograficamente definido, o que se percebe pela documentação pesquisada, até mesmo pelo contexto e propósito da criação do jornal, é que o que se chamava de norte do estado de Goiás correspondia ao 2° distrito eleitoral. Os deputados do segundo distrito eram quase todos oriundos da capital, o Partido Republicano Federal começou a questionar essa realidade como argumento contra o Centro Republicano, justificando que exatamente por falta de representantes do Norte junto ao governo os interesses, também construídos, dessa parte do estado eram sempre preteridos. É difícil e arriscado afirmar que a ideia de abandono tenha sido criada pelo Folha do Norte, possivelmente esse assunto era pauta nas conversas informais, principalmente por ter se tornado principal argumento para aqueles que aspiravam uma posição política. Mas, ainda que o jornal não tenha fundado o abandono, foi a partir dele que essa máxima ganhou vulto em todo o estado. Mas essa questão da construção do Norte pela imprensa será tratada de forma mais acurada no último capítulo, por hora é necessário retomar a trajetória de Francisco Ayres da Silva, na picada com o pai. 1.7 ENTRE PAI E FILHO: POLÍTICA, RELIGIÃO, IMPRENSA E CIDADE(S) EM (TRANS)FORMAÇÃO Os primeiros anos de República, sobretudo 1892 e 1893, foram marcados por conflitos armados entre lideranças de diferentes cidades do estado de Goiás, especialmente de Catalão e Boa Vista, amplamente comentados pela imprensa e nos relatórios provinciais. Nos dois casos, os conflitos ocorrem pela disputa entre a elite local pela ocupação dos cargos municipais. Interessante ressaltar que são duas cidades localizadas nas extremidades do estado, a primeira mais ao sul e a segunda ao norte, e, devido à distância de ambas em relação à capital, foi possível promover a agitação e fazer perdurar por algum tempo. Os jornais debateram exaustivamente os dois conflitos, pois envolviam políticos do Centro Republicano, na cidade de Catalão o senador 97 Antonio da Silva Paranhos, na cidade de Boa Vista o deputado Carlos Gomes Leitão, ambos ligados ao mesmo partido de Joaquim Ayres da Silva. Contra eles, apoiados pelo partido rival, como os principais envolvidos, estavam em Catalão as famílias Andrade e Ayres, e em Boa vista Frei Gil. 184 Para o jornal Goyaz, tratava-se de movimentos de sedição contra o poder instituído, para o Estado de Goyaz e também para o Folha do Norte tratava-se de uma manifestação espontânea e legítima da sociedade contra abusos de um mau governo, não havendo crime algum em tal reação. 185 É com profundo pezar que presenciamos estas luctas no seio da família goyana que devia hoje, por amor das instituições novas e da consolidação do Estado, evital-as e proscrevel-as. No terreno legal há bastante espaço para a formação dos partidos, para as disputas das posições e para a defesa dos direitos, das garantias constitucionais, por ventura violados. Se os políticos ambiciosos e intolerantes soubessem da impressão desagradabilíssima que geralmente produzem as suas agitações e medissem o alcance que os seus atos irreflectidos tem no momento actual com relação ao caracter brasileiro e no credito nacional, moderavam por certo as suas aspirações desorientadas. O exemplo de Catalão e em breve o de Boa-vista do Tocantins hão de convencel-os de que o governo tem elementos para facilmente contel- os, punil-os, manter o prestígio da lei e da autoridade e firmar a República em solido alicerces. 186 No relatório ao Congresso do estado em 1893, impresso na tipografia do Goyaz, também se comentou sobre os conflitos e a dificuldade de conter as agitações no extremo norte, onde a situação teve desdobramentos mais agravantes e duração mais prolongada. É com grande jubilo que vos annuncio a pacificação da comarca de Catalão. Reprimido o movimento sedicioso de Catalão (...) Espero também que em breve, com as enérgicas providencias ultimamente tomadas, se restabeleça definitivamente a ordem na comarca de Bôa- Vista do Tocantins, há mais de anno entregue a uma lucta que, tendo tido origem intuitos políticos, degenerou-se depois em assassinatos calculadamente, friamente consumados, em roubos, em atentados contra a honra das famílias, nas mais torpes e cruéis atrocidades. A longa duração d’esse estado anarchico em Bôa-Vista é, como sabeis, 184 Esses episódios foram pouco estudados, tanto o de Catalão como o de Boa-Vista do Tocantins, e carecem de pesquisas do ponto de vista historiográfico, pois são significativos para tonar mais compreensível como os interesses locais de cidades goianas se articularam e leram a dinâmica política nacional. Para a presente pesquisa não interessa aprofundar nos pormenores dos conflitos, interessa apenas identificar como eles afetaram a imagem da família Ayres e suas relações na cidade de Porto Nacional e no estado. Por isso me deterei mais no conflito de Bôa-Vista do Tocantins que colocou Porto e a família de Francisco Ayres em evidência na imprensa goiana da época. 185 Estado de Goyaz. Goyaz, 29/04/1893. 186 Goyaz. Goyaz, 17/02/1893. p.1. 98 devida a grande distancia em que se acha essa comarca da sede do governo. 187 Pouco se sabe sobre os detalhes dos embates ocorridos em Catalão e Boa-Vista do Tocantins, mas pelos jornais é perceptível que se tornaram motivo de preocupação para todos, não por acaso se estamparam por tempo considerável nas primeiras páginas dos jornais de Goiás, mencionados também em periódicos do Maranhão e Pará. Porto Nacional como uma cidade estratégica, ponto de parada para qualquer um que do extremo norte se dirigisse para a capital ou vice e versa, envolveu-se diretamente no conflito em Boa-Vista; as autoridades portuenses foram convocadas para avalizar as diferentes versões sobre os acontecimentos. Muitas acusações e imagens foram produzidas via imprensa em razão do caso de Boa-Vista, que serviram para colocar a cidade, o jornal e as autoridades portuenses em evidência, colaborando para condição de que Porto Nacional era o lugar para onde convergiam os interesses do norte. Mas antes de tratar sobre como os portuenses participaram da disputa, creio ser necessário dedicar algumas linhas para o caso de Catalão. Na cidade de Catalão, em dezembro de 1892, os chamado sediciosos, grupo armado com aproximadamente 50 homens, liderados por Carlos de Andrade e José Maria da Silva Ayres, expulsaram as autoridades da cidade, especialmente as da família Paranhos, e ocuparam os cargos públicos como o de delegado e agente dos correios, com argumento de que o fizeram por aclamação popular. Assim permaneceram por semanas, até janeiro de 1893, quando fugiram da cidade temendo a chegada da força federal vinda do Rio de Janeiro, chamada para conter a agitação e restituir os cargos que haviam sido destituídos. 188 É provável que exista algum tipo de relação entre a família Ayres de Catalão e a família Ayres de Porto Nacional. Na sentença referente ao caso, proferida pelo magistrado Manoel Lopes de Carvalho Ramos, publicada no Jornal Goyaz, dentre os ditos sediciosos aparecem como réus os nomes de Joaquim Ayres da Silva e Francisco Ayres da Silva. 189 Teriam os moradores de Porto Nacional, Francisco Ayres da Silva e Joaquim Ayres da Silva, participado da sedição em Catalão? Caso tenham participado por que estavam contra uma autoridade política vinculada aos 187 CAIADO, Antonio. Menssagem dirigida ao congresso do Estado de Goyaz: na sessão de 23 de junho de 1893. In. Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 137-138. 188 SANT’ANNA, Ivan. Herança de sangue: um faroeste brasileiro. São Paulo: Cia das Letras, 2012. p. 55-82. 189 Outros nomes como o de Pedro Ayres da Silva e João Ayres da Silva também são citados. Goyaz Goyaz, 21/04/1893. p.1 99 Bulhões? Seria por interesses familiares para auxiliar José Maria Ayres? Caso os nomes citados não se refiram às mesmas pessoas, existe alguma relação entre os Ayres de Catalão com os Ayres de Porto Nacional? Ou a repetição dos mesmos nomes em ambas as famílias é uma mera coincidência? Outras questões aparecem quando se lê na mesma página de jornal uma nota de Joaquim Ayres da Silva dirigida ao público sobre não ter sido reformado ao posto de comandante da comarca de Porto Nacional, e na coluna ao lado um edital tratando sobre a hipoteca dos bens na cidade de Catalão de todos os envolvidos na sedição, inclusive Joaquim Ayres da Silva, que teve uma casa, na Praça da República, hipotecada. Não há nenhum tipo de distinção entre o nome citado nas duas colunas, exceto pelo lugar, ou seja, pela menção da cidade, numa Porto Nacional e noutra Catalão. A dúvida aumenta ainda mais quanto ao teor da nota publicada a pedido de Joaquim Ayres, que indica uma ressente ausência de Porto Nacional. Ele diz Acabo de ser sorprehendido com a noticia de haver sido reformado no posto do comandante superior desta comarca do Porto Nacional o meo venerando compadre Frederico José Pedreira, subindo de ponto a minha surpresa e desgosto pela circunstancia de ter sido o meu obscuro nome o com que fora substituído ou preenchido aquelle logar. 190 Outra questão que chama atenção foi o desdobramento final do episódio em Catalão, o projeto de lei apresentado ao senado federal pelo próprio Senador Antonio da Silva Paranhos, “contra quem principalmente se dirigia o movimento sedicioso”, concedendo anistia a todos os envolvidos. 191 Por qual razão Antonio Paranhos daria anistia aos sediciosos? Seria pela influência política dos Ayres junto ao governo da situação naquele momento? Apesar dos vários indícios além dos apresentados, que sugerem que os Ayres citados no caso da sedição em Catalão sejam os mesmos da família de Francisco Ayres da Silva, as respostas ficarão inconclusas e os questionamentos em aberto para futuras pesquisas que queiram investigar o caso de forma mais acurada. O fato é que o envolvimento da família portuense no caso de Boa- Vista já oferece elementos suficientes para compreender, ainda que de forma fragmentária, o meio em que Francisco Ayres da Silva viveu e o debate das folhas 190 Goyaz. Goyaz, 5/05/1893. p.3 191 CAIADO, Antonio. Menssagem dirigida ao congresso do Estado de Goyaz: na sessão de 23 de junho de 1893. In. Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 137. 100 impressas em que seu pai esteve enredado. No caso de Boa-Vista do Tocantins, em linhas gerais, os conflitos se instauraram por motivos semelhantes aos de Catalão. Embora cada cidade tenha em jogo outros interesses específicos, a centelha foi a instabilidade no cenário político nacional, por isso também no estadual, pós-proclamação da República que criou o cenário propício para que os grupos políticos rivais lutassem pelo controle local. Nesse sentido, o grupo liderado por Carlos Gomes Leitão, deputado que também ajudou a criar a Constituição do estado de Goiás, entrou em conflito com o grupo de Coronel Francisco de Sales Maciel Perna, apoiado pelo Frei Gil Vila Nova, pelo controle dos cargos políticos locais. 192 Francisco Ayres acompanhou o polêmico conflito pela imprensa, em Porto Nacional o Jornal Folha do Norte tratou em várias edições sobre o assunto, atacando Carlos Gomes Leitão, de maneira que o periódico de Frederico Lemos e Luiz Leite Ribeiro se tornou um instrumento para defesa da intervenção de Frei Gil em Boa-Vista, e depreciação da figura de Carlos Leitão, consequentemente de Joaquim Ayres da Silva, a quem a sua figura era associada em Porto Nacional. O Jornal Goyaz mostrou preocupação com a imagem produzida pela Folha do Norte sobre o caso; nitidamente favorável ao correligionário Carlos Leitão, o periódico da capital tentou desconstruir a versão construída pela folha portuense chamando-a de “irmã leiga, que vê a luz com os olhos de Luiz Leite Ribeiro e benção de Frei Gil”. De forma extremamente irônica, se refere ao Folha do Norte como uma “menina de truz: elegante, travessa, bonitinha e Sympathica”, ou seja, que pouco entendimento tem sobre a vida e que por isso seria já esperado seus posicionamentos equivocados, tratou as denúncias e irritação apresentadas contra o Goyaz pelo apoio a Carlos Leitão como “zanga” de menina “travessinha” e emburrada que “gritou, bateu com os pezinhos e soltou a linguinha e...zás! deitou um solene artigalhão de letras miudinhas, intitulado – justiça, que foi por ahi além e depois, continuou a fazer a exposição daquelas cousas que frei Gil arranjou para os seus negócios da Boa-vista”. Continuou afirmando que a menina “tão furiosa ficou que levantou mesmo o panno e deixou a gente ver a paixão 192 Para saber mais sobre ver: SILVA, Ignácio Xavier da. O crime do coronel Leitão: sedição na comarca de Boa Vista do Tocantins do estado de Goiás: 1892-1895. Cidade de Goiás: Gráfica Popular, 1935. GOMEZ, Luis Palacín. Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: O Padre João e as Três Revoluções de Boa Vista - Tocantinópolis. São Paulo: Edições Loyola, 1990. Na cidade Boa Vista, o conflito se prolongou mais que nos outros lugares, contou inclusive com a interferência de autoridades políticas do Maranhão. Segundo relatório de José Ignácio Xavier de brito, o conflito em Boa Vista, com mais de três anos de duração, só acabou no final de 1895. BRITO, José Ignácio Xavier. Mensagem dirigida à câmara dos deputados de Goyaz. In. Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 151-152. 101 dela”, ou seja, forma de deslegitimar a versão da folha portuense por ser fruto de interesses comerciais dos donos do jornal. 193 Além da luta armada, houve uma luta simbólica nas páginas da imprensa, embora o Jornal Goyaz queira demonstrar despreocupação com a opinião do Folha do Norte, a própria menção do jornal portuense em várias edições e a tentativa de desqualificá-lo denota o incômodo com as críticas desferidas. O tumulto político colocou Joaquim Ayres da Silva contra parte dos frades dominicanos, especialmente contra frei Gil, que apoiavam os seus adversários do Partido Católico. Por isso, tanto o Folha do Norte como o Estado de Goyaz, ao que tudo indica o segundo mais que o primeiro, trabalharam no sentido de fazer ruir a imagem de Joaquim Ayres da Silva e o grupo ao qual ele representava. Este foi acusado de disseminador da luta armada, o responsável por fornecer pólvora para os homens de Carlos Leitão. 194 Acusado de colocar os interesses pessoais, a qualquer custo, acima dos interesses públicos. Por exemplo, após a transferência do juiz de direito André Lourenço Rodrigues que atuava em Porto Nacional para São José do Tocantins a oposição, que tinha em certa medida o apoio do juiz referido, bradou em tom de ameaça, não temos esperança de ver em execução as idéias, os princípios republicanos n’este Estado. Raro ou nenhum acto do governo, há que seja revestido do cunho da justiça do bem publico. Em todos se nota a satisfação do interesse particular. (...) as pessoas que dirigem os negócios do estado são todas ou quase todas discípulos da escola- politico-liberal monarchica, escola que atirou pelos ares o império, e que tinha por divisa: tudo para os amigos e pelos amigos. (...) a nomeação do dr. André para São José do Tocantins foi tão somente para satisfazer interesses pessoaes do major Joaquim Ayres. 195 Uma das principais acusações que poderiam fazer, naquele momento, contra os adversários era atribuir aos mesmos a condição de contrários aos “princípios republicanos”, ser considerado monarquista era uma ofensa desferida por todos os lados. A disputa se deu em torno de quem seriam os verdadeiros e legítimos representantes da República, de maneira que uma forma de ataque ao adversário era associar ao mesmo a imagem de monarquistas, restauradores, contrários à República e suas ideias. A imagem que a imprensa quis assentar era a de que as autoridades que estavam no poder do Estado, principalmente em algumas localidades, como Joaquim 193 Goyaz. Goyaz, 16/12/1892. 194 Estado de Goyaz. Goyaz, 13/08/1892. p. 1. 195 Ibdem. p.1 102 Ayres da Silva, não estavam preparadas para governar conforme o regime há pouco implantado no Brasil, vivendo ainda sob a égide do Império. Ideia esta que ecoou em alguns trabalhos posteriores como o do professor Zoroastra Artiaga 196 , para quem “no interior os crimes, vícios, orgias, perseguições e canibalismo estão em toda parte, porque a República chegou aqui antes da hora”.197 Ayres, conforme pintado pela imprensa que lhe fazia oposição, era a personificação dessa expressão, o exemplo categórico de uma geração despreparada para ser investida de qualquer tipo de autoridade, pois prefere o uso da força ao uso das leis. Joaquim Ayres da Silva, reconhecido como “ilustre leader do jornal de Goyaz”, foi alvo de diversos ataques do Estado de Goyaz, muitos assinados por pseudônimo, como forma de demonstrar o temor que se tinha em denunciar uma figura considerada como o “maioral” do Alto Tocantins. Principalmente quando naquela ocasião era, além de deputado, Juiz de direito interino em Porto Nacional. Protegido pelo pseudônimo de Orangotango, alguém atribuiu a ele um discurso que exemplifica a forma como supostamente exercia o poder. Segundo Orangotango, disse o orador: “meu srs. Se vos cortar o dedo um espinho e vós o não tirar, o dedo inflamma-se e depois inflamma-se a mão e o braço, aparece a gramgrena e morre: portanto meus srs, é preciso cortar-se três membros que aparecem na família portuense, por isso antes que o mau cresça, cortemo- lhes a cabeça!”. Trecho foi veiculado pelo jornal para fazer referência a alguns homens assassinados em Porto a mando de Ayres, por cometerem “o grande pecado de viverem independentes do orador, e não perpetuar com a política injusta, estupida e vingativa da actualidade”.198 Em outra carta publicada no mesmo jornal, o Tenente Coronel Salvador, morador de Porto Nacional, membro do Partido Católico e aliado de Lemos e Leite, deixa explícito que temia por sua vida porque estaria sofrendo perseguição por parte de Joaquim Ayres, e principalmente pelo seu assessor Domingos Batista de Araújo, promotor a quem o juiz interino entregou todo poder de ação e decisão em seu nome. O 196 Renomado Professor que administrou o Museu estadual de Goiás (1946-1957), o IHGG (1958-1962) e a AGL (1957-1959), e produziu no século XX, muitos trabalhos sobre o Estado Goiás. Para sua biógrafa Giovana Galvão Tavares (2010) foi um divulgador de Goiás que por meio dos seus estudos geocientíficos divulgou a região goiana para o Brasil. TAVARES, Giovana Galvão. Zoroastro Artiaga - o divulgador do sertão goiano (1930-1970). (Tese de Doutorado) Campinas-SP: UNICAMP/Programa de Pós-Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra, 2010. 197 ARTIAGA, Zoroastra. Apud FERREIRA, Joaquim Carvalho. Presidentes e governadores de Goiás. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 1980. p.74. 198 Estado de Goyaz. Goyas, 12/11/1892. p.4. 103 Coronel Salvador avisa, como pedido de socorro, que “um desses senhores vota-me grande ódio: tem pretendido por duas vezes assassinar-me, e se acazo realizar-se esse horrível intento, serão elle e o seu bom companheiro os mandantes”.199 Os ataques a Joaquim Ayres serviram como forma de atingir todos os seus aliados, o propósito seria mostrar aos leitores que o governo que compactua com tais práticas denunciadas não poderia prevalecer. Nesse intuito um cenário de guerra em Porto Nacional foi pintado por parte da imprensa da capital, enquanto estava sob o comando do pai de Francisco Ayres. O jornal Goyaz, por sua vez, também trabalhou no sentido de desmoralizar seus adversários, nas suas páginas quem aparece como os perturbadores da ordem são os dominicanos e os órgãos que estavam a serviço deles, dentre os quais o jornal Folha do Norte. Sobre o assunto da Boa-Vista do Tocantins, a imprensa colocou Porto Nacional como o centro da discussão, espécie de cidade mediadora das relações e apaziguadora das tensões, como se a resolução dos conflitos lá estivesse ou de lá emanasse. De Porto Nacional se escreve para o jornal Goyaz sobre as últimas ocorrências de Boa Vista, aproveitando para criticar um Boletim do Folha do Norte que se ocupa do mesmo assunto, O governo precisa tomar providencias enérgicas não só para boa vista como para aqui; os frades continuão na sua tarefa de perturbação e de terror, de nada valendo as cartas do sr. Bispo diocesano e os conselhos do fr. Gallais. Correu o boato de deposição do marechal Floriano Peixoto e da restauração da Monarchia. – Os inimigos da pátria – A Folha Do Norte, de 6 de janeiro, da publicidade a um outro boato de revolução no Rio, deposição de Floriano e da aclamação de Saraiva como dictador. Enganou-se ainda desta vez o órgão sebastianista do convento dos dominicanos. O governo está forte, a paz e a tranquilidade continuam inalteráveis na capital federal em que peze aos obsecados frades, que, estrangeiros, procuram anarchisar a nossa pátria e pegar-nos assim o acolhimento que tem encontrado em seu seio. Confundam, sim, a serena propagação da fé com as paixões politicas, os interesses sabaticos da igreja com os efêmeros interesses partidários, transformem-se em arautos de uma reação sem horizontes e sem fins patrióticos, em instrumentos de ambições vulgares, zombem enfim das leis, das instituições, da justiça deste paiz, e dos próprios conselhos do prelado da diocese, mas não confiem muito na imunidade de batina branca já salpicada de sangue do desditoso chefe republicano capitão Alexadre Gomes Leitão, atrozmente traído, e de tantos outros distinctos goyanos. 200 199 Ibdem. 25/12/1892. p. 2. 200 Goyaz. Goyaz, 10/03/1893. p.4 104 Como vimos, o caso de Boa Vista acirrou ainda mais a rivalidade política. De maneira que até a questão da nacionalidade se tornou argumento contra os dominicanos, chamados de estrangeiros, os outros, alheios aos interesses da nação, quem dirá dos interesses do estado. Mais uma vez a acusação de opositores da República, de suas leis e instituições, torna-se o principal argumento desmoralizador, que agora, nas páginas do Goyaz, pesa sobre parte dos dominicanos e o seu “órgão sebastianista”. Aqui outra responsabilidade fora atribuída aos religiosos, sobretudo Frei Gil, a morte do capitão Alexandre Gomes Leitão, um dos principais líderes do embate em Boa Vista, no trecho acima reconhecido como “chefe republicano”, mais uma forma de negativar os homens dos quais, para o jornal, devia-se desconfiar, vez que a “batina branca” já estava “salpicada de sangue”. Em meio à disputa e acusações mútuas, via imprensa, Joaquim Ayres da Silva foi colocado na polêmica discussão como testemunha dos supostos crimes cometidos pelos frades dominicanos em Porto Nacional. “Quem quiser conhecer os novos crimes que custam taes desmentidos indague do nosso venerando amigo e chefe respeitável coronel Joaquim ayres, cuja palavra deve merecer inteiro credito. Indague e verá”.201 Diante das várias acusações feitas pelo Goyaz contra os frades dominicanos, das proporcionais explicações de defesa e contra-ataques do Estado de Goyaz e Folha do Norte, Joaquim Ayres se viu em situação delicada entre os seus correligionários e os frades. Porque apesar de politicamente ser contrário ao partido católico, ele professava a fé católica e mantinha em nível local boa relação com muitos frades dominicanos. Parte pela sua própria crença, outra parte por não poder desapontar o eleitorado predominantemente católico. Viu-se entre a cruz e a espada, expressão muito oportuna para a situação na qual se encontrava, entre trair sua profissão de fé ou abrir mão dos seus interesses políticos. A saída encontrada por Ayres foi uma carta intitulada Nós e os Frades, escrita para o Goyaz, em resposta a outra publicada pelo Estado de Goyaz, que o convidava para repetir as acusações que teria feito no primeiro, apresentando provas. 202 Na carta Joaquim Ayres da Silva reafirma que os abusos cometidos em Porto Nacional são verdadeiros e não caluniosos, mas pondera da seguinte forma, “é preciso advertir o Estado que não só os frades acusados pelo Goyaz que tem estado no Porto Nacional, lá estiveram frei Miguel, lá está frei Domingos Carrenó e nunca ninguém se 201 Ibdem. 23/06/1893.p.2. 202 Estado de Goyaz. Goyaz, 05/07/1893. p.1. 105 lembrou de levantar accusações contra eles, e sabe o estado porque?” Com todo cuidado para não generalizar ele pontua que as acusações são específicas aos frades Gil Vila Nova, Domingos Nicolé e Rozario. A atitude de Ayres, além de mostrar sua capacidade de negociação como homem político, expressa que os dominicanos estavam divididos, não representando um todo homogêneo, ou em razão de projetos de fato divergentes ou como estratégia para agradar a ambas as forças que se gladiavam com o fim de se manter, com boa relação, a despeito de qualquer desdobramento. Após o questionamento levantado, ele mesmo oferece uma resposta para distinguir os frades dominicanos, como espécie de separação entre joio e trigo. A diferença é que os bons frades “procederam sempre e continuam a proceder como verdadeiros apóstolos da religião de Christo, não se mettem em intrigas políticas, não perturbam a paz das famílias”.203 O critério de distinção estabelecido pelo pai de Francisco Ayres é a da nítida separação entre os assuntos políticos e religiosos, os frades, em sua opinião, não deveriam se imiscuir nos assuntos políticos já que o ministério que os competia era o de “apóstolos da religião de Christo”, e não se valerem do poder religioso para obter votos na base de “ameaças de excomunhão” e de “pennas eternas”. Ainda na mesma carta é na defesa aos ditos “verdadeiros apóstolos” que Ayres acusa o envolvimento dos outros no caso de Boa Vista, ele diz: ‘Frei Domingos Carrenó estava em Bôa-Vista no dia do assassinato do capitão Alexandre, por ventura o seu nome appareceu envolvido no monstruoso crime? Não”. Naquele contexto o debate sobre a laicização do Estado, ou seja, a separação entre Igreja e Estado, estava em evidência, as crenças e práticas religiosas iam de encontro com o novo modelo de Estado em construção. Em Porto Nacional a questão em debate ganhou nitidez em torno das principais acusações que Joaquim Ayres destacou como pregar contra o casamento civil, a secularização dos cemitérios, a liberdade de culto, ensino laico e outras instituições republicanas, que de alguma forma ou de outra, afetavam os interesses e o poder da igreja na sociedade. 204 Conhecedor do embate, Ayres não poupou críticas aos católicos que ameaçavam seu domínio, mas com todo cuidado defendeu como pode o catolicismo. Já para imprensa adversária, de outro lado não necessariamente oposto, o que estava colocado como questão não era a relação entre política e religião, Igreja e estado, mas a necessidade de intervir frente aos crimes cometidos pelo governo contra a 203 Goyaz. Goyaz, 08/07/1893. p.3. 204 Idem, Ibdem. 106 sociedade goiana, em Porto Nacional representado por Joaquim Ayres. Os conflitos ocorridos nas cidades de Bôa-Vista do Tocantins e Catalão ganharam tanto vulto na imprensa goiana que foram tomados pelo Estado de Goyaz como exemplo de reação popular contra aquilo que o jornal promovia como mau governo, simbolizado várias vezes pela atuação de Ayres. Exemplo inclusive evocado em tom de ameaça contra ele, o principal obstáculo na disputa pelo domínio do Porto Nacional. Foi cogitada a possibilidade da cidade portuense se tornar em outra Bôa-Vista, e sedear novos confrontos “graças à política de ódio e perseguição desenvolvida pelo coronel Joaquim Ayres”. A imprensa ampliou o poder de alcance dos adversários de Ayres e a segurança para poder atacá-lo, de maneira que sua figura foi alvo de inúmeras depreciações como a que o associou a um energúmeno político do tempo da escravidão, momento considerado, quase como consenso, obsoleto, retrógado e não condizente com a República. Em defesa dos seus aliados portuenses, dizia o Estado de Goyaz, Recue o governo, enquanto é tempo, do seu proceder altamente criminoso de entregar comarcas a energúmenos políticos, que não gozando de sympathia e não podendo impor-se por seu prestigio pessoal e força moral, o fazem por meio de vingança e perseguições, tal qual faziam os proprietários de escravos. A paciência do povo se exgotta-se um dia, e depois ver-se-há o governo a braços com serias dificuldades conforme está acontecendo com a Bôa-Vista e Catalão. 205 Não foi por acaso que Joaquim Ayres da Silva, temendo os desdobramentos das críticas desferidas a ele, tendo que lidar com a nova situação de um periódico produzido pelos seus rivais em sua própria cidade, perseguiu como pôde o Folha do Norte com o intuito de inibir sua pequena circulação. Não se sabe ao certo o tipo de perseguição feita contra a folha portuense, mas os leitores em carta aberta dirigida ao “senhor coronel Joaquim Ayres, no Estado de Goyaz”, reclamaram o não recebimento do impresso na capital do Estado, que só reapareceu após quatro meses de interrupção. Com os seguintes votos do Jornal do conego Ignacio Xavier da Silva, desejando que continue “intemerata no caminho que tem trilhado, fustigando com energia o mandonismo sanguinário que tem todos os favores da situação, e mostrando ao povo que este tem sido victima de governichos que nos infelicitam”.206 O jornal Folha do Norte fez coro com outros jornais, inclusive da capital, para minar as forças da gestão estadual sob o controle dos Bulhões, uma das estratégias foi polemizar o esquecimento por parte do 205 Estado de Goyaz. Goyaz, 25/12/1892. p.2. 206 Ibdem. 10/1893. p. 2. 107 governo em relação ao Norte do Estado, para reivindicar não uma separação, mas outro governo, mais comprometido com os interesses daquela parte do estado e com mais representantes nortistas. Todavia, pouco tempo depois, mais precisamente em Abril de 1894, o jornal sai definitivamente de circulação. A essa altura alguém poderia perguntar: por que gastar tanta tinta na trajetória do Coronel Joaquim Ayres da Silva, quando na verdade o que interessa é a vida de Francisco Ayres da Silva? Até que ponto compreender o que Joaquim Ayres representou para o Estado, em particular para Porto Nacional, pode ajudar a entender o caminho trilhado por Francisco Ayres? Como foi visto, seguindo os passos do pai, Francisco Ayres fez inúmeras viagens para os estados limítrofes com Goiás, conheceu outras realidades e as particularidades do comércio local, regional e interestadual, como filho de comerciante viu a necessidade de ligar Porto Nacional a outros centros comerciais e consumidores, frequentou as instituições de ensino e outros espaços reservados para as elites do Estado goiano, estabeleceu relações com as principais autoridades políticas, acompanhou de perto a dinâmica política, bem como o desenvolvimento do jornalismo em Goiás e os embates via imprensa, viu que o jornal é um importante veículo para se inserir no debate, para mobilizar força e para promover ou depreciar, aprendeu com os erros e acertos do seu pai a melhor maneira de exercer o poder, se manter nele e lidar com os adversários. De uma forma ou de outra a figura do coronel Ayres foi uma importante referência para seu filho, seja como espelho, seja como contraponto. 108 CAPÍTULO II NORTE DE GOYAZ: MODERNIZAÇÃO (BIO)GRAFADA NO ESPAÇO DE UMA VIDA Segundo a nossa carta geográfica, o Porto é cidade muito central do Brasil; pois bem, estais falando ao mundo, como que de uma tribuna erguida no coração da pátria. O Incentivo Um jornal significa muita cousa: antes de tudo significa progresso. Um jornal é o amigo que nos entra pela porta à dentro e nos vae levar notícias de toda a parte. [...] O jornal é a tribuna publica onde falam todas as ideias e onde se discutem todos os assumptos magnos de interesse geral. Norte de Goyaz Bem-aventurados os que não viram e creram: uma passagem que alguns consideraram como uma profecia do jornalismo moderno. Gilbert Keith Chesterton 2.1 FRANCISCO AYRES NA SUA PRÓPRIA “PICADA” Durante este tumultuado contexto, nos primeiros anos da República no Estado de Goiás, no auge da carreira política de seu pai como deputado estadual e intendente municipal de Porto Nacional, Francisco Ayres da Silva vai para cidade de São Paulo terminar os exames preparatórios na Faculdade de Direito de São Paulo. 207 Apesar do curto prazo que permaneceu na capital paulista, ele se deparou com o que Josianne Cerasoli Francia chamou de uma “cidade em obras”, que, sobretudo na última década do século XIX, passava por um processo amplo e complexo de transformações, a intervenção do poder público municipal a partir das várias obras realizadas, além das planejadas, debatidas e desejadas, redimensionou a cidade material e simbolicamente provocando, naqueles que de alguma maneira participaram dessa experiência cotidiana, inúmeras percepções e sensações no/sobre o espaço urbano paulista. 208 Apesar dos poucos indícios sobre a permanência de Francisco Ayres em São Paulo, não é difícil sugerir que se tratou de uma experiência impactante, pois se tratava de uma cidade em plena efervescência com apressado ritmo de mudanças e 207 Illustração Brasileira. Rio de Janeiro, 25/12/1922. nº 28. Não paginado. 208 CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004, p. 194. 109 desenvolvimento, que a configurou num espaço, ao menos sob o ponto de vista material e cotidiano, no mínimo diferente da realidade portuense. Ainda que de passagem, não tão habituado como os habitantes, mas como sujeito que sai do seu torrão natal para estudar, ele circulou pelo ambiente em alteração, usando e vivenciando a cidade possivelmente sem compreender com profundidade as tensões e conflitos envoltos nesse agudo processo de mudanças, todavia nem por isso totalmente alheio ao debate sobre ela quanto à questão dos melhoramentos urbanos. Quem sabe, já decidido sobre a medicina como futura profissão, tenha dado especial atenção à apreensão da cidade feita pelos médicos com base nos saberes técnicos da área. A partir das contribuições de Josianne Cerasoli não é difícil considerar que a percepção de Ayres sobre a capital paulista, embora diferente dos citadinos, seja mais uma constatação de que o processo de modernização é sempre plural, pois além dos diversos grupos sociais e interesses, envolve também sujeitos como o jovem portuense que mesmo sem ter identificação e pertencimento direto com a cidade, toma parte no debate ainda que de forma limitada e sem visibilidade, porém, não restrito ao espaço geográfico referido. 209 Logo em seguida, entre 1893 e 1894, Francisco Ayres vai para o Rio de Janeiro estudar medicina na Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro. De volta para a Capital da República, dessa vez não para uma rápida passagem como por ocasião dos “exames geraes preparatórios”, mas para morar e conhecer mais intimamente o cotidiano carioca. Iniciou então a formação superior que lhe renderia o título pelo qual passaria a ser chamado e reconhecido pelo resto de sua vida. A opção pela formação superior não foi por acaso, Segundo Sérgio Miceli, o investimento em cursos superiores significou uma forma de se escapar do rebaixamento social. Além da formação superior, o casamento e a nomeação para cargos públicos foram estratégias utilizadas por muitos como forma de distinção social, especialmente para aqueles que viviam um desequilíbrio entre o capital material dilapidado e o capital social disponível. A opção pelo curso de Medicina foi uma forma de manter a posição social e as posições correspondentes ao nível das classes dirigentes. Para os padrões burgueses da época, dos quais em certa medida ainda somos herdeiros atualmente, os cursos de engenharia, direito e medicina eram carreiras de destaque não só em Goiás, mas em todo país. 210 O estudioso José Gonçalves Gondra, fundamentado no estudo de outros autores 209 Ibdem; Idem, 210 MICELI, Sergio. Poder, sexo e letras na República Velha. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977. p. 22-39. 110 que também se dedicaram a compreender a história da medicina no Brasil, dentre os quais Odaci Luiz Coradine, traçou o perfil dos estudantes de medicina no século XIX e observou que eram Homens, em sua quase totalidade, oriundos de diferentes províncias do Brasil ou, até mesmo, de homens proveniente do exterior, que se deslocavam para o Rio de Janeiro de modo a poder realizar os estudos superiores em medicina. [...] as famílias dos futuros médicos possuíam em comum a característica de terem relações diretas com o poder político central e com o poder militar – ou serem originárias deste. Com isso, pode-se afirmar que os futuros médicos haviam nascido em “bons berços” e que a titulação em um curso superior fazia om que obtivessem a posse de mais um critério de classificação social, facilitando e favorecendo, assim, a reprodução de sua condição na sociedade (...) 211 Os irmãos de Francisco Ayres da Silva, ao menos os que conseguimos identificar da “numerosa prole” de Joaquim Ayres, estudaram na Escola Militar212 e seguiram de fato a carreira militar, considerada uma posição social reserva caso o acesso ao curso superior não fosse possível, embora suficiente para fugir da relegação social. Somente Francisco concluiu o ensino superior, pois o pai depositara nele as suas expectativas, oferecer ensino superior para todos os filhos era tarefa onerosa, até mesmo para os coronéis do interior do país. Por isso se escolhia apenas um para se investir, normalmente o filho mais velho, um caminho mais fácil para o ingresso nos quadros políticos. Seguindo o raciocínio de Sergio Miceli, Ayres não foi um sujeito que estava para além de seu tempo, pelo contrário, ele foi exatamente um sujeito do seu tempo. Como muitos homens, especialmente do interior das regiões norte e nordeste do país que desfrutavam de boa relação social e/ou bom capital material, fez um curso superior para ulteriormente se dedicar à carreira pública, à vida intelectual na imprensa e assim, o alvo mais desejado, à carreira política. 213 Todavia isso não diminui o mérito de Ayres, já que este foi um dos poucos a concluir o ensino superior no chamado norte de Goyaz. Outro fator que deve ser considerado para entender a opção pelo curso superior, 211 GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. p. 109. 212 Os irmãos de Francisco Ayres que foram identificados e estudaram na Escola Militar foram João Ayres Joca, Pio Ayres da Silva e Raymundo Ayres da Silva. 213 Na sua obra Sergio Miceli cita a biografia de alguns homens que exemplificam sua teoria, dentre eles dois sujeitos com biografia muito parecida com a de Francisco Ayres da Silva. São eles: José Maria Bello e Gilberto de Lima Azevedo Souza Ferreira Amado de Faria. Filhos de homens importantes que geriram bom capital de relações sociais, oriundos do interior e que concluíram a formação superior, a despeito de seus irmãos, para depois se projetarem na carreira política. MICELI, Sergio. Poder, sexo e letras na República Velha. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.p. 18-19. 111 para além da questão de manutenção da família nos altos cargos de dominação, foi a valorização do saber. No final do século XIX, a admiração pelo século das luzes foi evidenciada no grande zelo pelo conhecimento. A crença no progresso depositou grande esperança no conhecimento científico, entendido como a mola propulsora que tornaria o país cada vez melhor e mais desenvolvido. O conhecimento científico, o saber autorizado da medicina e de qualquer outra área, era absolutamente valorizado, colocando aquele que o detém numa posição privilegiada em relação aos que não o possuem, não por acaso os saberes especializados tiveram grande expressão nos debates acerca das interferências urbanísticas. Ainda mais em Goiás, estado em que havia pouquíssimos formados, principalmente em se tratando da área de medicina, o mais comum pelas citações na imprensa era os magistrados em direito ou engenharia. A medicina seria uma carreira que distinguia Ayres de quase todos os homens do Alto Tocantins. Mas porque a Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro e não outra como a da Bahia ou mesmo São Paulo, por exemplo? O Rio de Janeiro sempre foi visto como uma cidade muito importante na história brasileira, pois era o espaço para onde as novidades convergiam. Ela foi sede da monarquia portuguesa e, naquele momento, era a Capital do Brasil, centro político e financeiro; esses fatores, entre outros, renderam-lhe a condição de centro cosmopolita do país. O Rio de Janeiro era reconhecidamente uma cidade modelo por ser Capital Federal, centro administrativo do país, uma referência para todos os estados já que tudo e todos convergiam pra lá, era o centro das atenções, para onde se mandava as informações, mas principalmente de onde emanavam as informações mais esperadas, importantes e decisivas para a época. Em outro trabalho tive a oportunidade de apontar que O Rio de Janeiro sempre foi visto como uma cidade muito importante na história brasileira, pois era o espaço para onde as novidades convergiam. Ela foi sede da monarquia portuguesa e, naquele momento, era a Capital do Brasil, centro político e financeiro; esses fatores, entre outros, renderam-lhe a condição de centro cosmopolita do país. 214 De acordo com Jeffrey Needel, “os habitantes das províncias pensavam no Rio 214 NUNES, Radamés Vieira. Sobre crônicas, cronistas e cidade: Rio de Janeiro nas crônicas de Lima Barreto e Olavo Bilac – 1900-1920. Dissertação (Mestrado em História Social), UFU-PPGHIS, 2008. p. 167. 112 como uma cidade magnífica, capaz de conferir prestígio urbano a quem a visitasse”.215 Em Goiás, visitar o Rio de Janeiro significava por si só um grande feito, quanto mais viver na cidade com objetivo de obter uma formação superior. Os pouquíssimos goianos que conseguiram desfrutar de tal privilégio eram revestidos de tal autoridade com alta carga de valor simbólico, que lhes conferia a condição de sujeitos mais experimentados e autorizados a dar e formar opinião, mais hábeis para determinados cargos de direção. Como afirmou Edarso, Jornalista de Uberaba, residente no Rio de Janeiro, ao escrever sobre os dirigentes do jornal Norte de Goyaz, “Francisco Ayres e J. Ayres Joca, que aqui estiveram e onde cursaram as Escholas de Medicina e Militar, são moços preparados e viajados; estam, pois, em condições de guiar o seu jornal de modo a que o mais cedo possível atinja aquele termo, com lustre para elles”.216 Estudar no Rio de Janeiro representava um fator de proeminência em relação aos pares, onde se estudou tinha tanta relevância, ou mais, quanto o que foi estudado. Nesse sentido, Ayres não é simplesmente um homem responsável pela tentativa de aproximação de Porto Nacional do universo de uma grande cidade do litoral, é antes resultado dessa tentativa e/ou desejo de aproximação, germinado em solo goiano. Não foi exclusivamente o período que passou na cidade carioca que o transformou, a ideia do jovem interiorano que foi para a cidade grande e retornou diferente com muitas novidades não se aplica perfeitamente à vida de Francisco Ayres. O próprio desejo de fazer faculdade no Rio de Janeiro já contém em si as possibilidades e retornos esperados por tal experiência. Não foi o período que passou na capital federal que o fez perceber sua cidade natal de forma diferente, ao contrário, foi a vivência e a convivência na cidade portuense que alterou sua percepção, ao ponto de se convencer da necessidade dessa empreitada, que foi financiada e sonhada por seu pai, igualmente convencido. Durante os anos que morou no Rio de Janeiro, aproximadamente entre 1893 a 1899, pôde confirmar ou frustrar suas expectativas, não mais como mero expectador, e sim como participante. Tornou-se por algum tempo parte daquela cidade, ainda que como parte enxertada, mas constituinte dela. Durante esse período, como as aulas começavam em 15 de março e encerravam no dia 30 de outubro 217 , Francisco Ayres teve a oportunidade de retornar algumas vezes a Porto Nacional, mas sempre de 215 NEEDELL, Jeffrey D. Belle époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 48. 216 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1906. p. 3. 217 Do Regime das Faculdades - Decreto n. 9.311 de 25/10/1884, Titulo II. Cap. II. Art. 351. As aulas das Faculdades serão abertas no dia 15 de Março e encerradas no dia 30 de Outubro. 113 passagem e como visitante, conforme registrou o jornal Estado de Goyaz, da capital goiana. “De passagem por esta capital, onde esteve alguns dias, o inteligente terceiro annista da academia de medicina do Rio de Janeiro sr. Francisco Ayres da Silva seguiu para a cidade de Porto Nacional afim de visitar sua família. Prospera viagem”.218 Francisco Ayres parece não ter estranhado aquele complexo centro urbano, o que não o isenta de ter passado por algumas agruras de quem ainda não domina a efervescência urbana. Nesse ponto, peço licença ao leitor para uma breve observação. É valido mencionar que algo parece ter mudado na relação da família Ayres com o Estado de Goyaz, jornal até pouco tempo rival da família. Ou seria apenas do coronel Joaquim Ayres? Quem sabe a passagem de um estudante de medicina do Rio de Janeiro pela cidade seria um episódio digno de nota mesmo sendo este filho de um adversário político? O fato é que pouco tempo antes de ser extinto o periódico tratou o jovem, sucessor natural do pai, de forma bem mais amistosa que nas referências anteriores feitas para aquele. “O inteligente terceiro annista da academia de medicina” estava no Rio de Janeiro, quando seu pai foi acusado, pelo mesmo jornal supracitado, de ter manipulado criminosamente as eleições em algumas cidades do norte para favorecer o candidato do centro “bulhonico”, Francisco Leopoldo Rodriguez Jardim, a se tornar presidente do Estado. Segundo o Estado de Goyaz, manipulou porque Joaquim Ayres “não tem prestígio algum no Porto a despeito de todos os esforços que emprega o centro bulhonico para tornal-o chefe político”.219 Pouco antes desta publicação o pai de Francisco Ayres da Silva havia sido, em 1895, exonerado do cargo de intendente municipal pelo governo do estado. De acordo com o relatório de José Ignácio Xavier de Brito, A intendência de Porto Nacional que é de nomeação do governo, e que, como já disse, nenhuma povidencia tomou para as eleições de 23 e 24 de Abril de 1893 e nem para nenhuma outra mais, marcada posteriormente, a não ser a de 31 de Dezembro do anno findo, nenhum passo dava em relação a organização do município, não obstante as reiteradas ordens do governo nesse sentido. [...] O governo à vista do exposto, não encontrando para o caso remédio algum na lei eleitoral (...) e porque reconheceu que esse e outros embaraços para o regular funccionamento das instituições e boa marcha do serviço publico são consequências da insistência da dita intendência em não querer mandar proceder a eleição das autoridades e conselho do município, 218 Estado de Goyaz. Goyaz, 17/02/1896. p. 2. 219 Ibdem. 15/07/1895. p. 1. 114 exonerou-a por decreto n. 121 de 12 de fevereiro do corrente anno, e nomeou outra, designando o dia 21 do corrente para se proceder alli a eleição do intendente, conselho municipal e juízes districtaes. 220 Quando Ayres retornou para sua cidade natal seu pai estava aos poucos perdendo domínio em Porto Nacional e nos círculos eleitorais a sua volta; a recusa em realizar as eleições para os cargos municipais desde 1893 expressa uma manobra para tentar permanecer no controle político local, temendo que seu principal adversário, o tenente coronel Frederico Lemos, tivesse maior apoio dos eleitores. Além disso, ao que tudo indica a relação com os Bulhões estava cada vez mais desgastada, pois quando exonerou Joaquim Ayres da Silva o governo nomeou um dos seus adversários membro do Partido Republicano Federal, o capitão Josue Oliveira Negry. 221 As alianças e dissenções no interior do centro bulhonico com outros grupos coronelísticos locais abalou a hegemonia de Joaquim Ayres em Porto Nacional e reconfigurou o Partido Católico. Por isso, o jornal do Estado de Goyaz perdeu sua razão de ser e nas vésperas do seu fim tratou Francisco Ayres de forma amistosa. 222 Francisco Ayres da Silva durante o período de formação em medicina se familiarizou com as viagens de Porto Nacional para o Rio de Janeiro e vice e versa. Passando pelo centro e sudeste de Goiás e pelo Triângulo Mineiro, ou atravessando o estado da Bahia, fez muitas amizades, conheceu de forma mais acurada muitas outras cidades e estabeleceu as comparações inevitáveis feitas por qualquer viajante, pôde tirar duvidas e curiosidades daqueles que o inquiriam ao longo caminho. Dessa época não há muitas informações sobre sua permanência no Rio, nem muitos indícios sobre as suas visitas e impressões das longas e exaustivas viagens do Porto ao Rio e do Rio ao Porto. 223 Mesmo assim não me furtarei da tarefa de tecer algumas considerações sobre esse período, especialmente sobre a realidade carioca com a qual Ayres se deparou. Na última década do século XIX, o jovem estudante de medicina, oriundo de uma cidade do interior do norte de Goiás, deparou-se com uma cidade que vivia, segundo Jeffrey Needell, o triunfo da Belle Époque, a fantasia da civilização, ou seja, a 220 BRITO, José Ignácio Xavier. Mensagem dirigida à câmara dos deputados de Goyaz. In. Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 153-154. 221 Estado de Goyaz. Goyaz, 17/02/1896. p. 2. 222 Para compreender melhor a dinâmica e construção da oligarquia Bulhões, ver: SANT’ANNA. Maria Augusta de Moraes. História de uma oligarquia: os Bulhões. Goiânia: Oriente, 1978. 223 Pode ser esse um bom caminho para iniciar outras pesquisas que se interessem em compreender sobre a vida de Francisco Ayres no Rio de Janeiro, ou, de forma mais ampla, sobre a relação dos goianos com a então capital da República. Para isso seria necessária uma pesquisa mais minuciosa e com essa questão como foco de observação. 115 identificação com o estilo de vida e as concepções de uma cultura elitista, sobretudo referenciada na cultura franco-inglesa. Viu-se diante de uma sociedade urbana, extremamente complexa, constituída por conjuntos de símbolos, instituições e usos metropolitanos, com ritmo acelerado de mudanças. Uma capital com refinamento mais urbano que se tornou “polo de atração das novas profissões urbanas”, palco de uma significativa expansão demográfica, que colocou o jovem em contato com grande concentração de pessoas, ou seja, a novidade da multidão nas ruas. Presenciou as mudanças culturais e socioeconômicas como o fetichismo do consumo, a necessidade de se estar “em dia” com a moda, a difusão da ideia de luxo e o crescimento do mercado urbano, contrastando com a presença dos vendedores ambulantes nas ruas e a realidade dos subúrbios. O desenvolvimento da tecnologia cada vez mais presente no cotidiano carioca, sobretudo no setor dos transportes com a ferrovia e na comunicação com o telégrafo, que tornou o movimento na metrópole mais acelerado e brusco. 224 Myrian Bahia Lopes, preocupada com o debate sobre o Rio de Janeiro, especialmente em relação à questão sanitarista e o olhar da medicina sobre a cidade, afirma: A partir da metade do século XIX, podemos observar, na cidade do Rio de Janeiro, uma série de alterações no cotidiano da população, graças a uma progressiva entrada em cena das maquinarias do conforto (iluminação, bonde, trem, esgoto). Estes equipamentos coletivos são a materialização de duas tendências: fixar os indivíduos pelo lar, promovendo a família, e, ao mesmo tempo, fazê-los circular por uma rede de trajetórias previstas e de instituições normativas, tais como as ruas, as praças, a casa de comércio, a escola, a fábrica e a moradia. O processo de passagem de uma polícia sanitária a uma tecnologia das multidões se dá num contexto segundo o qual a cidade, pensada como meio formador do indivíduo é promovida a espaço de experimentação do saber médico, higienista e arquitetônico. 225 Francisco Ayres, como era comum aos estudantes de medicina, transitou pelos diferentes espaços de sociabilidade do Rio de Janeiro. Frequentou as confeitarias, livrarias, os famosos salões cariocas, os clubes sociais e demais locais onde se reuniam os cavalheiros refinados da cidade. Teria Ayres compartilhado desses espaços como um jovem carioca? A tão falada Rua do Ouvidor, conhecida como a “artéria pulsante”, onde os jovens intelectuais circulavam com frequência para conversar sobre arte, ciência, cotidiano, projetos, política e boemia. Teria sido Ayres um típico boêmio da Rua do 224 NEEDELL, Jeffrey D. op. cit. p. 41-192. 225 LOPES, Myriam Bahia. O Rio em movimento: quadros médicos e(m) história 1890-1920. Rio de Janeiro: Editora Fio Cruz, 2000. P.35. 116 Ouvidor? Quem sabe, nos intervalos dos estudos, bebendo e falando aos seus amigos sobre como era a vida em Porto Nacional ou suas impressões em relação a outros espaços urbanos por onde passou como Belém, São Paulo, Uberaba, entre outros? 226 Possivelmente debateu com os colegas da medicina, no “lugar raro do Brasil onde tudo se concentrava”, sobre as práticas médico-santaristas e suas intervenções no espaço urbano, as tendências dos clínicos positivistas e antivacinistas em tensão com as ações dos sanitaristas oficiais defensores da vacina, e sobre o polêmico debate da vacinação que culminou anos mais tarde na Revolta da Vacina, momento ápice da diversidade das forças que se colocavam em luta no cenário urbano. 227 No jornal Norte de Goyaz, remontando os debates travados no seu período de formação, Ayres divulga notas da medicina para seus conterrâneos, ou seja, publico não especializado. Apresentou aos nortenses, por exemplo, sob o título de Bello Pensamento, ideias de Pasteur sobre o estado teológico, metafísico e positivo a partir da reflexão sobre o infinito, afirmando que “a ideia de Deus é uma forma da ideia do 226 Sobre isso ver: BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Rio de Janiero: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2004. 227 Myrian Bahia Lopes que fez um breve estudo da circulação de temas e conceitos que integram o pensamento positivista, diz: “No período que estudamos, a teoria positiva veiculada pela Igreja e Apostolado Positivista do Brasil (IAPB) comporta uma grande contribuição: a mesologia. A partir de uma perspectiva histórica, o estudo do meio interliga o biológico ao social. A vida é um conjunto de relações que não se limitam ao espaço físico do corpo. No interior do debate médico, a teoria do meio se opõe à teoria do agente especifico da doença (a cada doença corresponde um agente e a sua descoberta possibilita que se produza uma vacina para preveni-la). Segundo a teoria do meio, a vida saudável corresponde a uma multiplicidades de fatores relativos a alimentação, o clima, à moradia, aos costumes sociais e individuais. Não é difícil imaginar aqui as implicações políticas dessa teoria. Quando enfocamos o debate sobre a prática da vacina antivariólica, enquadramos duas faces do biopoder. De um lado, os adeptos da vacina antivariólica se insurgem contra a medicina ironicamente cunhada de medicina dos miasmas. De outro, os positivistas do IAPB, apoiados em uma leitura particular das ciências – disciplina concebida por Auguste Comte e efetivada por Laffite, no Collège de France –, polemizam com Oswald Cruz, que conta no seu currículo com um estágio no Instituto Pasteur. Contemporâneo ao nascimento da bacteriologia, o movimento antivacinista inglês publica seu primeiro periódico – Antivaccinator, em 1869 –, ao passo que o movimento universal antivacinista é criado em 1880. Paralelamente, Pausteur é premiado pela Assembleia Nacional, pelo resultado da vacina contra o carbúnculo, em 1874. [...] As divergências entre os clínicos positivistas e os adeptos da bacteriologia não são uma luta entre um saber jovem e velhas crenças. O debate é travado entre duas figuras de saber. As duas concepções em conflito se tangenciam em alguns pontos: na relação normal/patológica, no conceito de regulação biológica e no meio, pensado como formador do individuo. Os médicos em disputa partem destas reflexões, que emergiram no século XIX, e elaboraram estratégias distintas de ordenação do espaço e dos corpos. Auguste Comte importa o conceito do meio, da física para a biologia. Este autor universaliza a teoria do meio, ao estender o estudo do meio vital para o meio social. O conceito de meio fundamenta a teoria positivista da história e do progresso. Para os positivistas cariocas, a vida é a troca de substância entre o ser vivo e o meio. O sistema ambiente modifica o organismo e este, por sua vez, exerce influencia correspondente. [...]Os homens por intermédio da ação coletiva modificam o meio. Esta ação pensada, na história contemporânea, é denominada pelos positivistas cariocas “a tarefa regeneradora social””. LOPES, Myriam Bahia. Op. cit. P. 47-52. Ver também: LOPES, Myriam Lopes. Les Corps Inscrits: Vaccination Antivariolique et biopouvoir. Londres-Rio de janeiro 1840/1904. Tese de doutorado, Universidade de Paris VII, 1997; CHALHOUB, Sidney. Cidade febril. Cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Cia das Letras, 1996. 117 infinito (...) a metaphysica não faz outra cousa do que expressar dentro em nós a noção dominadora do infinito”. Pasteur, este autor citado por Ayres, foi estudioso ligado à ciência médica bastante comentado no final do século XIX e início do XX, dá nome ao Instituto onde Oswaldo Cruz estagiou, foi uma influência para o principal líder da obrigatoriedade da vacina no Rio de Janeiro e para algumas gerações de médicos. Cientista com o qual o jovem portuense se identificou, apresentando-o, anos depois, aos seus conterrâneos da seguinte forma: “celebre Pasteur o derruidor da “geração equivoca,” o descobridor dos micróbios, o inventor do méthodo antirrábico, membro distinctissimo da academia das sciencias de Paris e catholico, convicto e pratico”.228 Não é difícil imaginar um católico convicto e prático do sertão formando sua opinião em meio à boemia dos espaços de sociabilidade da Rua do Ouvidor. Outro espaço bastante frequentado na época eram as redações dos jornais e revistas, para citar as mais famosas a do Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio, O paiz, entre tantos outros importantes periódicos que Ayres continuou lendo mesmo depois de retornar para Porto Nacional. Francisco Ayres viu muitos literatos lutarem por uma nação mais moderna, conforme aquilo que consideravam como sendo moderno, entendimento nem sempre coincidente de um literato para outro. Projetando imagens de cidade moderna para o Rio de Janeiro e construindo realidades para o país por meio de contos, crônicas, romances e demais gêneros publicados nos periódicos, certamente a pulsante vida jornalística do Rio de janeiro o fez tomar gosto pelo ofício, pelo cotidiano no interior de uma oficina tipográfica, que o levou a aprender, ou, no mínimo, aperfeiçoar a técnica de produzir impressos e conhecer as tecnologias disponíveis para a área. Somada a sua experiência com os jornais goianos, esse período de contato com as folhas cariocas foi decisivo para desbravar o universo jornalístico. Lembrando que naquela virada de século a imprensa se modernizava, atravessava uma importante fase do seu processo de (trans)formação, passando a ocupar, gradativamente, lugar essencial na opinião pública, além de ser elemento fulcral da vida urbana. O modo de vida urbana no Rio de Janeiro tornava-se cada vez mais veloz e “apressado”: a crescente produção industrial, a entrada de imigrantes, as novidades tecnológicas na área de comunicação e transporte, o aumento gradual do índice de alfabetização, a euforia em relação à política e à economia, tudo isso gerava demanda crescente por circulação de informação. A imprensa estava sintonizada com este contexto, de tal forma que se destacou como o veículo mais eficiente 228 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1906. p.3. 118 na difusão de informação e orientação cultural, assumindo importante papel e definindo sua função nesse processo de aceleração no dia-a- dia da capital da República. 229 Novas técnicas de impressão, jornais com tiragem cada vez maior, rápida distribuição, ampla cobertura, diminuição do valor, inserção e consolidação de novas linguagens, entre outros aspectos dinamizaram a vida jornalística do Rio de Janeiro, “Revistas e jornais empilhados transformavam as ruas num imenso mostruário de cotidianos, e, as esquinas mais transitadas, numa verdadeira exposição de impressos de todos os tipos e formas”. Francisco Ayres da Silva em meio ao conjunto de mudanças na cidade e na imprensa se deparou com uma nova sensibilidade do espaço urbano. Acompanhou o debate da imprensa sobre si e sobre a cidade, as sedutoras imagens de cidade moderna, o desejo alimentado pelos intelectuais jornalistas de tornar o Rio de Janeiro uma metrópole civilizada, higiênica e limpa, adequando-a no nível do século, inclusive já considerando a cidade de São Paulo como um modelo a ser observado. Esteve atento aos diálogos entre reformadores, engenheiros, médicos sanitaristas, intelectuais e outros grupos sociais que tornaram necessária a remodelação da cidade para ajustá-la conforme os paradigmas de progresso e modernidade comparáveis a outras cidades do ocidente, sobretudo as potências do Atlântico Norte. Mesmo antes da reforma urbana promovida por Pereira Passos, materializar-se no espaço físico de forma real e concreta, ela existia como representação simbólica que na década de 1890 promoveu agitação nas ruas e nas páginas da imprensa. Ayres se familiarizou com os símbolos e sinais do progresso e da modernidade propagados amplamente, que o fizeram alimentar expectativas em relação à emergência do Brasil como nação civilizada, materializada na transformação do espaço urbano como consequência de uma onda modernizadora, que poderia fazer Porto Nacional acompanhar a esteira do progresso e seus aparatos modernizadores, até ao ponto de adquirir uma imagem de credibilidade aos olhos das outras partes do país. Embora os anos que Francisco Ayres viveu no Rio de Janeiro não tenham sido marcados pela demolição e construção de edifícios, foram marcados por intensa construção e destruição de símbolos e significados, que não podem ser ignorados já que prepararam o terreno para transformações posteriores na cidade carioca. Para Renato Cordeiro Gomes, 229 NUNES, Radamés Vieira. Sobre crônicas, cronistas e cidade: Rio de Janeiro nas crônicas de Lima Barreto e Olavo Bilac – 1900-1920. Dissertação (Mestrado em História Social), UFU-PPGHIS, 2008. p. 18. 119 As transformações não devem ser vistas apenas enquanto empreendimento, mas pelo viés da comunicação simbólica. Indicam como o Brasil pode demonstrar ao mundo o inaugurar da modernidade nesta cidade dos trópicos. Tenta-se apagar a tradição da cidade colonial, para erguer uma cosmópolis que, ao fim, não passa de uma subcosmópolis (...). Transforma-se a cidade numa floresta de símbolos, para que possa ser lida como moderna. Na linha evolutiva do progresso, a cidade será submetida a uma demolição permanente, que apaga o que vai se tornando velho na busca do sempre novo. Os novos significados estão sempre brotando e caindo das árvores construídas. 230 Não é estranho presumir que a floresta de símbolos deixou o jovem estudante de medicina eufórico, ao mesmo tempo perplexo com a acentuação das diferenças entre o litoral e as cidades do interior do interior do Brasil. Indicado pela maneira como o Rio de Janeiro aparece posteriormente no Norte de Goyaz, como lugar onde o progresso penetrou “com suas múltiplas facilidades de meios”231, de onde se importa e exporta o progresso 232 , um dos lugares onde os símbolos da modernidade emanam e são compartilhados 233 , o exemplo idealizado de como os estados do Brasil central deveriam ser tratados pelos poderes públicos 234 . Ou, como ele mesmo demonstrou em 1920 numa lembrança do seu primeiro retorno ao “ultra sanado” Rio de Janeiro, dezoito anos depois, Ayres destacou os “palácios da cidade” e a “crença” que alimentou, baseada na sua primeira experiência quando doutorando, de que “a metrópole do Brasil estava de feito saneada”, o que na sua opinião não se confirmou.235 Ou nas críticas contra a grande preocupação quanto ao “aformoseamento” da cidade ou, paradoxalmente, nos elogios quanto ao que a Capital da República se tornara, “grande metrópole sul africana, uma cidade da luz”.236 230 GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. pág. 114. 231 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1908. p. 3. 232 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.105. 233 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1908. p.4. 234 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1906. p.1. 235 SILVA, Francisco Ayres da. Op. Cit. p. 32,33. 236 Norte de Goyaz. Porto nacional, 31/08/1914. p.1. Um relato sobre o Rio de Janeiro publicado na primeira página do jornal portuense de 1914 trata sobre as transformações urbanas materializadas, apresentando os melhoramentos realizados na cidade carioca, que Ayres também gostaria de ver materializados na região de Porto Nacional. Há indícios que sua percepção sobre o Rio de Janeiro tenha se transformado, do momento em que acompanhou os burburinhos das expectativas até o momento das realizações, que, para ele, parecem ter sido exitosas. No entanto, é preciso reforçar que boa parte dos melhoramentos citados, referentes aos transportes, já faziam parte do cenário carioca no período em que Ayres cursou medicina. “Quem viu a capital Federal há uma década attraz e hoje percorresse as ruas e avenidas maravilhosas, por entre extasiado e surpreso, perguntará, sem dúvidas a si mesmo para onde teria ido o antigo Rio de 120 A diferença entre o litoral e o Brasil central tendia a aumentar dia após dia, até os últimos dias em que permaneceu na cidade, que para muitos cronistas, ainda com feições de cidade colonial, com ruas estreitas e irregulares, prédios velhos, em outras palavras, ainda com uma estrutura urbana supostamente incompatível com o que ela representava para o país. Todavia, prestes a figurar após as esperadas, sonhadas e tão comentadas modificações urbanas como “a primeira capital, já não da América do Sul, mas de todo o mundo”,237 como uma borboleta prestes a sair de uma crisálida. Argentina com Buenos Aires e Minas Gerais com Belo Horizonte se tornaram exemplos para aqueles que defendiam rápida intervenção no Rio de Janeiro. Olavo Bilac, em 1897, publicou uma crônica na Gazeta de Notícias sobre Belo Horizonte, cheio de esperanças de que em breve o Rio de Janeiro também se transformaria para “acertar o passo” e superar todas as outras cidades, Como por milagre, uma cidade moderna, de largas avenidas e palácios soberbos, rompeu do lugar em que havia a pequena povoação de Belo Horizonte: o Curral d’El Rei nunca poderia esperar tamanha honra... a Gazeta não é folha mineira, e quem escreve esta crônica não gosta de preocupar-se com a vida alheia; mas como deixar em silêncio este acontecimento? O fato de, em dous anos, surgir da terra, acabada e bela, uma cidade, não é fato que todos os dias se dê: e é preciso que isto tenha o comentário da crônica. Se o caso se houvesse passado na América do Norte, nessas fabulosas terras onde as crianças já nascem diplomadas e onde as cidades se fazem a quatro horas incompletas, nada se poderia escrever sobre ele. Mas, não! O milagre (porque foi um verdadeiro milagre) fez-se na parte mais pacata, mais prudente, mais desconfiada, mais econômica deste mundo e dos outros: o Estado de Minas Gerais não é useiro e vezeiro nessas cavalarias altas. Daí, o espanto de todos; daí o estranho caso. Não queiramos desgostar quem está contente! Pode ser que ainda os mineiros se arrependam de ter gasto tanto dinheiro em mármores e madeiras, quando o podiam gastar em sementes e arados; mas o mais provável é que a providência abençoe os esforços daquele povo... em todo o caso, demos parabéns Janeiro taes e tantos são as modificações. As viellas esquecidas, feias e infectas sumiram-se como por encanto, e de entre seus destroços surgiram grandes e belas avenidas, aprimoradas por sumptuosos edifícios, (...) uma arborização artisticamente elegante e encantadora. Por toda parte jardins a pompearem com exuberância nossa natureza rica e prodigamente farta. Por todos os pontos, por todos os recantos da grande urbe, bondes, os autos, com velocidade vertiginosa, movimentam de instante em instante grandes motes de ser humano deste para aquelle ponto. Em terra as ferrovias de espaço em espaço, arfendo ou ferindo o ar com sons extridentes, despejam grandes levas humanas. No mar os grandes vapores ou pequenas embarcações sulcam de ponto em ponto sempre atopetados de passageiros em demanda da cidade. E como si não bastasse a velocidade que nos proporcionam os vehiculos terrestres e maritmos, já agora se observa ainda na grande metrópole do Brasil, o ar fendido, de quando em quando por um aeroplano, como que a denunciar que nossa civilização não pede meças, também nessa partícula, ao progresso das grandes metrópoles europeas ou norte americanas.” 237 BILAC, Olavo. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 18/11/1900. Acervo Periódicos - Fundação Biblioteca Nacional. 121 ao Estado de Minas, que acaba de inaugurar o seu nobre salão de visitas! 238 Provavelmente essa e outras crônicas dos combatentes em favor da remodelação urbana do Rio foram lidas e comentadas por Francisco Ayres em solo carioca, que muito possivelmente se nutriu de semelhante esperança para, quem sabe um dia, implementar tal milagre em Porto Nacional, pela lógica dos principais jornais da época a uma distância bem mais significativa para acertar o passo, porém, nada impossível para quem acreditou em milagres. Em meio à agitação do Rio de Janeiro, Ayres não descuidou das atividades do curso, cumpriu todas as suas obrigações como os exames escritos, orais e práticos das diversas matérias, como physiologia, pharmacologia, anatomia descritiva, Pathologia, Chimica mineral e mineralogia medicas, Histologia, botânica e zoologia médicas, Hygiene publica e privada e história da medicina, clinica cirúrgica, e outras matérias que compunham sua formação, divididas em oito séries de exames ao longo de seis anos. 239 As atividades dos estudantes de medicina eram comunicadas por meio dos principais jornais diários da capital, através dos quais eles se informavam dos afazeres e das outras notícias e comentários sobre a cidade, o país e o mundo. 240 Por isso, Ayres certamente foi leitor assíduo da Gazeta de Notícias, portanto dos cronistas, como Olavo Bilac, que diariamente escrevia para a Gazeta, um dos jornais que mais definiu, exaltou, propagandeou e celebrou a modernidade, o progresso e seus artefatos de melhoramentos urbanísticos. A opinião de Ayres sobre muitos assuntos, de um modo ou de outro, foi construída também a partir de jornais como a Gazeta de Notícias, e cronistas como Olavo Bilac e Coelho Netto que, posteriormente, de forma esporádica, tiveram seus textos transportados de outros periódicos para as publicações do Norte de Goyaz. 241 Depois de uma de suas visitas a Porto Nacional, ao voltar para o Rio em 1896, foi admitido, por autorização do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, como interno do Hospital da Brigada Policial. Espécie de estágio que Ayres conseguiu como aluno da 4ª serie da faculdade de Medicina, onde permaneceu até as vésperas de seu 238 BILAC, Olavo. Gazeta de notícias. Rio de Janeiro, 19/12/1897. Acervo Periódicos - Fundação Biblioteca Nacional. 239 Estatuto das faculdades de Medicina - Decreto n. 9.311 de 25/10/1884, Titulo I. cap. II. Seção I – dos cursos de sciencias médicas e cirúrgicas. 240 Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 20/01/1895. p.3; 22/01;1895. p.2; 05/04/1895. p. 2; 24/11/1895. p. 3. 241 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1908. p.2. 122 retorno para Goiás, quando pediu dispensa do cargo. 242 Paralelamente a imprensa do Pará, mas precisamente o jornal Folha do Norte, anunciou que “descendo o Tocantins, chegou a esta capital o coronel Joaquim Ayres da Silva, influencia política, commerciante, fazendeiro e deputado no Estado de Goyaz”,243 como indício de que o pai de Francisco estava muito mais ocupado com as atividades comerciais do que com a vida política. Prestes a se tornar efetivamente médico, Francisco Ayres se envolveu, juntamente com outros colegas da 6ª série de medicina, numa polêmica envolvendo o então presidente Prudente de Moraes. A referida turma, daqueles que seriam os mais novos médicos do país, dividiu-se em torno de uma homenagem que seria feita ao presidente da República, planejada por parte de alguns “doutorandos de 98”, como forma de reconhecimento da importante contribuição que o mesmo deu à nação brasileira. A outra parte 244 , da qual Ayres comungava, declarou-se contrária ao intento e aos rumores da imprensa sobre tal homenagem que seria feita em nome de toda a turma, manifestando-se via o jornal A Notícia da seguinte forma, Somos obrigados a tornar público, bem a contragosto, o nosso dissentimento à resolução de distinctos colegas da 6ª serie medica. [...] Não nos é possível deixar sem reparo essa notícia, salientando a nossa não coparticipação a qualquer manifestação que se pretenda levar a efeito. Com pensamento completamente diverso, quando não bastasse o nosso desacordo a esse respeito, duas outras razões poderosas impediram a nossa aproximação da pessoa de S. Ex. o Sr. Prudente de Moraes, como chefe de governo e chefe de partido – a resolução firmada pela escola de não mais envolver-se em questões políticas, e – a lembrança ainda viva dos sucessos de julho em que a classe acadêmica foi tratada com inqualificável descortesia e menosprezo pelas mais altas autoridades da República (...) Rio de janeiro 10 de novembro de 1898. 245 No interior da turma da sexta série médica já se definiam as prováveis alianças políticas que cada um assumiria ao sair da faculdade, de acordo com seus interesses particulares e aos grupos oligárquicos que estavam articulados. A declaração acima indica o interesse e o envolvimento dos doutorandos na vida política, a despeito da 242 O Paiz. Rio de Janeiro, 20/11/1896. p.1.; 14/01/1899. p.1. 243 Folha do Norte. Belém, 16/04/1897. p. 3. 244 Os doutorandos em medicina que assinaram a declaração foram: Francisco Simões Lopes, Ismael Nery, Paulino Pinto, Petit Carneiro, Alvaro Fernandes, Arthur Costa, Feliciano de Almeida, Oscar Brandi, Manuel P. Moreira de Oliveira, Raymundo T. de Moura Ferreira, Faustino Correa, Antonio Pedro Pimentel, Augusto Eduardo Pinto, Francisco Ayres da Silva, Antonio Austrogesilo. 245 A Notícia. Rio de Janeiro, 11/1898. p. 3. 123 resolução que defende o não envolvimento. Francisco Ayres da Silva não se manifestou contrário à homenagem de Prudente de Moraes simplesmente pelos motivos apresentados na declaração, ou seja, o não envolvimento com a política e o suposto mau tratamento à classe acadêmica por parte das autoridades republicanas. Sua oposição tem relação com a configuração política goiana naquele momento, já que pouco antes a família Caiado, cujos principais nomes eram o de Antônio José Caiado, Torquato Ramos Caiado e Antônio Ramos Caiado, respectivamente avô, pai e neto, sendo o último da mesma geração de Ayres, romperam com o grupo político dos Bulhões e se aproximaram do Partido Católico. O grupo Bulhões era ligado ao presidente Prudente de Moraes, obteve muitos benefícios e se fortaleceu graças a esta aliança. Nesse episódio, está a manifestação mais evidente da virada política da família Ayres. Mesmo no Rio de Janeiro, enquanto Francisco Ayres elaborava sua tese, intitulada “DA ELECTROLYSE MEDICAMENTOSA NAS ARTHRITES”246, requisito para se doutorar, estava também atento ao que se passava em Goiás, cada vez mais se afastava do Grupo bulhonico, para se aproximar do grupo caiadista, principalmente por meio de Antonio Ramos Caiado, com quem teve estreita relação. Segundo Nars Chaul, a família Caiado estava numa ascendente, destacando-se em razão de “casamentos politicamente convenientes, de força financeira estável e de membros formados em cursos superiores”. Aos poucos ambicionando maior projeção e criando espaço para uma posição mais importante no cenário político goiano, Francisco Ayres, com o capital político, econômico e social herdado do pai, somado a sua formação superior, fez parte desse processo. 247 Sobre a defesa da tese para a obtenção do título de doutor é importante observar como funcionava e seu significado naquele contexto de construção do campo da ciência médica no Brasil. A produção das teses, que propunham “educar e civilizar”, funcionava como um dispositivo, que juntamente com a instituição de formação e a organização de corporação, contribuíram para conferir à medicina o status de campo disciplinar autônomo, legítima ciência, institucionalizada e autorizada na arte de curar, 246 Para saber mais sobre a produção das teses na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e como elas são variações particulares de um mesmo enunciado médico, que segundo Marta Maria Chagas de Carvalho, no prefácio do livro de Gondra, “absorve a autoria individual ou os estilos em uma estrutura que articula e atravessa outras práticas do tempo como intervenção civilizatória”, ver: GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. 247 CHAUL, Nasr Nagib Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: Editora UFG, 2010. p. 133. 124 para assim identificar e combater práticas consideradas como charlatanismo e ocultismo, associadas principalmente àqueles que atuavam na área sem a formação nas faculdades. 248 Ao final do curso, após cumprir todo roteiro de exigências, ser aprovado em todas as matérias e seus respectivos exames escritos, orais e práticos, os alunos tinham mais um compromisso, espécie de ritual de passagem com alto valor simbólico para tirar o doutorando da condição de acadêmico e lhe conferir o estatuto de doutor. Trata- se da defesa da tese, em sessão pública, sobre o que o candidato aprendeu ao longo da formação, esse era o requisito, a última etapa para conquistar ou confirmar o título de doutor e, portanto, credenciar-se na ordem médica, para estar plenamente habilitado para o exercício da medicina e suas atividades competentes. “A tese é, portanto, o documento que funciona como atestado de competência do candidato à condição de sujeito da racionalidade médica”.249 No ano em que Francisco Ayres defendeu a sua tese houve 46 teses defendidas pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Conforme previa o regimento das faculdades de medicina no Art. 451. “Aos que tiverem sido approvados em todas as materias do curso de sciencias medicas e cirurgicas e na defesa de theses será conferido em dia designado pelo Director e em sessão solemne da Faculdade o grau de doutor em medicina”. Enfim, o público ficou sabendo, não só pelo ato público de colação de grau, mas pelo anúncio nos principais jornais da capital federal e de outros estados, que Ayres havia se doutorado em medicina, conforme se nota pelo que afirma o Art. 474. “O dia para a collação do grau de doutor será annunciado por editaes e nas folhas de maior circulação.”250 Ainda hoje, como herança do século XIX, o título de Dr. atribuído aos graduados em medicina resistiu ao tempo e se transformou num costume ou numa 248 Mais informações sobre as teses de medicina ver: ANTUNES, josé L. F. Medicina, leis e moral: pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930). São Paulo: Editora da UNESP, 1999.; SALLES, Pedro. História da Medicina no Brasil. Belo Horizonte: G Hholman, 1971.; SANTOS FILHO, Lycurgo. História Geral da Medicina Brasileira. v. I e II. São Paulo: hucitec/Edusp, 1991. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e a questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Mais informações sobre como funcionava a elaboração e cerimônia de defesa das teses, bem como a cerimônia de colação de grau, ver: DECRETO Nº 9.311, DE 25 DE OUTUBRO DE 1884. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-9311-25-outubro-1884-545070- publicacaooriginal-56989-pe.html. Acesso em: 26/11/2015. 249 GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. P. 82, 83. 250 DECRETO Nº 9.311, DE 25 DE OUTUBRO DE 1884. Cap. V. Sessão I e II. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-9311-25-outubro-1884-545070- publicacaooriginal-56989-pe.html. Acesso em: 26/11/2015. 125 permanência das desigualdades características da sociedade brasileira, porém, guarda significativa diferença em relação ao título de doutor obtido ao término de um curso de pós-graduação a nível de doutorado. Os termos são homônimos, o primeiro entendido mais como tratamento, elemento de distinção e credenciamento com alto valor simbólico que confere prestígio e uma posição de destaque nas relações de poder, com grande influência na vida cotidiana. Já o segundo serve mais para indicar nível de formação de uma carreira acadêmica e aprofundamento em determinada área, com pouco impacto na vida cotidiana, embora os dois títulos, em todos os tempos, revistem, equivocadamente, aqueles que os possuem com uma áurea de superioridade, no caso, o primeiro bem mais que o segundo. Sem aprofundar nessa discussão, quero apenas destacar, a despeito dos sentidos que se alteraram ao longo da história, que se hoje o título de doutor está revestido de autoridade e poder, quem dirá na virada do século XIX para o XX. Quanto ao que representava a insígnia de “doutor” médico naquela época, Pode-se dizer que o cumprimento do requisito final para obtenção de tão valioso certificado funcionava como ponto de corte na trajetória profissional dos médicos, pois tal ato permitia o ingresso do aprovado em uma seleta elite intelectual, a ter destacada atuação na direção da nação, da cidade e dos indivíduos. 251 Após defender sua tese e ser aprovado, o portuense que ficou quase uma década como morador da Capital Federal se tornou, efetivamente, Dr. Francisco Ayres da Silva e como tal retornou para Porto Nacional. Mas, por que retornar para sua cidade natal ao invés de permanecer no Rio de Janeiro? O que o levou a preferir Porto ao Rio? São vários os motivos que poderiam servir como resposta a essa pergunta, como a ligação com a família, o amor pela cidade onde nasceu e foi criado, a afeição pelos conterrâneos, o desejo por ajudar a sociedade portuense através do seu conhecimento médico, a preocupação em colocar Porto Nacional no rol das grandes cidades. Enfim, muitos outros motivos poderiam ser considerados, até mesmo alguns menos prováveis como a predileção pelo estilo de vida mais interiorano, a dificuldade de adaptação à efervescente agitação do cotidiano carioca, a ambição profissional, ou seja, pela maior possibilidade de ascensão na carreira médica numa região em que havia pouquíssimos profissionais, entre outros. Sem ignorar nenhum dos fatores arrolados, creio que a melhor resposta para essa pergunta tem a ver com as ambições políticas de Ayres, 251 GONDRA, José Gonçalves. Op. cit. p. 109. 126 principal determinante do seu projeto de vida. Na cidade do Rio de Janeiro, Ayres seria apenas mais um médico recém- formado em medicina, oriundo de uma pequena cidade do longínquo estado central do país, com pouco capital de relações sociais mobilizado em seu favor, praticamente um desconhecido na cena política. Permanecer na cidade carioca tornaria seu ingresso nos quadros políticos remoto, para não dizer impossível. Todavia em Porto Nacional a realidade era outra. As vantagens materiais e simbólicas que o mesmo poderia obter, em razão do capital simbólico que a formação em medicina lhe proporcionava, eram imensamente mais expressivas. 252 Como se viu, Ayres no seu torrão natal, já possuía pela trajetória do seu pai coronel Joaquim Ayres, capital material, político e de relações sociais, que o tornavam uma figura proeminente. Somado a sua formação superior em medicina, a tão ambicionada representação na câmara ou no senado federal era uma realidade absolutamente palpável. Em outros termos, retornar para Porto Nacional era o melhor negócio, o caminho mais fácil para sua projeção, pois esta, no aspecto em questão, tinha muito mais a lhe oferecer que o Rio de Janeiro, afinal, foi por muito tempo o único médico formado da cidade. 253 O jornal A Imprensa noticiou no dia 3 de janeiro de 1899, que “hontem, na faculdade de Medicina, receberam gráo de doutores em medicina, Joao Teixeira de Oliveira, Arthur Leandro de Araujo Costa, Dorival de Camargo Penteado, Manoel Monteiro de Araripe Sucupira, Francisco Ayres da Silva e Feliciano José de Almeida Junior”.254 Algumas semanas depois o Jornal O Paiz mencionou que Francisco Ayres da Silva e irmãos embarcaram num paquete, retornando para Goiás. 255 De volta a Porto Nacional, o agora Dr. Ayres, ou Dr. Chiquinho, como costumavam chamá-lo os mais próximos ou aqueles que queriam se mostrar mais próximos, começou a exercer sua profissão conforme a formação que recebera, e, paralelamente, a ocupar espaços estratégicos na cidade portuense. O século XX começou com novidade para os portuenses, um médico da/na cidade. Investido da autoridade de coronel, mas com título de Doutor, para a realidade do norte goiano um feito memorável noticiado como prêmio, divisor de águas, grande conquista que projetava a cidade e apontava para 252 BOURDIEU. Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989. p. 164-173. 253 Já seu irmão, o alferes Pio Ayres da Silva optou por residir na então capital da República, onde constituiu família. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 27/12/1905.; Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/11/1908. 254 A Imprensa. Rio de Janeiro, 3/01/1899. p. 2. 255 O Paiz. Rio de Janeiro, 28/01/1899. p.4. 127 novos rumos de crescimento e desenvolvimento. Se a presença de um médico causou tanta comoção e euforia em boa parte dos moradores, além de promover a cidade, imagine o efeito que o título causou para aquele que o possuiu, convertido aos poucos em poder, autoridade e liderança. Em outras palavras, Ayres num curto espaço de tempo se apresentou como o homem mais capaz para representar os interesses da região. Poderia afirmar que o título de doutor foi o que mais lhe deu orgulho, mas como isso é algo muito subjetivo, portanto praticamente indemonstrável, prefiro dizer que certamente foi esse o título que mais lhe conferiu capital simbólico, perceptível pelos retornos obtidos na forma de prestígio social e retorno eleitoral. Capital simbólico que pode ser explicado também pelo fato de ter sido o único título conquistado para além do território goiano, todos os outros de professor, deputado, delegado literário, vice- presidente do estado, jornalista foram obtidos em Goiás e por Goiás. A despeito da projeção e prestígio adquiridos por meio do título de doutor, a respectiva função parece ter sido gradativamente sobreposta por outras, como a de jornalista e político. Forte indício dessa assertiva são os anúncios dos primeiros números do jornal Norte de Goyaz, que oferecia os serviços médicos de Francisco Ayres com total disponibilidade de horário, sem restrição de lugar, como se vê: “CLINICA – DR. FRANCISCO AYRES - Da consultas e recebe chamados para dentro e fora da cidade, a qualquer hora, em sua residência a rua 15 de Novembro.” Anúncios que não se repetiram nos números posteriores. 256 Outro indício se trata do anúncio destinado “aos médicos do interior” em que coloca os seus livros de medicina à venda. 257 Todavia é preciso reconhecer que mesmo como função secundária durante grande parte de sua vida, ele deixou seu parecer médico por onde transitou sendo ou não solicitado para tal fim, e se valeu do conhecimento médico, sobretudo, do capital simbólico do título de Dr. no exercício de outras funções. 258 No jornal Norte de Goyaz é evidente como foi explorada a profissão de Ayres como elemento que o enaltecia. Numa de suas edições, ao fazer uma homenagem para Joaquim Ayres da Silva, destacando as datas mais significativas da sua existência, dentre as cinco selecionadas, a do nascimento, casamento, deputado da constituição política do estado e do seu falecimento, estava o dia 2 de janeiro “ano em que formou-se 256 Norte de Goyaz, Porto Nacional, 15/10/1905. p.4. 257 Norte de Goyaz, Porto Nacional, 15/05/1906. p.4 258 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999, 31- 33.; Norte de Goyaz, Porto Nacional, 30/04/1908. p.4 128 em medicina um seu filho”. FIGURA 1: Homenagem a Joaquim Ayres da Silva: datas significativas da sua existência 259 . FONTE: Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906. p.1. No mesmo periódico há uma notícia sobre a festividade realizada na cidade em razão da comemoração do aniversário de formatura em medicina do Dr. Chiquinho. Com o título de Salve 2 de Janeiro se tem uma noção do impacto que o exercício da medicina, ou simplesmente a presença de um médico, causou na sociedade portuense. Porém é necessário reafirmar que todos os atos são propagandeados como forma de promover o nome de Francisco. extraordinariamente festivo foi o amanhecer de 2 de janeiro, data em que completa anos de formatura o nosso distincto amigo e companheiro de luctas Dr. Francisco Ayres da Silva. Eram 4 horas da madrugada, quando, ao espocar de inúmeros foguetes, ouviram-se os sons maviosos de uma corporação musical executando o hynno portuense, era a correcta banda de musica portuense acompanhada dos amigos de nosso distincto confrade e de grande massa popular que, à porta de sua residência, dirigia-lhe as suas saudações, pela gloriosa 259 HOMENAGEM A MEMORIA DO CORONEL JOAQUIM AYRES DA SILVA – DATAS SIGNIFICATIVAS NA SUA EXISTENCIA: em que nasceu: 11 de Maio de 1835 – do seu casamento: 7 de Novembro de 1869 – da constituição politica do estado de goyaz (hoje reformada) que subscreveu como deputado: 1 de junho de 1891 – em que formou-se em medicina um seu filho: 2 de janeiro de 1899 – a de seu fallecimento: 7 de janeiro de 1902. 129 data. Immediatamente S. S. abriu as portas de sua residência, já então completamente illuminada; franqueando-a cavalheirosamente a todos. (...) em seguida foram servidos finos vinhos, licores e café. 260 “Gloriosa data” que se tornou um evento com direito a fogos, banda musical, finos vinhos e a sensação de que a cidade estava diferente, mais que isso, a sensação de que ela tomaria um rumo promissor de desenvolvimento, exemplificado na própria presença de um médico para a cidade, ou melhor, de um médico da cidade. Como se a conquista de um filho daquela terra simbolizasse as possibilidades de conquistas da própria terra. Aqui a imagem da residência com portas abertas e completamente iluminada pode ser entendida como metáfora de cunho iluminista, para assinalar o amanhecer de Porto Nacional, que, por um de seus filhos, abria-se para receber as luzes do progresso, para eles a luz do amanhecer, já que até então a luz elétrica e a iluminação pública não condiziam com a realidade do lugar, a luz elétrica sequer era cogitada naquele período, não fazia parte da cidade imaginada, muito menos da cidade material. Sem ignorar a medicina popular, inclusive na utilização de medicamentos e tratamentos baseada nos saberes, crenças e práticas culturais do povo, largamente utilizada na lida com doenças, comum ainda hoje em Porto Nacional, a presença de um profissional com formação acadêmica e saber especializado na área da saúde soou como novidade, um melhoramento para a maioria da população senão para toda ela. Mesmo diante da resistência, dos portuenses de forma mais particular e dos nortistas de forma mais ampla, quanto às instruções do Dr. Francisco Ayres que hora divergia da medicina popular, hora se apropriava dela, o fato de ter um médico por perto significou fator de distinção da cidade em relação às demais, conferiu-lhe ainda mais consistência para a construção de sua condição de centro. Se depois de quase uma década do retorno de Francisco Ayres para Porto Nacional ainda se celebrava a data de formação, imagine durante sua chegada. Isso indica que apesar dos obstáculos não lhe faltou O incentivo, necessário para deixar sua colaboração. 2.2 O INCENTIVO PARA PORTO NACIONAL: A ATUAÇÃO DE AYRES NO JORNALISMO O tão aclamado médico, nos primeiros anos em Porto Nacional após sua formação, com certa aproximação dos outrora adversários políticos de seu pai, especialmente Luiz Leite Ribeiro, começou a mergulhar no universo jornalístico como 260 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906. p.4. 130 colaborador do segundo jornal da cidade depois do Folha do Norte, intitulado O incentivo 261 . Este jornal teve um ano de duração, iniciou em novembro de 1901 e encerrou em novembro de 1902, nele Ayres escreveu alguns artigos/crônicas sobre saúde numa seção chamada Miscellanea, espaço em que aconselhava a população a mudar alguns hábitos e costumes para se evitar a disseminação de doenças. Não poderia ser diferente, foi como médico sua inserção no jornalismo. Em contrapartida, sua presença como profissional da medicina foi um dos fatores que, em maior ou menor grau, motivou a iniciativa e a possibilidade do jornal. O incentivo, que pelo próprio nome já indica a que veio, apresentava-se como um promotor de Porto Nacional e representante do norte do estado. “Um jornal de formato microscópio mas de aspirações grandiosas”, de acordo com Maria de Fátima Oliveira, o quinzenal se ocupou com questões como os acontecimentos sócioculturais do cotidiano da região, a navegação, notícias internacionais e interestaduais, política municipal e estadual principalmente, instrução, saúde, criminalidade, religião, anúncios comerciais e com significativo espaço para gêneros literários como poesia e crônicas, inclusive, dos literatos da região, dentre eles o próprio redator do Jornal, Luiz Leite que publicou alguns de seus poemas. 262 O Incentivo de Ayres foi tornar conhecido aos leitores o que significava, para a época e sob sua ótica, uma cidade civilizada no âmbito da saúde, e o que haveria de ser feito em Porto Nacional para alcançar tal propósito, quais seriam as exigências particulares do lugar para colaborar com uma luta de interesse coletivo. Como se nota pelo trecho de um de seus textos publicado no jornal em 1901, Uma questão de interesse coletivo avassala, dia a dia, pouco a pouco, as sociedades civilizadas; queremos nos referir à luta que, de alguns anos a esta parte, tem se travado contra os escarro. Também no Brasil a luta está iniciada; um punhado de cientistas já deu o brado de alarme e sociedades profissionais se vão formando no intuito de profligar o mais possível esse habito inveterado que cada qual de nós tem de, a cada passo, a cada instante, projetar, no ambiente que ocupamos, 261 O Jornal O Incentivo, era quinzenal, teve 22 edições e tinha como redator Luiz Leite Ribeiro. Segundo Maria de Fatima Oliveira, possuía formato retangular, de 30cm X 22cm, com quatro páginas e três colunas em cada página. OLIVEIRA, Maria de Fátima. Entre o sertão e o litoral: cultura e cotidiano em Porto Nacional 1880/1910. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2010. p. 84. 262 A autora fez um quadro com a “distribuição das categorias de informações do periódico O Incentivo”, nele quantifica e qualifica os textos publicados nas 22 edições. Embora a autora não tenha realizado uma análise mais percuciente dos textos e do conteúdo do jornal, por não ser o seu foco, sua rápida descrição dos principais assuntos tratados nos permite ter uma dimensão da proposta mesmo. Para mais detalhes ver: Ibdem. Idem. p. 86-90. 131 enormes cuspadas ou cuspinhadas sucessivas, reiteradas... É esta a razão porque muita vez em uma cidade, de ordinário, certas moléstias esporádicas se transformam em epidêmicas. 263 Com participações esporádicas, como profissional que explora seu saber científico em prol de fazer a cidade, mesmo com suas peculiaridades, acompanhar um movimento mundial, Francisco Ayres colaborou na suposta retomada do projeto de Luiz Leite Ribeiro, ou melhor, novo projeto que consistiu em, a partir de uma Folha do Norte, promover O Incentivo necessário para projetar a cidade como sede dos anseios do Norte de Goyaz e lugar cada vez mais próximo das “sociedades civilizadas”. A julgar pelo texto de Ayres se pode ter uma ideia de que tipo de incentivo estava em questão, para que, para quem e para onde se destinava. Ao que tudo indica o jornal teve caráter menos político se comparado ao Folha do Norte, os colaboradores, todos pertencentes a famílias poderosas, intentavam determinar os rumos da cidade, instruindo e dirigindo para adequá-la à “metrópole do mundo civilizado”, ou seja, aquilo que criam ser uma cidade moderna, interesse comum no seio da elite portuense capaz de unir no interior de um empreendimento jornalístico adversários históricos, ainda que por pouco tempo. Até os interesses particulares sobressaírem, dentre os quais o desejo de ser reconhecido como o mentor e responsável pelas boas novas. É muito complicado apreender e compreender a recepção do periódico, como os moradores daquela cidade reagiram frente aos anseios do pequeno grupo dos produtores do jornal e seus poucos leitores. Mas em se tratando de um grupo formador de opinião, com autoridade de cunho econômico, político, cultural e social, não é impossível acreditar que a publicação do O Incentivo tenha causado algum tipo de efeito entre os portuenses, mesmo entre os que não eram alfabetizados. Com isso não estou afirmando, por exemplo, a aceitação plena das recomendações do Dr. Ayres por parte da sociedade portuense. Mas sim que de alguma forma as pessoas pensaram, dialogaram e formaram opinião sobre as questões colocadas de acordo com seus próprios interesses e convicções, provocando mudanças na percepção sobre si, sobre a cidade e sobre os outros. Não estou afirmando que os hábitos e costumes mudaram completamente, mas é certo que no mínimo ninguém mais escarraria completamente a vontade na presença do Médico, ou sem lembrar ao menos por um instante nas implicações de uma ação tão corriqueira. Nesse sentido, o doutor ainda que sutilmente tentou aplicar seus 263 SILVA, Francisco Ayres da. Apud OLIVEIRA, Maria de Fátima. Entre o sertão e o litoral: cultura e cotidiano em Porto Nacional 1880/1910. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2010. p. 93. 132 conhecimentos para (re)organizar a experiência urbana e (re)ordenar o espaço da cidade. Ao pensar o poder de alcance dos jornais portuenses anterior ou posteriores ao O Incentivo não se pode limitar apenas ao pequeno e restrito grupo de alfabetizados, ou seja, aos ledores propriamente ditos, deve-se pensar num público mais amplo constituído inclusive por analfabetos. Os jornais portuenses devotaram grande atenção aos seus leitores, que de maneira alguma podem ser associados unicamente àqueles privilegiados que dominavam a técnica da leitura. Nesse sentido, no caso específico da história de Porto Nacional, sobretudo quanto aos seus primeiros jornais, proponho uma distinção entre ledores e leitores, bem como uma ampliação da noção do último termo, respectivamente, um se remete às pessoas que de fato sabiam ler e o outro às pessoas que se interessavam pelas publicações a ponto de assiná-las, comprá-las ou simplesmente saber do que se trata. Pois, quando os jornais portuenses se referiam aos leitores tudo indica que era com essa noção ampliada que o faziam. Como se afirmou no “Norte de Goyaz, nem todo sertanejo conhece um jornal; deles, porém, os que já se mostram mais civilizados conhecem-no; e outros, os mais desenvolvidos, não somente o conhecem mas o lêm conforme o podem”.264 Não se pode ignorar ainda a prática de leitura em voz alta, com as implicações esboçadas por Alberto Manguel, seja como instrução e/ou entretenimento, foi uma alternativa que também ampliou a circulação das informações contida nos impressos. 265 A relação entre ledores e leitores através das rodas de leituras públicas dos jornais, ao que tudo indica, era comum e tais rodas chegaram a ser registradas nos periódicos nortenses como mencionou um assinante, “numa roda de amigos (...) li para todos ouvirem o referido artigo”.266 Conforme se percebe da mesma forma num anúncio Emulsão Scott, feito também para analfabetos, inclusive alertando sobre a importância de compartilhar informações com as muitas pessoas que não sabiam ler, levando-as a conhecer “o grande valor de certos produtos que se dão a conhecer pelas vias de annuncio”. Nesse sentido, na própria propaganda, para ampliar seu poder de alcance, sugeria que “Recommendal-a aos atingidos por essas doenças é um bem humano. Além disto é um dever empregar assim nossa inteligência vulgarizando os nossos conhecimentos com os menos afortunados da nossa sociedade”.267 264 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1911. p.2. 265 MANGUEL, Alberto. Uma História da leitura. São Paulo: Cia das Letras, 1997. 266 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1914. p.2. 267 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1918. p.1. 133 Na esteira de Robert Darton, ao discutir como a fofoca, as canções populares e os folhetins movimentavam as notícias na França do século XVIII, os meios de comunicação de Porto Nacional e da denominada região norte de Goiás não podem ser apreendidos tendo como referência a mídia de hoje, nem os de outras cidades que, naquela mesma época, já contavam com navegação a vapor, ferrovia, telégrafo, jornais e revistas de alta tiragem com tipografias modernas, entre outros. Pois, fazendo assim pode parecer que a parte norte de Goiás era muito simples, praticamente destituída de meios de comunicação, lugar da desinformação. Rejeitando a ideia de que a região de Francisco Ayres era obsoleta, precária e carente quanto aos modos de comunicação, com base em Darton, proponho um caminho, na minha visão, mais viável para compreender a questão. Entendendo que “cada era (assim como cada lugar) foi, a sua maneira, uma era da informação”, nessa perspectiva não se pode pensar Porto Nacional como uma realidade simples em relação a outras, mas apenas diferente. 268 Além dos jornais portuenses, o estado de Goiás como um todo, e especialmente o que se configurou como norte, tinha uma rede de comunicação baseada nos jornais e folhetos sejam impressos ou manuscritos, na troca de bilhetes e cartas, tem ainda a comunicação oral nas conversas formais em reuniões previamente marcadas, ou nas conversas informais nas lavouras entre os trabalhadores, nas viagens por terra ou pelos rios, nas movimentações da população pobre por diferentes lugares seguindo o gado e fazendo suas roças 269 , nas casas de comércio, nas ruas, conversas ao pé do ouvido devido às restrições de algumas notícias impostas pelos coronéis ou mesmo pelo tipo de notícia que sugeria uma auto censura, todos os grupos sociais interpretando os diferentes assuntos, inclusive os políticos, “da maneira que fazia sentido para eles”. Os jornais portuenses, por exemplo, incorporavam esses outros modos de comunicação, assim como eles incorporavam também as notícias dos periódicos, portanto, mensurar o alcance dos jornais e a recepção dos mesmos, principalmente pela dificuldade de apreender essa dimensão oral, não é tarefa fácil. Pois, Sahindo o jornal, foi imediatamente distribuído pelos seus assignantes da cidade e logo foi lido de sôfrego por gregos e troyanos, pela nossa sociedade que há muito debate-se sob a pressão de uma baixa e densa 268 DARTON, Robert. Rede de Intrigas. Folha de São Paulo. São Paulo, 30 jul. 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3007200003.htm#_=_. Acesso em: 11 ago. 2015. 269 CORMINEIRO, Olivia Macedo Miranda. Trilhas, Veredas e Ribeiras: os modos de viver dos sertanejos pobres nos vales dos rios Araguaia e Tocantins (séculos XIX e XX). Uberlândia: UFU, 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, 2010. p. 16-18. 134 athmosphera política (...) como era natural, circularam variados comentários com relação aos assumptos tratados pelo jornal. 270 O Norte de Goyaz noticiou muitos episódios que depois “inesperadamente repercutiu pela cidade, sahindo de boca a boca”, provocando rumores e novas informações incorporados novamente pelo jornal como notícia. 271 Pode-se afirmar que o Largo das Mercês em Porto Nacional, ao seu modo, funcionou como a “árvore de Cracóvia” em Paris e também teve seus nouvellistes.272 Francisco Ayres, por meio dos Jornais em que colaborou, dentre os quais O Incentivo, jogou com essa rede de comunicação. Seria O Incentivo resultado do clima de euforia e expectativa criado em Porto Nacional, pela crença de um novo tempo causada pela presença do Dr. Ayres, pelos rumores das transformações em todos os aspectos pelo Brasil, pelas sensações e expectativas provocadas pela própria virada de século? O fato é que por falta de recursos e/ou incentivo, ou por algum tipo de censura, não se sabe exatamente porque o jornal saiu de circulação. Para anunciar o fim do O Incentivo foi produzido um jornal, com número único, denominado Faceto, nos textos da primeira página “ao leitor e disposições testamentarias”, respectivamente, apresenta-se o aparecimento e as características do Faceto e comunica-se a morte do O Incentivo. Faceto, como o próprio nome antevê, foi um impresso chistoso, jocoso, que se valeu do cômico para tratar de coisa séria, fez graça com o que parecia trágico. Abaixo segue a primeira página para quem quiser arriscar uma hipótese sobre o que significa a grave doença “empapellite aguda”, que antecipou o testamento do O incentivo. 270 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1910. p.3. 271 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1908. 272 Árvore de Cracóvia – castanheiro alto e frondoso no centro de Paris, nos Jardins do Palais Royal, onde se transmitia ruídos públicos. Nouvellistes - transmissores orais de noticias que espalhavam informações boca-a-boca sobre os acontecimentos mais recentes. DARTON, Robert. Rede de Intrigas. Folha de São Paulo. São Paulo, 30 jul. 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3007200003.htm#_=_. Acesso em: 11 ago. 2015. 135 FIGURA 2: Primeira página jornal Faceto. FONTE: Faceto. Porto Nacional, 30/12/1902. p.1. 136 “Faceto, sob os auspicius da rapaziada”, neto do Folha do Norte e filho do O Incentivo, todos gestados e nascidos na Typographia Tocantina, encerrou sua atividade com alguns comentários sobre o pleito municipal, muitas atividades para entretenimento, brincadeira com algumas personalidades (espécie de conversa descontraída entre amigos por meio das páginas impressas), poemas e ironias sobre alguns melhoramentos, considerados necessários para a cidade. 273 Interessante observar a menção que faz ao jornal chamado Phenix, um manuscrito feito em Natividade no mesmo período, lamentando a inexistência de uma tipografia com a expressão “Um prelo, um prelo para a Phenix”. Mas, além de tantas outras observações e análises que o Faceto permite, destaco o legado deixado no testamento para o Dr. Ayres, sugerindo, apesar da ironia, caminho de continuidade na lida com o jornalismo. “Sabendo da alta capacidade do meo velho amigo Brabo na sciencia medica, lego-o a minha Miscellanea para proveito das almas (...)”. Por que para proveito das almas e não do corpo? Proveito das almas dos vivos ou dos mortos? Isso significa uma demonstração de resistência contra os conselhos médicos do Dr. Chiquinho? Ou quem sabe foi a Miscellanea uma tentativa frustrada na opinião dos produtores do jornal, que não alcançou o efeito esperado? De qualquer maneira, com ou sem O Incentivo, Ayres continuaria falando no “palco do nosso mundo” sobre diversos assuntos com o aval do saber autorizado pela ciência médica. Assim, encerrou o projeto “O Incentivo de Lemos, Leite, Ayres, Theodoro”.274 Paralelo à experiência do Dr. Ayres no jornalismo portuense, ocorreu o falecimento de seu pai, coronel Joaquim Ayres da Silva, em 7 de janeiro de 1902. Os colaboradores do jornal O Incentivo deixaram suas homenagens na época do ocorrido, mesmo os seus desafetos como o coronel Frederico Lemos. Mas, em 1906, quando as rivalidades e disputas políticas ressurgiram, principalmente pela aproximação de Lemos e Leite com os outrora adversários e agora aliados Bulhonistas do partido Centro Republicano, contrário ao Partido Republicano Federal dirigido por Ayres em Porto Nacional, as homenagens foram publicadas novamente, mas pelo Norte de Goyaz, como 273 Como este, na última página em forma de anúncio: “Precisa-se de cavaleiros, pessoas a pé, animaes soltos, cargueiros, etc. que sirvão para cahir uns sobre os outros nos groteiros de uma passagem publica, até igualar a superfície de suas medonhas ribanceiras inaccessiveis para quem não for macaco. Quem pretender dirija-se ao Ranhêta e ahi vá se espichando nas grotas enquanto não chega o Fiscal.” Faceto. Porto Nacional, 30/12/1902. p. 4. 274 Faceto. Porto Nacional, 30/12/1902. 137 forma de mostrar que o coronel Ayres era bem visto até pelos adversários e que o Dr. Ayres era seu substituto natural. 275 Observe como foi construída a memória de Ayres, pouco depois da sua morte. Pae de Família, o amigo, o cidadão que, no decorrer de toda uma existência foi sempre venerado e respeitado com verdadeiro carinho. [...] Amigo sempre soube ser muita vez até ao sacrifício. Qual amigo que porventura acercou-se dele em momento de afflição material ou moral que, deixou sem o lenitivo esperado a sua afflição? Cidadão constituio-se desde muito cedo um dos elementos prestadios a tudo quanto referisse ao progresso e paz da sua terra que soube amar tanto quanto foi-lhe dado fazel-o. Houve uma época em sua vida em que as exigências do meio impozeram-lhe o dever de embrenhar-se no terreno político. (...) como político ocupou por vezes, cargos diversos de nomeação do governo, cargos electivos municipaes na representação do Estado. De uma feita sorte foi adversa a politica em cujas fileiras militava. Um vice presidente resolveu dissolver os representantes do povo a couce d’armas e a ponta de baionetas, embora o terror avassalasse todos os espíritos embora o atroar das carabinas de um pelotão de exercito a alvorada de 1º de junho de 1891, a hora convencionada Joaquim Ayres lá estava em seu posto de honra legando seus pósteros uma das mais belas licção de civismo. Como representante do povo, bem que por vez não funcionasse o congresso, ainda assim obteve verbas para melhoramentos diversos no circulo de que foi digno representante. 276 A imagem do Dr. Francisco Ayres estava atrelada à de seu pai, portanto, seria absolutamente necessário construir uma memória positiva sobre ele. Atribuir qualidades ao pai já falecido era o mesmo que se referir diretamente ao filho. Considerado continuador ou seguidor dos passos do pai, foi preciso definir, ou melhor, selecionar os passos do passado de Joaquim que seriam lembrados, e a maneira como deles se lembrariam, no sentido de colaborar com a imagem de Francisco diante do eleitorado nortista. As características mencionadas e reafirmadas correspondem ao que se esperava de um representante político. Bom pai, amigo e cidadão, homem caridoso, representante destemido do povo, com princípios, que ama a sua terra a ponto de se sacrificar por ela, e que não mede esforços para fazê-la alcançar o progresso. Noutra homenagem à memoria de Joaquim, publicada no O Incentivo e posteriormente explorada pelo Norte 275 Pouco tempo após o fim do O Incentivo, a disputa pela liderança política no Norte do estado reascendeu os embates entre os homens de poder em Porto Nacional, que se alternaram nos partidos políticos, mas mantiveram-se adversários. Em Porto, assim como em Goiás, as alternâncias de partido, de alianças e dissidências não ocorrem por questões ideológicas, mas por oportunidades, conveniências em conformidade com interesses particulares. De um jeito ou de outro os nomes com maior poder em Porto Nacional sempre estiveram em conflito pleiteando os principais cargos políticos que se poderiam obter, na concorrência pelos votos dos eleitores do Norte. 276 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906. p. 1. 138 de Goyaz, eis a imagem propagandeada por Francisco Ayres sobre seu pai, logo, sobre si. Eis também porque respeitamos os restos mortaes do cel Joaquim ayres da silva, que foi um grande luctador nestas paragens sertanejas. Luctou e luctou tanto, que ainda no repouso de seu derradeiro sonno de justo, amparou os seus patrícios dando-lhes um filho diplomado, que faz honra a uma geração inteira. Nesse filho que e a continuação das grandezas de um passado nobre, o publico encontra linitivo para as dores em seus soffrimentos. Nelle encarna-se o civismo, a honra a lucidez de espirito, para amparar os fracos, pregando os sãos princípios de uma renascença que nos vem surgindo. 277 O discurso foi muito bem aceito e reproduzido, inclusive anos depois da morte do Dr. Ayres, nas três breves biografias que fizeram dele, a primeira de Altamiro de Moura Pacheco, feita para compor o livro Caminhos de Outrora. A segunda feita por José Luiz Bittencourt, para compor parte da biografia do genro de Francisco Ayres, o também político Totó de Oliveira, como forma de valorizar e mostrar ligação entre os dois. 278 E a terceira, de José Mendonça Teles, feita para compor o livro Um rio dentro de mim. 279 Nas três biografias, apesar de curtas, separou-se espaço para reproduzir o mesmo discurso de que o Dr. Francisco Ayres da Silva foi “político disciplinado, homem de princípios rígidos e digno herdeiro da nobreza de caráter do pai, que enfronhou-se nas questões capazes de estimular o progresso da cidade que teve como primeiro Intendente Municipal o seu genitor o Cel. Joaquim Ayres da Silva.”280 No contexto das disputas eleitorais em Porto Nacional, a oposição também reforçou a ideia de que Dr. Ayres era o substituto de seu pai na liderança política da cidade, ou pelo 277 Ibdem. p.2. 278 A biografia de Antônio José de Oliveira, ou simplesmente Totó de Oliveira, feita por José Luiz Bittencour, escritor, jornalista e político, foi encontrada no Arquivo particular da Família Ayres, em folhas datilografadas com correções feitas à caneta. Não foi identificada a finalidade de tal biografia, nem se a mesma chegou a ser publicada no suporte livro ou em algum periódico. Pelo documento encontrado provavelmente o título seria Totó de Oliveira: homem de bem educador experiente. O começo da biografia que trata da vida de Ayres é feito com base na biografia de Altamiro de Moura Pacheco, a quem Bittencour chama de “respeitável compatrício, médico também de renomada vida pública” (fazendo referencia a Ayres) “e consagrado homem de letras”. Provavelmente trata-se de uma biografia encomendada pela família após a morte de Totó de Oliveira em 1984. 279 Os dados biográficos de Francisco Ayres da Silva que compõem o livro do literato José Mendonça Teles foi uma forma de homenagear e tornar conhecido o portuense, além de registrar a cerimônia de posse da cadeira 32 da Academia Goiana de Letras. Em 9 de setembro de 1978, José Mendonça Teles tomou-se titular da cadeira 32 da A.G.L, cujo patrono é Francisco Ayres da Silva. Ver: TELES, José Mendonça. Um rio dentro de mim. Goiânia: Oriente, 1979. p. 57-76. 280 PACHECO, Moura de Altamiro. Préfacio. In. Silva, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.11.; TELES, José Mendonça. Um rio dentro de mim. Goiânia: Oriente, 1979. p. 64. 139 menos tentava negativar a tentativa de transferência de capital político de um para o outro, desenvolvendo a ideia da substituição não como uma realidade, mas como uma tentativa frustrada. Em 1906, por ocasião do alistamento eleitoral, momento em que uma comissão registrava e legalizava os eleitores aptos a votar nas próximas eleições, o jornal Goyaz, em apoio ao coronel Frederico Lemos e à chamada Vanguarda Republicana do Norte, em oposição ao Dr. Ayres e ao seu partido Partido Republicano Federal, colocava-se como o responsável por todo o prestígio que o coronel Ayres teve em Porto Nacional, por isso defendia a ideia de que seria impossível o filho ter o mesmo êxito do pai sem o apoio do órgão bulhonista. Essa foi a forma encontrada pelo Goyaz para ironizar a tentativa do José Xavier de Almeida, presidente do Estado, em “improvisar o filho daquele extincto chefe em representante da politica governamental naquele município”. A menção do Dr. Francisco Ayres indica que a transferência de capital político do pai para o filho foi bem sucedida, pois já no início do século XX representava uma clara ameaça aos interesses de Frederico Lemos e seus correligionários na disputa pelos eleitores do Norte. 281 A inserção efetiva do médico portuense na cena política municipal ocorre em paralelo as suas colaborações para o jornal O Incentivo, quando foi eleito para ocupar uma posição no Conselho Municipal. Cargo bastante significativo, pois, segundo a constituição do estado, até mesmo o intendente estava submisso ao conselho, este com caráter legislativo, aquele com caráter executivo. As funções do conselho era legislar sobre estradas, ruas, praças, jardins, lugares públicos, criar escolas públicas e outras instituições educacionais, profissionais e artísticas, “prover a higiene e a saúde pública, conceder favores para melhoramentos de carácter municipal”, dentre outras funções.282 Francisco Ayres se tornava cada vez mais envolvido com Porto Nacional, não apenas como médico, mas principalmente como político, ocupando posições estratégicas para ser visto como principal colaborador e promotor do progresso da cidade. Exceto a atuação no conselho, na primeira década no século XX, sua interferência na política local se deu muito mais através do apoio, uso de influência e autoridade, do que propriamente como candidato, pois sua pretensão estava para além dos cargos políticos 281 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1906. p.2. 282 Memórias Goianas 15: Relatórios dos Governos da Província de Goiás 1891-1900. Goiânia: Editora UCG, 2002. p. 54-58. 140 a nível local e estadual. Como presidente do diretório do Partido Republicano Federal em Porto Nacional esteve atento a todos os pleitos políticos, interferindo nos resultados das eleições sempre que possível, mas pouco se colocou na disputa direta por algum cargo. Mesmo assim, sua proeminência como líder político ganhava relevo gradativamente. Além de membro do conselho, o Dr. Francisco Ayres da Silva teve rápidas passagens por ocupações ligadas à educação, como o cargo de “professor da aula avulsa de instrucção secundaria” da cidade de Porto Nacional, função exercida por pouco tempo já que pediu exoneração quase três meses depois da nomeação. Atuou também como examinador da comissão fiscal na aula secundária de português e francês. 283 Mas a educação não foi seu campo preferencial, com formação diferenciada da maioria dos seus conterrâneos, tornar-se professor significou mais uma tentativa de minimizar a carência de profissionais na área do que uma opção vocacional. Creio que o estímulo à educação dado pela sua presença como homem formado, bem como a defesa que fez, via imprensa, da educação como elemento fulcral para o desenvolvimento da cidade, colaboraram mais para a educação em Porto Nacional do que propriamente a sua atuação direta na área. Vale observar que nesse mesmo período a cidade passou a contar com um colégio dirigido pelas irmãs dominicanas, “equiparado a escola normal do Estado”.284 No ano de 1905, Dr. Francisco Ayres da Silva deu um passo supostamente ousado em sua trajetória. Nas eleições para presidentes e vice-presidentes do Estado, que governariam durante o período de 1905 a 1909, ela se candidatou para a vice- presidência. Sofreu derrota bastante expressiva, pois recebeu apenas 6 votos, sendo um dos mais mal votados naquela ocasião. Para ter ideia do quanto foi mal sucedido, seu adversário direto em Porto Nacional, coronel Frederico Lemos obteve “onze mil 283 Semanário Official. Goyaz, 1/10/1904. p.1; 10/12/1904. p.1. 284 O colégio em questão se trata do Sagrado Coração de Jesus, colégio misto, mas que também funcionava como internato para meninas. O que possibilitou que mulheres de outras cidades pudessem se dirigir a Porto Nacional para receber instrução. Mais sobre isso ver: GIRALDIN, Odair (org.). A (trans)formação histórica do Tocantins. Goiânia: Ed. UFG, 2004.; SANTOS, Edivaldo Antonio. Os dominicanos em Goiás e Tocantins (1881-1930): Fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil. (Dissertação de Mestrado em história). Goiânia: UFG, 1996.; GONDINHO, Durval. História de Porto Nacional. [s. l.]: [s. n.], 1988.; BRESSANIN, César Evangelista Fernandes. A diocese de Porto Nacional: o governo de dois bispos dominicanos no antigo Norte de Goiás. In. SILVA, Geraldo Silva; SANTOS, Roberto Souza (orgs). Ensaios de geografia e história do Tocantins: para uma interpretação crítica. Palmas: Nagô Editora, 2012.; ALMANAK LAEMMERT: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1908. Relatório sobre porto nacional. Rio de Janeiro: [s. n], 1908. p. F-18. 141 duzentos noventa e cinco votos”. Não se sabe ao certo o que levou o Dr. Ayres a concorrer à vice-presidência do estado sem ter ocupado nenhum outro cargo político de maior expressão no cenário estadual, possivelmente uma manobra partidária ou teste para medir sua aceitação 285 , embora o mais provável seja que se tratou apenas de uma candidatura simbólica por algum motivo que não foi dado a conhecer. A explicação mais aceitável é a de que não tenha se empenhado efetivamente nessa campanha, pois apenas os membros da sua família já lhe dariam mais de seis votos, logo, tudo leva a crer que não se esforçou para de fato concorrer ao cargo, quem sabe conferiu inclusive seu próprio voto e apoio para outro candidato. Nessa ocasião foi eleito como presidente o coronel Miguel da Rocha Lima como sucessor de Xavier de Almeida, que marca um período de governo diferente e mais independente em relação à oligarquia Bulhões e de aproximação do grupo caiadista do qual Ayres estava vinculado, sobretudo pela sua relação com Antônio Ramos Caiado. Foi o momento em que se teve maior preocupação com a consolidação dos projetos ferroviários e dinamização das comunicações em Goiás, propiciando inclusive “a chegada dos trilhos até Catalão, por intermédio da Cia Mogiana de Estrada de Ferro” 286, causando grande expectativa em todo Estado diante das possibilidades que se apresentavam para o desenvolvimento da região central do país. Quanto à expectativa de Francisco Ayres, falando no/pelo Norte de Goyaz, foi expressa em forma de cumprimento e pedido ao novo presidente do Estado. O Norte de Goyaz obreiro humilde do engrandecimento e progresso de todo o Estado não podia deixar de enviar ao Exm. Snr Cel Rocha Lima seus mais sinceros cumprimentos. (...) o Norte do Estado faz votos para que uma boa parte das actividades de S.S convirjam para as navegações fluviais, verdadeiros motores com que a natureza prodigamente dotou-nos para nosso desenvolvimento, e que até agora tem sido mantidos a um indifferentismo cruel e criminoso mesmo, a espera de qualquer impulso intelligente para marchar e fazer marchar todo o Estado caminho do progresso. 287 P.1 Esse pequeno fragmento contém algumas das suas principais pretensões, do médico que se lançava cada vez mais na vida jornalística, a maneira como leu, sentiu e vivenciou os primeiros anos do século XX em sua cidade natal. Note que o progresso 285 Semanário Official. Goyaz, 03/06/1905. p. 6. 286 Ver: CHAUL, Nasr Nagib Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: Editora UFG, 2010. p. 136-137.; CHAUL, Nasr Nagib Fayad; PALACÍN, Luis; BARBOSA, Juarez Costa (org.). História política de Catalão. Goiânia: Ed. UFG, 1994. p.128-147. 287 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1905. p. 1. 142 era entendido como um caminho, que, na medida em que nele se movimenta, ocorre o desenvolvimento, ou seja, o caminho que progride rumo ao desenvolvimento. Para Ayres, a melhor maneira de se “marchar” nessa via, ao menos na realidade compreendida como norte do estado, era através das navegações fluviais pelo Rio Tocantins e Araguaia, entendidos como “motores” naturais que se utilizados de maneira inteligente fariam o estado avançar no caminho do progresso. O uso inteligente para ele, colocado como argumento para definir o que seria um bom governo, consistia em colocar essa riqueza natural para acelerar o desenvolvimento, noutras palavras, melhorar a navegabilidade dos rios, sobretudo na desobstrução dos trechos encachoeirados que impediam a navegação a vapor. Ayres disseminava a ideia de que os rios foram naturalmente destinados ao progresso e contrariar essa lógica seria um atentado contra o meio ambiente e a própria natureza dos mesmos. Com base nessa compreensão denuncia o “indiferentismo cruel e criminoso”, ou seja, a falta de interesse do poder público até então em investir nos rios, mais do que isso, em não privilegiá-los como o meio mais acessível para fazer o estado avançar em desenvolvimento. Outra pretensão de Ayres foi se apresentar como um colaborador do “engrandecimento e progresso” do estado por meio de um veículo de comunicação que a todo o momento desejou (co)incidir e se (con)fundir com o norte de Goyaz. O jornal foi criado com a finalidade de se tornar porta voz, legítimo representante da ainda imprecisa parte norte, para (re)produzir os “múltiplos interesses dos habitantes da vastíssima zona”288 como sendo a melhor alternativa para todo estado. Vejamos detalhes sobre o oportuno empreendimento do médico jornalista. 2.3 O JORNAL DE FRANCISCO AYRES: UM NORTE PARA GOYAZ O Dr. Francisco Ayres da Silva, após algum tempo de planejamento, estabeleceu-se definitivamente como jornalista, criando a partir de um trabalho conjunto com sua família, sobretudo seu irmão João Ayres Joca, em 22 de setembro de 1905, o jornal Norte de Goyaz, produzido em Porto Nacional na Typographia Nortense. Durante décadas esse periódico circulou no Norte de Goiás, construindo e defendendo projetos políticos, projetos de/para cidade e região Norte, criando demandas e noções de progresso, civilização e modernidade, buscando a adesão de todo o estado, sobretudo 288 Idem. 13/03/1906. p. 1. 143 dos chamados nortistas. O Norte de Goyaz foi um divisor de águas na vida de Ayres, pois a partir dele pôde produzir, partilhar e tornar públicas suas visões de mundo e seus pontos de vista, que não eram apenas seus, sobre tudo aquilo que julgava ser importante. O jornal portuense funcionou como importante instrumento de produção de interesses políticos, expressos pelos seus produtores como mandantes em busca de reconhecimento pelos mandatários, atuando, conforme argumenta Pierre Bourdieur, no sentido de estabelecer a ideia e fazer crer que os interesses dos mandatários fossem os mesmos dos mandantes. 289 Não por acaso esse periódico foi escolhido como fio condutor da presente pesquisa, em seus exemplares há evidências significativas dos anseios, interesses, desejos, sensações, expectativas, projetos, utopias, frustrações e outros aspectos não apenas da vida Francisco Ayres, mas de seu tempo, pois o jornal como espaço enunciativo é sempre plurivocal, é sempre um espaço polifônico. 290 Eis o Norte de Goyaz: 289 BOURDIEU. Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989. p. 168-169. 290 ARFUCH, Leonor. O espaço Biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. p. 63. 144 FIGURA 3: Primeira página do jornal Norte de Goyaz de 15/07/1906. FONTE: Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/07/1906. Fundação Biblioteca Nacional. 291 291 O primeiro número do Norte de Goyaz, do arquivo da família Ayres, está em péssimo estado de 145 Para descrever o jornal Norte de Goyaz segue a descrição elaborada pelo próprio Francisco Ayres da Silva e seu filho, Milton Ayres da Silva, por ocasião de um comunicado feito a eles sobre a obrigatoriedade de inscrever o hebdomadário junto à Divisão de Imprensa do D.I.P. (Departamento de Imprensa e Propaganda). A descrição foi feita aproximadamente a partir do ano de 1939, depois de 24 anos de circulação, levando em consideração os quase 10 anos de interrupção entre os anos de 1926 a 1936. 292 Dizem os infra assinados, que mantendo nesta cidade o periódico quinzenário “Norte de Goyaz”, há 24 annos sob a direção e redação do primeiro signatário e gerencia, presentemente, do segundo, vem requerer sua inscrição nessa directoria para os fins de direito. Fal-o somente agora porque foi em começo do corrente mez que chegaram a esta cidade as instruções referentes ao caso. O jornal “Norte de Goyaz” foi fundado em 22 de setembro de 1905 pelo primeiro signatário que o tem redactoriado sempre com interrupção de alguns annos. [...] O jornal é editado em um pequeno prelo, americano systema muito antigo, tem apenas como redatores e gerente os dois infra assinados e como empregados dois aprendizes; tem uma tiragem de 350 exemplares, presentemente com 4 páginas apenas, tendo de altura 38,5 cents largura 27,5 cents. O preço de venda avulso é $300, atrasado I$000 e assinatura, IO$ annuaes; os annuncios pagam, por cet. $400 e os a pedido, por linha $800. O jornal tem sido mantido não porque deixe créditos a seus proprietários que se firmam Ayres da Silva e Filho, 293 mas simplesmente como um mero elemento civilizador na zona e um meio de combate ao analfabetismo. Tem a officina localizada à rua 7 de Setembro, nesta cidade, em prédio próprio, e possue anexa uma pequena biblioteca de consulta. Não consome papel estrangeiro importado diretamente. 294 Exceto a variação dos preços, a mudança de proprietários, a aquisição de sortimento de typos ou de um ou outro material tipográfico e a troca do diretor gerente de João Ayres Joca para Milton Ayres, filho do Dr. Chiquinho, o Norte Goyaz não teve conservação e praticamente ilegível, por isso optei pelo exemplar mais antigo do periódico do acervo digital da Fundação Biblioteca Nacional. Na verdade, o único número do ano de 1906 que foi digitalizado pela instituição. No acervo da FBN, é possível encontrar também exemplares de 1908 a 1912. 292 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1952. p. 2; O periódico no editorial informa seu registro confirmado em 1940: “registrado na divisão de imprensa de D.I.P. sob numero 03590 conforme aviso em oficio de 26 de setembro de 1940, número 2303”. 293 Até 1925, o jornal apresentava como proprietários Viuva Ayres e filhos, mas, a partir de 1936, devido à morte de João Ayres Joca em 1931, o campo proprietários mudou para Ayres da Silva e filho. 294 SILVA, Francisco Ayres da; Ayres, Milton. Carta dirigida ao diretor da Divisão de Imprensa do D.I.P. o Dr. Lourival Fontes M. D. Porto Nacional: Arquivo da Família Ayres, [1939?]. Foi encontrado ainda no arquivo um “Manual da Legislação Brasileira, com a Lei de Imprensa, Decreto 24.776, de 14 de julho de 1934, “regula a liberdade de imprensa, a matricula dos jornaes e officinas impressoras; delitos, penas e responsabilidade criminal, ações penaes e prescrições; processos e etc; dos diretores, redactores, colaboradores, vendedores, distribuidores, typographos e etc.”. Segundo o art. 4º do manual: A matricula das oficinas impressoras, dos jornais e outros periódicos, é obrigatória (...).” p. 4. 146 nenhuma mudança significativa em sua materialidade. Diante da análise do controle dos ganhos e despesas, o jornal realmente não deixou créditos aos proprietários, pelo menos não créditos materiais. Os ganhos com os a pedido, anúncios e assinaturas, colaboravam para a manutenção do mesmo, que recebia papel, durante boa parte da sua existência, de um fornecedor de São Paulo, cujo estabelecimento se denomina Metrópole. Desta feita, pode-se afirmar com certeza que o papel da Metropole no/para o Norte de Goyaz foi de fundamental importância. O fato de o jornal ser “editado em um pequeno prelo, americano systema muito antigo”, sugere ou uma mudança de percepção em razão das inovações tecnológicas para a área e/ou uma tentativa de apresentar ao D.I.P. que o Norte de Goyaz se tratava de um pequeno jornal sem muita influência e aspirações, do qual não haveria com o que se preocupar em termos de fiscalização e censura. Ou ainda tem relação com o quando, onde e para quem o jornal estava sendo apresentado, pois, para a realidade portuense, o prelo americano nunca foi um sistema muito antigo pelo fato de ser americano, mas principalmente por ter sido um dos únicos recursos de impressão na região. Nas páginas do Norte de Goyaz a Typographia Nortense era anunciada para seus leitores, em caixa alta, como PROVIDA DE MATERIAL COMPLETAMENTE NOVO 295 , o chamado sistema muito antigo foi, ao mesmo tempo, por si só, elemento modernizador e civilizador, portador de novidades e grande empreendimento digno de admiração pela simples existência. Contudo, pode ter realmente se tornado obsoleto, mesmo no interior de Goiás, a julgar pelo ano da descrição supracitada. Sobre a exposição de o jornal funcionar apenas como “mero elemento civilizador na zona e um meio de combate ao analfabetismo”, é preciso observar de forma mais acurada, o que significou para o Dr. Ayres a expressão “elemento civilizador”, capaz de atribuir civilização à vasta zona. Certamente o hebdomadário serviu para tal fim, porém conforme o que seu redator o concebeu como sendo expressão do termo em questão. O fato é que para manter um jornal durante décadas numa região como Norte de Goyaz, sem retorno financeiro significativo, há de se ter uma forte motivação, que Francisco Ayres explica ser a missão de civilizar e combater o analfabetismo, mas que como é possível apreender pela sua trajetória e ambições políticas essa missão tem um sentido impreciso, flexível, amplo, múltiplo e, por isso, complexo. 295 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/10/1905. p. 4. 147 Definir com precisão o que o termo civilização significou para Ayres é tarefa demasiadamente difícil, o que não é motivo para abandonar a tentativa de me aproximar o máximo possível dessa compreensão, que não será apreendida pontualmente em alguns parágrafos, mas no conjunto de toda discussão aqui desenrolada. O termo foi recorrentemente utilizado como parte do discurso de Ayres para tratar sobre os mais diversos assuntos. Foi considerado como algo desejado, perseguido e por alcançar, carregado de um valor positivo quase inquestionável. Associado como expressão de praticamente tudo que foi defendido como projeto para Porto Nacional, bem como para todo norte do estado. A civilização para Ayres, em suma, tratava-se de uma nova concepção de sociedade imaginada como moderna, um jeito de ser, estar, agir e usar a cidade, que em alguns momentos pressupunha pontuais mudanças de hábito, noutros, a incorporação, extinção ou modificação de comportamentos, formas de participar do jogo político; por vezes significou medidas de intervenção no espaço físico da cidade, noutras, a incorporação de um objeto ou obra pública, a mudança de concepção em relação à alguma prática e saber, ou ainda nova forma de organização social. Nesse sentido, a condição de povo civilizado dependeu de incontáveis aspectos, passou pelo não uso de armas de fogo no perímetro urbano; pela proibição de porcos espalhados pelas ruas da cidade; a luta contra as escarradas; a implantação de instrução e educação; criação de casa de açougue e mercado público; fundação do clube recreativo e da banda de música portuense; dinamização do comércio; construção de estradas; investimentos na navegabilidade dos rios; batismo de índios cherentes pelos dominicanos tendo Ayres como padrinho; alteração no código de postura municipal; combate contra as epidemias; pela criação e aplicação da lei em prol do direito em detrimento da justiça com as próprias mãos; substituição das técnicas relativas à “indústria da creação de gado”; pela implementação de uma racionalidade política; entre outros tantos fatores. Aos poucos se desenhou, via imprensa, um mundo civilizado do qual hora parecia estar próximo, hora parecia estar distante, mas do qual sempre se deveria aproximar. Foi utilizado como uma bandeira de luta que justificou e legitimou atitudes e interesses, tonou-se argumento para validar quase tudo. É perceptível na argumentação de Ayres uma preocupação que a população se identificasse com tal mundo para assim também desejá-lo, aceitá-lo e dele fazer parte. Uma criação com base em preocupações particulares, mas que comunicasse com a coletividade, capaz de converter o projeto de 148 um indivíduo ou grupo específico, no projeto de todos. A imprecisão do termo, como explorado pelo Norte de Goyaz, pode inclusive ter traços de intencionalidade, estratégia para facilitar que se moldasse aos mais diversos e divergentes grupos sociais e assuntos a que foi vinculado. Porto Nacional, conforme pintada pelo Norte de Goyaz, ainda estava a certa distância de ser totalmente incluída, mas ao mesmo tempo longe de ser totalmente alheia à civilização, em outras palavras, uma ambição ainda mal adquirida, uma tarefa sempre inacabada, constantemente por fazer. Outra questão pertinente é que a ambição por civilização se configurou, ao menos na imprensa, numa busca ininterrupta que, todavia, reconhecia os limites e especificidades da região diferenciando aquilo que era possível do que ainda seria possível como expectativa, como “horizonte do qual podemos nos aproximar”.296 Qualquer coisa como um chamado para não deixar passar despercebido, ou simplesmente ignorar, o que já poderia ser feito, respeitando as características da própria região. A civilização nas suas múltiplas formas se embrenha, infiltra-se pelo norte do estado adquirindo outras formas e intepretações, promovendo alterações, ao menos na forma de ver e vivenciar o lugar. Francisco Ayres num editorial com o título Em prol do nosso futuro, ao tratar sobre a necessidade de mudar a forma de lidar com a pecuária, de um “systhema annachronico” para outro mais apropriado para a época, chama a atenção para os ajustes indispensáveis “a medida que a civilização vae penetrando por todos os lados, devem ser substituídos, quando nada melhorados naquilo que de prompto está-nos mais ao alcance”.297 Se tivesse que definir em poucas palavras o que representou a apropriação do termo civilização para Ayres, certamente ficaria com o repetido tripé “engrandecimento material, intelectual e moral”.298 Essas três palavras certamente resumem a compreensão veiculada pelo periódico nortense. Note que se trata de um “engrandecimento”, “melhora” ou “aperfeiçoamento” material, intelectual e moral, ou seja, palavras que antecedem o tripé para denotar que Porto Nacional não estava completamente destituída dos chamados “fortes elementos de civilização”.299 Na opinião veiculada no impresso de Ayres, sobre o ponto de vista do desenvolvimento moral e intelectual a cidade estava, conforme compreensão do início do século XX, em “Marcha Accelerada”, sobretudo 296 TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010. p. 33. 297 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1906. p. 1. 298 Idem. 31/03/1906. p. 1. 299 Idem. 15/06/1906. p. 3. 149 pelo advento do Norte de Goyaz, somado ao trabalho da ordem de S. Domingos. Colaborando para a concepção de centralidade de Porto Nacional, como a mais importante, entende-se também civilizada, cidade interiorana do estado, influente também nos estados limítrofes, especialmente no chamado alto sertão do Maranhão, representado por Carolina. 300 O jornal se tornou para a época numa boa forma de ser visto, instrumento indispensável para Francisco Ayres e seu torrão natal serem (re)conhecidos. O jornal Norte de Goyaz foi apresentado como um fator indiscutível de civilização, o “motor do nosso engrandecimento”301, espécie de mediador entre a população nortense e o mundo interpretado como civilizado. Seja como “timoneiro” ou “guia” o impresso, ao se apropriar do termo, ao enunciá-lo atuou no sentido de mostrar e/ou definir para seus leitores os fatores de civilização. Segundo Durval Muniz, “os jornais e demais obras são maquinas de produção de sentidos e significados. São produtoras de uma dada sensibilidade e instauradoras de uma dada forma de ver e dizer a realidade. São maquinas históricas de saber”.302 Nesse sentido, ao chamar ao “grêmio luminoso da civilização os que desta se acham afastados”303 o impresso de Ayres se coloca no dever de instruir e conduzir os nortenses para o engrandecimento material, moral e intelectual, definindo os temas que deveriam ser privilegiados e ocupar a atenção do seu público, dentro daquilo que leu, selecionou, deu visibilidade e mais fez sentido para a realidade da região. Essa (im)postura não pode ser separada das relações de poder e estratégias políticas vivenciadas naquele contexto. Um pé de sustentação do tripé supracitado provocava um desequilíbrio, por isso aqui merece destaque, trata-se do aspecto material. O jornal portuense priorizou, deu maior visibilidade para esse quesito, repetidamente a concepção de civilização se confundiu com o debate sobre a dimensão material. Se o ritmo estava acelerado quanto à moral e intelectual, não se poderia afirmar a mesma coisa sobre o terceiro elemento da tríade. A civilização não correspondia a um lugar específico, muito menos a um período, mas ao acesso às novas técnicas, aos recursos considerados modernos. O autor José Carlos de Souza, em suas análises sobre as tensões da modernidade de Corumbá, identificou que “o progresso material, como construções de ferrovias e linhas 300 Idem. 30/04/1906. p.1-2. 301 Idem. 15/12/1905. p.2. 302 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011. p. 41. 303 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1906. p.4. 150 telegráficas, era sinônimo de civilização, identificada basicamente com a utilização de novas tecnologias”.304 Tendo em vista essa associação, Porto Nacional mantinha defasagem em relação aos grandes centros, nesse sentido, a luta travada pela melhora material significou luta pelo progresso rumo à civilização do norte de Goyaz. Numa época em que pouco, ou quase nada, se discutia sobre os efeitos perversos das tecnologias e se focava, sobretudo, em seus benefícios, o maior ou menor acesso aos instrumentos, assim como a maior ou menor eficácia dos mesmos, eram fatores determinantes no grau de civilização de uma sociedade. Sem preocupação ou consciência dos malefícios das tecnologias, o mundo material se tornou referência para se comparar e classificar as cidades. O que não foi positivo para Porto Nacional, pois lhe conferiu, não apenas para os outros, mas também para parte dos próprios portuenses, uma posição desconfortável. Ora, Porto Nacional não possuía telégrafo, ferrovia, navegação a vapor, iluminação pública, avenidas largas e asfaltadas, automóveis, apenas o desejo de se aproximar por qualquer um desses meios do mundo tido por civilizado. Por isso Francisco Ayres, por intermédio do jornal, bateu tanto nessa tecla, motivado por desejo, mas principalmente porque essa demanda se configurou num bom argumento para uso político. O Norte de Goyaz proclamava “cogitamos de nossas melhoras, melhora de material (...) A distância em que nos achamos dos centros de importância do paiz retardará um pouco a melhora de nosso material, todavia temos esperanças de que não será por muito tempo”.305 O filósofo e linguista Tzvetan Todorov faz um questionamento provocador, seguido de uma resposta que nos ajuda a compreender a (im)postura de Ayres, Entre as características de determinada sociedade, as técnicas formam um conjunto específico; será que se pode afirmar que elas constituem um indício de civilização? Se este termo conservar o sentido de reconhecer a humanidade dos outros, a resposta só pode ser negativa por razões bem evidentes: a civilização diz respeito as relações que os homens mantêm com outros homens, ao passo que as técnicas referem-se às relações dos homens com o mundo material à sua volta. 306 Francisco Ayres da Silva considerou a relação dos homens com o mundo material a sua volta um dos principais indícios de civilização, já que o termo, conforme 304 SOUZA, João Carlos de. Sertão Cosmopolita: tensões da modernidade de Corumbá (1872-1918). São Paulo: Almeida, 2008. p. 40. 305 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1906. p. 1. 306 TODOROV, Tzvetan. Op. cit. p. 48 151 ele compreendeu, para não dizer todos os seus contemporâneos, dizia respeito muito mais a essa relação do que propriamente à outra do reconhecimento da humanidade dos outros. A diferença entre os tipos de relações, a dos homens com outros homens, e dos homens com o mundo material, parecia não ser tão evidente. Se era não foi levada em consideração. Após o advento do Norte de Goyaz, Francisco Ayres da Silva, além de doutor, consolidou-se como intelectual-jornalista, emitiu seus pareceres sobre diversos assuntos para além do seu campo de especialidade. Na esteira de Bourdieu, a autora Mônica Carvalho define intelectual-jornalista como “uma figura hibrida, meio jornalista e meio especialista, que se insere no jornalismo como uma outra forma de o campo jornalístico exercer certa influência sobre outros campos”. O espaço jornalístico permitiu tratar sobre diversos assuntos no campo da saúde, política, comércio, religião, transporte, comunicação, cultura, arte entre muitos assuntos, emitindo seus julgamentos e construindo discursos no sentido de auxiliar seu público no processo de “tomada de decisões individuais e até coletivas”. Francisco Ayres soube articular com propriedade os diferentes campos em que atuou: o jornalístico, o da saúde e o político. Soube usar a seu favor a articulação entre os campos para legitimar os discursos através dos quais emitia suas opiniões, pareceres e julgamentos para o público do jornal, não totalmente acostumado com tais discursos com aura de cientificidade. Ainda segundo Monica Carvalho, “os intelectuais- jornalistas são especialistas aos quais se atribui, ou que atribuem a si, a função de comentar temas de seu campo – e até mesmo de outros campos – que estão além dos limites de sua especialidade”. Não foi por acaso que Ayres herdou a Miscelânea do jornal O Incentivo, fez bom uso da herança para disseminar no Norte de Goyaz seus projetos para si, para a cidade e para região. 307 Como Redator-Chefe controlou o jornal, definindo as pautas, as fontes, o que se tornaria notícia, o que deveria ou não ser publicado, a disposição dos conteúdos selecionados nas páginas, os colaboradores, entre outros. Em 1912 foi comunicado no Norte de Goyaz o afastamento de Francisco Ayres da redação do Jornal, obrigado “devido aos múltiplos encargos de sua clínica”, mas na mesma coluna se afirmou que, “nosso dedicado amigo não nos olvidará e dispernsar-nos-á as sobras de tempo que a 307 CARVALHO, Mônica. Campo jornalístico, campo da saúde e racionalidades políticas a partir do estudo de caso de um intelectual-jornalista. In: KUSHNIR, Beatriz (org.). Maços na gaveta: reflexões sobre mídia. Niterói: EdUFF, 2009. p. 184-185. 152 clínica lhe permitir”.308 Embora o nome de Ayres a partir de 1912 não apareça mais como redator chefe do jornal, só reaparecendo em 1940 sob o termo PROPRIETARIO E REDATOR – AYRES DA SILVA309, é necessário mencionar que não houve a substituição do seu nome para a função, e que o periódico a partir do seu suposto afastamento intensificou o uso do seu nome, bem como a promoção da sua imagem como representante dos interesses do Norte. Até mesmo boa parte das correspondências direcionadas ao jornal era destinada a ele, em todo momento a ligação do jornal a sua pessoa e liderança foi aludida e reafirmada pelo seu diretor e irmão João Ayres Joca. A suposta saída de Francisco Ayres não foi unicamente por motivos de trabalho médico na clínica, mas principalmente por motivações políticas, já que nesse período, além de ocupar cargo público, lançou-se como em nenhum outro momento anterior às questões políticas e às subsequentes disputas eleitorais. Pouco depois do comunicado de afastamento, o jornal começou clara, direta e intensa campanha para eleição do seu redator para o cargo de Deputado Federal. 310 Apesar de não ser arrolado como redator, entre os anos de 1912-1939, Francisco Ayres nunca deixou de publicar suas colaborações, muito menos de ter o controle do jornal, como observado na citação anterior em que ele mesmo afirma que ficou “há 24 annos sob a direção e redação do Norte de Goyaz”. O jornal e seu nome são indissociáveis, porque sua presença e atuação no mesmo foram marcantes, sobretudo nessa primeira fase do hebdomadário. Nesse sentido, colocou o periódico a serviço do grupo oligárquico que defendeu, como porta voz dos interesses da oligarquia no Norte. Durante a existência do jornal houve, assim como no período de seu pai, algumas rupturas e aproximações entre os grupos políticos, mas Ayres se manteve na maior parte do tempo como aliado de Olegário Herculano da Silveira Pinto, Hermenegildo Lopes de Moraes, Eugênio Jardim e Antônio Ramos Caiado, mesmo diante das alianças com adversários políticos, com a mudança e/ou criação de partidos, como, por exemplo, ocorreu com a criação do Partido Democrata, que por um instante uniu grupos políticos heterogêneos para derrubar Xavier de Almeida, mas posteriormente houve nova dissidência deixando o partido sob a liderança dos Caiado, em oposição ao Partido Republicano, controlado pelos Bulhões. A oligarquia conhecida como Caiadista, em função da liderança Antônio Ramos Caiado, a partir da década de 1910, mesmo em períodos de instabilidade, ganhou 308 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1912. p.2. 309 Ibdem. 15/08/1940. p.1. 310 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1913. p. 1. 153 hegemonia política no estado e a manteve. Ayres, diante de todas as manobras políticas, quase sempre apoiou esta oligarquia, seja pela sua proximidade com Antonio Ramos Caiado, seja pelos benefícios que tal aliança lhe proporcionava. Não se trata necessariamente de lealdade aos companheiros, mas de oportunidades políticas. 311 Como redator chefe, o principal cargo do periódico nortense, Francisco Ayres narrou toda a movimentação política de sua época, passando pelo filtro de suas convicções e partidarismo, defendendo seus interesses como sendo os de toda aquela região do estado. Aos poucos Ayres se inseriu no debate estadual por meio da imprensa, construindo imagem positiva de si e dos seus aliados como os melhores representantes para os nortenses e descaracterizando os adversários. O projeto deu certo visto pelo controle, o poder de decisão, a adesão de eleitores e aliados que Ayres conseguiu manipular que assustou seus adversários políticos. Veja como numa carta publicada pelo jornal na seção dos A pedido se confirma a tendência do periódico no jogo político: Sr. Redactor do “Norte de Goyaz”. Para o ignorante vem também o dia de luzes. Tendo sido iludido cabalmente pelo T. Cel. Salvador Francisco de Azevedo para me alistar eleitor deste Municipio no grupo do Coronel Frederico Ferreira lemos, fil-o inexperientemente porém, reconhecendo hoje que nenhuma influencia resta aquelle grupo onde não se encontra attractivo individual nem acolhimento que mereça sympathia do cidadão honesto, venho altivo e espontaneamente declarar ao publico em geral, que d’ora em diante pertenço ao Partido Republicano Federal desta cidade, dirigido por um Directorio político do qual é presidente o Exm. Sr. Dr. Francisco Ayres da Silva, em cujas fileiras se encontram a garantia e o direito. Assim procedeio, creio celar honradamente a minha conducta. Publique sr. Redactor as presentes linhas pelas quaes me responsabiliso. Porto Nacional, 16 de Outubro de 1905. Lourenço Tiburcio da Silva 312 Os partidários do Bulhonismo, chamados por Ayres de “Decrepito e Carcomido”313, demonstraram temor diante da liderança política de Francisco Ayres cada vez mais crescente, e tentaram negativar o quinzenal portuense compreendendo o importante papel que o mesmo desempenhava a favor dos seus adversários. O próprio Norte de Goyaz comentou as notícias sobre sua existência que foram publicadas pelo “velho orgam”, o jornal Goyaz, dos Bulhões, que “quis fazer troça insulta e 311 A ressalva quase sempre é necessária, pois quando Ramos Caiado teve certa aproximação dos Bulhões no início de 1910 Francisco Ayres se mostrou contra ele. Principalmente devido à exoneração de um juiz sob o argumento de que se ausentou de Porto Nacional por mais de 6 meses devido viagens ao Para e Bahia. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1910. p.1. 312 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/10/1905. p.4. 313 Ibdem. 15/08/1906. p.1. 154 destemperada a respeito de nossos dois primeiros números, brindando alguns de nossos companheiros com ephitetos chulos e grosseiros”.314 Pouco tempo depois, Luiz Lite Ribeiro retornou na cena jornalística portuense com o Folha do Norte, criando uma segunda fase desse jornal 16 anos depois, como continuidade do outro, pois no seu primeiro número da segunda fase sai como sendo o terceiro ano de publicação e com exemplar de número 55, ou seja, querendo passar a ideia de que este de 1907 começa onde o de 1891 parou. Com nítida oposição ao Norte de Goyaz, o periódico outrora oposição aos bulhões, mas agora partidário dos mesmos, reivindica a posição de primeiro Jornal do “Valle do Alto Tocantins” e de jornal que defendeu os interesses da região como a pacificação de Boa Vista do Tocantins, a navegação do Tocantins por meio de vapores, a estrada de ferro margeando o rio, projetos para atrair imigrantes, o direito de ter representantes do norte na esfera estadual e federal, a instrução pública com escolas e professores para o norte, a defesa do frei Gil e dos dominicanos, entre outros. Ou seja, tudo aquilo que o Norte de Goyaz dizia defender já era alvo de luta do Folha do Norte desde a sua primeira fase. Luiz Leite Ribeiro reitera a continuidade ao se referir “Esse foi o passado do Folha do Norte, elle será o seu futuro”.315 O jornal de Luiz Leite Ribeiro saiu desferindo críticas diretas ao Norte de Goyaz e ao seu redator, desqualificando o periódico por falta de informações, ou por informações imprecisas e enganosas, além do excessivo partidarismo. Ironizou o fato de que enquanto Leite Ribeiro e Frederico Lemos lutavam pela região os dirigentes do Norte de Goyaz estavam ocupados em fazer revolta no Rio de Janeiro, acusaram os correligionários de Francisco Ayres de promoverem injustas demissões para usar os cargos públicos para beneficiar amigos e familiares de seus aliados, como ocorreu conforme citado pelo Folha do Norte a demissão de um promotor público de Conceição do Norte substituído por Alexandre José Ayres. Além disso, o Folha do Norte, através das figuras dos freis Gil e Domingos Nicolet, reivindicou o apoio dos dominicanos, como se eles constituíssem os verdadeiros aliados históricos dos religiosos, como forma de polemizar e criticar a participação ativa e intensa dos dominicanos no Norte de Goyaz, pois em muitos números do periódico havia textos dos mesmos na primeira página do jornal. 316 A tentativa de demonstrar aproximação com os religiosos 314 Ibdem. 15/04/1906. p.2. 315 Folha do Norte. Porto Nacional, 24/02/1907. p.1. 316 Numa homenagem aos pioneiros do jornalismo em Porto Nacional, feita por ocasião da reedição do 155 dominicanos se deu porque além da influência dos mesmos junto ao eleitorado do norte, majoritariamente católico, eles foram considerados como uma espécie de agentes do progresso e civilização pelas intervenções no espaço urbano da cidade e contribuições que deixaram sobretudo no campo da educação. 317 Estar ao lado dos dominicanos era qualquer coisa como estar ao lado daqueles que promoveram melhoramentos para a cidade. Todavia, antes do advento da segunda fase do Folha do Norte, logo após a criação do Norte de Goyaz, Luiz Leite Ribeiro mandou uma mensagem para ser publicada no periódico de Francisco Ayres, que assim o fez. Afinal, este último não deixaria de mostrar ao público leitor que até mesmo seus adversários políticos reconheciam a relevância de um periódico para a cidade, assim como o primeiro não poderia, como figura pública, simplesmente ignorar aquilo que de forma quase unânime se configurava num significante melhoramento para o norte do estado. Melhor a existência de um jornal, seja ele qual fosse, do que a inexistência de um veículo de comunicação do gênero, portanto o adversário político de Ayres antes do Folha do Norte, ou seja, de outra opção jornalística, estava impossibilitado de admitir, ao menos publicamente, que considerava o jornal do seu adversário político como um fator negativo. Sendo assim, a mensagem de Luiz Leite Ribeiro, como ato de sacrifício, congratulava a população pela fundação da nova imprensa nortista, mas ao fazê-lo tencionou as motivações daquele empreendimento através de perguntas retóricas, como se já estivesse definindo qual deveria ser sua linha de atuação. Ele dizia: sou exquisito nessa parte porque, para experimentar semelhante satisfação, não indago saber si o jornal tem índole politica e qual o partido cujos interesses elle se propõe a defender. É um jornal para transmitir ao mundo a noticia de nossos recursos naturaes, a das grandezas desconhecidas deste vastíssimo território goyano Jornal, encontram-se os nomes de Frei Rosario Melissan e Frei Reginaldo Tournier como colaboradores assíduos do hebdomadário, além de outros religiosos que durante toda existência do mesmo colaboraram esporadicamente com textos doutrinários, críticas às ameaças protestantes, publicação das atividades e festividades religiosas, etc. Conforme rascunho do jornal encontrado no Arquivo da família Ayres: “Homenagem aos pioneiros: ao reeditarmos o jornal “Norte de Goyaz”, por um dever de justiça à imprensa da região, queremos prestar nossa pálida homenagem, aos que, como nós creram no poder das ideias escritas. Ei-los: Jornal Norte de Goyaz – viúva ayres e filhos – Francisco Ayres da Silva, João Ayres Joca, Antonio Aires Primo – Editores. Colaboradores – Frei Rosario Melisan, Frei Reginaldo Tournier, Ibanez Ayres da Silva, Osvaldo Ayres da Silva, Hidelbrando Rodrigues, José Raulino, André Ayres da Silva e Bernadino Guilherme.” 317 PADOVAN, Regina Célia. Lugar de escola e “lugar de fronteira”: a instrução primária em Boa Vista do Tocantins em Goiás no século XIX (1850-1896). Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Goiás, 2011. p. 70-111. 156 desabitado? É um jornal que se encarrega de esclarecer o que somos e quanto valemos; que falle em suas colunnas a linguagem do saber? Pois está direito. [...] Quero o jornal em meu Porto cujo nome santo para mim sempre eu escrevo possuído daquela paixão de patriotismo que me há proporcionado algumas glorias, milhares de desgostos e innumeos sacrifícios. [...] Amo portanto a imprensa goyana, sem reparar sua cor, seu matiz, comtanto que seja honrada. Quero-a difundida principalmente em todo o norte do Estado. Quero o jornal. 318 Jornal honrado, portanto seria aquele que superando as pretensões políticas se lançaria a tornar o norte e os nortenses conhecidos ao mundo. Com tal discurso tentou- se convencer os leitores de que era o verdadeiro amante da região capaz de apoiar qualquer empreendimento benéfico para a mesma. Note que seu apoio não é expresso em forma de afirmativa, mas de perguntas que definiam as condições em que o mais novo impresso deveria se enquadrar. Condições que podem sugerir outro efeito, qual seja, chamar a atenção da população para observar a razão da existência e as motivações do periódico. Luiz Leite afirmou que apesar dos interesses políticos por traz do Norte de Goyaz, representante das ideias do partido ao qual se opunha, defendia que o jornal significava mais do que simplesmente caráter político, tratava-se do “sol de nosso século”. Mas resta observar que um sol avesso à teoria heliocêntrica, pois na sua compreensão ele giraria em torno da sociedade e não o contrário, assumindo posições diversas de acordo com a “rotação das circunstâncias”. Nesse caso, o norte seria o centro em torno do qual a imprensa deveria se movimentar. Assim, naquela ocasião, um dos principais concorrentes políticos de Ayres em Porto Nacional não desconsiderou a possibilidade de aproximação do médico jornalista e do seu hebdomadário. “Um tempo pode acontecer em que o jornal, meu adversário, convertido se aproximará de mim. (...) ou eu, vencido e convencido pelas forças de seus argumentos me aproximarei dele (...)”.319 O que demorou a ocorrer já que pouco tempo depois tentou emplacar outra opção de jornal para os nortenses. Entretanto, ainda fazendo uso da metáfora de Luiz Leite, a temperatura da cidade de Porto Nacional parece ter aumentado, pois já não se tratava apenas de um sol, mas de dois que fizeram aumentar de tal forma a incidência de raios solares a ponto de embaçar a visão dos portuenses. Francisco Ayres, ao ficar sabendo da decisão do grupo que se lhe tornou 318 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/11/1905. 319 Idem. 157 adversário de retomar o Folha do Norte, antecipou-se e publicou no seu periódico uma crônica intitulada Espiritismo, antes mesmo da publicação do primeiro número do jornal adversário, ironizando tal pretensão comparando a reunião dos interessados em reabrir a folha a uma sessão espírita que tentava comunicação com a alma da “falecida Folha do Norte”. Ayres se aproveitou da própria analogia feita no Faceto sobre o falecimento do Folha do Norte para descaracterizar a iniciativa. Segundo a crônica, na tentativa de comunicação com a alma do Folha do Norte, o médium da sessão espírita psicografou uma carta da mesma com os seguintes dizeres, Ingratos! Hoje é que estão sabendo da minha falta! A certeza disso e a posição crítica que os envolve é que estão fazendo se interessar tanto pela minha vinda novamente ao mundo, para de novo me embrenhar nas agitações políticas. Há muito já esperava o que está acontecendo e que tem sido a causa da completa derrota dos senhores. (...) querem a minha volta não é assim? Pois bem, voltarei, porém vejam como vá proceder de agora em diante. É preciso lembrar-se que não contam mais com a preciosa e inesquecível colaboração do saudoso Frei Gil, que tanta importância e lustre deu a folha. Faz-se preciso que, à eu educamente reaparecer, não me obriguem a ser caloteira, como o fizeram no meu terceiro anno em que appareci apenas cinco vezes, passando um conto do vigário em meus distictos assignantes. Lembrem-se que meu filho primogênito, O Incentivo, filho do meu coração, coitado! Passou também pela amargura de calotear o respeitável publico! Meu neto Faceto foi mais precavido – nasceu e morreu, não teve tempo de ser maculado pelo bafejo impuro do miserável calote. (...) também exijo que se trabalhe pelo progresso de Goyaz e especialmente do Norte, segundo a trilha do nosso sympathico confrade o Norte de Goyaz. Andar direito nunca deu prejuízo a ninguém (...) Assim terminou a sessão espírita, cheia de verdadeiro contentamento para os senhores “Eirós” que vão ressuscitar a falecida Folha do Norte. 320 Não se pode ignorar a associação feita por Ayres sobre o ressurgimento do Folha do Norte como obra de sessão espírita, principalmente porque a simples associação do jornal ao espiritismo por si só, naquele momento, já expressava a depreciação do mesmo. Conforme elucida o historiador Robson Rodrigues Gomes Filho, estudioso do catolicismo e outras religiões em Goiás, houve no Brasil, no final do século XIX e início do XX, um combate da medicina e do catolicismo contra o espiritismo. Combate que ocorreu em Goiás por motivações religiosas, mas também sociais e políticas. A ironia de Ayres provavelmente diz respeito à luta do catolicismo no norte de Goiás contra as religiões adversárias dentre as quais o protestantismo e o 320 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1907. p.2. 158 espiritismo. 321 O Norte de Goyaz foi um instrumento, no Norte do estado, na luta pela afirmação da Igreja Católica como a religião verdadeira. 322 A despeito da Constituição do Brasil que já previa a liberdade de culto e fé religiosa, o espiritismo foi estigmatizado e negativado como religião, para Ayres só mesmo na prática do espiritismo se poderia trazer para vida um jornal já falecido. Muito embora na Biblioteca do arquivo da família Ayres se encontrou expressiva quantidade de livros de literatura espírita, forte indício de que o próprio Francisco Ayres ou sua prole, em algum momento, tenham flertado com os ensinamentos do espiritismo. O jornal Folha do Norte rebateu as provocações e se justificou da seguinte 321 GOMES FILHO, R. Entre a loucura e o demoníaco: o discurso contra o espiritismo nas linhas do jornal Santuário da Trindade em Goiás na década de 1920. In. Revista de História Regional. 19(1): 227- 247, 2014. Disponível em http://www.revistas2.uepg.br/index.php/rhr. Mas sobre o catolicismo em Goiás ver: GOMES FILHO, R. O movimento messiânico de Santa Dica e a Ordem Redentorista em Goiás (1923-1925). 2012. 181 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto, Marina, 2012.; GOMES FILHO, R. Olhares estrangeiros sobre Goiás: do viajante ao missionário na produção da alteridade sobre o sertão goiano. In. Caminhos. Goiânia, v. 13, n. 1, p. 66-83, jan./jun. 2015. 322 Quanto ao protestantismo é emblemático o relato publicado no jornal, com o título Uma discussão religiosa, que descreve um debate público entre Frei Rosario Melizan, representando os dominicanos, e Jackson, o Missionário Batista representando os protestantes. O debate ocorreu no Salão do convento das irmãs dominicanas, que na época servia de escola pública feminina, com dia, hora e local previamente agendados e divulgados em toda cidade. Foram distribuídos convites “sem selecção de classe e pessoa”. Sendo assim, no dia 23 de agosto de 1906, durante o período das 13h até às 15h30min, diante dos convidados que foi “a quasi população da cidade”, os líderes religiosos debateram, usando referências bíblicas, especialmente sobre batismo, culto aos santos, confissão e os livros apócrifos das escrituras, ou seja, sobre os principais temas em que as duas religiões divergiam. O jornal Norte de Goyaz posiciona-se claramente a favor dos dominicanos, posicionamento perceptível na forma de relatar, quando se referia à fala do missionário protestante, o fazia de forma geral e sucinta, já quando se referia à fala do Frei o fazia de maneira minuciosa explorando os detalhes da argumentação. Outro fator foi o tratamento dado à religião protestante tratada pelo narrador como seita. O referido debate, dentre tantas outras considerações possíveis, expressa a preocupação da igreja católica com a disseminação de outras religiões em Porto Nacional, como o protestantismo que se espalhava e ganhava cada vez mais adeptos por todo o Norte do estado. Norte de Goyaz. Porto Nacional 31/08/1906. p. 1-2. No número seguinte do Jornal, foi publicado um texto, assinado pelo pseudônimo VERAX, comentando sobre a conversão ao protestantismo e o batismo do Cl. Benicio Pinheiro Lemos, que depois de um tempo abandonou a fé protestante e retornou ao catolicismo. Nesse texto o missionário é chamado de “lobo, fariseu, satanás em carne e osso, com ministério enganador e funesto”. Comenta sobre a indignação popular com o batismo batista realizado no Rio Tocantins. Além disso, o texto foca no motivo que supostamente fez Benicio Pinheiro Lemos abandonar a fé, que ocorreu diante de um impasse em relação ao seu casamento, que foi realizado na igreja católica ainda no tempo do Império. O neófito Coronel perguntando se deveria casar-se novamente na religião batista, já que o batismo católico não foi reconhecido pensou que seu casamento também não o seria, ficou decepcionado ao receber do missionário a resposta de que não seria necessário, vez que quando se casou, o casamento católico valia para efeitos civis. Sua indignação se deu porque, conforme a orientação de Jackson, o casamento não seria lei de Deus, mas lei de homens, entendimento que os católicos portuenses como o próprio Ayres não acreditavam. Tanto é que também foi pauta para debate qual casamento valia mais se o católico ou se o civil. Na última página deste mesmo número do jornal foi publicada a seguinte nota: “ABJURAÇÃO DO PROTESTANTISMO – volta ao catholicismo – sabemos haver abjurado a seita Baptista e voltado novamente à santa religião Catholica Apostolica de Roma, o sr. Cl. Benicio Pinheiro de Lemos um dos que ultimamente havia sido baptisado no protestantismo”. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1906. p. 4 159 maneira: A folha do norte na sua primeira phase não recebeu importância alguma de assignaturas, correspondente ao 3º anno da respectiva publicação, conforme se poderá verificar pelos livros do seu expediente em nosso poder. Quanto ao Incentivo, foi e é nosso intento compensarmos com tantos n. da Folha quantos faltaram ser entregues aos poucos assignantes que adeantaram quantias à sua pobre empreza. A existência do Incentivo foi curta, é certo, mas talvez para evitar desgostos ao seu maior amigo, antes que o “PEQUENO OBREIRO DA PROSPERIDADE” se constituísse, como o Norte de Goyaz, em pelourinho de açoutar caracteres impolutos dos seus conterrâneos sem a prudência dos vóvós. 323 Enfim, um nítido embate político partidário se fez por meio dos periódicos portuenses. Typographia Tocantina versus Typographia Nortense, Folha do Norte versus Norte de Goyaz, cada um a sua maneira reivindicando o direito de representar e responder pelos interesses do que chamaram, inventaram e/ou constituíram como sendo a região Norte de Goyaz. Ambos se apresentando aos seus leitores como os responsáveis por aquilo que se tornou uma espécie de lema de todos que ambicionavam posições políticas, articulando as palavras chave do momento, quais sejam: trabalhar “pelo progresso de Goyaz e especialmente do Norte”. Naquela nova disputa em papel e tinta o Norte de Goyaz de Francisco Ayres da Silva levou a melhor, pois o jornal Folha do Norte, ao que tudo indica, pouco tempo depois do primeiro número saiu de cena novamente, vez que não se encontrou menção alguma do jornal nos outros números do Norte de Goyaz e pela ausência de vestígios que indiquem a existência mais duradoura da segunda fase daquele periódico. 324 Já o Norte de Goyaz sobreviveu com publicações em todas as décadas do século XX, exceto nas décadas de 1970 e 1990, com exceção de algumas interrupções participou dos momentos mais importantes da história de Porto Nacional, sobretudo no campo da política, boa parte desse período conduzido pelo “Timoneiro do Progresso”.325 Apesar de breve, o embate entre as folhas portuenses, como expressão de rivalidade política entre as elites, cooperou para a manutenção da ideia do norte como região. Paralelo à função de jornalista, o Dr. Francisco Ayres recebeu, graças a sua formação e influência junto ao Secretário do Interior, Justiça e Segurança Pública, o Dr. 323 Folha do Norte. Porto Nacional, 24/02/1907. p. 4. 324 Exceto o exemplar de 24 de fevereiro de 1907, não foi encontrado nos arquivos, nos documentos e bibliografia pesquisados, nenhuma outra menção da Segunda fase do Jornal Folha do Norte. 325 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1906. p.2. 160 Ramos Caiado, algumas importantes atribuições do governo do Estado de Goiás, que lhe garantiram recursos, maior visibilidade e influência no norte. Dentre elas, a designação para combater a proliferação da varíola em Porto Nacional, Natividade e Pedro Afonso, dividindo a obrigação com outro médico chamado Dr. Antonio Borges dos Santos, que ficou responsável por combater a epidemia na zona sul, a partir de São José do Duro. Alguns casos diagnosticados como varíola foram encontrados na divisa com a Bahia e despertou a atenção do Estado, que rapidamente se mobilizou para por fim à suposta possibilidade de epidemia, nomeando médicos responsáveis e disponibilizando vacinas para o combate da doença nos municípios goianos mais afetados, ou seja, aqueles que estabeleciam relações comerciais com a Bahia. Acreditava-se que na Bahia houve epidemia variólica em razão da sua proximidade e relação com o Rio de Janeiro, assim, os municípios goianos também tiveram problema com a moléstia irrompida pela proximidade e comércio com o vizinho estado baiano. Criando assim como no Rio de Janeiro e muitas outras cidades brasileiras uma mobilização para combater o surto epidêmico ou a possibilidade do mesmo. 326 Francisco Ayres, juntamente com o médico baiano Antonio Borges, o primeiro mais ao norte a partir de Natividade e o segundo mais ao Sul a partir de São João do Duro, foram designados para defesa dos municípios “podendo fornecer os medicamentos necessários e tomar todas as providencias ao vosso alcance e aconselhados pela hygiene”.327 Em nome e com os recursos do governo, o líder portuense amplia seu raio de ação e leva aos nortenses não apenas a vacina, mas suas ideias, projetos, convicções e concepções de cidade, como homem responsável por promover a saúde e higiene e extirpar o que ameaça o bem estar da população. Em nome da higiene, com legitimidade política e social, pôde percorrer os municípios vizinhos a Porto Nacional, com poder de ação e controle das vacinas e da vacinação em prol de uma luta entendida como sendo questão de segurança pública. Segundo publicado no jornal Semanario Official, a partir de decreto de 1909, Ayres recebeu do governo, por intermédio da Secretaria do Interior, Justiça e Segurança Pública, um conto oitocentos quarenta e sete mil seiscentos e dezoito rs 326 CENTRO DE CULTURA GOIANA; INSTITUTO DE PESQUISA E ESTUDOS HISTÓRICOS DO BRASIL CENTRAL; SOCIEDADE GOIANA DE CULTURA. Memórias Goianas 17-Relatório dos governadores da Província de Goyaz de 1906-1917: relatórios políticos, administrativos, econômicos, religiosos etc. Goiânia: Ed. UCG, 2004. p. 61. 327 Semanário Official. Goyaz, 18/04/1908. p. 2-3. 161 (1:847$618) para pagamento da gratificação mensal de duzentos mil rs. (200:000), de 6 de abril de 1908 a 2 de fevereiro do corrente anno ao medico encarregado do serviço de hygiene nos municípios de porto Nacional, natividade e pedro afonso, dr. Francisco ayres da silva; 685:000 para pagamento de ajuda de custo ao mesmo medico, na razão de três mil rs por légoa, por 1379 kilometros percorridos no dito serviço e oitenta mil rs. 80$000 para pagamento a pharmacia do hospital de caridade de medicamentos enviados para o registro de araguaya 328 A vacinação contra a varíola em Goiás certamente se trata de uma página da história que deve ser mais bem investigada para tornar inteligível o que o temor da proliferação da moléstia provocou no estado, a resistência da população contra a vacinação, a atuação do governo estadual e as formas de tratamento, como o combate à epidemia em outros estados foi ou não tomado como referência, entre outros aspectos. Conforme podem ser analisados pelo relatório do governo sobre a saúde pública em que se afirma que o governo “continua a distribuir e a enviar vaccina para todos os municípios, a aconselhar a vaccinação, mas o povo é refractário e esta só se faz quando a epidemia aparece”. Ou no caso de varíola, diagnosticada numa criança que “jamais d’aqui sahia. Foi isolada e tratada na própria casa”.329 Mas no que interessa essa pesquisa, por hora é relevante destacar que a “epidemia de varicela”, como era denominada, foi importante fator na vida de Ayres, sobretudo na projeção de sua imagem como profissional da saúde e figura pública representante do norte. O também médico Antonio Borges, baiano residente em Goiás, não ficou atrás, pois se tornou durante aquela ocasião deputado estadual na 6ª legislatura para o período de 1909- 1912. 330 É possível que justamente em decorrência desse momento de combate à epidemia variólica, no que entendiam como norte goiano, que Francisco Ayres da Silva seria admitido como “sócio Honorário, com medalha de Primeira Classe por mérito científico universitário da Academia Físico-Química Italiana de Palermo”331, Ou como mais precisamente noticiou o Norte de Goyaz 328 Ibdem. 06/04/1909. 329 CENTRO DE CULTURA GOIANA; INSTITUTO DE PESQUISA E ESTUDOS HISTÓRICOS DO BRASIL CENTRAL; SOCIEDADE GOIANA DE CULTURA. Memórias Goianas 17-Relatório dos governadores da Província de Goyaz de 1906-1917: relatórios políticos, administrativos, econômicos, religiosos etc. Goiânia: Ed. UCG, 2004. p. 61. 330 CAMPOS, Francisco Itami. O legislativo em Goiás: perfil parlamentar I (1891-1937). Vol. II .Goiânia: Assembléia Legislativa de goiás, 1996. p. 41. 331 TELES, José Mendonça. Um Rio dentro de mim. Goiânia: Oriente, 1979. p.70. 162 A Academia Phisico Chimica – Farmacêutica de Palermo, Italian, caba de distinguir o redactor desta folha, Dr. F. Ayres da Silva, com o diploma de sócio honorário, com medalha de ouro de primeira classe, por mérito scientifico e humanitário. Suspeito, embora, para dizer sobre o caso, acreditamos, todavia, que a douta Academia fez obra de justiça com a honrosa distincção. 332 Esse reconhecimento internacional do qual não se encontrou outras informações a não ser a menção dos biógrafos e do jornal, que o citam como forma de enaltecimento do médico portuense, para mostrar que foi um profissional tão ilustre que até mesmo instituições de países desenvolvidos e civilizados como Itália premiaram sua genialidade. Apesar de não se conseguir detalhes sobre tal condecoração e sua razão de ser, não é difícil sugerir que foi resultado do trabalho de Ayres nas cidades nortenses para evitar a proliferação da varíola, por três motivos. O primeiro porque foi, até então, o que havia feito de mais expressivo e significativo como médico. Segundo porque naquele contexto a luta contra epidemias foi motivo de preocupação mundial, sendo absolutamente plausível que a luta em estados como Goiás tenha atraído a atenção de instituições da área. E terceiro, porque sua atuação nesse sentido realizada entre os anos de 1908 e 1909 tem proximidade temporal com o ano da condecoração atribuída em 1910. Seja como for esse reconhecimento internacional é entendido muito mais como forma de expressão da relação de Goiás com outros lugares do globo do que propriamente como coroação ao trabalho do médico portuense. Outra atribuição recebida pelo estado via Secretaria de Instrução, Indústrias, Terras e Obras Públicas, que lhe proporcionou visibilidade e recursos foi a de Delegado Literário, o cargo era ocupado antes por Benício Pinheiro Lemos, que após se tornar intendente municipal de Porto Nacional foi exonerado do cargo que passou para Francisco Ayres. Conforme publicado no Correio Official de Goyaz, “Ao illum. Sr. Dr. Francisco Ayres da Silva. Levando ao seu conhecimento que, por portaria de hontem foi s. s. nomeado para exercer o cargo de Delegado Literario dessa cidade de Porto Nacional e se lhe enviando o titulo”.333 No mesmo mês da sua nomeação se afastou da redação do jornal, embora como já visto não deixou em circunstância alguma de utilizá- lo como instrumento a seu favor na garantia por uma posição de liderança. A função do Delegado Literário era fiscalizar a educação em todo o município, essa nomeação tem relação com a atuação de Ayres no Norte de Goyaz, que desde o seu 332 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1911. p.4. 333 Correio Official de Goyaz. Goyaz, 5/09/1912. p.4. 163 surgimento lutou em favor da educação como elemento civilizador, promotor do desenvolvimento e progresso. Um dos pontos principais do projeto de Ayres para Porto Nacional e o norte do estado era o estímulo à instrução pública e alfabetização, quase todas as edições do jornal se dedicaram ao tema, tratando dentre outros aspectos da corrupção na educação, os poucos recursos aplicados para tal fim, a atuação de professores mais interessados no cargo como forma de ganhar a vida do que pela vocação para ensinar. Inclusive, como já foi mencionado, o periódico foi definido como instrumento de combate ao analfabetismo, algo considerado em todo país, sobretudo naquele início de século, como missão civilizadora, se colocar a serviço de tal missão tratava-se de posição absolutamente meritória, era unânime a importância que atribuíam, ao menos no discurso, à educação. Ayres defendia na primeira página dos primeiros números do seu jornal, Nunca esperdiçara um Governo quando, mesmo com sacrifício para o Thezouro, alargue a instrução publica, seja qual for o ramo educativo. Porque a sabedoria é a melhor das riquezas accumuladas. Lucrará mais a República em educar seus filhos, embelezando-lhes o espirito do que mandar fabricar canhões, carabinas e vazos de guerra, que são factores de destruição, e nunca fonte de vida e nem principio de grandeza humana. 334 Durante alguns anos circulou no jornal uma série de textos intitulados o Amesquinhamento Nortista Brasileiro, assinado por O. Ayres Medeiros, parente de Ayres da cidade de Carolina, no Maranhão. O autor da série discutia sobre a importância da instrução para o desenvolvimento do Norte brasileiro, a saída mais rápida e segura para fugir do amesquinhamento em que o norte se encontrava, mirando um futuro novo e promissor pós-instrução. 335 A atuação de Francisco Ayres da Silva como professor e delegado literário é significativa porque, segundo José Gondra, analisando a formação dos médicos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro durante todo o século XIX a educação escolar no Brasil tem uma matriz médica, baseada na apropriação do objeto educacional pela ordem médica. A partir desse autor pode-se afirmar que Francisco Ayres, devido a sua formação em medicina, entendeu a escola como “lugar de cura para uma sociedade descrita sob os marcos da incivilidade”. Na concepção de Ayres, conforme tônica do argumento médico de sua época, sobretudo os oriundos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, educar é sinônimo de 334 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1905. p.1. 335 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 15/04/1905. p.1; 01/03/1906. p. 2. 164 civilizar. Isso ajuda a compreender sua preocupação com relação à educação. 336 Tanto no exercício da medicina, como no jornalismo e nos cargos públicos que ocupou Francisco Ayres se valeu da racionalidade médica para legitimar seus atos e projetos e convertê-los em capital político. 2.4 FRANCISCO AYRES E A POLÍTICA NO NORTE PARA O NORTE Além das funções que desempenhou, Francisco Ayres se ocupou também com as questões políticas da região. Através do Norte de Goyaz, o jornalista portuense Francisco Ayres comentou, opinou e criou representações sobre os principais episódios políticos, ou aqueles que julgou serem mais importantes ou dignos de ocupar espaço no jornal, para através do mesmo direcionar a opinião dos leitores. Destaco aqui, como exemplo dentre outros, a forma como lidou com os conflitos de Boa Vista a partir de 1907, chamada por Luiz Palacin de a Segunda Revolução de Boa Vista. 337 Mais uma vez em Boa Vista do Tocantins houve uma situação de conflito por causas políticas, semelhante ao que ocorreu no tempo de Joaquim Ayres da Silva. Aproximadamente em 1907 grupos políticos rivais, num momento de instabilidade, envolveram-se numa luta armada pelo domínio da cidade. O conflito se desenrolou entre o grupo liderado pelo Padre João de Souza Lima 338 contra o grupo liderado por Leão Leda 339 , e se encerrou com a vitória do primeiro sobre o segundo. O Jornal Pacotilha do Maranhão publicou um texto assinado por Bertolino Lopes de Souza, possível pseudônimo, afirmando que o mentor por trás dos acontecimentos em Boa Vista era o Dr. Francisco Ayres, chamado de “chefe nortista” que em acordo com os oposicionistas de José Xavier de Almeida e Miguel da Rocha e Lima, atual presidente do estado na época, promoveram a revolução como forma de enfraquecer o então presidente e provocar sua saída do poder, já que por esse motivo “estavam todos interessados na lucta de Boa Vista”. Na opinião do autor do texto, todos 336 GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. p.21. 337 Mais sobre, ver: GOMEZ, Luis Palacín. Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: O Padre João e as Três Revoluções de Boa Vista - Tocantinópolis. São Paulo: Edições Loyola, 1990.; PADOVAN, Regina Célia. Lugar de escola e “lugar de fronteira”: a instrução primária em Boa Vista do Tocantins em Goiás no século XIX (1850-1896). Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Goiás, 2011.; CORREIA. Aldenora Alves. Boa Vista do Padre João. Tocantinopolis-Goiás, 1977. 338 O Padre João de Souza Lima nasceu em Boa Vista do Tocantins, estudou no Seminário Santa Cruz, na cidade de Goiás, foi ordenado em 1895, retornando para Boa Vista em 1897. Foi Deputado Estadual em Goiás, Vigário e chefe político de sua cidade. 339 Leão Leda foi um líder político nascido no estado do Maranhão, na cidade de Grajaú. 165 os passos do Padre João Lima foram orientados pelo médico portuense através do seu irmão Pio Ayres, na época deputado estadual. De acordo com o jornal maranhense, “foi o tenente Pio que, em missão especial do dr Ayres, passou pela cidade para trazer as determinações, os últimos conselhos daquele político”. O padre João Lima é chamado de “chefe revoltoso”, que mantinha estreita relação com os Ayres e constantes trocas de correspondências, deixando a família portuense sempre a par dos acontecimentos em Boa Vista. Importante lembrar que o padre João Lima era partidário do bulhonismo, mas naquele momento tanto os bulhonistas como os caiadistas estavam interessados na deposição de Miguel Rocha e Lima; paralela aos conflitos de Boa Vista houve a chamada Revolução de 1909 340 , o movimento que promoveu a renúncia do presidente do Estado e afastou o grupo de Xavier do poder. No extremo Norte, a luta contra Leão Leda corroboraria para tal objetivo, daí porque Bertolino reiterou nas páginas do “Pacotilha, não há quem, em san consciência, não acredite na culpabilidade de Ayres como um dos factores da revolução”.341 Francisco Ayres da Silva por meio do seu jornal se defendeu das acusações sob o sugestivo título Sucessos de Boa Vista do Tocantins. Afirmou só conhecer as informações da cidade por meio de amigos e parentes que transitam pelo Tocantins, dentre eles seu irmão que só esteve em Boa Vista, de passagem para o Rio de Janeiro, porque é amigo e ex-colega de escola do Padre João Lima. Confirmou laços de amizade com o padre dizendo “não vi ainda rasoes para renegar tal amizade”, mas considera que a visita de Pio Ayres não tem relação com o início do movimento bélico, que ocorreu em abril por ocasião da “prisão em massa de cerca de vinte e um cidadãos conceituados daquela cidade, muitos dos quaes exercendo funcções publicas”. Ayres rebate as acusações que apontam para o seu envolvimento, mas deixa clara sua opinião sobre o desenrolar do conflito, feliz pela vitória do padre e a derrota de Leão Leda, 340 Segundo Ana Silva sobre a chamada Revolução de 1909: “Decidida a tomada de poder pelas armas (...), inclusive com a participação de Bulhões, (...) reuniram-se elementos da capital e dos municípios de Palmeiras, Jataí, e Rio Bonito, Mineiros, Rio Verde, Corumbá e Ipameri, que formavam a coluna sul, composta por mais de 800 homens. Na fazenda Esperança, a 14 léguas de Goiás, reuniram-se elementos de Anápolis, Corumbá, Pirenópolis, Jaraguá, São José do Duro, que formavam a coluna norte, com mais de 600 homens. Em 7 de Abril, Francisco bertholdo, que substituira Miguel Rocha e Lima, por renuncia deste, passou o governo ao presidente do Senado Estadual Joaquim Rufino Ramos Jubé. No dia 1º de Maio os revolucionários, a cavalo, percorreram a cidade.” SILVA, Ana Lucia da. A revolução de 30 em Goiás. Goiânia: Canone editorial, 2005. p. 72-73. Mas sobre, ver: SANTANA, Moisés. Vultos e factos de Goyaz. Rio de Janeiro: Papelaria Brasil, 1928.; CHAUL, Nars fayad; PALACIN, Luis; BARBOSA, Juarez Costa (org.). História política de Catalão. Goiânia: Ed. UFG, 1994. 341 Pacotilha. Maranhão, 12/01/1909. 166 considerando Bertolino como um figurão do grupo de Leda que diante da derrota quis tirar de si a culpa e a responsabilidade dos desastres durante a revolução. “Por vezes tenho sido solicitado a emitir opinião sobre politica de boa vista, hontem como hoje o parecer tem sido sempre o mesmo”. Assim Francisco Ayres concluiu seu parecer.342 Mas não parou por aí, no mesmo número publicou outros textos apresentando uma perspectiva detalhada sobre o caso. Um deles foi assinado pelo pseudônimo de Um Boavistense, como forma de demonstrar que como cidadão da cidade de Boa Vista poderia falar com propriedade sobre tudo que acontecera, e que a redação do Norte de Goyaz estaria apenas transmitindo com imparcialidade informações de um correspondente, testemunha ocular da dita revolução. O relato começa anunciando o desfecho dos conflitos em Boa Vista, iniciados desde abril de 1907, e por isso a desobrigação do compromisso em continuar mandando notícias. Segue apresentando o que houve desde o início dos conflitos até aquele presente momento sempre colocando o padre João Lima e seus aliados como heróis e verdadeiros defensores da paz em Boa Vista e os seus adversários como vilões ambiciosos e sanguinários. Para ele tudo começou com as ameaças do Juiz de Direito Candidio Bretas contra o padre João de Souza Lima, dizendo que “si rebentasse a revolução seria o padre o primeiro assassinado em Boavista”. Para o correspondente do jornal portuense o padre não sabia o motivo daquela ameaça e procurou se informar do que estava acontecendo até a cidade ser surpreendida com a chegada de 12 homens, todos descritos como assassinos e desordeiros que, sob a liderança do juiz de direito e do promotor público, “armados de rifles, principiou a varejar casas e a tomar armas sem a menos formalidade legal”; a maioria desses homens vindos das proximidades de Carolina, no Maranhão, portanto estranhos, prenderam “nossos amigos” cidadãos e autoridades boa-vistenses. Todas as regalias e garantias estabelecidas pela lei foram desprezadas, só imperando o arbítrio e a prepotência. O Padre fugiu para escapar da morte. Segundo Um Boavistense, os dominadores do momento instauraram um cenário de terror na cidade do extremo norte de Goiás, por isso “diante de taes factos, a população Boavistense sentiu-se ferida e ergueu-se como um só homem para defender os seus direitos violados”. Assim se abriu a luta do povo boavistense contra as autoridades de Boavista, pois o primeiro não se sentia representado pelos segundos, além de ser oprimido por eles. Por isso, tanto o Major João José, como Pedro Sarmento 342 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1909. p.1. 167 Paiva, mais conhecido como o Maquinista, também entraram no conflito apoiando o povo boavistense após suas terras serem atacadas pela quadrilha que cercava as autoridades de Boa Vista que, (...) fizeram levantar a bandeira vermelha na cidade, signal bem claro de que se fossem vencedores poderíamos dizer com o celebre Romano: Ai dos vencidos. Era voz corrente que mortos os vencidos seriam seus bens partilhados entre a quadrilha de que se cercavam as autoridades e depois passaria esta para o estado do maranhão para atacar a cidade de Carolina, a villa da imperatriz e a cidade de grajahú, terminando por derribar o Governo daquele Estado. 343 Todas as atitudes dos aliados do Padre João foram justificadas, pois lutavam contra os opressores de toda uma cidade que planejavam ocupar outras cidades estratégicas para tomar o poder no Estado do Maranhão, ou seja, lutaram contra aqueles que queriam tomar o território de Boa Vista do Tocantins, do estado de Goiás, para anexá-lo ao Maranhão. Mas o autor da carta ao Redator do jornal fez questão de mencionar o bom procedimento do povo boavistense que expulsou seus adversários, sem fazê-los mau algum, pelo contrário, os familiares e feridos deixados na cidade foram “tratados com todo carinho”. Citando como exemplo o apoio e cuidado dedicados, após a derrota, para retirada dos familiares de Moreira, uma das autoridades políticas que lutou contra Padre João. Assim foi anunciada a vitória sobre os homens liderados pelo juiz de direito, o promotor, juntamente com Leão Leda: “eramos fracos e humildes e vencemos aos orgulhosos. Eramos bisonhos e tímidos e fomos valentes nos combates, batendo aos poderosos. Sem armas e sem munições rechaçamos a um inimigo que antes do combate festejava a victória”.344 Outro texto, assinado por Frei D. C., com o mesmo tom anunciava a morte de Leão Leda na cidade de Conceição. De acordo com Frei, Leão Leda entrou em Conceição para conseguir contingente para “continuar suas tristes proezas”, causando horror e desordem ao povo, até que moradores de Conceição, juntamente com homens de Arraias e Barreiras, “os defensores de Conceição” entraram em conflito com eles. Leão Leda foi cercado e morto, junto com seu filho Mariano e outros homens que estavam sob a sua liderança. O frei afirma que a morte foi celebrada por toda cidade e conclui da seguinte maneira, “diga a todos que a paz reina perfeita na Conceição: que podem continuar a vir para cá porque homens nunca teremos por aqui bastante homens 343 Ibdem. p. 2. 344 Ibdem. p. 3 168 de bem”. Tendo em vista a maneira como Francisco Ayres da Silva abordou os conflitos de Boa Vista a partir de 1907, pode-se considerar que chamar o episódio de Revolução é uma forma de reafirmar a memória apresentada e construída pelo jornal Norte de Goyaz, ou seja, a memória dos vencedores. Mostrando cidades do norte se aproximando e lutando juntas para extirpar um mal que lhes assolavam. Certamente uma investigação mais acurada dos vestígios ainda existentes do fato ocorrido em Boa Vista pode possibilitar outras questões, interpretações e apontamentos; para o jornal Pacotilha do Maranhão, por exemplo, o padre João aparece como um “chefe revoltoso” que ignorou e tramou contra Moreira, um homem de “alto valor político e excelsas qualidades”. Sobre a participação de Ayres, seja como jornalista que apenas emitiu sua opinião, ou como causador dos conflitos, mentor e líder político que manipulou o padre João, uma coisa fica evidente, a sua ambição em, de uma forma ou de outra, figurar como principal representante e defensor dos interesses daquela região 345 , fazendo com que todo episódio contribuísse com ele nesse sentido, porque como se afirmou “seu fervoroso ideal é dominar o norte do Estado; para isso convem se unir a elementos que o acompanham cegamente, aos quaes possa impor sua vontade e suas opiniões; o elemento inteligente, por não curvar a cerviz a seu jugo prepotente, lhe pode ser prejudicial”.346 Pode ser que o suposto Bertolino, acusador de Ayres no Pacotilha, tenha exagerado em suas considerações sobre o envolvimento de Francisco Ayres e sua relação com o Padre João para se imiscuir na política de Boa Vista, mas parece ter sido preciso ao tratar sobre a intenção que estava por traz de tal envolvimento e que motivou o influente portuense a, no mínimo, estar a par de todo episódio. “O fervoroso ideal” de Ayres foi apresentado como argumento para convencer, para comprovar que a denúncia feita tinha fundamento. Basta uma rápida passada de olhos no Jornal Norte de Goyaz para perceber como Ayres se colocou como “fiel interprete dos sentimentos políticos” dos eleitores nortenses. 347 Francisco Ayres da Silva, durante toda primeira metade do século XX, tomou partido nos conflitos que ocorreram nos municípios do norte, independente das causas, 345 Os conflitos de Boa Vista que de alguma maneira também envolveram a questão territorial, pois colocaram em jogo a fronteira entre os limítrofes estados de Goiás e Maranhão, indica que do ponto de vista geográfico o norte como região ainda estava indefinido. 346 Pacotilha. Maranhão, 12/01/1909. 347 O século. Rio de Janeiro. 20/10/1908. p.1.; Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19/10/1908. p. 8. 169 desenrolar e desdobramentos, manteve uma posição coerente, comum em todos os casos, sempre favorável ao grupo político a que pertencia estivesse ele na situação ou oposição em relação ao governo do estado. Muitos municípios foram palco de conflitos envolvendo parte da elite local contra o governo do estado, com destaque para os limítrofes com outros estados. Além do já mencionado caso de Boa Vista, outro que ganhou grande espaço no Norte de Goyaz, sobretudo em 1919, foi o conflito em São José do Duro envolvendo principalmente a família Wolney contra o governo de Goiás. 348 O jornal portuense acompanhou o caso e sua repercussão noutros periódicos, tanto de Goiás e Bahia como do Rio de Janeiro, construindo sua própria versão a partir das tantas versões arroladas pelos diferentes envolvidos. Com ares de imparcialidade, dando espaço a vários relatos, emitiu suas opiniões sempre favoráveis à oligarquia caiadista e contrárias aos Wolney. Interessante mencionar que outrora, em configuração política anterior, os membros da família Wolney mantinham boa relação com Francisco Ayres da Silva e até 1912 também com a oligarquia caiadista. Abilio Wolney, por exemplo, era, inclusive, assíduo colaborador do Norte de Goyaz nos primeiros anos de sua existência. 349 Sob o título Acontecimentos de S. José do Duro, o jornal portuense defendeu seus interesses em relação ao caso, sem necessariamente ter participação ativa a não ser via imprensa, acusando os Wolney de estarem muito mais vinculados e identificados aos anseios da Bahia, por meio da vizinha cidade de Barreiras, do que propriamente com Goiás. Defendeu a intervenção, que culminou na morte dos Wolney como necessária 348 Não é meu objetivo detalhar os acontecimentos de São José do Duro, apenas mostrar que Francisco Ayres esteve atento às movimentações políticas do Norte de Goiás. Para saber mais sobre esse episódio ver: ÉLIS, Bernardo. O Tronco. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.; TOMÉ, Johny Assunção. Dos barulhos do Duro aos ecos da memória: Clio e Calíope na construção do romance O Tronco de Bernardo Élis. 2015. TCC (Graduação em História), Curso de História - Universidade Federal de Uberlândia: Uberlândia, 2015.; FREITAS, Lena Castello Branco Ferreira de. Poder e Paixão: A saga dos Caiados. Goiânia: Cânone editorial, 2009. 349 Abilio Wolney, dentre outros textos tratando sobre o comércio do Norte com a Bahia ou sobre a necessidade de melhoramentos para o que chamou de Nosso Commercio (Norte de Goyaz, 15/03/1906), escreveu uma carta publicada pelo Norte de Goyaz saudando o advento do mesmo. “exm. S.r D.r Francisco Ayres da Silva. Recebi hontem o primeiro numero do sympatico Norte de Goyaz e felicito a v. Ex. como redator do mesmo, por mais essa conquista em prol da zona nortense. Devido as magnificas condições de situação vemos há tanto que o Porto salienta-se entre as cidades do norte do Estado, e tudo faz crer que se tornará um ponto de luz que começa radiar pelas columnas do Norte de goyaz. Não é o primeiro periódico que vem a luz nesta zona e na mesma cidade. “A folha do norte” e “O incentivo” tiveram-na também como pátria e fizeram uma trajectoria que, embora curta é iluminosa. Faço votos pela prosperidade e longa vida da empresa e apresento ao norte e especialmente ao Porto e a. exm. a meus emoras pelo passo que marcam no caminho do progresso. Duro. 21 de Outrubro de 1905.” Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/12/1905. 170 para zelar do norte do estado, que sofria com os desmandos e banditismo, saques, roubos e depredações empreendidos no Duro, e arredores, pela família supracitada com o objetivo de beneficiar o estado baiano, já que não reconheciam o governo goiano nem seus representantes. Ayres ainda aproveitou os fatos do Duro para criticar a ação do Governo Federal, e mostrar que pouca ou nenhuma atenção dispensava à parte central do país, além disso, defendeu a implantação de um destacamento policial com duzentos homens aquartelados em Porto Nacional e Natividade para, com a ajuda de um sistema de comunicação via telégrafo, resolver o problema de todo norte de Goiás em relação “as ameaças dos Abilios de Araujo, dos Robertos Dourados e da prepotência dos Wolneys, perturbando a sua calma e a sua vida laboriosa”.350 Peço licença aos leitores para um rápido parêntese. Ainda se valendo do caso de São José do Duro, sob o título Em prol do norte goyano, a folha portuense publicou parte do relatório do Juiz Calmon, quem “julgou exercer no Duro justiça como se a exerce nas capitaes”, dentre outras coisas tratou sobre as necessidades do norte, considerado pelo jornal como espelho da verdade referente à situação da zona. É interessante observar que no relatório a via férrea aparece como elemento secundário para aquela realidade, não direta e prioritariamente correspondente às necessidades das cidades nortenses, embora fosse para a maioria do país elemento moderno de primeira ordem. Ayres concordou com Calmon quanto ao fato de que, Não é preciso desde logo se abordar o primordial problema da via- ferrea alli, para se chegar a conclusão que o Norte pode sahir daquelle marasmo. Não. Deem-lhe policia, fiscalização e extendam um pouquinho mais os fios telegráphicos e verse-á Duro, Santa Maria, Natividade, Porto Nacional, Boa Vista e outras cidades Nortenses melhorar consideravelmente (...) Natividade, Porto Nacional com especialidade por serem os mais prósperos e futurosos municípios do Norte 351 Enfim, seja em Pedro Afonso, Santa Maria, Natividade, Porto Nacional, Boa Vista ou nas outras cidades nortenses, Francisco Ayres esteve atento aos acontecimentos, quando possível participando para dar visibilidade ao jornal Norte de Goyaz e para si, como os legítimos representantes e defensores dos interesses da região. 2.5 PORTUENSE NO CONGRESSO NACIONAL 350 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1919. p. 2-3.; 30/06/1919. p. 1.; 15/10/1919. p. 1. 351 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1919. p.1. 171 O Dr. Francisco Ayres da Silva, como homem influente, jornalista e líder local de partido político, com bom capital de relações sociais, com prestígio social e cultural devido a sua formação em medicina, com boa condição material decorrente dos negócios da família e os cargos públicos que ocupou, reconhecidamente forte liderança política com poder e autoridade, sobretudo, nos arredores de sua cidade, elegeu-se Deputado Federal em 1913, após frustrada tentativa no processo eleitoral anterior. O tão construído desejo de um representante legítimo da região norte de Goiás no congresso federal foi alcançado. Antes de Francisco Ayres da Silva outra liderança portuense já tinha conseguido se eleger em 1903 como deputado federal por Goiás, trata-se do Coronel Frederico Ferreira Lemos, que apesar de eleito não tomou assento. Ayres foi o primeiro portuense a tomar assento na câmara federal, mas seu primeiro mandato foi permeado por polêmicas e protestos. Francisco Ayres só conseguiu ingressar no congresso nacional na vaga aberta pela eleição de Olegário Pinto para a presidência do estado, por isso foi eleito em 1913, mas só foi reconhecido deputado definitivamente no ano de 1915, após muita discussão sobre a validade e idoneidade do processo eleitoral goiano que o levou até o referido cargo. Os jornais do Rio de Janeiro acompanharam a polêmica. Depois da apreciação, feita por uma comissão de poderes da câmara, da documentação da eleição de Goiás, Ayres foi diplomado em junho de 1914, conforme noticiou o jornal Correio da Noite, sob o título de Os Novos Deputados, foram reconhecidos os representantes de Minas e de Goyaz – a câmara aprovou os pareceres reconhecendo deputados pelo 7º districto de Minas o dr. Pedro da Matta Machado e pelo districto único de Goyaz o Dr. Francisco Ayres da Silva. A pedido do Srs Manuel Fulgencio e Ramos Caiado, respectivamente representantes de Minas e Goyaz, os novos deputados prestaram o compromisso regimental, tomando assento nas suas bancadas, depois de muito cumprimentados pelos seus colegas. 352 A oposição protestou contra a eleição de Ayres, defendendo a ideia de que o processo eleitoral foi manipulado e a documentação forjada para favorecer o candidato diplomado, quando Sebastião Fleury Curado, deveria ser, na verdade, o candidato reconhecido para aquela vaga. Por isso o assento foi durante algum tempo disputado entre os dois representantes goianos supracitados, o primeiro como candidato 352 Correio da Noite. Rio de Janeiro, 01/06/1914. p. 3. 172 diplomado esperando a solução definitiva do caso para permanecer no cargo e o segundo como contestante, aguardando definição com esperança de substituir aquele. Cada qual se valendo das influências políticas que podiam mobilizar no cenário nacional para fazer valer seus interesses. 353 O Jornal O Paiz fez menção das variações na composição da comissão criada para dar parecer ao “caso de Goyaz”, e da agitação na sessão em torno da questão. Para o jornal, o reconhecimento do deputado por Goiás, insistentemente protelado pela chamada “primitiva comissão”, como ironia pela demora ao desfecho, deu-se como uma manobra do deputado mineiro, Antonio Carlos, para manter a maioria da câmara sob o seu controle. Por isso, “patrocinou desabusadamente o reconhecimento do sr. Fleury Curado”, inclusive manipulando a formação da comissão responsável pelo estudo das eleições goianas. O relator do parecer final, Josino de Araujo, que deu voto em separado a favor de Fleury Curado, era “colega de bancada e amigo” de Antonio Carlos, o líder da maioria, de quem recebeu as instruções para tal proceder. O jornal utilizando do imbróglio para criticar o deputado mineiro conclui que mesmo “contra a geral expectativa, o sr. Ayres da silva foi reconhecido, mas, mais uma vez, os compromissos, as ordens, a palavra do sr. Antonio Carlos voaram pelos ares”.354 Assim o nome do político portuense circulou nos principais jornais do Rio de Janeiro, enquanto sua situação ainda era motivo de discussões. Estava de volta à Capital Federal, dessa vez não como estudante de medicina, mas como deputado representante goiano na câmara, eleito pelo distrito único de Goiás. No primeiro ano em que esteve na cidade carioca, nessa nova condição, sua origem foi tema em pauta para parte da imprensa, deixando pistas que permitem pensar o que significou para um político do interior do estado central atuar na metrópole. A chegada de Francisco Ayres não passou despercebida, os comentários referentes a sua condição de morador de uma pequena e desconhecida cidade evidenciou certo estranhamento, espécie de mal estar, inadaptação, uma imposição da grande cidade sobre aquele que parece ou está supostamente desajustado. Ainda que o Rio de Janeiro não lhe fosse completamente estranho, devido suas passagens anteriores pela cidade, isso não foi levado em consideração. O lugar de origem se sobressaiu às demais informações biográficas na construção da sua imagem. O simples fato de ser de Porto Nacional, pela ótica do que se entendia como progresso, moderno e civilizado, já 353 A Noite. Rio de Janeiro, 25/05/1915. p. 2. 354 O Paiz. Rio de Janeiro. 9/06/1915. p.1. 173 lhe conferia uma imagem pejorativa de inadaptado ao grande centro, portanto, germinando sentimentos de inferioridade. Sobre esse aspecto exemplifico com duas situações ocorridas nas páginas da imprensa carioca. A primeira situação, presente no Jornal O Paiz, nos dias em que Francisco Ayres prestou compromisso regimental para exercer o cargo a que foi designado. 355 O deputado publicou no jornal supracitado uma retificação para “restabelecer a verdade dos factos”, de um “suelto incerto” publicado anteriormente sobre o Coronel Frederico Ferreira Lemos, ou seja, o ex-deputado por Goiás que assim como ele também residia em Porto Nacional. A nota dizia que Frederico Ferreira Lemos não tomou assento na vaga que lhe pertencia na câmara porque como morador de uma pequena cidade do interior de Goiás ficou atordoado com os progressos da civilização do Rio de Janeiro. Como não estava acostumado aos grandes centros, ficou com medo e preferiu continuar em seu Estado de origem, por isso foi acusado de onerar em vão os cofres públicos já que recebeu subsídios, mas não os utilizou como deveria, ou seja, para participar das atividades da câmara. A retificação de Ayres foi para rebater as críticas feitas ao ex-deputado portuense que o antecedeu, principalmente para defendê-lo da primeira crítica. O leitor pode achar estranho, e perguntar por que Ayres aproveitou o espaço em O Paiz para defender um adversário histórico de sua família. Os motivos para tal defesa se explicam com relativa facilidade. A lembrança do Coronel Frederico Lemos veio à tona em razão da eleição do próprio Francisco Ayres, em outras palavras, essa menção foi feita para demonstrar que não é a primeira vez que a câmara federal recebia um morador de Porto Nacional. A primeira experiência não foi feliz, portanto, com base na primeira não se poderia nutrir boas expectativas em relação à segunda. Defender Lemos era se defender, pois a comparação era inevitável, já que ambos foram eleitos para o mesmo cargo e oriundos da mesma cidade, foi uma tentativa de fugir da imagem a ele imputada. A retificação se travestiu de explicação, para apresentar que embora ambos fossem de Porto Nacional, conheciam e estavam acostumados aos grandes centros urbanos. Ayres argumenta, (...) o coronel Frederico Ferreira Lemos, é commerciante, residente em Porto Nacional, e por de mais habituado a frequentar o mercado de Belém do Pará, onde entretem suas transações comerciais. É bem de 355 A Noite. Rio de Janeiro, 01/06/1914. p. 3. 174 vêr-se que, frequentando constantemente aquela praça, S. S. não poderia ficar atordoado com os progressos de sua civilização. Eleito deputado por seu estado, o coronel Lemos não veio tomar assento na Câmara, após seu reconhecimento, simplesmente porque sua saúde alterada o não permittira. Assim, pois, uma das cadeiras da representação goyana no parlamento nacional ficou vaga, não porque seu depositário temesse enfrentar a civilização da “corte” e as maravilhosas complicações do progresso dos grandes centros, mas simplesmente porque sua saúde combalida não permitia que empreendesse a viagem através de longo trajecto até esta cidade. Se Goyaz sentiu-se privado do concurso de seu representante, todavia os cofres públicos da nação nada soffreram com a ausência do Sr. Lemos, pois que S. S. coisa alguma recebeu, até o presente, em embargo de serem muito justos os motivos que o impediram de ocupar a cadeira que o eleitorado goyano lhe confiara. 356 O objetivo de Ayres em se diferenciar dos seus conterrâneos para se aproximar dos homens dos grandes centros é nítido, não se trata de descontruir o estigma, mas de não se enquadrar nele, mostrando-se, através do exemplo de Lemos, não avesso às “maravilhosas complicações do progresso dos grandes centros”, embora sua cidade fosse supostamente alheia a elas. O contato com alguma metrópole, independente de onde se residia, tornou-se necessidade, quase uma obrigação. Belém não foi citada por acaso, a capital do Pará, naquela época, havia passado por uma profunda reforma urbana que a colocou no rol das grandes cidades, de acordo com o autor Aldrin Moura Figueiredo, “em 1902, a cidade de Belém já havia sido chamada de Paris n’América ou de Petit Paris”, a fisionomia urbana da cidade foi intensamente modificada com muitas demolições e edificações, junto com as transformações urbanas a cidade também se submeteu a um grande projeto cultural. Estabelecimento de rígidos padrões de posturas urbanas, demolição de cortiços, construção de palácios, igrejas, teatros, bolsa de valores, grandes praças com lagos e chafariz, alargamento e calçamento das vias, aterramento e drenagem de rios, formação de sociedades científicas e literárias, entre outras transformações que aproximaram a capital do Pará dos grandes centros, tornando-a um espaço urbano reconhecidamente moderno, que foi referência e inspiração para outras cidades do Norte. Para muitos portuenses, de forma particular, Belém foi o contato mais próximo e acessível do ponto de vista geográfico do que se compreendia como grande centro. Foi o que se tinha de mais tangível dos elementos modernos de progresso e civilização, a forma mais consolidada e materializada de cidade moderna que parte dos portuenses pode 356 O Paiz. Rio de Janeiro, 02/06/1914. p.3. 175 experimentar. 357 A segunda situação pode ser observada em A Época, que narrou a posse dos novos candidatos em tom cômico. Sobretudo no suposto diálogo entre Francisco Ayres e o também deputado federal Irineu de Melo Machado, político carioca, um dos principais representantes do Distrito Federal e também de Minas Gerais. Segundo o periódico, A câmara empossou ontem, dois novos deputados: os srs. Pedro da Matta, eleito pelo 7º districto de minas, e o Francisco Ayres da Silva, representante de goyaz. Os dois ditosos paredros prestaram o solene compromisso em má ocasião, porque, sendo dia do subsidio, a câmara estava regorgitante. E, entretanto não se apresentaram muito encabulados. (...) o representante de goyaz apenas comoveu quando ouviu o repinicar das campainhas electricas. O sr. Matta Machado, colado ao braço do sr. Alaor prata, percorreu todo o recinto ate a mesa, seguindo, depois, para a sua bancada. O representante goyano foi esquecido junto ao sr. Semeão Leal pelo sr. Ramos Caiado. Mas, quando as campainhas deixaram de repinicar e o imóvel legislador recebeu os cumprimentos da mesa, o sr. Irineu Machado subiu ate lá e ofereceu-lhe o braço. – sou um grande admirador de v. ex., disse o sr. Irineu, e folgo em vel-o entre nós. – pois que! – exclamou o novo paredro – v. ex. me conhecia?! – como não? O nome de v. ex. é muito conhecido aqui... O representante de Goyaz, percebendo a maldade, agitou a sua sobrecasaca nova, ajustou a gravata e replicou: – moço, eu sou um pobre suruby pescado no Tocantins! – tomem nota! – grita o sr. Irineu, dirigindo-se aos representantes da imprensa – esse ao menos, fez uma frase...358 Não interessa saber se a ocasião da posse foi precisamente conforme narrado na citação, menos ainda se o diálogo existiu efetivamente e se foi fiel ao exposto. O que interessa nessa citação é perceber, a despeito de ser ou não real, a forma como Francisco Ayres naquele contexto foi transformado em algo cômico, de que maneira o seu lugar de origem e sua postura se tornam motivo de gozação, matéria prima para os jornalistas produzirem um discurso capaz de provocar riso em seus leitores. Notem que Ayres aparece como um desajustado, ao mesmo tempo deslumbrado e perdido naquele cenário, aproveitando a analogia mencionada, espécie de peixe fora do seu habitat natural. Não se mostrou encabulado com a agitação da câmara, mas se comoveu com o 357 FIGUEIREDO, Aldrin Moura. Pretérito imperfeito: arte, mecenato, imprensa e censura em Belém do Pará 1898-1908. In: KUSHNIR, Beatriz. Maços na gaveta: reflexões sobre mídia. Niterói: EdUFF, 2009. p. 12-15. 358 A Época. Rio de Janeiro, 2/07/1914. p. 2-3. 176 repinicar das campainhas elétricas. As modernas novidades da eletricidade impressionavam de tal maneira que deixou o deputado portuense, não familiarizado com tais tecnologias, imóvel. Dos dois novos deputados o representante de Goiás foi apresentado nitidamente mais deslocado que o representante de Minas Gerais, um desconhecido e esquecido no parlamento federal, que precisou ser conduzido por alguém que já transitava seguro pela casa. O diálogo apresentado por A Época entre Irineu Machado e Francisco Ayres evidencia o estereótipo construído em torno de homens oriundos de pequenas cidades distantes e destoantes dos grandes centros, que parecem ver tudo maior do que realmente é. Que consideram aquilo que é tido como corriqueiro e comum para a maioria como grande evento digno de uma sobrecasaca nova. Homens tipicamente interioranos facilmente intimidados e inibidos diante das expressões do moderno, dos quais não se nutre grandes expectativas, pois até mesmo o simples pronunciar de uma frase é motivo de surpresa, feito considerável digno de nota por parte da imprensa. A frase atribuída ao deputado portuense como defesa diante da percepção de que estava sendo ironizado é emblemática e de alguma maneia representa a sensação de Ayres durante o exercício do cargo legislativo no Rio de Janeiro. Ser “um pobre suruby pescado no Tocantins” significa uma distinção tanto em relação aos nortenses, como em relação aos seus pares no parlamento. Não é mais como um cidadão portuense, mas ainda não é também igual a uma liderança política da metrópole. A expressão reafirma a ideia de que independente do esforço de aproximação ao homem metropolitano e da assimilação dos valores culturais correspondentes dificilmente se tornaria um. Independente de onde estivesse e da posição social que ocupasse seria sempre um “suruby pescado no Tocantins”. 359 Há um sentimento de inferioridade, principalmente em homens como Ayres, considerados mais evoluídos e civilizados, do qual se tenta livrar insistentemente, assimilando os valores da cultura metropolitana e/ou rejeitando sempre que possível os estigmas da sua origem. Existe uma necessidade de aproximação do jeito de ser 359 O suruby, ou cientificamente pseudoplatystoma, é um peixe encontrado nas principais bacias hidrográficas da América do Sul. O peixe também conhecido como pintado, da família Pimelodiae, alimenta-se de outros peixes e por esse motivo tem uma função ecológica importante em seu habitat como predador. Para um especialista no estudo desse peixe, trata-se de uma “espécie nobre dos Rios, representam um troféu para os pescadores, por ser uma espécie de grande porte”. BENITES, Celso. Caracterização genética do pintado, Pseudoplatystoma Currascans (Siluriformes: Pmelodidae) da Bacia Hidrográfica Paraná-Paraguai, formadores moleculares tipo microssatélite. Jabticabal, 2008. Tese de Doutorado – Centro de Aquicultura. UNESP. p.18. 177 metropolitano, sobretudo nas formas exteriores de civilidade, modo de vestir, agir e se comunicar, tudo panejado para se confundir com o homem civilizado da/na metrópole com o propósito de se conquistar um sentimento de igualdade. Pois a ideia que está sendo construída permanentemente é de que o homem da metrópole é mais evoluído e civilizado do que o homem da pequena cidade do interior goiano. Nessa perspectiva, Francisco Ayres, apesar de ser de Porto Nacional, parece superior aos portuenses porque estudou na metrópole e tem transitado ao longo de sua existência pelos grandes centros. Ou seja, está mais próximo de ser metropolitano do que outros nortenses, mas ao ser reconhecido como portuense e/ou nortense se percebe um esforço em mostrar que existe civilização em Porto, como se percebe na defesa que fez do coronel Frederico Lemos. A presença de Francisco Ayres da Silva como deputado no Rio de Janeiro torna evidente o arsenal de complexos construídos no âmago do debate sobre a cidade, especialmente como espaço urbano moderno. 360 O deputado portuense, o “político de mãos limpas”, conforme ponderou Altamiro Pacheco, exerceu o mandato mesmo antes de ser diplomado definitivamente, cumpriu seus deveres sempre que possível, hora se esquivando dos estigmas, hora se valendo deles para ratificar a necessidade de investimentos no estado de Goiás. Uma das primeiras ocasiões em que seu voto nominal foi solicitado se deu no momento da votação da câmara federal referente ao parecer da comissão de finanças sobre a acusação de corrupção, desvio de verbas e gastos abusivos envolvendo o Presidente da República Wenceslau Braz. A votação seria para aprovar a conclusão da comissão e efetuar a responsabilidade criminal dos culpados do abuso, ou desaprovar a conclusão. Francisco Ayres da Silva fez coro com 82 deputados que votaram não desaprovando a conclusão, contra outros 27 que votaram sim. Não poderia ser diferente já que o referido presidente favorecia o grupo oligárquico caiadista na obtenção de poder em Goiás. 361 Após o caso da disputa entre Francisco Ayres da Silva e Sebastião Fleury Curado ter se resolvido definitivamente em favor do primeiro, o deputado federal intensifica suas viagens do Rio de Janeiro para Porto Nacional e vice-versa; para seguir em direção ao norte utilizava normalmente os serviços dos paquetes, que saíam do Rio em direção à Bahia, para de lá chegar até Goiás e assim até Porto Nacional. Essas viagens frequentes eram custeadas pelo governo federal como ajuda de custo aos 360 FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. p.25-52. 361 Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29/10/1914. p.5. 178 deputados. 362 As viagens foram frequentes porque esse período marcou uma fase agitada de sua vida, tanto no aspecto familiar, como na vida política que exigiu sua presença em Porto Nacional. Quanto à vida familiar o jornal O Imparcial anunciou em maio de 1915, “em Porto Nacional, Estado de Goyaz, consorciaram-se o dr. Francisco Ayres da Silva, estimado clinico e dlle. Edmunda Pereira da Silva, dilecta filha do coronel Carolino Pereira da Silva”. 363 Este foi o primeiro dos três casamentos de Francisco Ayres da Silva, casou-se com uma mulher pertencente à importante família da cidade portuense, certamente naquela altura o casamento foi mais vantajoso para a família de Edmunda do que para ele, caso se pense do ponto de vista de interesse pela influência política e recursos financeiros. 364 No aspecto da vida política, a presença de Ayres em Porto Nacional era decisiva como parte de um projeto de dominação política das regiões Goianas a partir de cidades estratégicas, dentre as quais Porto se enquadrava em relação ao Norte, como foi Morrinhos em relação ao Sul. Goiás passava por um momento de instabilidade política em que os diversos grupos oligárquicos lutavam pelo controle político do Estado. Situação que exigiu intervenção do governo federal para mediar a conciliação necessária para sucessão presidencial em 1917, como parte de um projeto para promover estabilidade política. Houve então um acordo entre as oposições, nesse período, representadas pelo grupo ao qual Francisco Ayres pertencia organizado em torno do Partido Democrata, tendo como oposição o Partido Republicano, controlado pelos Bulhões. Segundo Ana Lúcia, “o acordo consagrou a hegemonia do Partido 362 A Época. Rio de Janeiro, 31/07/1915. p.4.; O Paiz. Rio de janeiro, 31/07/1915. p.5. Sobre a ajuda de custo sempre solicitada por Francisco Ayres, de aproximadamente 3:000S, para custear seus gastos com viagens e estadia ver: A Época. Rio de Janeiro, 25/06/1916. p.4.; “O Senhor Ministro da Justiça pediu ao da Fazenda providencias no sentido de ser paga a ajuda de custo ao deputado Francisco Ayres da Silva”. O Paiz. Rio de Janeiro, 21/06/1916. p.1. 363 O Imparcial. Rio de Janeiro, 17/05/1915. p. 9. 364 O primeiro casamento de Ayres foi marcado por muitos falecimentos prematuros, tanto dos primeiros filhos como da própria esposa Edmunda. Nos outros relacionamentos teve muitos filhos, conforme menciona José Mendonça Telles: “Em 1915, contraiu núpcias com a sra. Edmunda Pereira da Silva, com quem teve 5 filhos, todos mortos prematuramente. Viúvo, uniu-se com a sra. Angélica Ribeiro Aranha, nascendo os filhos, Alice (falecida), casada com o sr. Joaquim Tomaz de Sousa, residente em Porto Nacional, Dulce, casada com o sr. Antônio (Totó) de Oliveira, ex-Deputado Estadual e atual membro do conselho estadual de educação, residente em Goiânia, Milton Ayres da Silva, jornalista residente em Goiânia, casado com a sra. Erlinda Neiva Ayres, Newton Ayres da Silva, farmacêutico, residente em Porto Nacional, casado com a sra Adélia de Sena Ayres, e Osvaldo Ayres da Silva, farmacêutico residente em Porto Nacional, casado com a sra. Zilda Prado Ayres. Francisco Ayres da Silva teve ainda 3 filhos com Ana Pinheiro Ayres: Idegar Ayres da Silva, Edgar Ayres da Silva e Abel Ayres da Silva, este último falecido.” TELES, José Mendonça. Um rio dentro de mim. Goiânia: Oriente, 1979. p.58. 179 Democrata e, no interior dele, o grupo caiadista”.365 A trajetória de Ayres é a expressão dessa hegemonia, pois por esse partido ele foi eleito em todas as eleições que participou entre 1914 a 1930, importante nome da comissão executiva do Partido Democrata, usou toda sua influência, valendo-se do periódico Norte de Goyaz para garantir seus interesses próprios e os do partido junto às cidades nortenses. Sobre o acordo que culminou com a escolha de João Alvez de Castro como presidente, apoiado pelos dois partidos, os representantes goianos na esfera federal foram convidados a se manifestarem na imprensa carioca, quando o assunto ainda estava sendo debatido. 366 O então senador Leopoldo de Bulhões ao ser questionado sobre no que consistiam as bases desse acordo citou o nome de Ayres como provável 1º vice-presidente do Estado, indicado pelo Partido Democrata, indicando a importância e poder que o mesmo gozava no partido. Segundo Bulhões, “penso que, no caso de se fazer acordo, o presidente será o sr. Alves de Castro, que será apoiado por ambos os partidos; o 1º vice presidente do partido contrario, deverá ser o sr. Francisco Ayres da Silva; o 2º vice presidente será o dr. Marcello Silva, deputado federal; o 3 o coronel Leopoldo Jardim”.367 O jornal O Imparcial, apesar do nome, ao menos no que se refere à política goiana, foi muito utilizado pela oligarquia Bulhões para expor suas opiniões e críticas contra seus adversários. Numa entrevista, quando estava no Rio de Janeiro, mas de partida para “sua terra”, ou seja, “para Porto Nacional, onde reside e é chefe político”, concedida para o jornal Gazeta de Notícias, publicada na primeira página do Jornal, Ayres também falou sobre o acordo. O deputado ressaltou que os nomes indicados pelo Partido Democrata para se tornarem os futuros representantes goianos ainda não estavam decididos, mas que de maneira alguma apoiariam o nome de Leopoldo de Bulhões, devido às várias críticas que o mesmo fez ao partido por meio da “imprensa desta capital”, causando uma “atmosphera de incompatibilidades que difficilmente desaparecerá”. O presidente do Brasil solicitou ao Partido Democrata que como parte do acordo apoiassem o nome de Leopoldo de Bulhões para o senado, mas os correligionários de Ayres se recusaram a esse pedido, alegando que isso seria fortalecer a oposição e enfraquecê-los junto ao 365 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. Goiânia: Cânone Editorial, 2005. p. 74. 366 O acordo previa o apoio dos dois partidos a João Alvez de Castro para o cargo de presidente, e o de um representante do Partido Democrata para o cargo de primeiro vice-presidente, e outros dois do Partido Republicano para os cargos de segundo e terceiro vice-presidente. Outro item do acordo foi reconhecer alguns candidatos do Partido Republicano como deputados estaduais. 367 O Imparcial. Rio de Janeiro, 11/01/1917. p. 5. 180 eleitorado. De qualquer maneira o acordo foi mantido, mas não sem manifestação de contrariedade, conforme ponderou o político portuense, embora o “modus vivendi”, o acordo, fosse vexatório para o Partido Democrata, a que pertenço, e nos desse mesmo o desprazer de vermos reconhecidos na câmara estadoal patrícios que em absoluto não foram eleitos, ainda assim estamos satisfeitos, porque a frente do governo se encontra um homem de bem, correcto, digno entre os mais dignos, conhecedor profundo de nossas necessidades múltiplas e dotado da melhor boa vontade em prol da terra que lhe foi berço. 368 O nome de Francisco Ayres foi preterido para o cargo da primeira vice- presidência do estado naquele ano, mas esse episódio elucida como não se desligou da dinâmica política goiana e mesmo na imprensa carioca foi chamado a tratar sobre as questões da “sua terra”. Ao fazê-lo seu discurso passa invariavelmente pela questão da necessidade de desenvolvimento do Estado, a ideia do suposto atraso goiano fez parte do argumento de Ayres para quase todos os assuntos, seja para depreciar um adversário ou enaltecer seus correligionários, colocando-se como a melhor alternativa para mudar aquela situação raras vezes negada. O “atraso” e a possibilidade de “evoluir” foi o argumento mais explorado em torno das disputas políticas. Na mesma entrevista ainda tratando sobre o acordo entre os partidos e criticando Leopoldo de Bulhões, pode-se perceber como o deputado portuense atribui a responsabilidade do atraso aos seus adversários e ao passado que deveria ser negado, tendo em vista um futuro próspero associado aos seus aliados, apresentados como os verdadeiros combatentes pelo progresso. Sobre Bulhões afirma “que o estadista goyano cogita de todas as cousas menos de goyaz. É bem de ver que se S. S. dedicasse um pouquinho de sua preciosa atenção á terra que foi berço e que o tem sustentado e a sua numerosa parentela, durante décadas a fio, bem outras seriam as condições de prosperidade do longínquo e atrasado Estado central”.369 O estado que, apesar de “Central é longínquo”, em outras palavras longe dos grandes centros modernos, deixaria essa condição no que dependesse dos representantes políticos do partido Democrata, pois “patriotismo, desejo ardente de ver nossa terra evoluir, honestidade, póde ficar certo, são requisitos que não faltam aos governos”. Mas a justificativa do fracasso em relação à distância do futuro desejado está sempre fora de quem produz o discurso, no caso de Ayres, no governo federal que não dispensa a 368 Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29/09/1917. p.1. 369 Ibdem. 181 devida atenção ao seu Estado, sobretudo se comparado a outros. Ele diz, “Praza aos ceos que o Governo da República volva suas vistas para Goyaz e prodigalise-nos um ceitil ao menos dos muitos favores que soe distribuir para as demais unidades da federação e em breve o estado central prosperará francamente”. O deputado de Porto Nacional, representante de Goiás no parlamento federal, seguiu sua rotina de viagens entre o litoral e o interior do estado central. Durante esse período fez também uma viagem, além das convencionais, no paquete Nacional Caxias com destino a Nova York e escalas, conforme deu nota o Correio da Manhã. 370 Provavelmente foi para Nova York, uma das principais referências de cidade na América naquele período, especialmente pelos seus edifícios verticalizados, os famosos arranha-céus. Dentre as inúmeras excursões feitas por Ayres nesse período, todas como viajante de primeira classe nos principais paquetes, algumas se tornaram assunto para os adversários tecerem suas críticas. Como fez o periódico O Jornal, um declarado opositor ao Partido Democrata e seus membros, usado em várias ocasiões para desprestigiar os governantes da situação como mentores da desordem, da fraude e da violência, repressores da liberdade. Segundo O Jornal, sob o título três clandestinos impedidos no Acre, Ayres figura como infrator ao lado de outros dois, “por terem viajado clandestinamente no paquete “acre”, a polícia maritma impediu o desembarque dos nacionais Manoel Narciso Santos, Fidelis Felix Santos e Francisco Ayres Silva”.371 Quando estava no Rio de Janeiro para cumprir seus deveres como deputado ficava hospedado no Grande Hotel, situado na Lapa. 372 Foi alvo de acusações inclusive em suas passagens por esse estabelecimento, conforme se percebe numa carta escrita pelo responsável do estabelecimento direcionada a Francisco Ayres. Escrita a pedido do próprio portuense para obter testemunho contra as acusações que recebeu. Na carta, em defesa de Ayres contra a acusação de estar envolvido num incidente desenrolado no hotel, firmou-se que o mesmo sempre se conduziu como “cavalheiro de fina educação e hábitos irrepreensíveis”, prestando serviços médicos, quando necessário, aos hospedes e funcionários. Não foi possível verificar os detalhes do incidente em que estaria envolvido, mas foi defendida a ideia de que “absolutamente inverídica é a narrativa (...) de um incidente que lhe é attribuido naturalmente por pessoa desaffecta e injusta”.373 370 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 22/07/1922. p.7. 371 O Jornal. Rio de Janeiro, 30/01/1920. p.4. 372 Almanak Laemmert: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1926. Rio de Janeiro, 1926. p. 19. 373 Carta escrita por Garcia Campus, no Rio de Janeiro, enviada para Francisco Ayres da Silva em Porto 182 Participou da comissão de Tomada de Contas para controlar as contas do governo, interessante observar que a despeito de sua formação em medicina, atuação como jornalista ou as outras áreas em que atuou no âmbito estadual como na educação, foi inserido numa área que destoa de tudo que havia feito até então. Poderia ter participado, por exemplo, da comissão de Saúde Pública dentre outras que se enquadram mais ao seu perfil, no entanto, sua condição de médico na capital em meio aos seus pares não foi levada em consideração. Por isso, foi na Tomada de Contas que se inseriu ou foi inserido. Por outro lado estar nessa comissão poderia ser uma posição estratégica para se obter informações mais consistentes, para sustentar os argumentos sobre os poucos gastos do governo com o estado goiano, em relação a outras unidades da federação. 374 Nos primeiros anos da década de 1920 chegou ao ápice da sua carreira política, sendo eleito primeiro vice-presidente do estado do presidente Eugenio Rodriguez Martins, durante o período de julho de 1921 a julho de 1923. 375 A Revista Illustração Brasileira, em edição especial de comemoração ao centenário da independência do Brasil, publicou foto dos representantes políticos de todos os estados no Congresso Nacional, inclusive da bancada goiana. Lá estava Ayres, embora em posição de menor destaque em relação aos outros fotografados, mas entre os homens mais poderosos do estado de Goiás na época. Conforme se vê na imagem abaixo: Nacional, em 23/11/1922. 374 O Paiz. Rio de Janeiro, 12/05/1922. p.5. 375 Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 31/03/1921. p.8. A proposito das ultimas eleições realizadas em goyaz, o sr. Dr. Alves de castro, presidente daquele estado, enviou ao senhor dr. Washington Luiz o seguinte telegrama: “tenho a honra de comunicar a v. ex. que nas eleições realizadas no dia 2 do corrente, para presidente e vice presidente do estado (...) foram eleitos meus competidores, o sr. Senador Eugenio Rodrigues Jardim, presidente, e os srs. Deputados Francisco Ayres da Silva, Miguel da Rocha Lima e Pedro Nunes da Silva, vice presidente. Attenciosas saudações. Alves de Castro, presidente do estado. 183 FIGURA 4: Bancada Goiana no Congresso Nacional. 376 FONTE: Revista Illustração Brasileira. Rio de Janeiro, n.28, 25/12/1922, não paginado. 376 Da esquerda para a direita: Olegário Pinto, Ramos Caiado, Hermenegildo de Moraes, Americano do Brasil, Napoleão Gomes, Ayres da Silva e Joviano de Castro. A bancada goiana era composta por três senadores e quatro deputados. 184 Em 1925, um episódio marca a história de Goiás, em particular a história de Porto Nacional, trata-se da passagem da “Columna Revolucionária”, que saiu de São Paulo e passou pelo estado goiano, dentre outras cidades passou também pela portuense, numa estratégia tática de guerra de movimento liderada por Gl. Miguel Costa, Coronel Luiz Carlos Prestes e Tte cl. Juarez Távora. O episódio foi alvo de muitos comentários mesmo antes de acontecer efetivamente, os rumores sobre a passagem da coluna causou agitação em Porto Nacional e manifestação da folha local e/ou regional. O jornal Norte de Goyaz no mês anterior criou suas imagens sobre o movimento, denominando-os de “Columna dos revoltosos”. Aproximadamente no final de Junho a coluna saiu dos limites de Mato Grosso e entrou em Goiás na cidade de Mineiros, passando o primeiro aniversário da revolução em Rio Bonito, no dia 5 de Julho, em seguida passou por Santa Luzia em direção a Anápolis, após alguns combates seguiu para Minas Gerais na cidade de S. Romão margem esquerda do Rio São Francisco, e no Estado de Minas a coluna ficou quase todo mês de agosto. No início de setembro entrou na Bahia e logo retornou para Goiás, pela villa de Riachão, seguindo paras villas de Posse, S. Domingos, Arrayas e Conceição, logo em seguida entrou em conflito com a polícia goiana entrincheirada dentro da villa de S. Maria de Taguatinga. No início de Outubro ocupou a cidade de Natividade. No dia 16 do mesmo mês entrou em Porto Nacional, em 28 ocupou a villa de Piabanha, depois entrou em Pedro Affonso e de lá partiu para Carolina do Maranhão, onde chegou ou planejou chegar no dia 15 de novembro, ou seja, no trigésimo sexto aniversário da República, sendo recebidos com “as maiores sympathias pelo povo sertanejo”, conforme registrou o cap. Secretário das forças revolucionárias Lourenço Moreira Lima, sob o título Campanha Goyaz, Minas e Bahia, no oitavo número do órgão da revolução intitulado O Libertador – liberdade ou morte, produzido na cidade de Carolina. 377 Enquanto a Coluna se movimentava pelo estado de Minas Gerais, o jornal Norte Goyaz se mostrou apreensivo pelos rumores da passagem da mesma pelo sul do estado, aparentemente com informações soltas e imprecisas. Temendo principalmente que o movimento chegasse até a capital do estado goiano, os jornalistas portuenses já qualificavam negativamente os chamados “fatos lamentáveis”, provocados pelos 377 O Libertador. Carolina-MA, 19/11/1925. p.3. 185 “invasores que vieram quebrar a quietude do nosso povo”. Ainda sem maiores detalhes do que se passou no sul do estado, o periódico afirmou: “não queremos crer nos boatos terroristas, mesmo porque não está em nossa leitura sermos o echo, ainda que amortecido, do derrotismo valoroso de nossa gente que se não deixara vencer, sem antes tenha sido esmagada”.378 O periódico portuense convoca os moradores para o possível confronto, fazendo um alerta para todos se prepararem, armando-se para o combate que se aproximava, sempre reafirmando a bravura sertaneja. Ao que parece, essa foi uma tentativa de fazer o jornal chegar até a coluna, com o objetivo de colocar temor nos seus integrantes para que optassem por outro caminho, evitando passar por Porto Nacional. Em outras palavras, tentaram produzir a ideia de que o norte de Goiás seria um obstáculo difícil de transpor. Inclusive o plano esboçado pelo jornal era se antecipar e interceptar a coluna ainda no sul do estado, o norte aparece como uma unidade pronta e preparada para o conflito eminente. “Todos nós perguntamos e desejamos saber do que há, porque é justo nos apparelhemos para a luta, organizando mesmo se possível um corpo de voluntários para socorrer o sul”.379 Ao receberem notícias sobre a passagem da coluna em Santa Luzia, Crystalina, Planaltina e Formosa, passando ao largo da capital, mas em direção a Minas, o jornal deu mais um alerta direcionado muito mais para a Coluna do que propriamente para os nortenses, “a brava e correcta 4ª. Companhia está vigilante prevenindo qualquer incursão para o norte, caso pretendam vir até nós”. E conclui, é “boa e azada ocasião de mostrarmos o nosso patriotismo envergonhado (...) empunhando as armas da legalidade para defendermos a santa cousa da nossa terra”.380 Como é próprio da maior parte dos hebdomadários, no mesmo número do jornal se publicou textos como se tivessem pouca ou nenhuma informação e outros textos demonstrando que estavam a par da movimentação da coluna. Ou seja, nesse espaço de tempo receberam informações consideradas oficiais e não oficiais, que naquela altura os fizeram crer que a coluna não seguiria mais por Goiás. Observe como trataram o caso sob o título de as Ultimas Notícias, já mencionando um enfraquecimento das tropas revolucionárias após a passagem pelo sul do estado, 378 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 31/08/1925. p.1 379 Ibdem. 380 Ibdem. 186 prometemos dar logo nos chegassem de fonte autorizada, noticias minuciosas sobre os acontecimentos que nos tem trazido preoccupados relativamente a invasão de nosso território pelos remanescentes dos revoltosos de São Paulo. De facto a coluna que penetrou Goyaz pela cidade de Mineiros e saqueou nem só esta prospera localidade como a de Jatahy, Rio Bonito, Rio Verde, Palmeira, Anicuns, Cochoeira, Aldeia, Itaberahy, Annapolis, não enfrentou, porem a columna do Senador Caiado que guarnecia a estrada da capital, pela quinta motivo que o fez ficar ilesa do ataque e suas consequências. (...) as forças goyanas não chegaram a bater com os revoltosos e a capital estava porem apparelhada para vence-los (...) sabíamos de antemão que os invasores evitariam a luta, somente alcançando inermes, indefesas populações que se viram espoliadas de seus haveres (...) 381 No número seguinte o Norte de Goyaz, citando como fonte o jornal O Democrata, informa que não há mais nenhum motivo para receio ou temor, pois a ordem no estado estava estabelecida porque o território goiano “se expurgou da onda de ripusteiros que o atravessou”, e afirmaram não haver menção de roubos e depredações conforme as notícias que chegaram até Porto Nacional, ou pelo menos não foi encontrado nada nesse sentido que merecesse menção, segundo o jornal da capital. Certamente houve apropriações do movimento revolucionário em Goiás, mas como acreditavam que a coluna não voltaria, criou-se uma narrativa para apresentar a força do povo goiano e dos seus administradores, disseminando a ideia de que não esmoreceram frente àquelas tropas consideradas como inimigas da nação. Não mencionar os detalhes da passagem foi uma maneira de enaltecer os representantes estaduais que, segundo o jornal, impuseram à coluna uma retirada forçada, “atemorizados das hostes goyanas patrióticas”. Especialmente a figura de Miguel Rocha Lima, que foi evidenciado como o principal defensor da ordem, naquele momento recém-empossado presidente do Estado. 382 Paralelo à manifestação do Norte de Goiaz, a coluna havia retornado ao estado goiano, na divisa com a Bahia e seguia em direção ao norte durante quase todo mês de setembro. No segundo número do jornal, naquele mês, nenhuma informação foi dada em relação ao movimento, embora provavelmente já tivesse conhecimento que as tropas se direcionavam rumo a Natividade. O jornal deu destaque para os vinte anos de existência da folha, sem nenhuma interrupção, evidenciando o importante papel de Francisco Ayres da Silva, e comentou sobre a disputa eleitoral para presidência do país 381 Ibdem. p.2 382 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1925. p.1. 187 que seria disputada em breve entre o representante paulista Washington Luiz e o mineiro Mello Vianna. Aquele seria o último exemplar do jornal Norte de Goyaz antes da primeira pausa que durou mais de 10 anos de interrupção, só retornando às atividades em 1936. A Coluna chegou a Porto Nacional depois de ter passado em Natividade, no dia 16 de outubro de 1925. Nenhuma oposição encontrou na cidade portuense por parte dos seus moradores, que definitivamente não foram pegos de surpresa, conforme pontua Frei Audrin. O Dominicano temendo o pior se antecipou, comunicando por meio de carta com a liderança da Coluna, especialmente com o General Miguel Costa, colocando toda a estrutura pertencente aos dominicanos à disposição das tropas. Após algumas cartas trocadas entre o líder religioso e os revolucionários ficou estabelecida uma espécie de acordo de que nada de mau aconteceria contra a população, que ficou um pouco mais tranquilizada, embora muitos portuenses tenham batido em retirada, visto que antes desse contato a população estava temorosa em função das várias notícias de horror que chegaram à cidade por meio de fugitivos de outros lugares por onde as tropas já haviam passado. Em Porto Nacional, a coluna se assentou por pouco mais de uma semana, segundo os relatos construídos desse episódio, houve uma boa interação entre os integrantes da coluna e a população portuense. A cidade por aqueles dias ficou movimentada, segundo Audrin, eles participaram das atividades religiosas e se refrescaram no Tocantins, deixando os espaços nos arredores da Catedral Nossa Senhora das Mercês bastante concorrido. O que é perceptível inclusive pela forma como a campanha foi narrada no periódico da revolução, pois nas cidades em que as tropas sofreram resistência, como Natividade, o termo utilizado é “ocupação”, mas nas cidades em que foram recebidas sem resistência, como Porto Nacional, o termo utilizado é “entrada”. Segundo José Mendonça Telles, que escreveu sobre o assunto para o Suplemento Cultural do Jornal O Popular, houve inclusive uma tentativa por parte do religioso de propor uma mediação entre a coluna e o governo federal. 383 Essa versão também aparece no jornal Politika, ambos os relatos apresentando cartas trocadas entre os líderes da coluna e Frei José M. Audrin. Como exemplo segue o trecho abaixo, em que o religioso narra décadas depois a pretensão de conciliação dos revolucionários, que não chegou a se efetivar. 383 O Popular. Goiânia, 02/12/[197-?]. Não paginado. 188 Através das conversas e confidências fácil nos era perceber que de bom grado aceitariam a solução providencial que viria por um termo honroso às suas insanas pelejas. E disso convictos ficamos quando reunidos conosco à noite, pediram-nos servir-lhes de intermediários junto ao presidente da república. (...) deliberou-se, então, escolher três nomes de personagens influentes capazes de aceitarem e desempenharem o papel de interventores no Rio. Apresentamos, pois, os nomes de Dom Sebastião Leme, coadjutor do Cardeal Arcoverde, de Dom Miguel Kruse, abade beneditino de São Paulo e amigo pessoal do Gl. Miguel Costa, do dr Francisco Ayres da Silva, deputado federal por Goiás e filho de Porto Nacional. 384 O diálogo que culminou com a análise de uma possibilidade de conciliação parece mais uma tentativa de assinalar que em Porto Nacional a passagem da coluna foi positiva e harmoniosa, oportunidade para “descanso físico e espiritual”, um dentre os muitos relatos de situações que conferiram sensibilidade, humanidade e uma imagem heroificada dos líderes da revolução, sobretudo de Prestes, que posteriormente deu nome à coluna, do que propriamente demonstrar interesse efetivo em colocar fim no projeto almejado por eles. A maneira como Frei Audrin tratou o fato e reelaborou a memória sobre o mesmo serviu para enaltecimento mútuo tanto dos revolucionários como da sua própria figura. O nome de Francisco Ayres da Silva apareceu então como nome influente que poderia mediar a improvável conciliação, o que seria pouco presumível já que Ayres como político representava justamente o que a coluna revolucionária condenava e vice-versa. 385 Como se observa pelo O Libertador, as tropas revolucionárias lutavam pela democracia que para eles “foi substituída por um conjunto reduzido de autocratas”, contra as manipulações eleitorais em que “o voto é uma farça e a soberania das urnas é uma convenção facultativa e vaga”, contra a justiça que estava em vigor “nem é cega, nem enxerga bem”, baseada numa lei que é “trapo”, colocavam´se contra a 384 Politika. Rio de Janeiro, 7-13/02/1972. p.16. Esse seria um relato construído a partir de correspondências escritas aproximadamente em 22/10/1925. 385 As memórias construídas sobre a presença da denominada Coluna Prestes em Porto Nacional carecem de análises mais minuciosas. Ponderando especialmente o lugar social e político de quem narra e o momento em que as narrativas foram construídas, em outras palavras, a disputa em torno dessa memória ainda é viva e produz efeitos. Pode, ou melhor, deve ser objeto para investigação, excelente ponto de partida para construção de uma tese. Principalmente se considerarmos que na década de 1980 circulou um periódico, produzido em Porto Nacional, intitulado O libertador, fazendo clara referência ao órgão da coluna revolucionária de 1925, e que se colocava em defesa da criação do Estado do Tocantins, utilizando inclusive uma citação “o povo que não tem energia para conquistar e defender a liberdade não merece viver” O libertador 10/10/1925. Ou ainda o fato de que atualmente existe em Palmas, junto ao centro administrativo, lugar visível e estratégico da capital do Tocantins, o chamado Memorial da Coluna Prestes. 189 administração que para eles era “um descalabro”, especialmente no que diz respeito aos impostos “uma indústria lucrativa mas vergonhosa (...) para enriquecer os políticos sem escrúpulos”.386 Ou seja, lutavam contra tudo, ou quase tudo aquilo que Ayres defendia como situação no governo, contra a máquina que o beneficiava e o mantinha juntamente com seu grupo na hegemonia política. Não foi por acaso que Francisco Ayres da Silva não estava em Porto Nacional por ocasião da passagem da coluna. Nem mesmo seu irmão João Ayres Joca, que na época havia acabado de renunciar, por motivos particulares, ao cargo de deputado estadual. Possivelmente com os rumores de que as forças revolucionárias estavam se dirigindo para Porto Nacional, procuraram meios para se protegerem diante da ameaça eminente, principalmente devido à maneira como foram qualificados os “revoltosos de São Paulo” nas últimas edições do ano de 1925.387 O período em que a Coluna esteve na cidade portuense não foi nada agradável aos seus líderes políticos. Segundo José Mendonça Teles, com base nas memórias de Frei Audrin e Joao Alberto de Lins de Barro, a Tipografia Nortense foi empastelada pelo movimento que nela publicou o número 7 do periódico da revolução, além das apropriações feitas nas propriedades dos responsáveis pelo jornal, inclusive da Biblioteca de Francisco Ayres. Não se sabe ao certo se a tipografia foi empastelada ou não pela Coluna, mas a principal evidência é o início da longa pausa do jornal Norte de Goyaz, que coincide exatamente com a passagem da coluna por Porto Nacional. Enfim, ainda há muito que pesquisar sobre a presença da coluna no Norte do país, e sobre as disputas, construções e usos da memória sobre esse fato na história do Tocantins, todavia não é esse o propósito deste estudo. 388 Contudo, faz-se necessário destacar a maneira como Francisco Ayres por meio do Norte de Goyaz se aproveitou desse 386 Segundo o veículo de comunicação usado pela Coluna, todas as ações promovidas por onde passaram não tinham o objetivo de prejudicar ninguém, os saques eram justificados pelo objetivo ao qual acreditavam lutar. Falavam inclusive em futuro ressarcimento dos prejuízos causado por eles. Sua liderança, inspirada na máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios, afirmava que: “o alto fim que nos guia – o bem supremo da pátria e o restabelecimento da democracia e da liberdade – justifica meios que pomos em prática para a manutenção das forças revolucionarias. Ninguém deixara de receber as importâncias relativas aos bens com que tiver concorrido para a revolução.” O Libertador. Carolina-MA. 19/09/1925. p.1- 4. 387 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1925. p.2. 388 Para saber mais sobre ver: AMADO, Jorge. O Cavaleiro da Esperança: a vida de Luiz Carlos Prestes. Rio de Janeiro: Editora Record, 1987.; LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes: marchas e combates. São Paulo: Alfa-Omega, 1979.; PRESTES, Anita Leocadia. A Coluna Prestes. São Paulo: Brasiliense, 1990.; AUDRIN, Frei José M. Entre sertanejos e índios do norte. Rio de janeiro: Editora Púgil – Livraria Agir Editora, 1946.;BARROS, João Alberto Lins de. Memórias de um revolucionário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1954. TAVORA, Juarez. Uma vida e muitas lutas. Rio de Janeiro: josé Olimpio, 1973.; RODRIGUES, José Lopes. Natividade: Fragmentos do Passado: Goiânia, 1978.; MACULSEY, Neil. A Coluna Prestes. Rio de Janeiro: Difel, 1977. 190 episódio para reafirmar seu desejo de integralizar Porto Nacional ao estado e ao litoral através de vias de comunicação e transporte, ou seja, seu projeto de modernização para a cidade que expressa parte da sua concepção sobre o moderno. Quando ainda eram incertos os rumos que a Coluna Revolucionária seguiria, ou o que havia acontecido por ocasião da sua passagem pelo Sul do Estado, Ayres se aproveita dessa situação limite, e ausência de informações oficiais, para demonstrar como o estado necessita que o norte adquira os elementos de modernidade e progresso. Nesse caso, de “estradas e meios de communicação fáceis”, pois na opinião do jornalista somente em posse dos mesmos se poderia administrar de forma eficiente e efetiva o Estado, passando a ideia de que se tais recursos fossem uma realidade estariam a par da situação no sul para tomarem as providências cabíveis em defesa do estado contra os invasores. Ayres faz questão de evidenciar a carência de recursos que tornavam Porto Nacional isolada de outros pontos do Estado. “Sem o correio; falho de qualquer noticia que mereça referencia (...) o telegrapho distante mais cem léguas, qualquer que seja a estação: Carolina, Barreiras ou S. José do Tocantins nada podemos dizer, aguardamos noticias para escrever a verdade e só a verdade.” A carência de estradas e outros meios de comunicação foi tema exaustivamente abordado pelo periódico, mas dessa vez repetido como demonstração prática dos benefícios e possibilidades que podem proporcionar, e dos malefícios que sua falta causa. Na maneira como elaborou seu discurso uma boa administração só é possível com “estradas e mais estradas”, item de necessidade básica para qualquer cidade. 389 Não ficou apenas nos meios de comunicação, outro elemento destacado por ele foi o valor da técnica, colocado como determinante para o sucesso ou o fracasso. Ao escrever sobre o possível confronto com a coluna, afirma a bravura do sertanejo, mas a coloca como segundo plano, principalmente porque num contexto pós Primeira Grande Guerra Mundial, já estava ciente das inovações tecnológicas em todos os aspectos, em específico no campo bélico e as demonstrações do poder de destruição e força das mesmas. Ayres incita os bravos sertanejos a se prepararem, ou seja, a se aparelharem para a luta chamando a atenção para o fato de que “hoje a guerra seja mais uma questão de téchnica que propriamente de valor individual”.390 No conjunto das proposições de Ayres, por meio de seu hebdomadário, os nortenses são considerados como povo 389 Norte de Goyaz. Rio de Janeiro, 31/08/1925. p.1 390 Ibdem. 191 valoroso, aguerrido, com ampla capacidade e potencialidade para os mais diversos empreendimentos, salvo raras exceções. Povo limitado apenas pelo pouco acesso às novas tecnologias e demais expressões materiais da modernidade. O Norte de Goyaz aproveitou os temores diante da possibilidade de “invasão” da Coluna, muito mais para apresentar aquilo que seus fundadores acreditavam ser as necessidades da região, acentuando a sensação de descompasso em relação a outros lugares considerados mais próximos do que compreendiam como civilização, do que para organizar efetivamente uma resistência ao movimento. 2.6 SOCIEDADE, CULTURA E MODERNIDADE NA BIOGRAFIA DE FRANCISCO AYRES A vida de Francisco Ayres da Silva se dividiu entre o Rio de Janeiro e Porto Nacional, mais na segunda que na primeira. Independente de onde estivesse seu nome foi lembrado na imprensa carioca, como era comum em relação às figuras públicas da política, assim, os periódicos acompanharam sua vida social, viagens, aniversários participações em velórios, casamentos e demais eventos. Enfim, o nome de Ayres se tornou após alguns anos como deputado federal relativamente conhecido na capital do país. Como sugere O Paiz, um dos jornais de maior tiragem e circulação da América do Sul, que noticiou o aniversário do portuense da seguinte maneira, “passa nesta data o aniversario natalício do deputado Francisco Ayres da Silva, representante de Goyaz na Câmara da República. S. Ex. terá hoje o seu nome largamente lembrado, tão extenso é o número dos seus amigos e admiradores na sociedade”.391 Como representante de Goiás foi convidado a dar opinião e informações sobre o Estado em diversos periódicos. Nesse sentido, a aproximação da região central do Brasil com o litoral não se deu apenas como o desejo de levar o litoral ao seu torrão natal, mas também, por meio da imprensa principalmente, levar seu Estado até o litoral, com o objetivo de torná-lo (re)conhecido. Nas primeiras décadas do século XX, auxiliou direta ou indiretamente vários projetos oficiais e não oficiais que visavam conhecer melhor as características do centro oeste brasileiro e passaram por Goiás. Como as expedições científicas realizadas por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, expedições técnicas como a responsável pelos estudos do prolongamento de uma linha da Estrada de Ferro Central do Brasil que ligaria o centro do país à cidade de Belém do Pará, e expedições que avaliaram as 391 O Paiz. Rio de Janeiro, 12/09/1928. p.5 192 possibilidades de navegabilidade dos rios Tocantins e Araguaia. 392 Sob ele se depositou boa parte das expectativas de uma “nova civilização na zona nortense”, através do contato rápido e direto com outras localidades e povos através dos rápidos meios de comunicação. Como defendeu um nortense, por sobrenome Propheta, assim que Ayres se tornou deputado, em tom de profecia, ele “deverá pugnar, com a dedicação que o caracteriza, pela solução do problema da desobstrução tocantina, alcançando o devido auxilio federal, para a realização deste empreendimento, tão útil como urgente”.393 Por meio de entrevistas em importantes jornais e revistas do Rio de Janeiro, Ayres comentou sobre a necessidade de integrar Goiás ao litoral do país. Seja pela desobstrução dos seus rios para navegação de grandes embarcações a vapor, seja pela construção de vias férreas, ou pela criação de estradas. A imagem de que o “estado central” era “longínquo, abandonado e segregado do resto do país” foi construída sobre o discurso da falta dos “rápidos meios de comunicação”, ou seja, o “problema dos transportes sob a pendencia do qual se encontram todos os outros, desde o sanitário de permeio com o da instrução ate os da lavoura”.394 Essa foi a principal bandeira defendida por Ayres, e/ou a que ele quis demonstrar ser a luta de seu total interesse. Para ele solucionado o problema dos transportes todos os outros se resolveriam, logo invertendo essa lógica, todos os problemas enfrentados em Goiás eram decorrentes da carência de transportes rápidos, que impedia ou dificultava a inserção do estado na esteira do progresso. 392 Sobre isso ver: FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ; CASA OSWALDO CRUZ. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições cientificas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: FIO CRUZ/Casa Oswaldo Cruz, 1991. p.11-18.; Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1911.p.1; A Rua. Rio de Janeiro, 17/05/1920.p. 4. 393 O Paiz. Rio de Janeiro, 1/08/1914. p.6. 394 Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29/09/1917. p.1. 193 FIGURA 5: Entrevista de Francisco Ayres da Silva para Gazeta de Notícias. (Fotografia e entrevista na coluna central, com o título Política de Goyaz). FONTE: Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29/09/1917. p.1. Com raras e pontuais exceções a demanda por maior integração de Goiás, seja por qual via for, foi sempre apresentada por ele com uma perspectiva otimista em relação ao futuro, construindo a visão de um estado com todo potencial natural e humano necessário para progredir a ponto de se projetar como uma das principais unidades da federação, que mesmo diante da ausência dos recursos modernos e modernizantes já dava provas do seu valor e potencial. Quase sempre otimista ou se mostrando otimista no que diz respeito às possibilidades futuras, a responsabilidade do fracasso presente é sempre atribuída à má administração dos gestores do passado, ou seja, dos adversários políticos que administraram anteriormente. Ou atribuída ao governo federal que não dão a devida atenção a Goiás, na opinião de Ayres, sempre preterido, independente dos esforços dos representantes goianos. Mas enquanto Ayres esteve no poder cuidou da manutenção desse discurso, renovando as expectativas, colocando-se como melhor alternativa para alcançá-las e justificando as decepções que 194 passam ao largo de si e de sua atuação. Segundo a revista A Política, com base na entrevista dada por Francisco Ayres na Gazeta de Notícias, Goyaz sempre esquecido dos poderes públicos, tem até hoje vivido à custa dos seus próprios esforços sem o menor auxilio da união (...) o trabalho dos seus representantes goyanos no congresso não é compensado, porque o governo não executa os projectos convertidos em lei e as emendas aprovadas nos orçamentos nunca são effectivados. Goyaz tem sido sempre um filho engeitado da união. [...] a severa fiscalização dos portos onde são exportados os produtos goyanos e especialmente o gado, que é a principal fonte de renda do Estado, muito tem contribuído para a florescência em que se acham as finanças de Goyaz [...] vê-se por ahi, que o futuroso Estado do centro, apezar do abandono em que tem vivido por parte do governo federal e das agitações políticas que o tem abalado, agitações que, felizmente, parecem terminadas, vae realizando uma obra segura de reconstrução econômico-financeira, tirando todo partido de seu solo privilegiado. 395 Goiás como filho enjeitado da união foi uma imagem largamente explorada pelos políticos goianos nesse período, mas, ao mesmo tempo em que enjeitado se mantinha como filho, a expressão de sempre “tem sido”, no pretérito perfeito composto, exprime um fato do passado repetido ou contínuo até o presente, que associado à ideia de “futuroso Estado do centro” parece sugerir que em breve deixaria de ser. Principalmente, se considerar que naquele momento foram colocados em destaque os representantes recém-eleitos por Goiás, dentre os quais o próprio Francisco Ayres que partia para seu segundo mandato. A importante figura política de Porto Nacional não foi apenas um construtor de expectativas, ele também se nutriu das mesmas, acreditou efetivamente na possibilidade de colocar o Norte de Goyaz em sintonia com os grandes centros do país e do mundo. Seus sonhos não foram construídos ao acaso ou absolutamente de forma racional para conquistar capital político e cativar eleitores, a conjuntura lhe ofereceu a matéria prima para construí-los; seus projetos, utópicos ou não, existiram para além do jogo político e foram gestados pela euforia da época. Nesse sentido, foi ao mesmo tempo promotor e receptáculo de desejos e frustrações. Relevante ressaltar que nas oportunidades em que pôde expressar suas convicções, desejos e expectativas nos impressos cariocas não fazia distinção explícita entre as regiões de Goiás, não tratava especificamente sobre o norte ou sul do estado, suas considerações eram feitas pensando o estado como uma unidade, apresentando seus méritos e deméritos, suas vantagens e desvantagens, suas riquezas e carências como 395 A Política. Rio de Janeiro, 09/05/1918. p.11, 16. 195 inerentes ao estado como um todo. Em outras palavras, as necessidades do Norte de Goiás, como a ausência de ferrovia e, principalmente, a navegação a vapor aparecem como necessidades do estado, da mesma maneira as vantagens comerciais do Sul do estado com Minas Gerais, ou as riquezas naturais do Norte. Nesse aspecto, bem diferente da maneira como os mesmos assuntos eram abordados no periódico portuense em que a ideia de divisão do estado por regiões com suas peculiaridades aparece de forma nítida e explícita. No entanto, seu grande projeto consistiu em colocar o Norte de Goyaz, especialmente Porto Nacional, em contado com o moderno e seus chamados melhoramentos, para fazer sua principal zona de influência progredir. Desse contato mais rápido, dinâmico e eficiente, preferencialmente feito através dos rios, dependia todo futuro da região. Por isso, discutiu e defendeu tudo que corroboraria para esse propósito. Segundo Altamiro de Moura Pacheco, conseguiu, além de outros melhoramentos, a “Estação Climatológica e a Estação rádio-telegráfica”.396 O feito mais lembrado na trajetória de Francisco Ayres da Silva se deu nos últimos anos em que ocupou uma cadeira na câmara federal. Quando na virada do ano de 1928 para 1929, através de um projeto pessoal empreendido com recursos próprios, foi para o Rio de Janeiro e de lá voltou para Porto Nacional com os dois primeiros automóveis da região, um Chevrolet e um caminhão Ford. Pode-se dizer que essa façanha foi o mais próximo que conseguiu chegar, em termos de realização efetiva, do seu projeto. 397 Por esse feito, José Mendonça Teles, no discurso de posse para a cadeira da Academia Goiana de Letras, da qual Francisco Ayres é patrono, chamou-o de “violentador do silêncio, um desbravador de ermos, um plantador de civilização”.398 Levar os automóveis significou sua maior demonstração da tentativa de levar a civilização para Porto Nacional. Como se não se tratasse apenas de veículos motorizados, mas da própria civilização materializada. O jornal Correio da Manhã, numa matéria sobre a existência de “babassú” em Goiás, e as formas possíveis de transportá-lo, mencionam parte do resultado do empreendimento realizado por Ayres, “uma estrada recentemente aberta pelo deputado federal dr Francisco Ayres da Silva que, partindo de Formosa do Rio Preto, no estado da Bahia, vae a Porto Nacional”.399 396 PACHECO, Moura de Altamiro. Préfacio. In. Silva, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.11 397 Silva, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. 398 TELES, José Mendonça. Um rio dentro de mim. Goiânia: Oriente, 1979. p.53. 399 Correio da Manhã. Rio de Janiero, 09/10/1929. p.11. 196 Ligação por estrada entre Bahia e Goiás que lhe rendeu uma condecoração no 11º Congresso Pan-americano de estradas de Rodagem. 400 Uma das últimas atividades de Ayres como representante do estado de Goiás na Câmara Federal foi como membro da convenção nacional que se organizou para indicar aos eleitores brasileiros os candidatos para presidência e vice-presidência do país para o mandato de 1930 a 1934. 401 No ano seguinte, em 1930, como já de costume, foi eleito mais uma vez deputado federal por Goiás, contando a seu favor não apenas com a manutenção da hegemonia caiadisda que lhe garantia sempre uma cadeira, mas também com os efeitos da viagem a pouco realizada que levou os automóveis para o Norte, reacendendo as esperanças dos nortenses em relação à resolução dos problemas de transportes. 402 Todavia, dessa vez não foi possível exercer o mandato, devido ao fechamento do Congresso, como desdobramento do Golpe da “Aliança Liberal”, também nomeado de Revolução de 1930. Entendido como golpe ou revolução, dependendo em grande medida de quem, para quem, por que e como se narra, foi um importante fato histórico da política nacional, transformado pela memória dos vencedores do processo em marco periodizador da história da República, que causou resultados em todo o país em diversos aspectos. 403 O cenário político goiano se reorganizou, não se transformou ou revolucionou do ponto de vista de novas propostas e formas de administrar, mas apenas uma mudança ou reconfiguração no controle do poder entre os grupos oligárquicos. O outrora hegemônico Partido Democrata perdeu lugar para os aliancistas, que de oposição se tornaram situação. Francisco Ayres, um dos principais nomes do Partido Democrata, juntamente com o partido, foi passado para o lado dos vencidos, portanto, viu-se fora do primeiro escalão do poder político em Goiás. A forma oligárquica característica da política goiana, no contexto ulterior a 1930, sob o domínio dos políticos ligados à Aliança Liberal, foi remodelada, mas não extinta como os vencedores disseminaram, pregando que essa transição significou a substituição plena de uma mentalidade política ultrapassada, perversa e reacionária por uma absolutamente nova. Ou seja, queriam fazer crer no início de um novo tempo, de uma nova República. Propagandeou-se que a 400 PACHECO, Moura de Altamiro. Op. cit. p.11. 401 O Paiz. Rio de Janeiro, 12/09/1929. p.1. 402 Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19/04/1930.; Diário da Noite. Rio de Janeiro, 12/04/1930. p.9. 403 Para saber mais sobre a construção do fato que nomeou os acontecimentos de 1930 de Revolução de 30, bem como as várias dimensões da memória e do esquecimento da história desse período envolvendo tanto os vencedores como os vencidos, ver: VISENTINI. Carlos Alberto. A teia do fato: uma proposta de estudo sobre a memória histórica. São Paulo: editora hucitec, 1997. 197 “Revolução de 30” representava o fim das oligarquias, com preocupação se tentou desvincular delas, mas não das suas características, mentalidade e interesses que continuaram prevalecendo em Goiás. 404 Colocado à margem do poder político a nível estadual, Francisco Ayres da Silva passou a priorizar a atividade médica e os outros negócios comerciais da família, porém enquanto esteve vivo não deixou de interferir na política local, apoiando, aconselhando e favorecendo os parentes dentre os quais seu genro Totó de Oliveira, casado com Dulce Ayres da Silva, e seu filho Osvaldo Ayres da Silva, ambos herdeiros do seu capital político e social, e que foram prefeitos em Porto Nacional e alcançaram outros importantes cargos políticos. No exercício médico Francisco Ayres recebeu muitas cartas pedindo seus conselhos no tratamento contra enfermidades. Em 1931 teve o nome aprovado como sócio correspondente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, e pôde então intercambiar informações do campo da medicina entre o litoral e sua região. 405 O anúncio da revista Careta sinaliza como mesmo por meio da medicina sua figura foi importante para o contato entre realidades diferentes, um medicamento francês, utilizado e atestado em Goyaz por um médico Goiano e propagandeado no Rio de Janeiro e nos outros lugares onde a Revista circulou. FIGURA 6: Anúncio com o nome de Francisco Ayres na Revista Careta. FONTE: Careta. Rio de Janeiro, 26/03/1932. p. 40. Sem ocupação política, Francisco Ayres da Silva retomou em 1936 com toda 404 Sobre isso ver: SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. Goiânia: Cânone Editorial, 2005. p. 122-158. 405 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 11/11/1931. p.6. 198 força, juntamente com seu filho Milton Ayres da Silva, o Jornal Norte de Goyaz, que a partir de então se tornou um periódico crítico da política varguista, bem como dos seus aliados no estado goiano, ou seja, órgão de oposição ao governo de Getúlio Vargas contra quem afirmava que a “lei era seus caprichos a serviço de suas ambições pelo poder”.406 Nesse sentido, como oposição, mais desprendido das relações de trocas de favores, tratou sobre a falta de transporte, a ligação entre o norte e o sul do país pelo interior, o abandono da região central do Brasil, o progresso de outros estados e a carência e isolamento do norte goiano, entre outros assuntos, desta vez de forma ainda mais intensa e livre, pois não havia mais necessidade de resguardar aliados políticos que não mais estavam no poder, ou se tornaram adversários. Esteve atento a todos os acontecimentos mais significativos que se desenrolaram no país e no mundo, que poderiam ser tomados como exemplo e argumento para negativar o governo brasileiro, indicar a carência do norte goiano em relação aos meios de transporte e à necessidade de obtê-los. Temas exaustivamente tratados sob o pretexto de que não era simplesmente algo benéfico apenas para aquela região do estado, mas para todo o país, pois quanto mais integrado se tornasse maior seria o potencial de progresso e desenvolvimento. Outra atuação do Jornal e do seu redator foi a colaboração na construção da União Democrática Nacional em Goiás, Ayres chegou a ser membro do diretório estadual do partido que fez oposição ao governo de Vargas. 407 O portuense tratando sobre diversos assuntos a nível mundial e nacional, lidos e reproduzidos a partir do filtro das questões locais e regionais, foi um crítico da criação do marco temporal que dividiu a República em velha e nova. Como representante emblemático da política da chamada República Velha se defendeu em relação ao discurso que propagava que a partir de 1930 tudo se fizera novo. Após associar a política de Vargas a um surto de corrupção afirmou, “vê-se bem que as taes republicas novas, novíssimas, nada mais acarretara para o paiz que uma onda de desmoralização interna e externas caracterizadas pelas tintas repetidas”.408 Onde muitos pregavam ruptura e transformação, Ayres reafirma continuidade e estagnação, mudam-se os quadros mais as tintas são repetidas. As necessidades do país, que envolviam diretamente o norte goiano, continuaram as mesmas, como por exemplo, a ligação norte-sul do país pelo interior, através do prolongamento da Estrada de Ferro Central do 406 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/08/1948. p.3. 407 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1948. p.1-2. 408 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1954. p.1. 199 Brasil que pelo planejamento passaria pelo norte goiano até Belém. Sobre isso o Redator do Norte de Goyaz reitera que “até o presente as repúblicas velha, nova ou novíssima de nada cogitaram no tocante ao assumpto (...) tal prolongamento não passou de planos, planos ao sabor da fantasia de quem a elle se reporta”.409 O costumeiro otimismo outrora presente nas observações do Dr. Chiquinho foi substituído por uma perspectiva pouco mais realista, para não dizer pessimista, sobre o futuro do norte goiano. Espécie de estratégia para minimizar a euforia contagiante que se instalou em razão das possibilidades de desenvolvimento atribuídas aos desdobramentos da Revolução de 1930. Rebateu como pôde a ideia de que o governo federal, a partir da reviravolta política que o colocara à margem do poder, havia voltado sua atenção para o Brasil Central. Euforia alimentada principalmente com a expedição de aviadores que na década de 1930 percorreu o interior do Brasil para criar campos de pouso. Um dos integrantes dessa expedição foi Lysias Augusto Rodrigues 410 , aviador carioca que atuou principalmente no norte de Goiás, na criação do Correio Aéreo Militar, “que levariam as povoações isoladas dos sertões a certeza de que o Governo federal procurava ajuda-los, vindo ao seu encontro, reafirmando laços de autoridade que o tempo e a distância haviam enfraquecido paulatinamente ao ultimo ponto”.411 Fazer pousar aviões em Porto Nacional, “como o belo e veloz avião lookeed da F. A. B.”412 e colocar a cidade como rota de navegação aérea, num lugar despreparado até para os automóveis de Francisco Ayres, não é difícil pensar que tal feito causou grande entusiasmo entre os portuenses, associando ao nome de Lysias Rodrigues grandes expectativas que lhe conferiram autoridade para empreender seus projetos na região. Francisco Ayres recebeu bem os aviadores quando chegaram a Porto Nacional 409 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1939. p.1 410 Lysias Augusto Rodrigues – foi um aviador militar carioca, um dos pioneiros do Correio Aéreo Militar, posteriormente denominado CAN (Correio Aéreo Nacional). Patrono da INCAER (Instituto Histórico – Cultural da Aeronáutica), que, designado pelo ministro de Guerra e pelo ministro da aviação, compôs uma expedição que percorreu o interior do país para reconhecer território e implantar campos de pouso, com objetivo de viabilizar a navegação aérea para se executar voos dos grandes centros para a Amazônia, além de uma nova e mais rentável rota para voos entre os Estados Unidos e o cone sul do continente. Foi um dos idealizadores e defensores do projeto de criação do Território Federal do Tocantins, como estratégia para integrar o território nacional, por isso elaborou uma carta geográfica da região e apresentou em 1944 um anteprojeto constitucional com este propósito. Foi muito homenageado no estado do Tocantins, dentre as principais homenagens, está o aeroporto de palmas que foi batizado com seu nome em 2001. Foi autor de obras como Além de “Roteiro do Tocantins” e “Rio dos Tocantins”, “História da Conquista do Ar”, “Geopolítica do Brasil”, “Estrutura Geopolítica da Amazônia”, “Formação da Nacionalidade Brasileira” e “Gaviões de Penacho”. 411 RODRIGUES, Lysias Augusto. Roteiro do Tocantins. Palmas: Alexandre Acampora; INCAER, 2001.p. 18. 412 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 29/02/1944. p.1 200 para conhecerem o território, conforme o próprio Lysias descreve em seu livro. Após visitar a igreja em companhia dos dominicanos se dirigiu para a casa do médico, que segundo ele foi “gentilíssimo conosco”. Pela imprensa acompanhou e narrou toda a movimentação de Lysias, suas entrevistas, discursos e escritos, porém sem grande entusiasmo visto que era crítico do governo responsável pela comissão. Ayres, apesar de concordar com os diagnósticos proferidos por Lysias, em forma de relatórios, que ressaltavam as riquezas do Brasil central, sobretudo da região norte de Goiás, não aproveitados devido à falta de investimento em transportes, divergia quanto à raiz do problema. Para o aviador se tratava do abandono do governo estadual e de todas as outras gestões anteriores do governo federal, exceto a que ele representava, anunciada como o período de um novo tempo. Como ele mesmo afirmou em seu livro, Mas tudo vem a seu tempo! “Deus escreve direito por linhas tortas”. Já não estamos nós aqui estudando a rota aérea do Tocantins? Já não está uma companhia aérea comercial interessada também nessa empreitada? Já não está vitoriosa a revolução? Esperemos confiantes no futuro! A civilização marcha de leste para oeste e sempre que ela precisa dar um salto, reúne esforços. Conjuga estímulos e num dado momento, age. Parece que a civilização, no Brasil, cansou-se de passear pela costa marítima e resolveu prosseguir sua marcha para oeste, adentrando-se por esse Brasil magnífico! Nós, desta comissão somos inconscientes batedores da civilização neste momento, como somos agentes também da unidade política da pátria, visto a obra que projetamos ser o melhor veiculo de civilização e o melhor instrumento de unidade política – a rota aérea! [...] e aqui, nessa ilhota sem nome do Tocantins, sentimos que o movimento político que agitou o Brasil, foi para despertar, preparando-o para que receba de cabeça em pé, o centro da civilização! [...] é o inicio de uma nova era no mundo!... 413 Para Francisco Ayres da Silva nada havia se alterado com o suposto governo que se queria novo, e tudo que Lysias denunciava em suas entrevistas e conferências como o “atraso, falta de instrução, abandono com referencia a estradas navegação, bancos, saúde publica, etc”, ocorria em parte pelos governos goianos, mas em maior parte pelos governos federais, inclusive e principalmente pelo governo varguista. Nesse mesmo sentido, foi um crítico do correio aéreo militar, que na opinião dele funcionava de forma ineficiente e com altocusto para o estado e para as cidades. 414 Para o portuense todos os problemas que o norte de Goiás enfrentava se resumiam em um, a falta de investimentos em meios de transportes, capaz de solucionar todos os outros. E denuncia que nenhum 413 RODRIGUES, Lysias Augusto. Op. cit. p. 176. 414 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1944. p.1. 201 tipo de melhoramento foi realizado pelo governo a não ser por parte de particulares como ele próprio. A própria “viatura liquida” que é o Tocantins, utilizado durante décadas pelos habitantes não teve a desejada atenção por parte do poder público, que para ele se limita “a mandar de quando em quando comissões que mais servem para depreciar nosso esforço do que para incentival-o”. Clara crítica aos comentários de Lysias que desconsiderava a atuação de Ayres no sentido de integrar a região norte ao litoral. 415 Recorrentemente Francisco Ayres fazia questão de mencionar seu histórico de luta em prol do desenvolvimento e progresso da região, forma de chamar a atenção dos seus leitores para perceberem que aquilo que Lysias e seus companheiros estavam apresentando como projeto não era nenhuma novidade, visto que ele mesmo já havia demonstrado por décadas as necessidades da região. Conforme afirmou, “destas colunnas há 22 annos, vimos reclamando, solicitando, lembrando a conveniência de vias de transporte”, tanto para o despertar da economia como para maior controle do governo. Mas, em forma de lamento concluiu que até aquele momento nada havia sido realizado pelos poderes públicos, e os poucos melhoramentos que apareceram foram realizados por iniciativas de particulares, como as estradas que ele mesmo abriu para passar com os automóveis. 416 A mensagem que queria deixar era de indignação, pois acreditava não ser necessária nenhuma comissão dos “homens dos grandes centros” para mencionar o que chamou de as “falhas nosso viver”, pois já estavam mais do que cientes do que seria necessário para mudar o diagnóstico. O que desejava era a aplicação do medicamento, ou seja, investimento em meios de transportes, navegabilidade do Tocantins, ferrovia e rodovias, que integrasse o norte ao sul do Brasil, na sua compreensão, dividido em “dois grandes blocos”. Enquanto Lysias insistia em mostrar os benefícios que a revolução estava levando para o norte, reafirmando a precária condição de outrora com o Império e a República Velha, em oposição aos melhoramentos futuros, Ayres faz o caminho inverso, desconstruindo sempre que possível as considerações do primeiro, citando as conferências e em seguida rebatendo com seus argumentos. Numa dessas ocasiões, por exemplo, Lysias afirmou que a Revolução de 1930 encontrou o norte de Goiás completamente segregado do governo estadual, respirando exclusivamente pelo “pulmão”, Belém do Pará. Note que os grandes centros foram considerados como 415 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/07/1942. p.1. 416 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1938.p.1. 202 lugares de onde emana vida, responsáveis pelo ar que mantinha viva a zona tocantina. Ayres então se coloca contra o coronel carioca, mencionando que os nortenses, apesar das dificuldades, mantinham contato não só com Belém, mas com outros grandes centros, ressaltando que o contato do norte goiano com o centro da civilização não foi obra da revolução. A revolução de 30 não encontrou a zona com um único pulmão como se lhe afigura ao cel Lysias. As populações do norte goiano, abandonadas pelos governos, como temos sempre afirmado, num esforço digno de encômios, si procuravam Belém nem por isso deixavam de frequentar Baia, S. Paulo e mesmo o Rio de Janeiro, através da outra grande artéria que é o rio S. Francisco, que também antigos patriotas acharam, deveria ligar-se, quanto antes, por via férrea, ao Tocantins, a fim de amparar as populações ribeirinhas das duas grandes artérias. Taes iniciativas ideadas em 1875 volveram, todavia, as calendas, em face da política a que aludimos. 417 Todas as expectativas construídas em torno da revolução foram consideradas por Ayres como dignas de serem lançadas às calendas. Na opinião do jornalista a forma de governar beneficiando o sul não havia alterado em nada, pois sempre fez questão de apresentar aos leitores os melhoramentos do rio São Francisco que recebe todos os auxílios, ou os melhoramentos de São Paulo, que para ele havia se tornado referência para o país e para o mundo, o estado “leader da nação”, em detrimento do descaso em relação ao Tocantins e Araguaia e às cidades nortenses que nada recebiam de auxílio. Para o portuense era inadmissível que no “interior do país, em pleno século do automóvel, do radio, da aviação, todo transporte se faz em carros de bois, cavalares, muares”. Por isso, reafirmava que as projeções futuras previstas por Lysias eram como ficção, pois a realidade do norte era outra, já que nem os rios, “as estradas que andam”, eram bem aproveitados e cuidados pelos dirigentes do país, que estariam mais preocupados com construções de cidades e palácios. 418 Interessante observar que para criticar os governos, Francisco Ayres chegou a estabelecer espécie de lista de prioridades envolvendo os elementos da modernização e a transformação urbana das cidades, priorizando as vias de transporte como item básico e outros benefícios como supérfluos ou, no mínimo secundários. Ou seja, denunciou o poder público de se preocupar com o embelezamento das capitais quando muitas cidades ainda careciam do básico, em outras palavras, os meios de transporte. Conforme 417 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1944. p.1. 418 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1937. p.1. 203 observou Eudes Guimarães ao pensar sobre o alto sertão baiano, a ausência de tais empreendimentos, como os meios de transportes, dentre outros elementos considerados modernos, corroboravam para construção da imagem de atraso e abandono, que Ayres fez questão de acentuar para fazer permanecer “a sensação de quase isolamento, sem a possibilidade de interligação e desenvolvimento dos municípios, tampouco de fazer das pequenas cidades do interior um locus ou centro irradiador da energia moderna”.419 Criando uma oposição entre as práticas dos governos adepta à política do embelezamento em detrimento da política de estradas, Francisco Ayres criticava especificamente a mudança da capital de Goiás para a recém-construída Goiânia. Na primeira página do Norte de Goyaz, ao lado de uma nota comentando sobre as festas de inauguração em Goiânia, a mais nova capital no Brasil, o jornalista deixa clara sua indignação da seguinte maneira, “temos vivido até agora a politica do desmancha casas, abatem-se ruas, para fazer surgir arranha ceos e avenidas. É a política do embelezamento das capitaes, em detrimento da politica de estradas e mais estradas seja de que ordem for”.420 Escolheu uma das maiores expressões do moderno na época, ou seja, uma cidade erigida e pensada para se equiparar aos grandes centros do país, símbolo de que o estado de Goiás estava em sintonia com o mundo moderno, para demonstrar uma inversão de prioridades e como o norte era preterido. Acentuou ainda, em tom irônico, que os representantes dos municípios nortenses não apreciaram as grandes festas projetadas por falta de vias de comunicação. A distinção entre norte e sul, especialmente reforçada pela disputa dos melhoramentos modernos, não foi negada por Ayres, pelo contrário, foi um dos principais construtores dessa perspectiva, mesmo não tendo cogitado a separação do estado. Na década de 1940, principalmente, a maior preocupação de Francisco Ayres da Silva foi combater as campanhas pela “Creação do Território Tocantins”, ou seja, pela divisão do estado de Goiás. Um dos principais idealizadores desse projeto, que assumiu total protagonismo na disseminação dessa ideia, embora não fosse um projeto individual, foi Lysias Rodrigues, que com base no diagnóstico tecido pela sua comissão da realidade do norte goiano, de que se tratava de uma região com muitos recursos tanto naturais como humanos, mas que padecia por falta de investimentos já que sempre 419 GUIMARÃES, Eudes Marciel Barros. Um painel com cangalhas e bicicletas: os (des)caminhos da modernidade no alto sertão da Bahia (Caetité, 1910-1930). 2012. 151 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2012. p.115. 420 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1942. p.1. 204 viveu numa situação de completo abandono por parte do governo estadual. A construção de Goiânia, de rodovias e ferrovias ao sul do estado corroborava ainda mais com essa máxima. Foi-se construindo a ideia de que a melhor alternativa para o norte seria deixar de ser espoliada pelo centro-sul, para alcançar o sonhado progresso e desenvolvimento a partir da construção do novo território, que na lida direta com o governo federal, sem a mediação do governo estadual, promoveria o tão construído desejo de “autotransformação e transformação das coisas em redor”.421 Para Francisco Ayres, o projeto de criação do território federal, denominado Tocantins, era um equivoco que complicaria ainda mais a situação do norte goiano. Por isso, referiu-se à pretensão de submeter o estado a uma divisão como uma tentativa de “amputação”.422 Separar o norte goiano seria tornar o estado incompleto e deficiente, já que o estado era visto por ele como uma unidade indivisível. Para além do interesse pessoal e político, na desconstrução dos argumentos de Lysia Rodrigues, “o incansável batalhador pela Creação do Território Tocantins”, sua posição contrária foi justificada pelo entendimento de que a responsabilidade crucial pela ausência de benefícios modernos em Goiás, acentuada no norte, era a omissão do governo federal. Segundo Francisco Ayres, muito proposidamente transcrevemos um longo tópico da conferencia do senr. Coronel Lysias. Temos afirmado d’aqui que si o nosso atraso, si o abandono em que temos vegetado, em parte, cabe os nossos dirigentes do Estado em grande parte também toca ao governo geral de vez que até mesmo ao estado tem sido escassos em seus benefícios, e de que beneficio tem precisado Goiás? Apenas de estradas fossem de que ordem fossem. O prolongamento da E. de Ferro Central do Brasil que os verdadeiros patriotas idealizaram para festejar o centenário de nossa independência, passou a ser um empreendimento utópico, louco, porque ia onerar os cofres da nação (...) si Goiás sofreu o abandono federal, pois que nem mesmo a estrada de ferro que lhe traz o nome tem merecido os avanços necessários, evidentemente a zona norte, a região Tocantins certamente teria de continuar a sofrer como tem-se dado ate agora pois que nem mesmo dos rios que são federaes o governo da república tem cogitado (...) 423 Concordar com os apologistas da separação seria negar sua trajetória de luta política interrompida equivocadamente e reconhecer a vitória da revolução. Por isso o portuense não poupou esforço e colocou o periódico abertamente como instrumento 421 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 15. 422 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1944. p. 1. 423 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/10/1944. p. 1. 205 para negativar o projeto separatista. Interessante observar que a sensação de abandono e de atraso não é negada nem por um, nem por outro, pelo contrário, é reivindicada como problema que carece de solução, ambos se mobilizando para apresentar a solução mais viável, ou mesmo apresentar a melhor saída. A noção de atraso e abandono foi argumento utilizado desde o final do século XIX para múltiplos interesses. Não foi de maneira alguma argumento exclusivo dos separatistas, foi pautado nesse discurso que Ayres obteve suas conquistas políticas. Nesse aspecto, deve-se reconhecer que em nível de norte de Goiás ninguém bateu mais nessa tecla do que o Norte de Goyaz. Um dos argumentos utilizados por Ayres foi a comparação com o estado de Minas Gerais, que mesmo com grande extensão territorial, e com cidades distantes da capital mineira, ainda mais distantes do que as cidades nortenses em relação a Goiânia, o progresso estava presente em toda extensão do estado. Como exemplo dessa afirmativa mencionou a cidade de Uberaba, que apesar de estar afastada de Belo Horizonte era um polo moderno. A explicação para o sucesso de Minas Gerais foi a atenção dispensada pelos governos federais ao Estado, o que não ocorria em relação à Goiás. Para ele, o que torna o norte goiano longínquo e difícil de administrar não era a distância geográfica, mas a falta de meios de transportes modernos. 424 Conforme discorreu Ayres, numa carta rebatendo as críticas que Bastos Morbach fez no jornal A Tarde contra os opositores a criação do território: “se a federação pode transformar o Norte num Eldorado, dando-lhe comunicações e transportes tao logo passe a território, podel-o-á fazer sem que isto aconteça”.425 Com o fim do Estado Novo e a saída de Vargas da presidência da República em 1945, as esperanças de Ayres ressurgiram juntamente com o otimismo de em breve ver o rio Tocantins, a estrada que anda por si, receber melhoramentos como a desobstrução dos trechos encachoeirados para se tornar via de embarcações de grande porte. Principalmente porque para o posto de governador do Estado de Goiás ganhou Jeronimo Coimbra Bueno, candidato da U. D. N., o qual Francisco Ayres apoiava. 426 Nesse cenário político, mais uma vez Ayres se viu impelido a descreditar a nova movimentação com objetivo de criar o Território federal do Tocantins, ainda inspirado nas pretensões proferidas por Lysias Rodrigues, embora não necessariamente ligado a 424 CAAVALCANTE. Maria do Espírito Santo Rosa. Tocantins: o movimento separatista do Norte de Goiás 1821-1988. São Paulo: a. Garibaldi, Editora da UCG, 1999. p. 94. 425 Carta de Francisco Ayres da Silva para Bastos Morbach, Porto Nacional, 08/05/1944. Arquivo particular da Família Ayres. 426 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1948. p.1. 206 sua figura, esse movimento ganha eco na cidade de Pedro Afonso. O periódico Norte de Goyaz, como apoio ao governo do estado, antecipa-se para descaracterizá-lo. Primeiro afirma que a ideia de território tem sido fomentada por gazetas do sul, já supondo a existência de interesses obscuros nessa inciativa, o simples desejo de prejudicar o estado, sob a lógica típica da oposição do quanto pior, melhor. Outro argumento foi considerar que a ideia era oriunda de meia dúzia de adeptos empregados públicos e oficiais da polícia que “o governo estipendia para cavar a ruina do próprio estado”, ou seja, para “fazer mal a terra que os sustenta”. Aponta ainda que dentre os envolvidos na fomentação da ideia está um oficial, com desejo de se tornar governador de território, envolvido em corrupção. O jornalista fez questão de enfatizar que essa pretensão de criar o Território Tocantins se tratava de um movimento isolado e desorganizado que não havia obtido adesões no Norte, portanto, não representava os interesses da totalidade das cidades e população nortenses. 427 A estratégia utilizada foi mais uma vez reivindicar o direito de, pelo periódico, pronunciar-se pelo Norte goiano, ao contrário dos apologistas da separação que na opinião do imprenso nem de longe expressavam o desejo da região já que “tal ideia não chegou ainda a impressionar as zonas do norte goianos e desta como da outra vez não tem conquistado meia dúzia de adeptos”. A única ligação apresentada por ele entre as pretensões de Lysias Rodrigues em 1944 com as de 1948 em Pedro Afonso foi a de partir de um grupo isolado, embora este último se não teve ligação com o primeiro no mínimo buscou nele inspiração. O ataque de Francisco Ayres foi alvo de contra ataque imediato, expresso numa carta dirigida aos responsáveis pelo Norte de Goyaz, assinada respectivamente pelo presidente e secretário do Comitê Central de Propaganda Pró Criação do Território Federal do Tocantins, com sede na cidade de Pedro Afonso. A carta inicia afirmando que o nome do periódico de Francisco Ayres tem nome desacertado, ou como uma forma de afirmar que a terminologia que associa o norte a Goiás não é a mais apropriada, ou então de demonstrar que o periódico não pode falar em nome da região. O Norte de Goyaz foi chamado pejorativamente de “JORNALECO”, por estar proferindo inverdades sobre o comitê e fazendo um trabalho equivocado mais voltado para revoltar o povo com suas “maléficas teorias e perniciosos conceitos”, do que de civilizar. O periódico foi ainda ameaçado, pois, caso o território fosse criado, convictos 427 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1948. p.2. 207 de que seria em breve, o jornal não circularia mais por aquela zona. As ofensas não se limitaram apenas ao jornal portuense, mas foram direcionadas principalmente a Francisco Ayres da Silva, ridicularizando seu nome e enaltecendo o do movimento. Segundo os lideres do Comitê Central de Propaganda Pró Criação do Território Federal do Tocantins, Há muito temos sabido, indiretamente, das grandes e belas referencias que esse órgão vem fazendo a nossa honesta, decente, justa e nobre campanha de criação do território federal do Tocantins. (...) outros homens de geração melhor e de visão mais condizente com o bem- estar, o progresso, a civilização desta faixa do Brasil Central, por conseguinte de acordo com o nosso modo de pensar e de sentir – próprio de homens novos – idealistas, sociais e humanos, nos tem apoiado. Reconhecemos a ascenção de Porto Nacional que, pela dignidade e merecimento de seus filhos, vem ocupando a vanguarda no soerguimento intelectual e econômico – das inúmeras cidades do Norte e do sertão goiano. Porque, sem lisonja, sem adulação, sinceramente afirmamos ser a única localidade deste vale do Tocantins da terra de Anhanguera, servida de instrução, educação, saúde, luz e outras coisas. E não porque os senhores proprietários e diretor-gerente do “norte” tem contribuído para essas realizações. Umas tem sido espontâneas; outras, pedidas por homens operosos, progressistas. Algumas oportunidades de melhoramentos e benefícios que a nós outros pode caber, por nada possuirmos e também merecermos o apoio dos governos, é desviada para a sua cidade que só colégios secundários vai ter três ginásios e duas escolas normais. Quem está na graça dos poderes públicos assim não acha que há a necessidade de ser criado um Território Federal na região, que beneficie igualmente os outros povos. (...) na nossa campanha ainda não atacamos, ainda não ofendemos a autoridade, a personalidade nenhuma. Temos, sim, solicitado – é verdade – o apoio de homens de valor, de homens sadios, de homens uteis, de homens patriotas, de homens que, si quiserem (por serem grandes vultos), farão desta faixa territorial esquecida, também do Brasil, um verdadeiro paraíso. (...) podemos não ver o território do Tocantins se os ESPÍRITOS DE PORCO vencerem os de LUZ. Se os anjos maus superarem os BONS. É melhor ser querido do que odiado. 428 Como se pode perceber pela citação acima, Francisco Ayres da Silva foi acusado de ser contra a separação por ter apoio do governo, e Porto Nacional, como uma cidade privilegiada do Norte, por gozar de benefícios inexistentes em outras cidades nortenses. A centralidade e proeminência de Porto Nacional, “servida de instrução, educação, saúde, luz e outras coisas”, foram reconhecidas, mas não atribuídas a Francisco Ayres, 428 Carta do Comitê Central de Propaganda Pró Criação do Território Federal do Tocantins, direcionada aos responsáveis pelo Norte de Goyaz, assinada provavelmente pelo Presidente do comitê central - Ibanez Tavares - e pelo Secretario do Comitê Central – José de Nazareth Lopes. Pedro Afonso, 06/08/1948. Documento encontrado no acervo do arquivo particular da família Ayres. 208 considerado como homem velho com visão política ultrapassada, ou seja, oposto à política de homens novos e progressistas. As dicotomias são evocadas para qualificar os sujeitos e suas posições na luta, os anjos bons contra os maus, a luz contra os espíritos de porco, pressão para que Ayres como “grande vulto” tome uma posição assumindo uma das qualificações. Percebe-se nesse embate uma disputa, não só pela divisão ou não do estado, mas pela centralidade das demandas do Norte, em outras palavras, qual a cidade que tomará frente quanto ao futuro da região. Já com idade avançada, em meados da década de 1950, mais precisamente entre os anos de 1955 e 1956, pouco antes do seu falecimento, Francisco Ayres ainda assistiu a nova movimentação pela criação do Estado do Tocantins. Dessa vez na sua própria cidade, conduzida pelo então juiz de direito Dr. Feliciano Machado Braga, inclusive com o apoio do seu filho Milton Ayres da Silva, que, juntamente com outras autoridades, inauguraram uma placa com o dístico “VIVA O ESTADO DO TOCANTINS”, seguido por comício na Praça de Nossa Senhora das Mercês, nas imediações da tipografia nortense, com “vibrantes oradores falando sobre a emancipação e o desmembramento da região Tocantins-Araguaia”.429 Dessa vez, os idealizadores reivindicaram ligação com o Major Brigadeiro do Ar, Lysias Rodrigues, declarando-se como “discípulos e continuadores do aviador”, conforme se nota nas correspondências trocadas entre Feliciano Braga e o mesmo. O primeiro solicitando apoio ao segundo, intentando evidenciar que as novas manifestações eram a continuação de um projeto interrompido outrora encabeçado por Lysias. Além disso, o aviador carioca recebeu dos seus admiradores uma bandeira do Estado do Tocantins, símbolo construído “para representar parte do torrão pátrio, que deseja integrar a civilização e do progresso. A segregação dos 300.000 brasileiros que aqui mourejam e que desconhecem o mínimo de conforto do mundo civilizado”.430 Os debates com intenções separatistas, ocorridos até então, não necessariamente ligados entre si, recebiam a cada impulso, não necessariamente de forma linear, maior vulto, corpo e organização, apesar dos diferentes interesses e objetivos envolvidos nessas diferentes campanhas, pode-se dizer que se há algo que une todas elas se trata exclusivamente do argumento utilizado como justificativa, qual seja o abandono, esquecimento e a carência de elementos do dito mundo civilizado no norte do estado de 429 Para saber mais sobre isso ver: DIAS, João da Rocha Ribeiro. Tocantins: a força de um ideal. Goiânia: O popular, 1989. Pág. 339-42. 430 Idem, ibdem. p. 342. 209 Goiás. Fortalecido, pelo tempo e intensidade com que bateu nessa tecla, por aquele que justamente por isso foi um dos principais responsáveis pela construção da ideia de região norte, mas que se posicionou de forma contrária à separação, ou seja, a amputação que se pretendeu fazer ao estado. 431 Francisco Ayres, já com a saúde debilitada, manteve certa distância em relação aos assuntos políticos. Sobre os últimos anos de sua vida se nota que as pistas, os vestígios vão, gradativamente, escasseando-se, o que não significa necessariamente inatividade, o mais provável é que seja apenas o caráter seletivo da memória, que, auxiliada pelos arquivos, insiste em não deixar apreender com mais detalhes as últimas décadas da trajetória desta vida. Aos poucos seu nome deixou de aparecer nos jornais, os acontecimentos mais significativos, ou assim considerados, não estavam mais associados a ele e assim Porto Nacional e o norte de Goiás continuaram a emanar histórias a despeito de seu nome, que ainda sobrevive em alguns espaços da cidade, como por exemplo, a rua Francisco Ayres da Silva, antiga Rua 7 de Setembro, principal rua da cidade ao lado da Catedral, onde ficava a tipografia nortense, ou o solitário busto quase esquecido em meio a um canteiro no início da avenida Presidente Jonh Fitzgerald Kennedy, no centro da cidade, monumento feito em 1972 como homenagem pelo centenário do seu nascimento. O jovem estado do Tocantins não lhe reservou muito espaço na memória, mas se tornou peça chave para acionar o esquecimento. Porto Nacional, que figura como a capital cultural do Tocantins, continua na corrida para se equiparar com os grandes centros urbanos, em busca dos melhoramentos que proliferaram assustadoramente, espécie de corrida sem linha de chegada. Nessa busca, o discurso de abandono e esquecimento parece não fazer mais sentido. O Rio Tocantins, outrora a via mais viável para civilização, ironicamente por conta dela, nas imediações da cidade portuense, não 431 Os debates em torno da separação do estado e/ou da criação do Estado do Tocantins ainda carecem de estudos que se preocupem efetivamente em compreender a especificidade, razão de ser, sucessos, fracassos, projetos, intenções, embates, negociações, discursos entre outros aspectos de cada uma dessas manifestações, para além dos interesses regionalistas ou da intenção de criar uma memória, ou mito fundador para o Estado do Tocantins. Para conhecer uma parcela do que já tem produzido sobre o assunto ver as referências a seguir, com destaque para o trabalho de Fabrízio de Almeida Ribeiro, que analisa criticamente algumas produções já consagradas: OLIVEIRA, Rosy. O movimento separatista do Tocantins e a Conorte (1981-1988). 1998. Dissertação (Mestrado de História) -- UNICAMP, São Paulo 1998.; RIBEIRO, Fabrízio de Almeida. A invenção do Tocantins: memória, história e representação. Goiânia. Dissertação. (Mestrado em História), Universidade Federal de Goiás, 2001.; CAVALCANTE, Maria do Espírito Santo. O movimento separatista do norte de Goiás (1821-1988). 1990. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Goiás, 1990.; PARENTE, Temis G. Fundamentos históricos do Estado do Tocantins. Goiânia: UFG, 1999. 210 pôde mais ser chamado de estrada que anda por si, ou talvez tenha simplesmente perdido a pressa na direção rumo ao progresso, consequência da construção no leito do rio da barragem da Usina Hidrelétrica de Energia, no município de Lageado. Como escreveu o poeta Pedro Tierra em seu poema Barragem: O rio teima em manter-se rio, corrente: uma veia de esmeralda líquida e retesa varando o ventre do lago, feito alma submersa e luminosa a lhe dar sentido. Em maio de 1957, Francisco Ayres da Silva deixou a medicina, o jornalismo, a política, o rio, a cidade e a região que do seu jeito ajudou a construir, conforme aquilo que aprendeu, apreendeu, compreendeu, experimentou, ensinou, criou e vivenciou como seu mundo moderno, nem totalmente particular, nem totalmente compartilhado. Sua experiência com a modernização se tornou qualquer coisa como lembranças silenciosas sutilmente impregnadas nos espaços, materialidade, imaginário e história de Porto Nacional e do estado chamado de Tocantins. 211 CAPÍTULO III MODERNIZAÇÃO SEGUNDO FRANCISCO, UM PROJETO QUE FOI PELOS “AYRES”? O retrocesso é apenas local e temporal, ao passo que o progresso é permanente e geral. Ludwig Büchner Nenhuma das máquinas modernas, nenhuma das parafernálias modernas… têm algum poder sobre alguém, exceto sobre aqueles que optaram por usá-las. Gilbert Keith Chesterton Faltando vias de comunicação as regiões isoladas, por mais ricas que sejam, são um corpo sem artérias; O grande Porto Nacional (...) grande pelofuturo que te sorri, veja lá, não tens mais razão de dormir; acorda que é tempo. Reginaldo Tournier 3.1 OS (D)EFEITOS DOS MELHORAMENTOS: PORTO EM FOCO A insistência em observar Porto Nacional a partir da perseguição à trajetória de Francisco Ayres da Silva soa como um convite para pensar em algo que está diante dos olhos, mas que por um motivo ou outro não prestamos atenção. Convite para o exercício de se demorar, dedicar um tempo a mais para tentar observar, ver e pensar de outro modo aquilo tido, no pensamento de muitos, como indigno. Mesmo orientado pelo jornal Norte de Goyaz e a vida de seu mentor, a tarefa de perceber a cidade de Porto Nacional, sobretudo nos primeiros anos do século XX, está eivada de desafios. 432 Dentre os quais, o desafio de não reduzir a cidade em si mesma, de não amputá-la de todo o processo que envolveu o referido momento histórico, não transformar a discussão num mero retrato de Porto Nacional, que apresenta uma cidade que parece não guardar relação alguma com o mundo a sua volta, ou seja, com tudo aquilo que ficou fora do foco ou embaçado no fundo da imagem. Para isso, a ideia 432 Embora a trajetória de Francisco Ayres da Silva a partir da década de 1930 até 1957, como visto rapidamente no capítulo anterior, seja instigante e passível de inúmeras considerações importantes. Chamo atenção dos leitores que este capítulo se concentrará principalmente no percurso do pesonagem até a década de 1930, mas precisamente na primeira fase do jornal Norte de Goyaz, pela maior proximidade com o objetivo do trabalho. Deixarei as pendências que possam ter surgido, em relação aquele momento, para uma próxima oportunidade devido às limitações que se impõe ao desfecho da presente narrativa. 212 consiste em entender o processo de modernização naquele contexto, não como um retrato, mas como algo semelhante a uma imagem feita por uma lente grande angular, que com o campo de visão ampliado trouxe muito mais da cena para a imagem. O desafio é conseguir identificar nela, apesar da distorção de perspectiva, a cidade portuense e aquele escolhido como personagem principal. Ciente de que, ainda que no plano de fundo, comprimido quanto mais amplo o campo de visão, eles são parte constituinte da imagem. A vantagem de observar a imagem feita pela grande angular é que ela deixa evidente a impressão de escala, pode-se perceber com mais precisão o quanto as pessoas são pequenas na proporção com todo o resto quando inseridas numa grande área. A sensação é que o movimento de análise que se pretende, ainda se valendo da analogia da fotografia, é semelhante ao ato de quem observa atentamente uma imagem fotográfica tentando decifrar algo. O olhar se volta não apenas para o que compõe o plano principal, preocupa-se também e principalmente com os detalhes mais sutis, triviais e marginais, até mesmo aqueles que foram aparentemente apreendidos sem intenção, ou apenas porque estavam inseridos no campo de visão mais amplo e não se pode evitar. O que é indispensável mencionar é que não se trata de uma fotografia impressa que se tem fisicamente nas mãos, mas uma digital e é por meio de um visualizador de imagem que se observa. Ao contemplar a imagem, algum detalhe atrai mais o olhar, algo parece ter sido encontrado, porém, é preciso ver melhor. Daí que se abusa das ferramentas, a imagem é girada para todos os lados buscando novas percepções, pelo zoom aquele detalhe que ganhou proeminência é aproximado e distanciado repetidamente, ampliado até o ponto em que fica o mais visível e nítido possível, por vezes se passa desse ponto e tudo fica embaçado, sinal de que é o momento de voltar a imagem para seu tamanho normal e ver como aquele detalhe se relaciona com o todo da foto, para não perder a referência. Volta e meia vem o desejo de usar a ferramenta recortar, que chega inclusive a ser insinuada, todavia essa parte uma vez recortada da imagem, extraída de todo o resto, tornar-se-ia irreconhecível, perderia o sentido, ou no mínimo ganharia outros. Sendo assim, apenas como mais uma forma possível de se ver a modernidade e seus efeitos, sugiro acompanharmos as experiências de Francisco Ayres da Silva e da cidade de Porto Nacional em meio a esse processo histórico mundial que tanto os afetou. Antes, é necessário avisar aos leitores mais apressados que por ventura 213 começaram a leitura por este capítulo procurando apenas por definições precisas, exatas ou principalmente de caráter universal, sobre os termos modernidade, modernização, progresso, atraso, decadência, desenvolvimento, entre outros, que busquem outras referências, pois aqui não as encontrarão. O mesmo aviso vale também para aqueles que estejam à caça de uma breve descrição da genealogia de alguns dos termos supracitados. O que se pode encontrar nos próximos parágrafos é um “labirinto de vocábulos” repleto de ambiguidades e que por não seguir a lógica do pensamento geométrico é incapaz de ser expresso numa definição clara e objetiva, qualquer tentativa seria sempre insatisfatória, para não dizer ilusória, especialmente porque enuncia também o mundo das formas simbólicas. Nessa direção, a intenção não é anular as ambiguidades próprias dos vocábulos que formam o labirinto, pelo contrário, o desejo é evidenciá-las e apresentar como os termos se interpenetram. 433 Perambulando no interior do labirinto de vocábulos o desejo é descortinar sentidos possíveis da modernização, algumas dimensões da vida moderna do tempo de Francisco Ayres da Silva. Se a modernidade pode ser entendida como um conjunto de experiências, é preciso salientar que é percebida, sentida, enunciada, experimentada de múltiplas maneiras. Ainda que tal conjunto seja enunciado pelos mesmos termos em diferentes espaços, tempos, meios e pessoas os sentidos que assumem, em qualquer das variantes, não são necessariamente congruentes, embora não sejam completamente distintos e muito menos incomunicáveis. Toda a região de Porto Nacional foi despejada no que Marshall Berman chamou de Turbilhão da vida moderna “de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angustia”.434 Do conjunto de experiências próprio da modernidade se pode evidenciar descobertas científicas em diversas áreas aplicadas na indústria, novas tecnologias cada vez mais presentes na vida cotidiana das sociedades, industrialização, crescimento demográfico, urbanização, expansão do mercado mundial capitalista, aceleração do ritmo de vida, racionalização da política, proliferação de meios de comunicação de massa, novas configurações e conflitos sociais, intensificação das disputas políticas, sobretudo pela manipulação das instituições, transformações artísticas e culturais, entre outros. Tudo acontecendo de forma simultânea e acelerada, mais rápido do que qualquer 433 COMPAGNON, Antonie. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. p. 15-16. 434 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 10. 214 experiência anterior, se não efetivamente ao menos no ponto de vista da percepção. De acordo com Marshall Berman, todos esses elementos são fontes de alimentação para o turbilhão da vida moderna que movimentou tão intensamente e com tal força a ponto de impelir, de um modo ou de outro, a todos. As mais diferentes sociedades, os mais distintos sujeitos foram afetados pelo turbilhão. Uma nova paisagem, dinâmica e desenvolvida, cada vez mais se impõe, prolifera e prevalece, constituindo o lugar, por excelência, onde se desenrola a experiência moderna a partir do século XIX. Trata-se de uma paisagem de engenhos a vapor, fábricas automatizadas, ferrovias, amplas novas zonas industriais; prolíficas cidades que cresceram do dia para a noite, quase sempre com aterradoras consequências para o ser humano; jornais diários, telégrafos, telefones e outros instrumentos de media, que se comunicam em escada cada vez maior; Estados nacionais cada vez mais fortes e conglomerados multinacionais de capital; movimentos sociais de massa (...); um mercado mundial que a tudo abarca, em crescente expansão, capaz de um estarrecedor desperdício e devastação, capaz de tudo exceto solidez e estabilidade. 435 Nas primeiras décadas do século XX, Porto Nacional estava longe de se configurar numa zona industrial, era uma cidade predominantemente rural, se comparada a outras não teve crescimento significativo, o único jornal que sobreviveu por mais tempo era quinzenal, era destituída de telegrafo, telefone, o meio de comunicação mais viável era o correio feito por meio de estafetas, não possuía ferrovia, não havia vivenciado nenhuma experiência de movimento social de massa, no máximo conflitos oriundos de rivalidades políticas entre coronéis que queriam controlar as poucas instituições públicas ainda a se consolidar, sua produção agrícola era basicamente dedicada ao abastecimento interno, com tímido intercâmbio comercial restrito às cidades vizinhas e aos estados limítrofes, boa parte realizada à base de troca de gêneros de fazenda, não chegou necessariamente a criar um novo ambiente que demandasse a destruição de outro que se tornasse configurado como antigo. Enfim, a cidade portuense destoou do que se caracterizava como sendo uma cidade moderna, mas isso não foi impedimento para tomar parte nessa experiência. Ainda com base na analogia de Marshall Berman, entendendo a modernidade como um conjunto de experiências que funciona como espécie de turbilhão, pode-se 435 Idem. Ibidem. p. 12. 215 afirmar que esse turbilhão se manteve ativo, forte e com poder de atração, sobretudo ao longo do século XX, pela modernização. Embora Porto Nacional mantenha relativa distância geográfica, espacial, material e econômica da referida paisagem, a busca pelo novo e o “perpetuo estado de vir-a-ser”, típico da vida moderna mantidos pela modernização, alcançaram-na em cheio. O processo de modernização se expandiu de tal maneira que se fez presente também em Porto Nacional, bem como em toda região norte de Goyaz, resta dizer que mais virtual e ideologicamente do que materialmente, porém marcou presença e deixou as suas marcas. Ou seria mais apropriado dizer feridas? O fato é que a cidade de Francisco Ayres da Silva é um exemplo emblemático de como “o processo de modernização desenvolveu uma rede da qual ninguém pode escapar, nem no mais remoto canto do mundo (...)”.436 Alguém poderia argumentar que tratar sobre o processo de modernização em cidades que não receberam os principais elementos modernizadores, transformando materialmente a sua fisionomia, é um contrassenso. A contra argumentação passaria por elucidar que embora a modernização implique principalmente numa expressão material da modernidade, ela não pode ser observada apenas por esse viés, tal concepção anula em boa parte seu caráter múltiplo e ignora o fato de que as cidades não estão isoladas. Ora, a modernização até mesmo na mais moderna das cidades está sempre por ser concluída, portanto, continuamente por se fazer, jamais se efetiva de forma definitiva. Espécie de obra inacabável, em que a construção se torna obsoleta antes mesmo de se terminar, por isso demolida em prol de uma nova construção de outro novo, sem nunca chegar ao acabamento. A sensação de incompletude é característica da modernidade. Nessa perspectiva, a modernização, seguindo essa condição, provoca sensações, desejos, ilusões, sentimentos que independem de sua realização material, concreta e real, mas da existência dessa possibilidade, do que ela apresenta como promessa, como campo aberto a ser realizado e disponível para qualquer lugar. Por mais que uma cidade se modernize, ela nunca se tornará ou se sentirá inteiramente moderna, por isso a sensação de incompletude é insistentemente renovada, bem como o desejo, sobretudo naqueles lugares onde pouco se experimentou intervenções efetivas na materialidade. 437 Com base nessa premissa, creio ser possível não apenas tratar sobre a interferência do referido movimento mundial no interior do estado goiano, como também na sua própria 436 Idem. Ibdem. p. 11-31 437 COMPAGNON, Antonie. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. P. 10, 40. 216 experiência de mudança, dito de outro modo, pode-se tratar tanto da modernização de Porto Nacional como da modernização em Porto Nacional, embora ambas estejam absolutamente imbricadas. Deve-se considerar ainda que, no período histórico em questão, os rumos que as cidades tomariam eram incertos, não se podia prever com exatidão os desdobramentos que cada uma seguiria. Naquele contexto em que cidades em todo o mundo, inclusive no Brasil, cresciam e se urbanizavam vertiginosamente em decorrência do telégrafo, abertura de estradas e indústrias, ou surgiam do nada à beira de uma estação ferroviária, qualquer lugar parecia ser dotado de potência para se transformar num grande centro moderno. A crença nessa potência de maneira alguma pode ser negligenciada. Porto Nacional não se constituiu num polo industrial altamente desenvolvido e dinâmico, mas não significa que sua experiência deve ser ignorada, principalmente porque essa crença foi, e ainda é, muito explorada, manipulada e alimentada em solo portuense. Não por acaso o slogan da administração atual da prefeitura é “Construindo um novo tempo”438, iniciado com gerúndio estrategicamente para indicar uma ação contínua ainda não finalizada, indicando que um novo tempo em um futuro breve se concretizará, cidade que busca insistentemente fugir da obsolescência. Para analisar a assertiva acima sobre a crença na potência, propiciada pelo campo de possibilidades aparentemente aberto até mesmo para pequenas vilas do interior do país, as contribuições de Antônio de Almeida são apropriadas. Pesquisando sobre as experiências dos trabalhadores na região do ABC Paulista, ele apresentou uma profícua reflexão sobre o processo de industrialização e urbanização, contrastando o referido progresso com a situação de miséria e pobreza vivenciada pela maioria da população. A partir das considerações do autor proponho um rápido comparativo. Segundo o mesmo, no início do século XX a região do ABC Paulista tinha a agricultura como principal atividade econômica e uma “população de 10,8 mil habitantes, distribuídas em pequenos vilarejos, cujos traços de urbanização ainda eram muito pouco perceptíveis”. Por meio de abaixo assinados, Antônio Almeida concluiu que a região enfrentava sérias dificuldades devido às péssimas condições das estradas e transporte deficiente feito por tração animal. O município de Porto Nacional, como já assinalado, no mesmo período tinha por volta de 6 mil habitantes e enfrentava problemas semelhantes. Na década de 1920, a população de Porto Nacional mais que 438 Disponível em: http://www.portonacional.to.gov.br/ Acesso em: 10/03/2016. 217 dobrou chegando perto de 16 mil 439 , a região do ABC também ultrapassou o dobro do seu contingente populacional para aproximadamente 25 mil. 440 Os desdobramentos das cidades a partir de então assumiram diferenças gritantes que despertam curiosidade. Na década de 1930 o desenvolvimento industrial da região do ABC já era realidade, foi considerada “o segundo maior parque industrial de São Paulo, com quatrocentos e noventa e oito fábricas, representando cento e nove ramos diferentes de indústria”.441 Em três décadas a população saltou de 25 mil para 216 mil habitantes, atualmente o número da população está na casa dos milhões. O município de Porto Nacional, pelo último censo do IBGE 442 , soma aproximadamente 52 mil habitantes, e tem como base da sua economia o agronegócio, que nos últimos anos voltou à atenção para a inventada região denominada de MATOPIBA 443 , da qual a cidade faz parte. Mas essa é outra história. Evidentemente que há muitas explicações para os rumos diferentes que as cidades mencionadas seguiram como a proximidade com São Paulo, com a ferrovia etc. Não vem ao caso discuti-las para não desviarmos dos objetivos deste trabalho. No entanto, vale ressaltar que não é absurdo algum que os contemporâneos de Francisco Ayres da Silva fossem tomados pela esperança de que sua terra natal tomasse parte desse ciclo de desenvolvimento que transformou a região do ABC paulista e tantas outras cidades brasileiras. Ou então, que já tivessem mesmo a sensação de estarem 439 É preciso destacar que os números referentes à população do município de Porto Nacional têm variação significativa nas fontes, o que revela dificuldade em fazer um senso com maior precisão, ou manipulação dos números dependendo da natureza e interesse dos discursos, ou mesmo a sobreposição dos desejos e sensações na forma de se apresentar. A imprecisão e/ou discordância em relação aos números variam entre 10 a 16 mil habitantes. Para o Norte de Goyaz, por exemplo, em 1920 a população da cidade portuense é de 2.000 almas e do município de 10.000, mas nessa apresentação é evidente o desejo de mostrar a grandeza e a importância da referida cidade em relação ao município. Num formulário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro do ano de 1917, preenchido por Francisco Ayres da Silva, o deputado informa que na cidade havia 2.000 almas e no município de 10.000 a 12.000 e que seu método de cauculo foi contar 6 pessoas por casa. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1920. p.1; IHGB. Comissão directora do diccionário histórico, geográphico do Brasil. Rio de Janeiro: IHGB, 1917. p.23. 440 ALMEIDA, Antônio de. Experiências políticas no ABC Paulista: lutas e práticas culturais de trabalhadores. Uberlândia, EDUFU, 2008. p. 29-30. 441 Idem. Ibdem. p. 36. 442 Disponível em: http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=171820&search=tocantins|porto-nacional. Acesso em: 10/03/2016. 443 Esse termo é um acrônimo formado pelas iniciais dos respectivos estados: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Trata-se de uma fronteira agrícola, ou projeto de exploração agrícola sobre uma região construída, que corresponde a um espaço geográfico que atinge parcialmente os quatro estados. Para saber mais ver: https://www.embrapa.br/gite/projetos/matopiba/150513_MATOPIBA_TO.pdf.; http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/10/matopiba-se-consolida-como-nova-fronteira- agricola-do-pais. Acesso em: 09/03/2016. 218 inseridos nela, a ponto de se enxergarem como pertencentes a uma cidade com os padrões modernos para a época. Como se pode perceber em muitos discursos, como o de Ayres, que ao descrever sua terra berço pontuou a possibilidade, ao afirmar que “A cidade está cituada na margem direita do rio Tocantins, a trinta metros acima do nível do rio, em uma excelente explanada que a deixa em condições de, no futuro, tornar-se um grande centro populoso”.444 O tamanho da cidade era irrelevante, pois como se acreditava “em nossos dias o vapor e a electricidade são duas potentes alças premas com que se levanta o cobiçado progresso material de qualquer logarejo”.445 As esperanças e sensações, as mais diversas, revigoravam-se principalmente porque os projetos de modernização, sempre plural, estavam no auge do debate no Brasil, sobretudo no que se refere à definição do melhor traçado da ferrovia, do telégrafo, da navegação a vapor, da abertura de estradas de rodagem, reforma, estruturação e edificação de cidades, instalação industrial, dinamização da produção agrícola e pastoril, acesso às novas tecnologias etc. Elementos modernizantes que estavam sendo disputados em todo o país, com maior ou menor intensidade, maior ou menor predileção por um item ou outro, dependendo do lugar, das suas características, prioridades e interesses. É bom lembrar que o cenário de disputas e debates, em aberto, não se constitui apenas pelo desejo de aproximação, mas também não raro pelo desejo de distanciamento e até aversão a um ou outro elemento tido como modernizador, e mesmo pela definição do que é ou deixa de ser reconhecido como tal. Francisco Ayres da Silva como homem da imprensa e líder político do estado de Goiás tomou parte nas discussões e debates, colocando o jornal Norte de Goyaz como principal arma para, de uma só vez, defender seu projeto e propagandeá-lo para Porto Nacional, bem como para toda região norte do estado que afirmava representar. Seu intuito era, dentre outros, transformá-lo em desejo e interesse de todos os chamados nortenses. Evidentemente que tal projeto que Ayres chamou de seu abarcava alguns desejos da população do norte goiano, não podia ser diferente já que a defesa do mesmo servia também como forma de promover sua figura e garantir a manutenção do poder político. Quando me refiro à população nortense, não se trata da totalidade da sociedade, pois por mais que o periódico portuense afirmasse expressar a vontade de todos, sabe-se que expressava no máximo as opiniões e percepções de alguns grupos pertencentes a ela e que sentiam representados pela folha. De qualquer forma, Francisco Ayres da Silva e 444 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/10/1920. p. 1-2. 445 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1916. p. 1-2. 219 o Norte de Goyaz manifestam como o processo de modernização influenciou todo o estado de Goiás em variados aspectos ao longo do século XX, transformando a realidade, ao menos como sensibilidade. Já foi mencionado, noutro momento, que na linguagem própria do tempo de Francisco Ayres da Silva, o que está sendo denominado de modernização era expresso noutros termos, tais como: progresso, adeantamento, desenvolvimento, benefício e melhoramento. Esses são os termos que mais se repetem no Norte de Goyaz, são sinônimos, no entanto não se pode ignorar que vocábulos como progresso e desenvolvimento, embora ligados à noção de modernização, em muitas ocasiões de uso, evocam uma ideia mais ampla. De todas as expressões, a mais largamente empregada e próxima do que se convencionou chamar de modernização é a palavra melhoramento. Em Porto Nacional, qualquer uma das obras, sejam as realizadas, planejadas, ou mesmo aquelas apenas desejadas, sejam as empreendidas pelo poder público ou pela iniciativa de particulares, sejam relativas às questões de viação, comunicação, equipamentos, saneamento ou de infraestrutura, tanto no campo como no espaço urbano, se inseridas dentro dos interesses e ideais de quem enuncia são sempre tratadas, ou melhor, definidas como melhoramento. A terminologia está fundida, em certo sentido, “ao léxico generalizante “obras””, usada indiscriminadamente pelos diferentes grupos sociais para indicar inúmeras iniciativas. 446 Nesse processo, para além das possibilidades de encontro de leituras e usos diferentes da ideia de melhoramentos, cumpre pontuar o quanto era possível mobilizar ao se recorrer a essa noção: movimentava-se recursos, técnicas, expectativas, e gerenciavam-se as tensões. O melhoramento seria, assim, um conceito aglutinador, uma ideia-força, gerador de interesse, poder simbólico, na medida em que se aproxima da ação política. Deste modo, quando se discute a questão dos melhoramentos não se recobre apenas um campo de atuação, pautado pelos saberes técnicos e especializados, mas um campo político de tensões. Assim, trata-se de uma ideia posta em relação historicamente. 447 A noção de melhoramento é praticamente “autoexplicativa”, comunica 446 BRESCIANI, Maria Stella Martins. “Melhoramentos entre intervenções e projetos estéticos: São Paulo (1850-1950)”. In: ___________ (org.). Palavras da Cidade. Porto Alegre: Ed. UFRGS. 2001, p. 343- 366.; CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004. p. 255-259. 447 CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004. p. 255-259. 220 facilmente com qualquer pessoa, transita facilmente entre o saber especializado e o de senso comum. 448 Impõe uma compreensão positiva, supõe imediatamente uma necessidade, gera expectativa e passa a ideia de que uma nova realidade aparecerá, indica um movimento adiante rumo à visão idealizada de sociedade, ou seja, uma forma de aproximação com um futuro melhor que o presente. Portanto, de alguma forma já inibe qualquer oposição, pois quem se oporia a algum ato ou efeito de melhorar. Não é preciso dizer que nem tudo que recebeu o nome de melhoramento significou efetivamente mudança positiva, mas a aplicação do termo pressupõe essa mensagem. O Dr. Francisco Ayres da Silva foi um dos principais responsáveis por definir o repertório de melhoramentos pelos quais Porto Nacional e o norte do Estado deveriam se empenhar. Tentou, através de seu hebdomadário, controlar os significados e significantes evocados por esse signo, no sentido de torná-los únicos, comuns para os mais diferentes sujeitos. Chamou a atenção dos ledores e leitores do seu jornal para aquilo que defendeu como os melhoramentos mais importantes para a região. Através da repetição dos temas, produção dos discursos e manipulação das informações fabricou necessidades, inculcou valores, estabeleceu prioridades e atiçou as expectativas e esperanças. 449 Antes de debruçar sobre o assunto ou fazer qualquer análise sobre os efeitos da modernização, seja preciso conhecer com mais objetividade o projeto de Francisco Ayres da Silva, construído ao longo de sua trajetória, constituído pelos elementos que mais ganharam visibilidade no Norte de Goyaz. Com isso não estou afirmando que a apresentação a seguir seja o único projeto de modernização para o norte do Estado, nem que os temas tratados representam todo ou o único projeto de Francisco Ayres da Silva, muito menos que o jornal o esgote em sua completude, quando na verdade ele apenas o contém. 3.2 MELHORAMENTOS (CON)SENTIDOS: PROJETO DE AYRES PARA O NORTE E SEUS (E)LEITORES No projeto de modernização de Francisco Ayres da Silva para Porto Nacional e para o norte de Goyaz o que se colocou como as mais prementes necessidades, entre outras, foram: navegação fluvial, viação férrea, estradas de rodagem, comunicações 448 Idem. Ibdem. 449 BACZKO, Bronislaw. A imaginação social. In: Leach, Edmund et Alii. Anthropos-Homem. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. p. 314. 221 telegráficas, serviço postal, instrução, aquisição de inventos modernos, urbanização, dinamização da produção agrícola e indústria pecuária. Serão especificadas abaixo não necessariamente nessa ordem. O correio foi um item sempre questionado por Francisco Ayres, praticamente em toda a existência do Norte de Goyaz, sobretudo nas primeiras décadas do século XX foi assunto intensamente discutido com raras exceções. Além do interesse em diminuir o tempo de espera por correspondências, documentos e informações entre o norte e o restante do país, tinha-se a pretensão de estabelecer os traçados das linhas postais de maneira estratégica em conformidade com o que foi defendido como sendo o melhor para a região. Além desses fatores, de forma mais velada, tem ainda a disputa pelos cargos do correio, especialmente os de responsável por linha postal, em alguns momentos ocupados por familiares de Francisco Ayres, como Antônio Ayres Primo, responsável pela linha de Amaro Leite a Porto Nacional, D. Ana de Carvalho Ayres que ocupou o cargo de agente do correio de Porto nacional e Diomédio Ayres da Silva responsável pela linha de Porto Franco. 450 As disputas por colocações no serviço postal se deram menos pelo prestígio dos cargos do que pelo poder de controle, distribuição e acesso privilegiado às informações, imprescindíveis para o jogo político e comercial. Nesse período muito se falava do correio no “Carrilho indecente da politicagem baixa”,451 em que se extraviavam ou violavam correspondências e documentos, ou retardavam e roubavam malas com propósito de prejudicar adversários. O controle sobre os correios determinaria a condição de sujeito dessas ações ou de vítima delas. Argumentar contra essas práticas também constituiu uma estratégia na disputa pelos cargos, pois atribuir tal ação a algum administrador foi a melhor maneira de depreciá-lo. O serviço postal foi exaustivamente tratado no jornal porque dizia respeito ao interesse da maioria da população, portanto ótimo item para se dispensar atenção, elaborar propostas e promessas de eficiência e rapidez que se convertiam em capital político. No norte goiano o correio foi por muito tempo o meio mais utilizado e acessível para o contato com o mundo, chamado de “o único fio condutor de alguma luz”.452 Não por acaso o jornal sempre reafirmava que o 450 Norte de Goyaz. Porto nacional, 15/03/1914. P.3; ALMANAK LAEMMERT: Annario Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial dos Estados Unidos do Brazil e indicador para 1908. Relatório sobre porto nacional. Rio de Janeiro: [s. n], 1908. p. F-18.; Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1916. p.3 451 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1906. p.1 452 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1914. p.2 222 serviço postal, (...) tem merecido especial atenção do Norte de Goyaz sobre elle, múltiplas e reiteradas vezes, nosso jornal tem se manifestado ora denunciando abusos ora chamando a atenção de quem competisse para tal ou tal melhoramento. Levando ao conhecimento de nossos leitores esses importantes melhoramentos. É possível (...) que outra phase mais promissora e risonha nos surja. 453 Os melhoramentos, em outras palavras, os traçados postais defendidos no periódico portuense eram: linha do Duro a Barreiras na Bahia; linha do Duro a Formosa; linha de Sta Maria a Barreiras; linha da capital Goyaz a Peixe, passando por Pilar e Descoberto, que cheguesse até Porto Nacional; 454 linha de Porto Nacional a Palma, por Carmo e Natividade; linha de Natividade a Arrayas; linha partindo de Formosa, estado da Bahia, a Porto Nacional, passando por Jalapão e Carmo 455 , posteriormente defendeu que essa linha deveria passar também por Correntes (Vila do estado do Piauhy) 456 ; outro melhoramento foi a transferência do serviço de condução de malas de Correntes, Jalapão até Porto Nacional, da jurisdição administrativa dos correios do Piauí para administração dos correios de Goiás 457 ; De todos os melhoramentos referentes ao correio o mais defendido foi a linha postal de Goyaz a Porto Nacional, passando por Pilar, Crixas, Amaro Leite, Descoberto e Peixe com seis viagens mensais 458 , em detrimento da linha que passa por Cavalcante. Em suma essas são as linhas postais que mais poderiam na opinião de Ayres favorecer o dito “público nortense”. mas ninguém mais de que o dono sabe onde lhe aperta o sapato diz o adagio, e um outro quem seu pé sente pisado tolo é si fica calado. Pois o povo do norte, é povo inteligente, o povo que pelo intermédio do correio mantem suas relações politicas, econômicas, e sociais com a capital estadual, com a capital federal, com o estrangeiro, este povo soltou um zil... doloroso ao conhecer a ultima determinação tomada pela directoria geral dos correios. [...] O primeiro e mais básico axioma de geometria nos demonstra que a linha mais curta entre um ponto e um outro é a linha recta. [...] muitas vezes urge, a precisão. Si telegrapho existisse, estaria o problema resolvido; mas o telegrapho não temos. Estas venturas não são para nossos sertões e nossos tempos. [...] a linha reta breve é Goyaz - Amaro Leite - Porto 453 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1906. p. 3 454 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1905. p. 2 455 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1906. p. 1; Norte de Goyaz. 31/08/1914. p. 2. 456 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1907. p. 3 457 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1908. p. 3 458 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1915. p. 1-2; Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1914. p. 1. 223 Nacional! 459 Outro melhoramento basilar do projeto de Francisco Ayres da Silva foi o telégrafo. Diferentemente do sistema de correios que Porto e as principais cidades do Norte já tinham, querendo apenas adequá-la conforme aquilo que acreditavam ser mais viável, o telégrafo foi por muito tempo e na maior parte das cidades nortenses um objeto de desejo. No decorrer dos primeiros anos do século XX, a peleja em torno de possuir esse meio de comunicação foi se tornando cada vez mais aguerrida e a esperança em obtê-lo aumentava proporcionalmente, sobretudo com as notícias de implantação em outras cidades dos estados limítrofes, além do que tal ideal fazia parte dos projetos do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, que vislumbraram a interiorização das linhas telegráficas pelo centro do país. 460 O telégrafo era um meio de comunicação muito veloz para a época, permitia contato instantâneo apesar das limitações quanto a quantidade de informações que se poderia transmitir, no mesmo espaço de tempo, se comparado com os recursos atuais. Foi a primeira tecnologia usada mundialmente, que colocou diferentes territórios do globo em comunicação direta, através do telégrafo se permitiu saber em tempo real informações sobre a guerra na Europa, por exemplo. Se hoje ainda nos surpreendemos com as possibilidades previsíveis e imprevisíveis da internet, não é difícil presumir como o telégrafo impressionou moradores acostumados apenas com o sistema de correios como meio de comunicação mais fácil e rápido no início do século XX. Ainda mais cientes de que muitas cidades já gozavam dessa tecnologia desde o século XIX. De acordo com Laura Maciel, este modo de comunicação entendido atualmente como ancestral da Internet considera que o telégrafo foi a primeira tecnologia de informação utilizada em rede mundial. Sua difusão e seu desenvolvimento criaram uma cultura própria, com vocabulário, linguagem, ritmo e formas de comunicar compartilhados por milhões de pessoas em todo o mundo. Ao longo de um século e meio, o telégrafo incorporou-se ao cotidiano ao lado de outros sistemas tradicionais de comunicação ainda hoje em uso, como o telefone e o rádio, por exemplo. 461 459 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1914. p. 3 460 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1919. p.1. 461 MACIEL, Laura Antunes. Cultura e tecnologia: a constituição do serviço telegráfico no Brasil. In. Ver. Bras. Hist.. vol.21, nº41. São Paulo, 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882001000200007#nota acesso em: 23/03/2016. 224 O telégrafo significou para boa parte dos contemporâneos de Ayres uma forma mais dinâmica de se interagir com o mundo, de se integrar a nação, ligar o litoral com o interior do país, uma alternativa mais ágil para se vincular ao mercado, desenvolver-se e tomar parte da modernização capitalista. Foi sem dúvida um dos melhoramentos mais disputados no início do século XX nas cidades do Brasil central que ainda não possuíam tal recurso. Francisco Ayres da Silva apresentou projetos na Câmara Federal, escreveu artigos em diferentes periódicos, tentou usar sua influência junto à Repartição Geral de Telégrafos no sentido de pressionar e acelerar a instalação de estações telegráficas no norte goiano. O projeto defendido por Ayres nesse âmbito consistiu basicamente no prolongamento da linha telegráfica fechando o circuito do litoral até o centro do país, cortando todo o estado de Goiás. 462 Para cumprir esse propósito por motivos óbvios ele se empenhou por um traçado que cortasse o interior do Brasil não no sentido sul em direção ao norte, mas no sentido norte em direção ao sul, pois assim Porto Nacional receberia o beneficio mais rapidamente. Embora qualquer notícia de que a linha estivesse em direção do Norte do estado, seja qual fosse a direção, era sempre benvinda. Prova disso foi a proposta da construção de uma linha telegráfica que, partindo da Barra, no estado da Bahia, passasse por Santa Rita até Porto Nacional. 463 Outra ideia era prolongar a linha de Porto Franco, no estado do Maranhão, até a capital de Goiás. Todavia a cidade de Goyaz recebeu aquele moderno meio de comunicação via Minas Gerais, que do triângulo mineiro, mais precisamente Uberaba, passou pelo sul do estado goiano até a capital, para então alcançar Cuiabá, no estado do Mato Grosso. Por isso o esforço maior do político Dr. Ayres, evidenciado através de projetos e periódicos, era pelo prolongamento da linha de Boa Vista do Tocantins, passando por Porto Franco e Carolina, no estado do maranhão, em seguida Pedro Afonso, Porto Nacional, Natividade, Conceição, Peixe e Palma. Sutilmente modificado posteriormente pelo traçado de uma linha telegráfica “partindo de Porto Franco, estado do Maranhão, passando por Carolina, Pedro Afonso, Porto Nacional e outras cidades do interior até São José do Tocantins”.464 A maneira como o periódico portuense apresenta o projeto defendido por Ayres, em parceria com outros representantes políticos 462 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1909. p. 1. 463 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/10/1924. p. 1. 464 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1919. p. 1.; Projeto de Lei n.131 de 1917. 225 inclusive do estado do Maranhão, denota certo cuidado para mostrar que, como representante federal do estado de Goiás, tinha preocupação maior em fazer o melhoramento chegar até Porto Nacional, do que em relação às outras cidades. O principal traçado defendido por Ayres, que desejou vê-lo executado o mais rápido possível, é o mesmo pensado e estudado por Francisco Bhering, Engenheiro Civil, professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e diretor dos serviços técnicos da Repartição Geral dos Telégrafos. Inclusive para dar consistência ao seu projeto defendido na câmara federal, o portuense argumentou que sua proposta de linha tinha fundamento científico autorizado e estava alicerçada por estudos realizados por profissionais da área, como do engenheiro acima referido. Segue abaixo parte do mapa do esquema das linhas telegráficas do Brazil, produzido pela Repartição Geral dos Telégrafos, o qual Ayres possivelmente tomou como base. 226 FIGURA 7: Mapa - Schema das linhas Telegraphicas do Brazil, abrangendo as da União, as dos Estados, das estradas de ferro e das companhias estrangeiras [Cartográfico], 1917. FONTE: Acervo Digital – Biblioteca Nacional: http://bndigital.bn.br/acervodigital/ 227 Interessante observar que o mapa de Francisco Bhering foi elaborado em 1917, na legenda do mapa o traçado aqui destacado é identificado como “linha em construção”. Mas em 1919 o Norte de Goyaz indica que não estava sendo construída, pois o projeto apresentado por Ayres solicitava a autorização e recursos necessários para encaminhar o empreendimento. Francisco Ayres da Silva justificou que uma linha telegráfica que de Porto Franco buscasse Porto Nacional teria grande proveito para o governo brasileiro, pois significaria a interiorização da nação. Embora por traz desse discurso para a Câmara Federal, necessário como estratégia de convencimento, estivesse efetivamente o interesse nas vantagens que ele próprio, a cidade portuense e o norte do estado poderiam ter, por certo imensamente maiores que as do país. Conforme publicado no Norte de Goyaz, O melhoramento indicado no projecto tem capital importância para as facilidades de comunicação da sede do governo e portos do litoral, com vários pontos longínquos, situados na rica e importante zona central do paiz. Com a realização do trabalho indicado muito terão a lucrar todos os serviços, quer na ordem política e administrativa, quer nas relações de commercio e indústria, que se desenvolveram, rapidamente, naquela fértil região do interior da republica. 465 Em meio a um cenário de disputa por melhoramentos e emaranhado de projetos, Francisco Ayres da Silva não titubeou em se apropriar, quando lhe foi conveniente, do saber especializado e da crença na objetividade científica como argumento para defender suas propostas de melhoramento para o país, ou seja, as que no seu entender mais favoreciam o estado de Goiás, sobretudo a região norte. Confirmando a proposição de Joseanne Cerasoli quando afirmou que o uso dos saberes técnicos é plural, bem como as significações e apropriações que emanam das transformações, ou mesmo do desejo por elas. Os saberes autorizados no que diz respeito aos melhoramentos se servem a diferentes usos políticos nas mais diferentes esferas, permeiam “um complexo processo de inter-relações, influências e intereferências” que envolve múltiplos interesses e dos seus respectivos grupos sociais. 466 O desejo de comunicação entre o interior do Brasil com os ditos centros civilizados não se limitava apenas à troca de informações, a noção que tinham do termo comunicação era ampliada abrangendo não só correio e telégrafo, mas também e 465 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1919. p.1 466 CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no Plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania em São Paulo na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004. p.104, 195. 228 principalmente os meios necessários para a rápida e fácil circulação de pessoas, mercadorias e capital. Quase sempre quando Ayres mencionava o termo “comunicações” se referia principalmente aos meios de transportes e respectivos recursos de viação possuídos ou desejados. Por exemplo, quando o mesmo afirmou que as cidades de Porto Nacional e Natividade poderiam progredir muito caso fosse executado um projeto que considerava grandioso, uma “linha carroçável com proporções para ser trafegada a automóveis de peso, uma vez que suas comunicações com os grandes mercados do paiz tornar-se-iam mais prontas”.467 Portanto, parecia imprescindível a aquisição de melhoramentos de viação, o que ocupou boa parte dos planos de modernização articulados pelo deputado portuense, pois colocaria em contato centros produtores e centros consumidores, dinamizando o mercado. No que tange às comunicações do tipo viação o projeto de Francisco Ayres previa principalmente três frentes de reivindicações interligadas entre si, quais sejam: estrada de rodagem, ferrovia e navegação. Com relação à estrada de rodagem para o desenvolvimento do automobilismo os traçados mais ambicionados eram uma linha de S. Marcello, no estado da Bahia, a Porto Franco, no estado do Maranhão 468 ; Uma linha ligando Santo Antônio das Balsas, no Maranhão, a “um ponto conveniente do Tocantins, estado de Goyaz”;469 Estrada de Rodagem que colaborasse com a ligação sul norte do Brasil por meio do rio Tocantins, ou seja, uma estrada com “proporções para automóveis” da cidade de Jaraguá até a cidade de Peixe, complementada pela estrada de Goyaz a Leopoldina às margens do rio Araguaya; 470 uma linha que ligasse Bahia a Goiás, saindo de Barreiras procurando a cidade de Taguatinga. 471 Dois traçados se destacam em relação aos já citados acima, o primeiro seria um que de Porto Nacional fosse até Barreiras, no estado da Bahia, passando por Natividade e Duro, no projeto de Ayres outras estradas poderiam se ligar a essa, como Peixe, Palma e Conceição 472 . Essa estrada facilitaria as comunicações das principais cidades do norte entre si e com o estado baiano, contribuindo para otimizar as relações comerciais entre os dois estados limítrofes, além de facilitar e agilizar as viagens para o litoral. A própria 467 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1913. p.1 468 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 01/03/1910. p.2 469 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1907. p.1 470 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1924. p.1 471 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1916. p.2 472 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1906. p.2 - 15/12/1922. p.4. 229 experiência de Francisco Ayres como deputado federal que por vezes realizou o trajeto Porto Nacional a Rio de Janeiro, era argumento utilizado para demonstrar a importância de se criar cada vez mais estradas de rodagem para o norte. Conforme se nota através do Norte de Goyaz, o político goiano Olegário Pinto, ao discursar na câmara federal defendendo o pedido de Ayres por estradas, chegou a dizer que se os deputados soubessem os detalhes da viagem do deputado de Porto Nacional para chegar até a capital da República ficariam “assombrados”, pois, de acordo com o mesmo, “é mais fácil ir à Russia e voltar do que o deputado Ayres da Silva ir e voltar a Porto Nacional!”473, ou seja, as noções de distância sendo apresentadas de forma altamente relativizadas dependendo dos recursos de viação disponíveis. Dando a sensação de que viagens intercontinentais fossem mais fáceis de serem realizadas do que viagens pelo interior do Brasil onde os meios para tal seriam escassos. Sobre esse último traçado oriundo do desejo em ligar Porto Nacional à Bahia, apresentado de muitas formas, é preciso dizer que com o passar dos anos tendo-se aperfeiçoado o conhecimento geográfico, além de alterado alguns interesses, outro traçado, para cumprir o mesmo objetivo, ganhou mais evidência e, portanto maior esforço para se efetivar. Não mais esforço no sentido de convencer os poderes públicos, mas esforço particular para com os seus próprios meios viabilizar tal intento. Nas palavras do próprio Ayres, Tendo em mira, desde muito, levar a efeito uma estrada carroçável de Porto Nacional a um ponto de navegação a vapor, no Estado da Bahia e após estudar as estradas em diversos sentidos, fixei definitivamente que o melhor trajeto seria o que demandasse São Marcelo e Formosa em procura de Santa Rita e Barra. Com tal objetivo fiz seguir de Porto Nacional a 14 de abril deste ano uma turma de alguns rapazes no intuito de vir com um carro de bois daquela cidade em rumo de formosa, do Rio Preto. 474 O segundo traçado, defendido e solicitado por Francisco Ayres, foi na verdade não apenas uma linha, mas um conjunto de estradas de rodagem que complementasse as navegações fluviais, até mesmo para ajudar a efetivá-las nos rios onde ocorriam com limitações. Para ser mais exato, a ideia ou ideal era interligar os rios Tocantins, 473 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1918. p.1. 474 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora: Diário de viagens. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.105. 230 Araguaya, São Francisco e Paranahyba por meios de estradas com capacidade para trafegar automóveis. 475 Outra frente de reivindicações referente à viação se trata da ferrovia. Ponto importante, mas não essencial do projeto de modernização de Francisco Ayres. Assim como a estrada de Rodagem a linha férrea seria também alternativa complementar para navegação dos rios Tocantins e Araguaya. A partir de meados do século XIX e início do XX, a ferrovia aparentemente se tornou o elemento moderno mais ambicionado, acreditou-se que por onde ela passasse tudo se transformaria para melhor. Nas palavras de Eudes Guimarães, analisando o processo de modernização no interior da Bahia, a ferrovia era “metonímia do progresso, (...) o grande desejo alimentado por muitos moradores do alto sertão. Com ela, uma guinada efetiva aconteceria, por onde quer que passasse”.476 A sensação que a ferrovia despertou na maioria se aproxima do relato de Dickens, apresentado por Raymond Williams, que a considerou como “sangue vital”. O lamentável terreno baldio, onde antigamente o lixo era despejado, foi engolido e desapareceu; e em lugar daquela sujeira viam-se fileiras de armazéns, cheios de produtos nobres e mercadorias dispendiosas. As velhas ruelas agora fervilhavam de passageiros e veículos de todos os tipos; as ruas novas que antes paravam, desanimadas, na lama e nas marcas de rodas de carroças, formavam agora cidades autônomas, gerando confortos e serviços que pertenciam a elas próprias, jamais experimentados nem sequer concebidos antes de surgirem. Pontes que não levavam a parte alguma agora davam acesso a solares, jardins, igrejas, salubres alamedas. Os esqueletos de casa e inicios de novas avenidas haviam brotado ao longo da ferrovia, com a velocidade do vapor, e disparavam em direção ao campo, num trem monstruoso. [...] Dia e noite, sem parar, correntes humanas palpitantes iam e vinham do coração desta grande transformação, incessantemente, como sangue vital. [...] maravilhosos parlamentares, que pouco mais de vinte anos antes haviam se divertido com as teorias ferroviárias malucas dos engenheiros, atormentando-os em tantos interrogatórios, agora iam para o norte de relógio na mão, tendo antes mandado avisar, por meio do telegrafo elétrico, que estavam vindo. 477 Embora Ayres tenha se empenhado pela ferrovia e a percebesse como poderoso elemento modernizador, transporte por excelência do progresso e instrumento da civilização, ela não lhe despertava tanto fascínio, em outras palavras, as transformações 475 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1914. p.4 – 15/03/1915. p.1. 476 GUIMARÃES, Eudes Marciel Barros. Um painel com cangalhas e bicicletas: os (des)caminhos da modernidade no alto sertão da Bahia (Caetité, 1910-1930). 2012. 151 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2012. p. pp. 477 DICKENS apud WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 274, 275. 231 para o norte não dependiam necessariamente de seus trilhos, no seu entendimento elas chegariam pelo rio principalmente. Isso não significa dizer que Francisco Ayres não desejou a ferrovia, muito menos que era contrário a tal empreendimento, digamos que em seu projeto de modernização para Porto Nacional e para o Norte ela apenas não teve a prioridade que recebeu em outras experiências de outros lugares, ou em outros projetos. Especialmente porque acreditava que a ferrovia seria uma consequência de um lugar bem servido por estradas de rodagem e vias fluviais, ou seja, explorar primeiros as possibilidades que esses meios poderiam oferecer para consequentemente se valer das estradas de ferro. O argumento usado foi que, ao invés de investir altos recursos para edificação de linhas férreas, seria mais viável, barato, rápido, produtivo e com retorno imediato investir inicialmente em outros meios de comunicações mais disponíveis. Como se afirmou: “a estrada de rodagem abre caminho à estrada de ferro e com ella coexiste como elemento de progresso”.478 Ao que tudo indica a predileção de Ayres por outras vias em detrimento da ferrovia tem relação com aquilo que, na disputa por melhorias, parecia-lhe mais praticável, mais palpável, mais provável de ser executado dentro da realidade da região que representava. Aquela se mostrava mais distante dos nortenses que estas. É preciso ressaltar que, em alguns momentos, a ordem de prioridades de Ayres parecia se inverter, devido ao calor de determinadas circunstâncias, mas caso se observe o conjunto do seu projeto, que por hora tenta-se sistematizar, a ferrovia ocupa posição secundária. Como se nota nos discursos feitos para o Norte de Goyaz, claras tentativas de convencimento a adesão do público ao seu plano, assim como no exemplo abaixo, os dirigentes empolgaram-se pela ideia fixa dos trilhos de ferro e, de então, vem sendo repetido, de geração em geração, que somente a estrada de ferro fará o surto econômico desta terra. Até agora não lhes há servido em nada a lição dos povos cultos, cuja avareza no aproveitamento e valorização das vias liquidas, das estradas que andam, chega ao extremo não somente de utilizarem-se por todos os modos e formas as naturaes, como ainda de crearem-se, formarem-se, canaes artificiaes, completando dest’arte, aquellas dotadas pela natureza (...). Entre nós vae se dando o contrario, queremos começar por onde os outros acabam; anciamos, desejamos, clamamos pela estrada de ferro e pouco ou nada ligamos à viatura liquida, simplesmente porque nossos rios tem num ou noutro ponto alguns óbices que lhes dificultam o transito! Semelhamos nesse particular a 478 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1915. p.1 232 um individuo que sentasse a uma lauta mesa e depois se quedasse inerte sem utilizar do que alli existisse porque quem lhe ofereceu a mesa se esqueceu de ministrar também criado para fazer-lhe o prato e levar-lhe o bocado a boca. 479 Feitas essas ponderações, pode-se afirmar que a ferrovia nos planos de modernização ou melhoramentos para o Norte consistia numa Linha férrea de Alcobaça à Praia da Rainha, no estado do Pará, parte de um projeto que planejou uma ferrovia que saísse de Belém, passando por Boa Vista do Tocantins, até o Rio de Janeiro, a Capital Federal. 480 Esse trecho foi defendido por Ayres, principalmente porque significava uma via alternativa para superar Itaboca, uma das zonas encachoeiradas do rio Tocantins que inviabilizava a navegação, que é “o trecho mais dificultoso a ser transposto aquele que mais perigos apresenta”.481 Outro traçado ferroviário desejado seria trechos que, combinados com a navegação pelo Tocantins, ligariam Goiás aos estados da Bahia e Maranhão. A ideia seria aproveitar a extensão do rio Tocantins e, a partir dos pontos navegáveis, onde for mais conveniente, construir dois pequenos trechos um mais ao norte para o interior do Maranhão e outro mais ao sul rumo ao interior da Bahia. 482 Posteriormente uma ideia parecida ganhou visibilidade, a de uma estrada de ferro da Bahia a Goiás, num trecho que iria de Formosa ao Porto Franco do rio do Somno, sendo que até formosa podia chegar vapores da carreira do rio São Francisco, e a Porto Franco vapores que podiam sulcar o Tocantins. 483 Ainda como desdobramento desse plano de ligar os dois estados, ao longo dos anos, outras propostas surgiram como a de uma linha férrea que de Formosa, no estado da Bahia, procurasse a cidade de Pedro Affonso, em Goiás, 484 ou uma que ligasse Barreiras a Palma 485 e, por último, a construção de um ramal da estrada de ferro, de Barreiras a Porto Nacional. 486 Uma ferrovia que de Minas Gerais fosse até o Araguaya e Tocantins, projeto que culminou na inserção da ferrovia no estado de Goiás, mas que não foi efetivado até chegar aos dois grandes rios citados. 487 Desejo que anos depois apareceu como expectativa pela 479 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1922. p.1 480 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1906. p.3 481 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1918. p.1 482 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1907. p.1 483 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1908. p.3 484 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1909. p.1. 485 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/07/1909. p.1, 2. 486 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1913. p.1. 487 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1908. p.3. 233 conclusão da estrada de ferro denominada Goyaz, que em território goiano fosse de Catalão até a cidade de Palma. 488 O traçado mais pleiteado por Francisco Ayres da Silva, consequentemente pelo Norte de Goyaz, foi o da planejada estrada de ferro Brasil Central, dirigida então pelo engenheiro Dr. Paulo Frontin, sobretudo o trecho que sairia da cidade mineira Pirapora indo até Belém, capital do Pará, percorrendo o interior do país passando por Palma, Porto Nacional, Pedro Afonso, Carolina, Porto Franco e Boa Vista do Tocantins. Essa linha margearia todo alto Tocantins. O chamado prolongamento da Estrada Brasil Central foi proposto dividido em três pontos, para ser construída em três etapas. A primeira sob a supervisão do Engenheiro Dr. Sampaio Correia, professor da Escola Polytechina do Rio de Janeiro, que iria de Pirapora à Palma, passando pelo ponto destinado à nova capital da República e por Formosa, “cidade goyana situada no limite leste do território formado pelo planalto central (...) primeiro núcleo de população goyana atingido pela linha”; a segunda de Palma à Carolina, sob os cuidados do engenheiro Dr. Adolpho Pereira, professor da escola polytechina de São Paulo, e a terceira de Carolina à Belém do Pará, supervisionada pelo engenheiro Dr. Paulo de Queiroz, professor da eschola polytechina do Rio de Janeiro. 489 Esse trecho ferroviário, considerado a “espinha dorsal do systema ferroviário brasileiro”,490 que guarda certa proximidade com o traçado da atual Ferrovia Norte Sul, não foi materializado, mas podemos ter uma noção do desejo de Francisco Ayres pelo mapa produzido por Paulo Frontin no início do século XX. 488 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1920. p.1. 489 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1911. p.1, 2. 490 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1911. p.1, 2. 234 FIGURA 8: Mapa do Sistema ferroviário sugerido por Paulo Frontin, 1927. FONTE: Site Centro-Oeste – VFCO. Disponível em: http://vfco.brazilia.jor.br/Planos- Ferroviarios/1927-Plano-Frontin.shtml acesso em: 11/03/2016. Nas palavras de Francisco Ayres sobre a ferrovia e o próximo ponto que será tratado a navegação fluvial: Para Goyaz, - sul ou norte, venha d’onde vier um traçado de via rápida, a resultante será sempre benéfica, o Estado recebel-o-á de alma genuflexa e de coração desmedidamente repleto de satisfação, pois que, bem o sabe, elle lhe trará o progresso (...) Venha a estrada de ferro, mas não seja despresada a franca navegação dos rios Araguaya, Tocantins, Balsas, Ponte Alta e tantos outros que os vapores podem sulcar desembaraçadamente e que até agora nosso desleixo pelo que é 235 nosso vai deixando num abandono completo e desmedidamente sensuravel. 491 No mapa acima se pode notar que os rios Araguaya e Tocantins não aparecem como rios completamente navegáveis. Torná-los navegáveis por grandes embarcações a vapor foi a prioridade fulcral do projeto de Francisco Ayres, sem dúvidas o melhoramento que mais desejou e se empenhou para ver realizado. Caso tivesse que resumir todos os caminhos da modernização pensados pelo portuense em um ponto, certamente seria esse. Foi indiscutivelmente o tema mais tratado no Jornal Norte de Goyaz, que pela repetição e insistência quis torná-lo a grande questão para todo o norte do estado. Praticamente todas as edições do periódico tratou, direta ou indiretamente, sobre a necessidade de implementar a navegabilidade franca dos rios. Boa parte dos assuntos discutidos no jornal remetia para o problema da falta de investimento na navegação, os mais variados temas eram usados como pretexto para abordar o mote máximo do projeto do Dr. Ayres. Como, por exemplo, o atraso nos correios foi justificado muitas vezes pela dificuldade de percorrer os obstáculos do rio Tocantins que, especialmente nas cheias, eram perigosos e difíceis de serem transpostos conservando as malas em perfeito estado. As dificuldades com relação às doenças, o analfabetismo, a condição precária do povo foram por vezes atribuídas ao problema da navegação, assim como a dificuldade de se governar todo o estado de forma integral, ou os problemas na cobrança e fiscalização dos impostos, entre outros. 492 Até mesmo os rumores de um rompimento diplomático entre Brasil e Alemanha por ocasião da Primeira Guerra Mundial, acompanhado sistematicamente pelo jornal, serviu de ensejo para propor a desobstrução dos rios, sob o argumento de que caso a viação pelos mares Brasileiros fosse interrompida ou interceptada por um possível bloqueio marítimo, os rios pelo interior do país seriam um excelente recurso para o transporte de contingentes militares que manteriam o país protegido, além de surpreender os adversários. Ou seja, além de outras tantas contribuições que o melhoramento nos rios Tocantins e Araguaya poderia oferecer os mesmos serviriam ainda como meio para novas estratégias militares em defesa da nação. 493 Francisco Ayres da Silva advogava que “a navegação a vapor das grandes artérias que liguem o nosso estado ao do Pará é o problema incógnita porque resolve todos os outros 491 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1907. p.1. 492 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1917. p.2; 30/06/1924. p.1; 15/07/1924. p.1; 31/12/1924.p.1. 493 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1917. p.1. 236 problemas, dando-lhes solução. [...] o remédio de tudo e para tudo é facilitar-se o transporte”.494 A maneira como o tal “problema incógnita” foi versado pelo periódico portuense induz a presumir que se tratava de um assunto em que se tinha relativa unanimidade, que não haveria no Valle Tocantins, independente de posição social, religiosa ou de outra ordem qualquer, alguém que desejando o melhor para a região se posicionasse publicamente contrário ao melhoramento. Evidente que o Norte de Goyaz não expressa o todo, não consegue abarcar todas as expectativas e percepções, certamente existiram pessoas que se indispuseram ao projeto ou que foram indiferentes ao mesmo, que pensaram em outra forma de avançar na esteira do progresso, ou que simplesmente não o desejou satisfeitos com a vida da maneira como era, e não ansiosos por como ela poderia ser. Todavia, não se pode negar que, ao longo das primeiras décadas do século XX, tratou-se de um tema aglutinador que aproximou interesses diversos e direcionou forças; à semelhança da confluência dos rios, a navegação se tornou ponto comum entre os ditos nortenses, mais um elemento que conferiu unidade e identificação à população em torno dessa categoria em construção. A ideia era basicamente tornar navegáveis os dois grandes rios, Tocantins e Araguaia, para estabelecer linhas fluviais regulares de navegação em navios a vapor. Para isso seria necessária a desobstrução e limpeza das zonas encachoeiradas ao logo de toda extensão dos mesmos, inclusive de seus afluentes. Entretanto, em especial pela localização de Porto Nacional, a luta pela desobstrução do Tocantins foi mais intensa e incisiva do que pelo Araguaia, embora alguns pontos encachoeirados fossem comuns por estarem além da confluência dos respectivos rios. O jornalista inclusive reclama devido este receber mais atenção por parte do poder público do que aquele. De fato, observando os projetos do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, a maioria não apresentou nos mapas o Rio Tocantins como um rio navegável, ao contrário do que ocorreu em relação ao Araguaia. 495 Nesse sentido, na distribuição de recursos, estudos e investimentos o primeiro era preterido em preferência do segundo, pois na concepção dos engenheiros se tratava de um curso mais favorável para torná-lo navegável. Como se acreditou que o futuro de prosperidade chegaria por vias fluviais para Goiás, logo ele seria então feito através do Araguaia e não do Tocantins. Portanto, Ayres da Silva 494 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1925. p.1. 495 Plano geral de viação nacional. Decreto n. 24.497 de 29 de junho de 1934; Plano da Comissão de 1890. 237 lamentava o fato que “tanto patriotismo e tanta boa vontade para com o Araguaya olvide por inteiro o Tocantins”.496 Um dos motivos para esse favorecimento pode ser explicado pela extração do chamado ouro negro, ou seja, o caucho, na época extraído fartamente nas margens do Araguaia para exportação de borracha, o que atraiu mais investimentos. Sendo assim, para executar o plano máximo de Francisco Ayres de tornar o Rio Tocantins francamente navegável, apropriado para grandes e modernas embarcações a vapor com viagens regulares de Peixe, no estado de Goiás até Belém, no estado do Pará, era necessário desobstruir, dentre outras, as principais zonas encachoeiradas no alto e baixo curso do rio, como Carreira Comprida, Pilões, Mares, Lageado, Funis de Cima e de Baixo, Três Barras, Santo Antonio, Tauyri e Itabocas. 497 Para ele, a “grande artéria Goyana” representava a mais segura alternativa para o desenvolvimento da região norte de Goiás. Assim explicou a demasiada insistência em promover a navegação no “poderoso caudal”. Por vezes temos nos ocupado do grandioso problema da navegação fluvial, único, a nosso ver, capaz de, um momento para outro e sem grandes ônus, transforar a vida do Brasil central, do coração do paiz, deixando-o à população dias dos centros cultos e drenando para esse riquíssimo e inexgotavel território um sopro de vida nova. 498 A partir das últimas décadas do século XIX, sobretudo no início do século XX, tanto o governo Brasileiro como a iniciativa privada não priorizou a viação Fluvial, dando mais destaque para a ferrovia, rodovias e posteriormente até mesmo para a viação aérea. De qualquer forma, o anseio do Norte de Goyaz por melhoramentos no rio Tocantins parecia estar na razão inversa dos investimentos e intenções do governo quanto à questão. Algumas comissões, tanto a mando do governo como de companhias internacionais, exploraram o Tocantins avaliando a possibilidade de desobstruí-lo. Entre os pareceres favoráveis e desfavoráveis, Francisco Ayres atuou para atrelar o rio aos propósitos da época, sustentando a ideia de que poucas e fáceis intervenções do homem bastariam para dirigir a energia da natureza, para prover novos projetos e desígnios para a coletividade. Nada mais moderno e representativo do progresso do que a sujeição da natureza ao homem. Nesse sentido, as zonas encachoeiradas soaram como obstáculos da natureza a serem vencidos ou “negros fantasmas alli servindo de espantalho para nosso 496 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1907. p.2 497 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1920. p.2 498 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1909. p.1 238 progresso”.499 A navegação a vapor seria qualquer coisa como a consumação do predomínio da técnica sobre os desafios naturais, o caminho para a transformação desejada. Os pareceres favoráveis eram explorados e utilizados como argumento, os desfavoráveis eram combatidos veementemente. Como ocorreu numa ocasião em que o Ministro da Viação, após expedição e estudos, produziu um relatório afirmando não ser possível tornar o Tocantins navegável em toda sua extensão. Francisco Ayres rapidamente se posicionou alegando que o tal ministro estava equivocado porque seu parecer foi feito sem conhecimento total do rio, mas apenas de poucos quilômetros, portanto se tratava de uma conclusão precipitada e infundada. Para contrapor essa opinião citou as considerações de outra comissão conduzida pelo sr. James Orton que, além de defender posição contrária, concluiu que o rio seria um ótimo lugar para se investir na extração de ouro. Com intuito aparente de demonstrar que os recursos oferecidos pela natureza do interior do estado não estavam sendo devidamente aproveitados em prol do país, Dr. Ayres da Silva pontua em tom de lamento e pressão, “é realmente doloroso que estejamos dando aos estrangeiros que nos conhece mais a nós do que nós conhecemos a nós mesmos”.500 A ideia era sugerir que os estrangeiros estariam com larga vantagem explorando riquezas que os nacionais não seriam capazes de reconhecer. Esta ideia pode ser expressa também noutra situação envolvendo uma comissão belga que também realizou explorações científicas, e evidenciou a “praticabilidade da navegação a vapor no Tocantins alto e baixo”. O “intrépido grupo de belgas” supostamente desejou realizar o serviço de navegação, mas foi impedido por não conseguir a concessão para isso. Embora a comissão belga tenha almejado tal intento e relatado isso em seu parecer, aproximadamente em 1902 este foi utilizado recorrentemente ao longo dos anos pelo periódico portuense como prova de que a desobstrução do rio seria um melhoramento possível. 501 Nesse ínterim, Ayres criticava as companhias que contratualmente receberam concessão e que deveriam promover a navegação, mas no seu entender não o fizeram a contento, tais como a Companhia Fluvial e Ferroviária Tocantins Araguaya, posteriormente transformada em Companhia de Estrada de Ferro Norte do Brasil, que apesar de ficar durante décadas monopolizando o serviço fluvial, recebendo recursos do 499 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 15/11/1913. p.1. 500 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 15/11/1921. p.3. 501 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 15/01/1906. p.1; 15/07/1908.p.1; 31/05/1909. p.1. 15/11/1913. p.1 239 governo, foi acusada de não promover os benefícios necessários, exceto algumas viagens em lanchas a vapor no baixo Tocantins. 502 Ainda assim, pondera que foi inicialmente obra dos engenheiros belgas “o abalo às nossas silenciosas florestas com o estridente apitar das machinas a vapor este grande vehiculo do progresso e do desenvolvimento; dois belos e elegantes vaporzinhos, por elles guiados as suas aguas cristalinas e marulhosas”.503 Com exceção de pouquíssimas lanchas a vapor a serviço de companhias ou de particulares, que com muitas dificuldades percorriam esporadicamente partes do Rio Tocantins, a navegação do mesmo continuou por décadas, a despeito dos desejos e tentativas de Francisco Ayres, sendo realizada pelos botes, ou seja, pequenas embarcações de alguns metros de comprimento, por 4 ou 5 de largura. 504 O jornal Norte de Goyaz, apesar das opiniões contrárias, continuou insistindo e persistindo em provar que a navegabilidade do rio por navios a vapor era absolutamente possível, caso se desobstruíssem os trechos encachoeirados. Para isso, as viagens realizadas através dos botes feitos pelos nortenses, ou pelas lanchas a vapor adquiridas noutros centros, até mesmo as viagens por sistema misto, ou seja, alternando lancha e barcos de remo, serviram como argumento, seguindo o raciocínio de que se com embarcações rudimentares e pouco modernas os nativos iam de Porto Nacional a Belém, vencendo com a habilidade dos práticos os perigos e obstáculos do Tocantins, poderia se fazer muito mais com os transportes modernos. Sobre esse ponto do projeto de Francisco Ayres da Silva há uma colaboração feita para o jornal O Paiz que exprime com maior precisão o que a navegação significava naquele contexto. Trata-se de um artigo assinado por Benedicto Odilon Propheta comentando sobre suas expectativas quanto à eleição do Dr. Ayres da Silva para a câmara federal. A citação é um pouco extensa, mas importante porque resume bem o que foi dito até momento. Na imprensa carioca Odilon Propheta afirmou: Espero que a alma goyana identifique-se com o momentoso desejo de progresso que ora nutre o meu espírito, quando me refiro a solução do problema da desobstrução do Tocantins; pois se, desprendidos de preconceitos egoísticos e sectaristas, aventarmos o assumpto, 502 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 31/07/1911. p.1 503 Norte de Goyaz. Porto Nacional. 13/11/1913. p.1 504 Para saber mais sobre a navegação no Rio Tocantins, detalhes sobre as embarcações e viagens ver: OLIVEIRA, Maria de Fátima. Cidades Ribeirinhas do Rio Tocantins: Identidades e fronteiras. Goiânia. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Goiás, 2007.; SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora: Diário de viagens. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.105. 240 contribuiremos assim para acoroçoar o nosso ilustre representante na câmara federal, que parece deseja fazer qualquer coisa pelo seu torrão natal. (...) não nos deveria jamais falecer a convicção inabalável (inspirada pelas futuras vantagens), de que, da desobstrução do majestoso Tocantins dependerá todo o progresso da zona nortense do estado de Goyaz. Ouço falar, de vez em quando, da impossibilidade de tornar o rio Tocantins accessivel à navegação a vapor; mas creio o contrario, por duas razões pincipaes: primeira, porque aquelles que se externam desta maneira, ignoram absolutamente a capacidade da engenharia moderna; segunda, porque me baseio no facto de todas as cachoeiras tocantinas serrem galgadas actualmente, pelos botes inestheicos e, portanto inapropriados, que fazem anualmente, na estação das chuvas, o commercio de gêneros do paiz para a praça de Belém do Pará, de onde importam mercadorias outras que se não produzem aqui. [...] Dado porém o caso de preterir a embarcação a vapor, em preferencia aos antigos e carrancudos botes tocantinos, reduzir-me-ia ao silêncio, neste ponto, ante a celebérrima lógica do amigo caranguejo (...). O resultado áureo da desobstrução do álveo riquíssimo de esperançosa artéria tocantina consistirá indubitavelmente no facto de por em relação mutua elementos novos, elaborando-se, deste modo, uma nova civilização na zona nortense de Goyaz. É sabido que um dos maiores agentes do progresso é a facilidade e rapidez das comunicações entre povos diferentes; 505 A citação anterior poderia ser apenas uma demonstração de apoio a Francisco Ayres da Silva, como representante goiano na câmara federal para promover a solução para a navegação franca do Tocantins por navios a vapor e as vantagens que tal feito proporcionaria. Mas, ganha outros contornos interessantes, caso se observe que Odilon Propheta foi um líder protestante da igreja batista muito criticado pelo Norte de Goyaz, sobretudo por seu posicionamento contrário à ordem dominicana e ao próprio Francisco Ayres no que diz respeito a assuntos religiosos principalmente. Pouco antes de escrever para O Paiz, Odilon Propheta foi por vezes insultado pelo periódico portuense pelo livro que publicou intitulado Sublime Mensagem, que tratava de vários assuntos combatendo o catolicismo e seus dogmas. O livro foi chamado de brochura, seu conteúdo, assim como outros pronunciamentos e colaborações para jornais goianos e nacionais foram comparados a vômito por seus críticos. 506 Como se pode observar quando se tratava da navegação, propagandeada como um objetivo comum, outras diferenças e rivalidades pareciam ser ignoradas. Por isso, Odilon Propheta afirmou sobre a necessidade de se desprender de “preconceitos egoísticos e sectaristas” para tratar sobre o “momentoso desejo de progresso” que nutria os espíritos e identificava os goianos como pertencentes a um mesmo povo. 505 O Paiz. Rio de Janeiro, 01/08/1914. p.6. 506 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1914. p.2; 15/06/1913. p.1; 241 Apesar das diferenças o líder batista fez coro com Francisco Ayres quanto à importância dos melhoramentos no Tocantins, ao reconhecimento de que disso dependia o futuro do norte de Goiás e à associação do progresso com o contato rápido e fácil com centros civilizados, por meio dos melhoramentos modernos ligados às comunicações. Outro ponto defendido por ambos foi o combate contra a ideia da impossibilidade de tornar o rio apropriado a embarcações a vapor, com base na navegação feita pelos ribeirinhos, principalmente a crença na técnica como elemento de transformação na promoção de civilização e progresso e na capacidade da “engenharia moderna” que poderia, “em qualquer estaleiro da Inglaterra”, construir navios mais leves, com maior compartimento de carga, com tripulação reduzida e capazes de navegar de forma rápida e segura em qualquer profundidade, mesmo estando carregados. Ayres dizia que diante dos avanços científicos “esse impossível torna-se verdadeiramente chimerico, por isso faz-se preciso vergastar a crença que por ahi anda de que os rios do norte goyanos são de navegação impossível”.507 Qualquer pensamento contrário a essa crença e esperança seria mesmo qualificado como adepto da “celebérrima lógica do amigo caranguejo”, pois da navegação por vapores de Peixe a Belém dependia o progresso do Norte, daí porque tal melhoramento fora apresentado como uma urgência. Na concepção de Francisco Ayres da Silva, destes chamados sistemas de comunicação dependia todo o resto, como desenvolvimento econômico, social, cultural, urbanização, saneamento, higienização etc. Veja mais ou menos como ficaria a situação de Porto Nacional e do norte caso os principais pontos do projeto de Ayres se efetivassem, certamente, o sentido de localização da cidade e da região norte se transformaria. 507 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1906. p.1.; 15/03/1906. p.1. 242 FIGURA 9: Mapa do Projeto de modernização de Francisco Ayres da Silva. 508 508 Este Mapa foi elaborado a partir das informações estraídas nas fontes. 243 Dentre esses sistemas de comunicação até a viação aérea foi cobiçada, bem verdade que em menor grau, embora o jornal estivesse sempre atento às inovações da área. A tecnologia da aviação se desenvolveu significativamente em decorrência da primeira Guerra Mundial, com aparelhos mais seguros e rápidos que começavam a ser incorporados em muitos países, inclusive no Brasil, para outras finalidades que não a da guerra, como sistema postal, transporte de passageiros entre outros serviços. Como afirmou Ayres um dos grandes melhoramentos surgidos com a guerra foi inegavelmente a viação áerea. As discussões sobre o Serviço de Navegação Aérea no Brazil impressionaram quando os jornais noticiavam que aeroplanos, adaptados para passageiros, haviam realizado uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro em duas horas e vinte minutos, quando o trem, outrora o meio mais eficiente de transporte, realizava a mesma viagem com doze horas; falava-se ainda da possibilidade de se atravessar o Atlântico em grandes aeroplanos. 509 Pode-se imaginar o que essas notícias causavam em termos de sensações e expectativas quando apresentadas na realidade do norte goiano, ainda não alcançada pelos modernos sistemas de viação. Ayres, como espécie de profeta, já previa um porvir com essa “nova espécie de locomoção, dizia ele bem de ver que em futuro não remoto vejamos os nossos ares sulcados pelos magníficos aparelhos precursores do mais elevado progresso”.510 Na primeira década do século XX, o Norte de Goyaz apresentou uma série de textos, sob o título de “Palestra scientifica511 – o homem... feito ave!”, comentando sobre a história da aviação, as tentativas exitosas e fracassadas de aperfeiçoar a técnica e suas “maravilhosas machinas” de voar, já sugerindo previsões da perfectibilidade da viação a ponto de se tornar o meio mais comum e prático de locomoção, e que os aviadores, outrora tidos por utopistas, já davam mostras de que suas pretensões já estavam no campo das obras realizáveis, considerando que “estes progressos parece que se realizaram quase de súbito”. Por isso previa, sustentava a ideia de que se “O homem já conseguiu voar! D’ahi, à pouco todos voaremos!”512 Durante a primeira fase do Norte de Goyaz, a aviação foi desejada muito mais como um invento moderno, uma nova tecnologia que mantém quem a possui em compasso com o progresso, do que 509 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/07/1919.p.2. 510 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1918.p.4. 511 Essa sessão era assinada pelo pseudônimo Verax, utilizada por Francisco Ayres, mas nesse caso pelo religioso dominicano Rosário Melisan, que discorreu sobre diversos assuntos de ciência e atualidade. Mesmo aós sua ida para Uberaba no triângulo mineiro, tornando-se colaborador do Correio Católico, a coluna continuou sendo publicada. 512 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1908.p.1. 244 propriamente como um melhoramento fundamental para promover as transformações que se acreditaram necessárias para o estado, especialmente Porto Nacional. Por falar em novas tecnologias, ou dito de outro modo os chamados “inventos modernos”, pode-se afirmar que eram outra preocupação importante, pertencente ao projeto de modernização pensado pelo deputado federal portuense. Todavia, o contato ou posse dos inventos modernos significava muito mais consequência do que propriamente causa indispensável do futuro desejado e/ou planejado. A abordagem sobre as novas tecnologias exerceu papel importante no sentido de renovar as esperanças e manter acessa a convicção de que não havia impossíveis, de que qualquer utopia poderia se converter em realidade mais rápido do que se poderia imaginar. As notícias sobre os inventos modernos funcionaram como estímulo à imaginação, revigorando as expectativas e fortalecendo a importância e urgência dos melhoramentos no sistema de comunicações, ou seja, rede de informações e transportes que colocariam todo universo das novas invenções noticiadas à disposição dos sertanejos nortenses. Naquela época em que parecia surgir uma nova descoberta ou invento a cada instante, as mais surpreendentes previsões se multiplicavam proporcionalmente. Falava- se, por exemplo, em descoberta científica que transformaria metal comum em metal precioso 513 , ou sobre a invenção de motores leves a querosene que permitiriam em pouco tempo ver helicópteros pelos ares 514 , ou que também em curto prazo haveria “diariamente, conversações por telefone sem fio com as grandes cidades do mundo, ainda que estejam separadas entre si por centenas de milhas por mar e terra”.515 Chegou- se a cogitar inclusive a possibilidade de viagens instantâneas no tempo e no espaço, sobre isso Ayres defendeu que “na ordem scientífica nada, nada à priori é impossível. As mais inverossímeis, as mais insanas, as mais ilógicas proposições merecem ser examinadas (...)”.516 Era comum ler, no Norte de Goyaz, textos extraídos de outros jornais que discorriam sobre os inventos modernos em estudo ou já realizados, como o navio inventado a partir do mesmo princípio dos foguetes, que atinge tão alta velocidade que poderia ser chamado de “navio instantâneo”, atingindo quase 200 km/h faria o percurso Rio de Janeiro a Lisboa em 24 horas. 517 Ou instrumentos da “lavoura moderna”, como 513 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1908.p.1. 514 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1909.p.1. 515 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1916.p.1. 516 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1907. p.1. 517 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1907. p.2. 245 os automóveis para agricultores produzidos pela indústria de Henry Ford em Nova York, também chamados de cavalos mecânicos, que se destinariam principalmente aos pequenos agricultores para poupar seus animais e fazer o trabalho ““passeando em automóvel”, sem que nisto haja exageração retórica nem hyperbolica”. Engenho que substituiria com muitas vantagens as charruas “com as quaes o homem trabalha mais arduamente o que a besta”.518 Nesse sentido, o jornal propagandeava tanto aparelhos modernos desejados como alguns já conquistados e presentes na cidade portuense. Uma novidade muito desejada foi a “Radiotelegraphia”, serviço de rede de telegrafia sem fio, que estava sendo estudada pelo engenheiro Dr. Francisco Bering, que foi para Europa aprender sobre a nova tecnologia para posteriormente a implantar no Brasil. Em Goiás seriam instaladas duas estações, uma na capital e outra em Porto Nacional, ou seja, nas cidades em que se acreditava serem os pontos mais estratégicos do estado, a primeira ao sul e a segunda ao norte. 519 Dentre as tecnologias consideradas modernas em Porto Nacional, embora já há muito tempo comuns em outros lugares, que já podiam ser contempladas pelos nortenses, pode-se citar o Kalofone, Fervedor Relâmpago vendido em Nova York e na Colombo na capital federal, aparelhos necessários para montagem da estação meteorológica, trazidos por Francisco Ayres da Silva do Rio de Janeiro, aparelho de fotografia também adquirido no Rio de Janeiro na Casa Bastos Dias, destinado a João Ayres Joca para montar um gabinete fotográfico. A notícia recebeu o seguinte título “O progresso vae penetrando em nosso meio”, nela o jornal comemorava ao afirmar que “em breve torna-se uma realidade a Photographia em nossa cidade, que muito lucrará com mais este progresso”.520 Outro aparelho noticiado com euforia foi o cinematógrafo, segundo o jornal, o primeiro contato com tal engenho ocorreu em 1910, quando Auro Pinheiro, residente em Pedro Afonso, colocou o aparelho pra funcionar em Porto Nacional, exibindo fitas “bonitas e engraçadas”. O jornalista considerou que “pela concorrência que vae havendo se vê que a nossa sociedade vae apreciando muito o espetáculo da moda actual mesmo nos grandes centros”. Segundo contato foi com a expedição de engenheiros para exploração e estudo do prolongamento da Central do Brasil de Pirapora a Belém, junto com a comissão estava o fotógrafo J. Stamato que carregava um aparelho 518 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1916. p.2. 519 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/05/1915. p.1. 520 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1911. p.3; 29/02/1916. p.4; 31/01/1915. p.2; 31/08/1908. p.4 246 cinematográfico, com fitas de algumas cachoeiras do rio Tocantins, além de registrar diversas fotos dos principais pontos da cidade e da própria redação do Norte de Goyaz, bem como de alguns habitantes. 521 Mas nada se compara à notícia de que Porto Nacional teria seu próprio cinema em 1914. a esforços próprios, dia a dia a nossa cidade avantaja-se na senda do progresso. Acaba ella de receber mais um melhoramento que bem de perto vem traduzir o grande interesse de um seu filho ilustre pelo seu progredir. Queremos nos referir a útil empresa Cinematographica “cantuaria e Gonçalves” que acaba de ser instituída entre nos com a acquisição do Cine Pio X, hoje cinema portuense, pelo exmo Cel. Frederico Lemos, activo e operoso commerciante de nossa praça, nosso destincto assignante e amigo. Ao coronel Lemos cumprimentamos, pela feliz ideia que teve em conseguir para a nossa cidade mais este melhoramento. Muito desejamos que os nossos patrícios bem saibão comprehender este beneficio em prol do progresso do Porto e cooperem com todo gosto para a manutenção do Cinema Portuense. 522 Como a principal imagem do progresso ou a mais explorada naquele período era a de um caminho, a cada novo aparelho inserido no cotidiano de Porto Nacional, ainda que apenas utilizado por uma pequena parcela daquela população, a sensação produzida era de que se havia dado um passo adiante naquela que parecia ser uma Rua de mão única 523 . Quanto aos inventos modernos, sobretudo aparelhos como os últimos citados, representaram a alternativa mais viável para se aproximar dos grandes centros urbanos, visto que dependia apenas da iniciativa de particulares que desejassem numa de suas viagens trazer na bagagem um utensílio ainda não existente na cidade. O cinema portuense, por exemplo, como mais uma atividade recreativa para os sertanejos, na tentativa de ter uma programação cultural comum noutros centros urbanos, serviu como espécie de nova janela aberta para o mundo. A possibilidade de assistir o mesmo filme que fez sucesso ditou moda, estabeleceu padrões e definiu valores em outros países, passou a ser real, como o filme protagonizado por Annete Kellermann, considerada a mulher mais bela do mundo, conhecida como a “Vênus Moderna”, grande sucesso nos cinemas do Rio de Janeiro anunciado pelo Norte de Goyaz, despertando a curiosidade do seu público. Em Porto se exibiu filmes como O fiel (drama), Cupido em manobras 521 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1910. p.3; 15/12/1911. p.2; 30/12/1911. p.3. 522 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1914. p.2. 523 BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. 247 (drama), Thais (historia romana), Ultima Conquista de D. Juan. (drama), O contrabandista (drama). 524 Ao que tudo indica o empreendimento de Frederico Lemos não teve muito êxito, o que possivelmente sugere uma inadequação do cinema à realidade portuense, dificuldade com a manutenção da casa, ou quem sabe desinteresse mesmo por parte da população. O fato é que já em 1918 passou por Porto Nacional um sérvio chamado Estanislau Wasicovix, que montou um aparelho cinematográfico que funcionou por alguns dias no paço municipal, cinema ambulante denominado Pathé, sugerindo que a sala do cinema portuense havia fechado, pois “a nossa população que já se recente com a falta de uma casa de diversão em nosso meio, não tem regateado sua frequência ao Pathé”. Segundo o jornal, o povo compareceu em peso na primeira exibição, e, embora a notícia tenha dado destaque ao cinematógrafo, é preciso dizer que juntamente com ele o sérvio trazia um macaco gorila, colocado em segundo plano pela notícia, o que nos leva a questionar se a curiosidade e a casa cheia se devem à exibição de filmes ou “ao bello animal muito bem amostrado que sobremodo vae divertindo o nosso público”.525 Talvez tenha ocorrido com o cinema portuense apenas o que Regma Maria dos Santos comentou a partir do cronista Lycidio Paes, ou seja, que certos inventos perdem sua prodigialidade porque passam a fazer parte do cotidiano do homem, depois de experimentados a casca de inovação se desfaz. 526 De qualquer forma não se pode negar a experiência de poder observar a realidade por um novo jeito, propiciado pela técnica do congelamento e movimento da imagem, além do que o cinema como outros inventos contribuíram para, de alguma maneira, compor parte do cenário de progresso no interior do interior do Brasil, colocando-o em sintonia com o mundo em alguns aspectos. Porto Nacional não passou ilesa daquilo que Marshall Berman chamou de internacionalização da vida cotidiana, que se deu por meio de roupas, ideias, fantasias, obras, objetos e também pelos ditos inventos modernos. 527 As notícias e anúncios do Norte de Goyaz testificam essa condição e o desejo abrasador de se atualizar. A cada invento ou nova tecnologia um misto de fascínio e tormento parecia assolar os nortenses, fascínio pelas possibilidades 524 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1915. p. 3. 525 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/11/1918. p. 4. 526 SANTOS, Regma Maria dos. Memórias de um plumitivo: impressões cotidianas e históricas nas crônicas de Lycidio Paes. Uberlândia: Asppectus, 2005. p. 230. 527 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 30. 248 que eles prometiam, tormento pela sensação de incompletude quando adquiridos, ou pela sensação de aumento da distância entre a condição atual em relação à condição considerada ideal quando não conseguiam adquirir. Outro ponto importante do projeto de Ayres, interligado aos novos inventos e tecnologias, diz respeito à necessidade de intensificar a produção agrícola e pastoril. Não foi um assunto exaustivamente tratado porque ele acreditava que, para ampliar a produção e se inserir de forma competitiva no mercado nacional e internacional, seria necessário antes resolver o problema das vias de comunicações. Como argumentou no “Norte de Goyaz ninguém cogita de exportar produto da lavoura e mesmo da pecuária, isto porque não possuímos, em absoluto, meios fáceis e rápidos de transporte”.528 Defendeu o discurso de que a produção ainda não havia crescido substancialmente porque não havia necessidade, já que a região norte do estado tinha condições favoráveis, pois era dotada de ricos recursos naturais como solo fértil, clima propício e água abundante, mas faltava-lhe meios de transporte que abririam outros mercados consumidores, indispensáveis para o desenvolvimento. Nas palavras de Francisco Ayres, si houvesse facilidade de transportes, não somente para suprir os mercados nacionais de gêneros de primeira necessidade, como ainda para prover a uma exportação regular. Entre nós as colheitas, para determinados cereais, chegam a fornecer mais de quinhentos por cento, no estado actual, e em culturas scientificamente conduzidas taes resultados duplicariam deixando-nos portanto, em condições de sermos um verdadeiro celeiro abastecedor de todo o paiz. (...) enquanto por lá os gêneros de mais vital necessidade sobem, por nossas paragens elles descem ante a abundância das colheitas e a falta de mercados consumidores, a falta de meios de transporte. 529 O discurso de Ayres deve ser entendido dentro de um contexto de disputa por investimentos em meios de transportes, visto que muitos argumentavam que era inviável empregar recursos numa zona pouco povoada e com pouca capacidade produtiva para retorno econômico. Ayres, como se nota, defendia uma ideia contrária de que eram muitas as possibilidades econômicas do norte que só não eram mais bem aproveitadas devido à falta de transportes rápidos e fáceis, em outras palavras, sua intenção era mostrar que na região se produzia mais que o suficiente para o abastecimento interno, com potencial para produzir muito mais a ponto de abastecer todo o país e até mesmo 528 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1917. 529 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1913. p. 2. 249 países estrangeiros, porém, ainda que sutilmente, não negava a necessidade de modernizar o sistema de produção. Este argumento servia para justificar/estimular os investimentos pleiteados. Embora em vários momentos se tenha notícias sobre crise de alimentos, ou falta de um item ou outro, ou mesmo falta de todos os gêneros como se pondera nesta nota, “actualmente a nossa Cidade ou para melhor dizer o nosso Município, atravessa horrível crise com referencia a escassez dos principaes gêneros alimentícios do nosso consummo público. Ignoramos completamente de onde vem essa falta absoluta de tudo”. Ou nessa outra em que diz, “é triste vermos a nossa cidade sem movimento algum e o mercado falta completamente dos gêneros de mais urgente necessidade”. 530 A crise de alimentos se dava principalmente devido à falta de trabalhadores que se lançavam em outras atividades, como extração de caucho ou mangabeira, ou porque se exportava a produção para as cidades vizinhas, vendendo por melhor preço, em detrimento do abastecimento interno. Embora não fosse sua prioridade, a produção agrícola e pastoril também o preocupou, principalmente porque se nutria a crença e esperança de que a qualquer momento a falta dos meios de comunicações ambicionados seria um problema resolvido. Nesse sentido, Ayres falou sobre estar preparado, o que significava modernizar a produção naquilo que era a base da economia goiana, dotar novas técnicas e instrumentos na indústria agrícola e pastoril. O desejo maior era imergir no que Simmel denominou a “economia do dinheiro”, padrão estabelecido em todo grande centro urbano, que se difundiu também em menor grau em pequenas cidades e até mesmo no meio rural. O dinheiro estabeleceu um nível de interesse comum que abrangeu inclusive os sertanejos. O autor nos chama a atenção para o fato de que nas grandes cidades a produção é para o mercado, os compradores e produtores não se conhecem, não há relações pessoais de maneira que os egoísmos e interesses econômicos não sofrem empecilhos. Era essa lógica que Ayres desejou que o norte alcançasse - mais racional e menos emocional -, transformando as relações íntimas e pessoais em relações baseadas na indiferença, em que se lida com o homem como se lida com um número. Relação puramente objetiva medida pelos interesses. 531 530 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1905. p. 1; 29/02/1912. 531 SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p.15-16 250 A economia monetária que torna o dinheiro equivalente para tudo e para todos tende a impor uma distância entre a pessoa e a posse, tornando mediada a relação entre ambas. 532 Francisco Ayres da Silva desejou acabar com os espaços da produção doméstica; a tão comum troca direta de mercadorias, mesmo em Porto Nacional, foi rotulada como primitiva, assim como as ações irracionais e instintivas comuns na produção. As formas de produzir ou de consumir divergentes das estabelecidas pela economia do dinheiro foram desqualificadas pelo Norte de Goyaz. Embora ainda não estivesse totalmente imerso na economia do dinheiro, como numa metrópole, Ayres parecia que já pensava por meio de uma mentalidade intelectualística, pautada na exatidão calculista da vida prática, reduzindo os valores qualitativos a valores quantitativos. De acordo com George Simmel, O dinheiro interpõe, entre o homem e os seus desejos, uma instância de mediação, um mecanismo facilitador. E porque, quando ele é alcançado, inúmeras outras coisas tomam-se alcançáveis, cresce a ilusão de que todo o resto seria mais fácil de alcançar que antes. Com a aproximação da felicidade, porém, aumenta o desejo dela, pois não é o absolutamente remoto e proibido que acende a chama da paixão e da saudade máximas, mas sim o que não é possuído e cuja posse parece aproximar-se cada vez mais - como acontece por meio da organização monetária. O desejo enorme do homem moderno de ser feliz, que se mostra não menos em Kant do que em Schopenhauer, não menos na democracia social do que no americanismo crescente atual, alimenta- se, obviamente, do poder e do sucesso do dinheiro. A "aspiração" especificamente moderna de classes sociais e de indivíduos - seja que queiramos condená-la ou cumprimentá-la como impulso do desenvolvimento cultural - só podia crescer porque existe, agora, uma palavra-chave na qual se concentra tudo que é desejável. Existe um ponto central que só precisamos optar, como se fosse uma chave de milagre num conto de fadas, para que alcancemos todos os prazeres da vida. 533 Interessante observar que o Norte de Goyaz aos poucos estimulou Porto Nacional a se adequar ao que chamou de “meio monetário”, todavia destacou alguns problemas para tal adequação como a falta e a falsificação de moedas, que faziam com que os indivíduos depositassem pouca confiança sendo “forçados a voltar ao commercio dos tempos primitivo e as permutas se fazem de produto a produtos”, desde boi a gêneros de primeira necessidade, inclusive produtos estrangeiros. 534 O que Ayres 532 SIMMEL. Georg. O dinheiro na cultura moderna. In. SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold. Simmel e a modernidade. Brasília: UNB. 1998. P.2. 533 Idem. Ibdem. p. 11-12. 534 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1920.p.3. 251 entendeu, ou quis entender como forçados, pode ser explicado como preferência pelas trocas e resistência a conferir ao dinheiro a equivalência total dos produtos, aversão ao desejo de que todas as transações fossem expressas em dinheiro, transformando-o no único valor vigente. Enquanto isso, Francisco Ayres, por meio do seu periódico, trabalhava para que cada vez mais objetos pudessem ser vendidos, comprados e alcançados pelo dinheiro, em conformidade com os centros urbanos reconhecidos como civilizados. Especialmente a partir da década de 1910, os anúncios das casas comerciais publicados no jornal, tanto de Porto Nacional como de outras cidades como Belém, Barreiras e Rio de Janeiro, destacavam em caixa alta que os negócios são feitos “A DINHEIRO”, inclusive oferecendo descontos para aqueles que preferissem realizar as transações em dinheiro. A exemplo desta casa de comércio pertencente à família Ayres, “Casa Commercial Viúva Ayres - acaba de receber da praça de Belém do Pará um bom e bem variado sortimento de mercadorias estrangeiras e nacionais, inclusive sal. VENDAS A DINHEIRO. Compra borracha de mangabeira, penas de ema e pelles de gado”.535 Retomando a discussão daquilo que nos levou até a economia do dinheiro, na concepção de Ayres uma vez solucionado o problema da viação a produção de uma “lavoura moderna e indústria pastoril”, como chamava, seria o meio mais prático de se enriquecer, ou como diria de fazer o norte progredir, alcançando o não possuído, mas aparentemente próximo de ser. Como discursou na câmara federal, “em taes condições Sr. Presidente”, referindo-se ao que considerava falta de sistemas de comunicações, “V Ex. e a Camara fartamente verão que não há lavoura que possa desenvolver”.536 Não fosse a ausência de redes de transporte e informações ditas modernas, certamente a prioridade seria a agricultura e a pecuária, a grande questão é que, para Francisco Ayres, estas só se modernizariam ao ponto que planejou caso aquelas fossem uma realidade concreta e materializada. O desejo era colocar o norte no fluxo da economia do dinheiro, para, então, por esse meio, realizar seus desejos. A essa altura algum leitor poderia questionar que não ficou muito claro o que representava para esse personagem uma lavoura moderna e uma indústria pastoril. Em linhas gerais, pelas nossas fontes não é fácil definir com precisão o que eram, é mais fácil e presumível discorrer sobre o que não eram, ou seja, formas de produzir que não se submetessem rigorosamente ao tempo da natureza e ao saber prático dos lavradores e 535 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1911.p.4. 536 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1918. p. 1. 252 vaqueiros sertanejos. Nos termos de Simmel, uma produção que não fosse simplesmente a luta com a natureza pela vida, mas sim “uma luta entre os homens pelo lucro, que aqui não é conferido pela natureza, mas pelos outros homens”.537 Apesar da dificuldade serão apresentadas algumas pistas. Francisco Ayres afirmou categoricamente “Ao tempo que o consumo aumenta, por maior ser a população que absorve os gêneros, a lavoura, si não paralisa, decrece. Se estaciona, porque está a cargo inteiramente de homens inaptos de lhe dar franco impulso”.538 O que Francisco Ayres defendia como lavoura moderna seria uma produção agrícola em larga escala, munida com os últimos instrumentos modernos destinados à atividade, mas principalmente baseada nas técnicas científicas de produção de preparo da terra, plantio, colheita e armazenamento. Algumas técnicas dos lavradores nativos foram alvo de críticas, por exemplo, a prática de todo ano derrubar matas em diferentes lugares para o plantio de suas roças, ao invés de preparar um mesmo campo de cultivo todos os anos que evitariam o desmatamento conservando as florestas, águas e clima. Ayres indagava, “qual seria mais trabalhoso ao lavrador a, derriba anual de um roçado ou o reparo annuo de um campo de culturas?”539 Embora o discurso sustentado pelo jornal expresse o que hoje se denomina consciência ambiental, não era exatamente isso que estava em questão, mas o desejo de aumentar a produção tornando os pequenos roçados em grandes lavouras, o que seria irrealizável caso perdurasse a prática criticada sob a aparente preocupação com meio ambiente, quando o que mais parecia preocupar era o “desconhecimento completo dos instrumentos da lavoura moderna” por parte dos lavradores nortenses. Quanto à criação de gado, Francisco Ayres defendia a consolidação de um centro de indústria pastoril capaz de produzir para consumo e para exportação estrangeira, propondo a substituição de hábitos relacionados à atividade em questão, a partir da realização de melhoramentos, se não os ideais aos menos os que estivessem ao alcance. Condenava-se, portanto, a criação indiscriminada de toda espécie de cabeça de gado, “entregues as intempéries do tempo e sem o custeio dos campos trabalhados no mundo civilizado”, sob os cuidados de vaqueiros mais hábeis para benzer de bicheiro do que preparados para os cuidados necessários dos animais. 540 Para Ayres, a maneira 537 SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p.15-16 538 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1912. 539 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1915. p.1. 540 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1906. p.1-2; 31/08/1906. p. 1. 253 como a pecuária era executada em Goiás não possibilitaria animais de qualidade competitiva com os existentes noutros centros de indústria pastoris. Para mudar esse cenário seria necessário, além de trabalhadores mais bem preparados, o uso de reprodutores estrangeiros, técnicas de cruzamentos de animais cuidadosamente selecionados, preparo dos campos, entre outros. Quanto à mão de obra não se tratava de substituir o sertanejo goiano por outro, já que a lavoura e a pecuária absorviam a maior parte dos trabalhadores do estado, mas sim de qualificá-los para uma produção que transcendesse seus saberes, hábitos e práticas, incorporando os saberes científicos e as técnicas modernas. Não por acaso levantou a bandeira da criação de pelo menos dois campos de demonstração, um em Porto Nacional e outro na cidade de Goyaz, para apresentar aos goianos o padrão ideal para a lavoura e indústria pecuária, conforme os parâmetros ditos modernos. 541 Numa série de textos publicados no Norte de Goyaz sobre a intensificação da produção nacional, sob a assinatura de Cincinato Braga, Francisco Ayres da Silva apresentou o que seria, em sua opinião, o principal melhoramento para dinamizar a agricultura e a pecuária no norte do estado, criar meios para que a plena fé dos trabalhadores fosse, não na religiosidade, mas na ciência. está superabundantemente demonstrado, mas demonstrado à prova da mais completa luz, que os países que tem conseguido maior riqueza, maior progresso, nas lavouras e nas industrias, são aqueles que mais decisivamente enveredam pela multiplicação: a) de estabelecimento de pesquisas scientificas b) de institutos de ensino theórico e prático, ambos preparando a sua população laboriosa a aceitar e ter plena confiança na sciencia. O Brasil está trabalhando as escuras, às cegas. No mundo moderno, os olhos de um povo são a chimica e a mecânica. No Brasil, a maior parte da elite de nossa população ainda pensa que faz a felicidade de um filho dotando-o com uma carta de bacharel em direito... que engano!.. a época do bacharel em direito já passou, como antes dela já havia passado a do padre. 542 A vontade de ver a população portuense depositar total credibilidade na ciência, como fator indispensável para aumentar as riquezas e acelerar o progresso, explica mais um dos importantes pontos do projeto de Francisco Ayres da Silva, aquele que com a direção fundamental dos dominicanos provavelmente foi o feito mais próximo do realizável do que todos os outros melhoramentos já mencionados. Trata-se da “instrucção”. A ideia era basicamente criar e manter em perfeito funcionamento 541 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1907. p.1; 31/05/1918. p.1; 15/01/1913. 542 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1918. p. 1. 254 instituições públicas e privadas de ensino primário e secundário tanto para homens como para mulheres, porque isso facilitaria o progresso das ciências, das letras, das artes e das indústrias. Usando como referência Estados Unidos, Suíça e outros países europeus, Ayres criticou a falta de investimento em educação no Brasil, sobretudo nas partes central e norte do país, afastadas do litoral. O saber foi considerado como “hóstia santa e libertadora”.543 O problema da instrução foi colocado com o mesmo grau de importância que o problema da viação, ou seja, como uma questão da qual dependia o futuro desejado. Seria necessário preparar a população nortense, através da instrução, para os desafios da época. Acreditando que não haveria como transformar a realidade em volta ou a si mesmo não fosse pela via da educação, Francisco Ayres da Silva se esforçou para tornar a cidade de Porto Nacional uma referência em educação para o norte do estado, e, em parceria com os dominicanos, acabou conseguindo tal objetivo, pois esta era uma das poucas cidades do estado dotada com ensino primário e secundário, apesar das idas e vindas, avanços e retrocessos nas disputas por benefícios referentes à instrução. Durante toda a primeira fase do Norte de Goyaz, a educação foi debatida e defendida, inúmeros textos ressaltando as vantagens de se instruir e a necessidade de se investir na área, porque a falta de investimento público seria como uma “nodoa para a nossa ambicionada e mal adquirida reputação de povo civilizado”.544 Na década de 1920, por exemplo, o jornal estampava no rodapé da primeira página de forma destacada a seguinte frase, “Combater o analfabetismo é dever de honra de todo brasileiro”. Foi criado na cidade de Porto Nacional o “Thesouro da Instrucção Popular” como forma de levantar recursos para contribuir na luta contra o analfabetismo, apresentado no jornal como o maior inimigo do Brasil. A cidade portuense, nesse aspecto, estava em sintonia com o restante do país, porque tais iniciativas faziam parte de uma tendência nacional estimulada pela chamada Liga Brasileira Contra o Analfabetismo. 545 Para uma cidade como Porto Nacional que, pelos seus líderes, desejou ardentemente se inserir no mercado e estabelecer uma organização burocrática, a instrução seria indispensável. De acordo com Talcott Parsons, a modernidade se iniciou com duas revoluções a industrial e a democrática, mas aponta ainda uma terceira que foi 543 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1906. p. 1; 15/03/1915, p.1-2; 15/03/1907. p.1; 01/03/1906.p.2. 544 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1913. p. 1; 30/06/1906. p.1 545 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1924. p. 1. 255 um passo importante rumo à secularização, que é a revolução educacional, fator determinante para o processo de transformação de toda a estrutura da sociedade moderna. Para Parsons, a revolução educacional, em certo sentido, “sintetiza os temas da revolução industrial e da democrática: igualdade de oportunidade e igualdade na cidadania”.546 Um elemento da revolução educacional é a difusão da educação primária, que a partir de então não se restringia apenas a uma pequena elite, mas se estendia a toda população. Se a educação formal pode ser entendida como um elemento de distinção, a ampliação do alcance da mesma significou também uma extensão de igualdade de oportunidades. Nesse sentido, a falta de acesso às qualificações educacionais soou como um prejuízo, como um estado de desvantagem em relação aos que o tinham, qualquer coisa como não possuir a mesma condição de igualdade de oportunidades. Por isso, Francisco Ayres desejou colocar a cidade portuense em pé de igualdade com os grandes centros urbanos espalhados pelo mundo que tinham em comum uma base educacional. O que não significou de maneira alguma oferecer igualdade de oportunidades para toda a população nortense, já que instrução no âmbito de Porto Nacional parecia ser apenas o combate ao analfabetismo, proporcionado pelo ensino das primeiras letras, que em razão das dificuldades de diversas ordens, que não cabe aqui mencionar, seria realizado apenas por uma pequena parcela da sociedade. Não se pode perder de vista que o sistema educacional é fundamentalmente seletivo apesar de “compatível com os ideais de igualdade de oportunidade, introduz novas formas de desigualdade real no moderno sistema social”.547 Implantar o ensino primário e secundário em Porto Nacional, além de outros interesses, envolvia principalmente a concepção largamente disseminada em todo ocidente de que “sem instrucção não pode haver progresso e havendo progresso é porque há instrucção”.548 Só assim a cidade alcançaria a condição planejada e sonhada por Ayres. Outro ponto do projeto de modernização de Francisco Ayres da Silva foi a urbanização do município de Porto Nacional. Embora acreditasse que um processo mais incisivo de transformação urbana só pudesse ser realizado após a resolução dos 546 PARSONS. Talcott. O sistema das sociedades modernas. Trad. Dante Moreira Leite. São Paulo: Pioneira, 1974. p.121-124. 547 Idem. Ibdem, p. 117. 548 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1922. p. 1. 256 problemas de viação, o jornalista não se furtou de tratar sobre o assunto dentro daquilo que pensou estar ao alcance. As discussões sobre as obras públicas no município devem ser entendidas no contexto de disputas políticas, especialmente a nível local, entre aliados de Francisco Ayres e seus adversários que disputavam os cargos políticos. Nesse sentido, os comentários oscilavam entre críticas e elogios à condição urbana da cidade, dependendo de quem estava ocupando o cargo de intendente municipal. Tratava-se mais de qualificar ou desqualificar uma gestão, do que propriamente de avaliar uma obra pública ou a necessidade dela. Feitas essas considerações, apresento em linhas gerais o que chamou a atenção de Francisco Ayres quanto ao referente tema. Francisco Ayres defendeu que a maior parte dos recursos municipais fosse destinada à realização de obras públicas e asseio urbano, como construção e/ou reforma de prédios públicos, serviço de asseio e limpeza das ruas, construção de pontes, pontilhões, aterramento de grutas, reforma nos portos da cidade no rio Tocantins, reparo das ruas que por não serem pavimentadas sofriam muitos estragos em razão das chuvas, tornando-se praticamente intransitáveis pelos buracos e lama. 549 Sempre por ocasião do período chuvoso, a atenção se voltava para o espaço urbano e suas áreas prejudicadas pelas enxurradas, ressaltando a necessidade de investimentos para benefícios materiais. Notícias como a que segue eram frequentes, “as chuvas tem sido bastante que as enxurradas cavaram no porto real da nossa urbs enorme grotão (...) a verba obras publicas não teria melhor aplicação”.550 Ainda na dimensão das obras urbanas em Porto Nacional, Francisco Ayres se empolgou com algumas obras como a reforma e ampliação da catedral, até mesmo pelo envidraçamento da mesma. Ou ainda com a construção do “grande e bello” convento dos padres dominicanos, “construído debaixo das regras da architetura moderna”. Prédio situado no fundo da catedral, no largo das mercês com a rua 7 de Setembro, que “buscava de perto ao progresso e desenvolvimento da nossa sociedade (...) edifício que hoje representa um dos mais belos ornamentos de nossa cidade”.551 Ofereceu auxílios para outras, como a reforma da cadeia pública e a construção do pontilhão que dá acesso a Piabanhas. 552 Comemorou planejamentos como o previsto na lei n.65 de 21 de janeiro de 1913, autorizando o intendente municipal a comprar ou permutar terrenos urbanos 549 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1905. p. 4; 30/06/1909. p. 1; 15/06/1913. p. 4; 31/03/1918. p. 4; 30/11/1918. 550 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 28/02/1925. p.3. 551 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1922. p. 2; 30/06/1912. p. 3; 15/10/1913. p. 2. 552 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1918. p. 2 257 para abertura de avenidas, ou a lei n. 53 de 28 de janeiro de 1909, que previa a alienação de terrenos suburbanos no município para arruamentos ulteriores, além de alargamento de ruas e edificação de praças; ou intenções como a autorização para construção de ponte sobre o rio Áreas e Formigas. 553 O jornal, a partir de suas matérias, de uma forma ou de outra sempre opinativas, como se falasse em nome do povo, cumpriu o papel de estabelecer as prioridades, as urgências, aquilo que deveria ser realizado, mas não foi, ou aquilo que foi realizado mas não deveria, ou seja, fiscalizando e/ou avalizando o poder público local. Como fez numa situação em que o intendente estava planejando reformar o Paço Municipal, e afirmou que “o povo vae balbuciando – entre o enfeite do Paço e a buraqueira de algumas ruas é muito mais de desejar-se o melhoramento destas e ao depois o ajaesamento daquelle”.554 Desta feita, reivindicou melhoramentos como reformas no cemitério, matadouro, curral, cadeia e mercado públicos, sob o argumento de que estavam abandonados, sujos, fétidos, tomados pelo matagal e pela lama das chuvas, ou seja, em completo abandono. 555 Ao passo que faz as reivindicações, apresenta também sua concepção do que deve ser uma cidade, o que é aceitável ou não num centro urbano. Valendo-se do seu poder e saber autorizado pela medicina, em nome da saúde pública, adverte contra hábitos e costumes considerados antiquados no espaço público, exige o cumprimento do código de postura que parecia ser ignorado pela maioria. Assim, Ayres foi tentando adequar Porto Nacional para tornar sua urbs cada vez mais próxima daquilo que nutriu como expectativa para a cidade, aproveitando ainda para tratar a questão dentro do jogo político, atribuindo culpa aos adversários políticos e não à população. A principal rua da cidade a rua 7 de setembro, por onde nossos habitantes fazem seu maior transito, está em estado desolador, transformou-se em um verdadeiro pantanal em toda extensão da quadra que vae desta redação a esquina da rua das flores. Os moradores desta rua já não podem estacionar um instante se quer em suas portas ou janelas por causa do desagradável mau cheiro que exala do grande lameiro alli existente, a infecionar toda a rua com sua pútrida exalação, a qual já está prejudicando a saúde publica. No mesmo estado continuam todas as outras ruas. Acontece que esta triste situação ainda mais se agrava por causa de um grande numero de 553 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1913. p.4; 15/02/1921. p.3; 31/01/1909; 15/08/1924. p.2. 554 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/10/1911. p.4. 555 Vale destacar que o prédio onde funcionava o açougue e mercado público pertencia a Francisco Ayres da Silva. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1922. p.2. 258 suínos que, de certo tempo para cá, transitam livremente pela cidade com pio no consentimento do fisco que não procura privar semelhante abusa, severamente reprimido em nosso código de postura. Estes nojentos animaes transitam livremente pela cidade e de preferencia procuram aqueles pontos, ora transformados em verdadeiros curraes de fazenda velha e tocão a se enlamearem e revolvem toda aquela lama podre da qual desprende um cheiro insuportável! O povo reclama e reclama com justa razão, desde que se lhe exige tanto direito! (...) por que isso de se esbornir o rico cofrinho, sem ver o menor beneficio material, é bastante duro de se conformar. E é assim que vimos fazer novo apelo ao snr. Intendente de facto em nome do povo, por cujos interesses temos obrigação de velar. 556 O esboço apresentado acima do projeto de modernização de Francisco Ayres da Silva expressa apenas as questões sobre as quais mais se empenhou, seja por desejo, interesse, sonho ou estratégia. Vale lembrar que o projeto não é estático, pronto e acabado, mas foi alterado e reformulado ao longo da sua trajetória, traçados mudados, ordem de prioridades invertida, elementos acrescentados ou subtraídos, estratégias e objetivos redefinidos entre outros, tudo à medida das circunstâncias. Poderia apresentar nesta narrativa todas essas variantes, o que demandaria muito espaço, tempo e esforço, todavia creio que essa ausência pouco ou nada compromete o objetivo proposto, portanto pouparei a mim e aos leitores de tamanho enfado. Embora parte dessas variantes apareça sutilmente ao longo da discussão a seguir, que versará sobre algumas consequências provocadas pelo processo de modernização em Francisco Ayres, Porto Nacional e o Norte de Goyaz. 3.3 FUTURO/PRESENTE: FÉ DEMAIS NO PORVIR “NÃO CHEIRA BEM”? Nos termos de Reinhard Kosseleck, pode-se afirmar que as histórias são compostas por experiências vividas e pelas expectativas das pessoas, forma privilegiada de lidar com o tempo histórico, visto que conseguem entrelaçar as diferentes temporalidades. Nessa perspectiva, proponho observar a experiência de Francisco Ayres diante do processo de modernização, especialmente pelo viés das expectativas. O que segue é uma tentativa de perceber, de maneira mais evidente do que outrora já sinalizado, que tipo de futuro constituiu o presente de Francisco Ayres. No momento em que viveu qual era a relação com o porvir, com o ainda-não realizado de seu tempo? Dito de outro modo, o que foi previsto por ele, o que apareceu em sua existência como 556 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1912. p. 3-4. 259 não experimentado, ou seja, como “futuro presente”. Por intermédio do Norte de Goyaz se pode ter uma noção de como o novo espaço de experiência que se abriria no futuro foi antecipado como expectativa, por sua vez constituída de “esperança e medo, desejo e vontade, a inquietude, mas também a analise racional, a visão receptiva ou a curiosidade”.557 Viajar no lombo de animais, depois embarcar num trem, sair dele para um navio a vapor e ao longo do percurso se deparar com obras em diferentes estágios de realização, movimentação de trabalhadores a serviço de alguma Companhia se preparando para o início de uma obra, ou acampamentos desfeitos de uma obra abandonada e ainda inconclusa. Trilhos sendo instalados, postes erguidos para receber as linhas telegráficas, andar pelas ruas e se deparar com construções suntuosas sendo edificadas, automóveis perambulando sobre avenidas pavimentadas desviando das multidões, ou passar por lavouras e se deparar com homens que trabalham manipulando instrumentos até então desconhecidos. Conversar com amigos ou estranhos nos belos jardins iluminados pela luz elétrica sobre as últimas notícias que leu nos jornais ou que ouviu dizer em conversas informais sobre as mudanças, polêmicas e conflitos que ocorreram em determinadas cidades devido aos melhoramentos recebidos, ou sobre as últimas invenções ou tendências pelo mundo que atiçaram a imaginação. Acompanhar as sessões da câmara e se deparar com diferentes projetos pleiteando melhoramentos de toda sorte, tomar conhecimento e partido sobre as mais recentes pretensões do poder público em parceria com engenheiros para dar continuidade às obras de viação. Alegrar- se por saber que projetos que preveem melhoramentos para a região onde vive foram aprovados e que possivelmente as obras se iniciariam a qualquer momento, ter a sensação de que muitas obras realizadas pelo poder público estão prestes a se aproximar do lugar onde se tem empreendimentos, o que facilitaria e dinamizaria os negócios. Enfim, eis uma parte do cenário que compôs o universo do mais cosmopolita portuense do início do século XX. Mediante o emaranhado de símbolos da modernidade, ou pelo menos dos burburinhos sobre os mesmos, muitos goianos nutriram expectativas, e Francisco Ayres foi invadido por elas, evidente que as suas expectativas não representam necessariamente as expectativas de todos, mas como homem da imprensa e da política pode-se dizer que trabalhou veementemente para reproduzir o mesmo horizonte de 557 KOSELLECK, Reinhard. Futuro passado: contribuição a semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. p.306-310. 260 expectativa ao ponto de torná-lo comum a todos que acreditava representar, sinalizando o que o processo de modernização foi capaz de gerar nos ditos nortenses. Nas representações feitas para as páginas do jornal portuense se identifica uma excitação com o futuro, um desejo ardente e otimista quanto ao porvir, pois nele estaria a realidade ideal para os que pensavam como Francisco Ayres da Silva. Não havia grande preocupação quanto à realidade atual ou passada, pois se acreditava que essa seria automaticamente superada por aquela que viria por meio dos novos meios de comunicação e transporte. Ayres dizia que estava próxima “A nova era, a era de esperanças risonhas, o norte confia no futuro, Goyaz espera e sonha por um progresso real”.558 Motivados pela vontade e pela convicção de que em breve se deparariam com a navegação a vapor, a ferrovia, o telégrafo e outros símbolos da modernidade alterando o cenário das cidades nortenses, acreditaram que essas tecnologias fariam o norte de Goiás progredir aceleradamente ao ponto de alcançar o patamar de civilização das grandes cidades modernas, acertando o compasso com as mesmas. Ayres, comentando sobre a possibilidade de um empréstimo para fomentar vias rápidas, principalmente a rede de navegação fluvial, afirmou que “em breve estamos certo, tudo será remodelado, caminharemos trilha verdadeiramente nova, ocuparemos distintivamente papel saliente na vanguarda da federação brasileira”. Ou ainda sobre a “questão momentosa”, ou seja, os rumores de que se planejava construir uma estrada de rodagem que ligasse o chamado Vale Tocantins a um ponto de navegação a vapor na Bahia, dizia “é crença nossa que a estrada é problema vencido, é crença que o norte vae progredir”.559 As expectativas que permearam a população de Porto Nacional, bem como do Norte de Goiás, estavam cada vez mais distantes das experiências vividas até então. Ora concebiam um tempo novo, espécie de futuro aberto na contemporaneidade, quando ainda estavam destituídos da maioria, mais precisamente, dos principais objetos do desejo que, para eles, o promoveriam. As expectativas eram extraídas mais da crença de uma vida que certamente viveriam do que propriamente da condição de que já desfrutavam. Pensava-se num futuro diferente da/na realidade atual, absolutamente melhor e que não poderia ser projetado a partir do presente. Esse espectro, denominado progresso, com traços iluministas, interferia com intensidade crescente no cotidiano das 558 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1906. p.1. 559 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1907. p.1; 31/12/1906. p.1. 261 cidades do interior do Brasil que esperavam não apenas se modificarem, mas melhorarem. A cada notícia de inauguração não necessariamente das obras, mas do início delas, em qualquer uma das cidades dos estados vizinhos, aumentava a sensação de que esse porvir estava mais próximo, renovando as esperanças. Assim aconteceu, por exemplo, quando em 1908 se inaugurou o primeiro trecho de linha férrea que de Minas Gerais chegaria a Goiás até os rios Araguaya e Tocantins, aproximadamente trinta e seis quilômetros de ferrovia de Formiga a Arcos. O jornal comemorava com entusiasmo ressaltando que “os trabalhos continuam acelerados e mui brevemente novas inaugurações prometem se fazer”. Ou ainda a simples informação de que existe um projeto em discussão no senado sobre um traçado ferroviário que passaria pelo norte, noticiado por um jornal da cidade Goyaz, que por sua vez transcreveu uma nota do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, já ganhava tom de celebração. “A grata noticia do novo traçado que, em futuro não remoto, vem proporcionar ao nosso sertão as auras bemfazejas da civilização e do progresso”. No Norte de Goyaz as notícias que reafirmavam a proximidade do porvir almejado se multiplicavam alimentando as expectativas. Havia pouca preocupação quanto à procedência das informações, o que indicava uma perspectiva repleta de otimismo. A exemplo do que comentou um correspondente de Natividade que, assinando com pseudônimo Prim, por ocasião da passagem de uma comitiva de trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil disse: “nos informou o dr. Chefe da turma que dentro de 5 annos poder-se-a ouvir na cidade de Palma o silvar extridente da locomotiva, esse porta voz do progresso”.560 Ainda nesse sentido, os exemplos são inúmeros, sobre a possibilidade do telégrafo chegar a Porto Nacional, afirmou-se, “tudo nos diz que uma era de progresso encaminha-se para os nossos sertões. Quando com as mais animadoras esperanças vemos em andamento a linha telegraphica.” Sobre a possibilidade da navegação a vapor no alto Tocantins, “é dizer-se que o sol da civilização reflete para nós os seus raios luminosos, tudo constatando que não longe nos aguarda uma phase de prosperidade”. Sobre a desobstrução dos rios “A noticia que nos trouxe (...) é por demais consoladora e enche-nos de verdadeiras esperanças”. Sobre a estrada de rodagem prevista num projeto de lei apresentado por Francisco Ayres, “descortinando nos um horizonte todo de esperanças vira em futuro não remoto, proporcionar à nossa zona sertaneja, se for 560 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1908. p.3; 15/01/1909. p.3; 15/11/1911, p.1; 15/12/1911. p.1. 262 convertido em lei, como o esperamos ser, grandes benefícios. Sobre os melhoramentos urbanos é de crer-se que em breve se poderá contar no numero dos mais adeantados do Estado”. Nas representações construídas para tratar sobre os melhoramentos, as expressões que mais se repetem são aquelas que demonstram um vir a ser, algo a ser feito, ou que está se fazendo, sempre inconcluso, ainda não presente, mas certo para o futuro próximo cada vez mais perto. Tais como as expressões, “vão chegando mais e mais”, “não longe”, “a ideia vae se tornando mais e mais prática”, “muito em breve”, “em futuro não remoto”, “há esperanças de que amanhã”, “amanhã será”, “com certeza brevemente estarão”, “está surgindo”, “vae ser”, “começará um nova era”, “eis que novos dias nos surgem prenhes das mais risonhas esperanças”, “começa romper as malhas com grandes esperanças para os dias de amanhã”, “novos horizontes começam a entreabrir” etc. Os exemplos são muitos e largamente utilizados pelos produtores e colaboradores do impresso. 561 O jornal cumpriu o papel de fazer a manutenção do entusiasmo dos habitantes da região pelo “grandioso futuro não muito remoto que a fácil via de comunicação terá de proporcional-a”, que acompanhavam cada rumor com satisfação e esperança, embora houvesse muita “gente da opinião de S. Thomé: quer ver para crer na fuctura ferro-via dos nossos anhelos”. A menção do personagem religioso, ainda que tratando dos que divergiam dos produtores do jornal, é uma evidência importante do que representavam as expectativas geradas naquele contexto em torno dos melhoramentos modernos, pois se assemelhava com a fé definida pelos cristãos no livro de Hebreus, ou seja, “a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. Somente com uma crença semelhante à depositada na religião seria possível vislumbrar, antecipar o futuro. Nesse contexto, as palavras de lideranças religiosas como Frei Reginaldo Tournier tiveram peso importante na reafirmação da crença num futuro, ainda que não subtraído das experiências do presente. Dizia ele, “amanhã será o Porto Nacional tal qual o sonhamos, grande, ilustrado, prospero, exemplar em tudo”.562 O hebdomadário estrategicamente, quando tratava sobre os pontos dos projetos que defendia, não separou muito espaço para a descrença, quando o fez a tratou pejorativamente. Homens como Francisco Ayres da Silva, sempre enredados nos pleitos políticos, começavam a se destacar dando visibilidade não apenas pelo trabalho que realizavam no 561 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1922. p.4; 15/10/1921. p.1; 30/12/1910. p.1; 15/09/1914. p.4; 30/06/1909. p.1; 15/06/1908. p.3. 562 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1912. p.2; 15/01/1909; 15/04/1912. p.3 263 presente, mas pelo trabalho que lembrasse o futuro. Nada no presente parecia mais urgente que o futuro esperado com desejo e curiosidade por uma parcela da sociedade. Ayres, o “fiel interprete pelo bem estar desta terra que lhe serviu de berço”, colocou-se então como o homem do progresso que já tomava providências para as inaugurações das obras no norte que, por certo, brevemente chegariam dando uma direção mais desenvolvida. 563 No espaço da política não haveria melhor forma de ampliar o capital político do que se apresentar como aquele capaz de realizar aquilo que o progresso prometia, incessante e insistentemente, cumprir. Porto Nacional, apesar ou por causa da distância geográfica dos grandes centros urbanos, foi inundado pela modernidade no seu sentido de progresso otimizante, e tomou parte das (im)previsíveis possibilidades despertadas pelos avanços tecno- industriais. Mesmo não gozando de uma transformação expressiva, numa época em que as transformações foram bruscas, a assimetria entre expectativa e experiência teve elasticidade maior do que qualquer momento anterior. A cidade parecia a partir de então incapaz de projetar outro futuro que não fosse aquele, como afirmou Reinhard Kosseleck, que “mesmo não podendo ser deduzido da experiência, trouxe não obstante a certeza de que as invenções e descobertas científicas iriam criar um novo mundo”.564 Como já dito, esse novo mundo deve ser entendido mesmo como melhor. Para se ter uma noção de como não havia limites para a esperança e a certeza de novos progressos, um colaborador do Norte de Goyaz, com relação às supostas descobertas de um cientista do instituto Pasteur, afirmou que num prazo de menos de cem anos seria possível tratar e curar a velhice, como se curava uma doença como bronquite. Considerou que logo poderiam ter “a esperança de viver tanto tempo quanto os patriarcas da Bíblia”.565 A máxima em voga era destacar que a noção de impossível deveria ser frequentemente questionada, a crença depositada nas novas tecnologias e descobertas, modernas e modernizadoras, parecia ter feito o impossível perder completamente seu sentido. Se a velhice, um dado da natureza, foi entendida como doença, acima de tudo uma doença curável, pode-se supor o que se imaginou como realização dos melhoramentos cogitados, como a navegação, ou seja, que não haveria nenhum impedimento que não pudesse ser sobrepujado. 563 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1909. 564 KOSELLECK, Reinhard. Op. cit.. p.326. 565 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/05/1908. p.1. 264 está surgindo nova era de esperanças, novo momento promissor. [...] não seremos mais as pareás desprezadas, nossas necessidades serão postas em foco e os verdadeiros problemas de Goyaz entrarão em solução, certos como estamos de que nosso estado somente começara cantar victoria quando pudermos ser, através principalmente da navegação fluvial, o celeiro abastecedor dos estados (...) Novos horizontes começam a entreabrir para nosso paiz, e o interior vae ser definitivamente incorporado no convívio da civilização. [...] hoje que se entreabre para nós uma era nova, força é desejar-se que ella seja em tudo benéfica, sinão para nós, ao menos para os cidadãos de amanhã aos quaes cumpre aos dirigentes preparar-lhes o espírito, a inteligência, para os surtos do progresso. 566 Na modernidade portuense o culto ao futuro foi muito presente. Junto com o novo horizonte de expectativas vieram também inevitavelmente as frustrações. Os impulsos provocados pela tese universal do progresso, experimentados de múltiplas maneiras, chegaram ao norte do estado goiano em forma de notícias, projetos, aspirações, anseios, perplexidade e também das respectivas frustrações. Se na modernidade, conforme observa Kosselleck, as expectativas estavam na ordem inversamente proporcional às experiências, ou seja, quanto maior o conteúdo da experiência menor as expectativas que se pode deduzir delas 567 , pode-se afirmar, como já analisado, que as expectativas em torno das transformações promovidas pelos melhoramentos modernos foram enormes e abundantes na região de Francisco Ayres, porque o conteúdo de experiência nesse quesito foi parco. Como elas eram eivadas de desejos e esperanças da mesma monta se conclui que as frustrações tiveram proporcional correspondência. Nas cidades nortenses as frustações têm peculiaridades se comparadas com as de outras cidades consideradas modernas. Nos centros urbanos onde se vivenciou transformações concretas promovidas pelos melhoramentos modernos, as frustações se explicam mais pelo desgaste das expectativas nas novas experiências. Dito de outro modo, a título de exemplo, uma cidade se frustrava normalmente quando nutria expectativas pela construção da ferrovia e do telégrafo em seu território, mas durante ou depois de receber os benefícios, diante das novas experiências abertas pelos mesmos, tomavam consciência de que não teriam os resultados que esperavam. No Norte de Goiás as frustrações, em grande parte, explicam-se de maneira diferente, mais pela própria impossibilidade de ter suas expectativas fracassadas ou satisfeitas. O projeto de modernização esboçado na imprensa portuense não se concretizou, os planos fralharam 566 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1912. p.2; 15/11/1912. p.1. 567 KOSELLECK, Reinhard. Op. cit.. 265 e não saíram conforme o esperado, por isso não se frustra com o que conquistou, mas por não ter conquistado. A angústia e a tragédia da modernidade em Porto Nacional se constituíram em ver um novo ser substituído por outro novo e logo se tornar antiquando, sem nunca ser experimentado. Francisco Ayres da Silva, como fomentador de um projeto de modernização, que se identificou mais com o futuro do que com sua realidade presente, acreditava que o progresso material era o único meio do norte se transformar, mas as condições materiais estavam sempre em débito com seu pensamento e sensibilidade em muitos aspectos reconhecidamente modernos, sobretudo pelo desejo de desenvolvimento. 568 A cada plano não realizado a sensação parecia semelhante a de quem perdeu um objeto já conquistado, embora a conquista de determinados objetos não tenha sido efetivada. O sentimento de perda era real, porque a crença de que seus desejos seriam satisfeitos também era real. O Norte de Goyaz em função dos seus propósitos dedicou espaço limitado à exposição de desesperanças, não haveria de ser diferente, por mais que seus ideais fossem frustrados; as desilusões quase sempre apareciam como um “não percamos a esperança”569, como forma de reavivar os ânimos. Mas, o sentimento de não ter satisfeito ou realizado as exigências do ideal pretendido, ainda que nem sempre escancarado, era uma incômoda e inseparável companhia. Sobre as mudanças desejadas no sistema de correio se lamentou que tudo ficasse na ordem dos planos, mas nunca chegasse a se efetivar, “terão cahido no esquecimento os planos de melhoramentos tão uteis e tão ansiosamente esperados”. É interessante observar que nesses momentos se fazia clara diferenciação entre plano e realização, o que não ocorria nos períodos de entusiasmo quando plano e realização se confundiam, pareciam sinônimos, como se no primeiro já estivesse embutida automaticamente a segunda. Os planos ou projetos considerados importantes para a região sempre eram largamente comentados, mas quando se demonstravam impraticáveis, ou eram preteridos em detrimento de outros menos interessantes, o jornal se manifestava lamentando o fato de nunca saírem do papel, ou de não conseguirem transpor a pasta do congresso apesar da importância e utilidade para o norte goiano. Francisco Ayres argumentava que muitos projetos exaustivamente discutidos tinham o efeito do fogo, ou seja, “fátuos: impressionam momentaneamente e desaparecem”, sobretudo, os 568 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 34-35. 569 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 10/09/1925.p.3 266 relacionados à ferrovia e à navegação, dois tópicos que “fazem doer de desesperança a todo aquelle que aspira pelo progresso de Goyaz”.570 A analogia feita por Francisco Ayres é significativa e, guardadas as proporções e peculiaridades, expressa uma sensação semelhante a que teve Walter Benjamin, relatada em Infância Berlinense, ao tratar sobre suas impressões dos incêndios, quando afirmou “todos os dias a cidade voltava a prometer-nos, e todas as noites me ficava a dever o prometido”. Apesar da frustração, o político portuense agia como os bombeiros descritos por Benjamin, que “mais pareciam protetores de um fogo invisível do que seus inimigos”, não tinha também preocupação em demonstrar claramente sua participação naquilo que se tratava de fogo posto, alimentado com papel de jornal, por isso que impressiona pelas labaredas, apesar de ser rapidamente extinto. 571 Resta observar que boa parte dos momentos de desencanto nas páginas do Norte de Goyaz coincide com críticas contra as lideranças políticas opositoras que estavam no poder ou com as quais Ayres disputava o poder, o que não minimiza ou relativiza as frustrações, apenas acena o esforço para desassociar essa incômoda e indesejável sensação da imagem daquele que deveria aparecer sempre como o maior incentivador do progresso nortense. Não se deve imputar ao periódico a total responsabilidade por essa desconfortável condição que possivelmente existiria, ainda que com atenuações, a despeito dele, todavia é inegável a maneira estratégica como se apropriou e explorou esse sentimento a seu favor. Para depreciar a administração estadual gerida por Urbano Gouvea, Ayres colocou em evidência os projetos de linha telegráfica para o norte, que, segundo o mesmo, “não mais faz vibrar o sentimentalismo goyano, cançado já, estafado mesmo, deante da eterna reiteração da mesma promessa, sem nunca vel-a em via de execução”.572 A movimentação de engenheiros e trabalhadores fazendo estudos de reconhecimento ou iniciando construções; aprovação, alteração e engavetamento de projetos de intervenção urbana e viação; cancelamento e renovação de contratos com companhias responsáveis por promover a navegação e ferrovia; pedidos de empréstimos; promessas de auxílios por parte dos governos; intercâmbio de notícias entre jornais e os rumores das ruas; inaugurações de melhoramentos em cidades de 570 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1907.p.1; 15/07/1909.p.1-2; 31/08/1907.p.1; 571 BENJAMIN, Walter. Rua de mão única - Infância Berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. p.106. 572 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1910. p.1. 267 outros estados; obras repentina e repetidamente anunciadas com euforia e entusiasmo; toda essa agitação ocupou as cidades nortenses por anos. Especialmente as que margeavam o rio Tocantins, como Porto Nacional, pareciam próximas ao novo, que por sua vez insistia em escapar. Mas, o novo fugidio para o vale do Tocantins não se trata necessariamente da perpétua desintegração e renovação de que fala Marshall Berman, ou da renovação incessante que implica em obsolescência súbita apontada por Antonie Compagnon, ou seja, a capacidade por excelência do moderno de criar o novo, ou como diria Nietzsche o eterno retorno do mesmo que aparece como outro. 573 Trata-se de não conseguir alcançar o mesmo novo que por décadas foi perseguido, ainda que noutros lugares este já surgisse como outro. A passagem do novo para o velho que se tornou quase instantânea colocou o norte do estado goiano numa posição incômoda e inquietante. Os questionamentos e dúvidas apareciam aqui e ali nas entranhas dos mais otimistas discursos “será ou não em breve uma realidade esses benefícios tao ansiosamente esperados?” Diante das notícias das construções de vias rápidas de comunicação os sentimentos oscilavam “do maior bocado do coração do povo tomou conta a maior desesperança”, porque os melhoramentos para o norte não passavam do “quadro de projectos”, dos quais “após breve lapso de tempo já se não ouve mais falar daquilo que teve num momento o cordão de alvoraçar o coração de um povo”.574 O próprio Francisco Ayres da Silva, comentando sobre o prolongamento da Ferrovia Central do Brasil, chegou a afirmar que fazia parte “daquelles que consideram uma utopia a realização do grande tentame por tantas vezes anunciado”. Mesmo ponderando não acreditar mais na possibilidade de uma ferrovia que de Pirapora chegaria a Goiás seguindo o curso do Rio Tocantins até Belém, bastaram novas informações de jornais da capital do estado e da capital da República de que engenheiros estariam estudando o percurso para que ele voltasse a falar do “magno assunto” dando as suas sugestões.575 A crença do médico, jornalista e deputado portuense nas possibilidades da/na modernidade, seu desejo de usufruir das tecnologias modernas em solo goiano, suas expectativas e entusiasmo pelo porvir não foram absolutamente acríticos. Ainda como parte e defesa do seu projeto, observou o processo de modernização em curso nas 573 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 1986.; COMPAGNON, Antonie. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. p. 11-40. 574 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1916. p. 1. 575 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/08/1918. p. 2. 268 principais cidades brasileiras criticamente, ao menos naquilo que julgava impedir a materialização dos seus anseios para o norte. Mesmo admirando a urbanização, a remodelação de cidades que se submetiam a grandes reformas modificando incisivamente sua fisionomia, Francisco Ayres considerava o aformoseamento uma inversão de valores, tendo em vista sua convicção por um progresso integral para o Brasil que atingisse a todos os estados ao mesmo tempo. Estabelecia uma hierarquização de prioridades, em que o mais essencial e urgente seria munir todos os estados com melhoramentos de viação, para depois investir em reformas urbanas, pois, “enquanto as arcas do tesouro se esgotam em aformoseamentos de cidades (...) ao interior do paiz se negam uns vinténs para adaptar um rio a servir melhor os naturaes”.576 Certamente suas críticas nesse sentido foram motivadas pela própria vontade de promover urbanização acelerada e aformoseamento de Porto Nacional e outras cidades nortenses, mas entedia que o caminho mais curto para isso ocorrer era pela desobstrução do Tocantins e pela inserção da região no circuito da malha ferroviária. Não se tratava de ser simplesmente contra, apenas de não aceitar a ideia de remodelar uma cidade quando muitas outras ainda careciam do básico, era melhor cuidar deste para posteriormente cuidar daquele. Assim, consistia mais numa censura sobre a forma de gerir e as prioridades do poder público do que numa aversão às transformações urbanas. Para ele, o surto para progredir dependia de melhoramentos mais práticos e funcionais, do que de melhoramentos essencialmente estéticos de pouco proveito sob o ponto de vista da nação. Não entendia porque os brasileiros que copiavam os Estados Unidos em tudo não tomavam como modelo o investimento destinado em transportes que os tornaram numa grande potência, superando o estado combalido de outrora. Portanto, defendia com verve que o Brasil ganharia mais “si, porventura, nossos políticos das altas administrações deixassem, por alguns instantes, a ideia fixa de aformoseamento das grandes capitaes e bipartissem a atividade ao favor da viacção interna do paiz”.577 Assim, Francisco Ayres, no contexto da Primeira Guerra Mundial ou no período entre guerras, valia-se de anúncios de escassez de alimentos para evidenciar a miséria e a fome na “admirável metrópole de luxo e vaidade”, onde, em meio à grandeza e conforto, muitas famílias padeciam sem o primordial para a manutenção cotidiana da vida. Como se quisesse incentivar a procura pelo norte goiano, criticava o aglomerado 576 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1908. p.1. 577 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1916. p.1. 269 de pessoas e o intenso interesse pelas populosas capitais, em detrimento da reduzida procura pelos sertões do interior, onde considerava a vida mais fácil pela abundância dos elementos básicos como terra e alimento. Reformas como as que ocorreram no Rio de Janeiro foram apresentadas por ele não apenas pelas vantagens que proporcionavam, mas também pelo “doloroso espetáculo de sofrimentos” que causavam. Nesse aspecto, as cidades nortenses apareciam como preferíveis aos grandes centros urbanos onde a população vivia “vestida a seda e com a barriga pregada ao espinhaço”.578 Após mais de uma década na câmara federal sem ter os pontos principais do seu projeto contemplados para o norte, o entusiasmo parecia ceder espaço às críticas contra a política de modernização nacional republicana em curso, em sua opinião, até então avessa aos interesses da região que representava, ou melhor, a seu projeto de desenvolvimento regional. Comparando o país com uma casa, em que os cômodos seriam os estados, Francisco Ayres apresentou uma explicação interessante para os problemas de falta de alimentos que os grandes centros urbanos supostamente enfrentavam, reforçando a ideia da necessidade de um progresso integral, uniforme e não apenas de alguns estados privilegiados porque hegemônicos politicamente, além de recolocar sua admoestação contra o “fenômeno anormal” de aformosear a sala de visita sem antes preparar a sala de visitas e a dispensa. O governo da republica, durante o grande lapso de existência cogitou em especial de preparar a sala de visitas. Olvidando-se quase por completo a sala de jantar e a dispensa. Quem se da ao trabalho de meditar sobre nossa erradissima carta geographica ficara surpreendido ante o desertão que ella estampa, e nesse desertão nenhum traço de viação a conjugar as unidades federadas (...) preparada a sala de visitas e limpas e desprovidas a sala de jantar e a despensa, é bem claro que só se poderá oferecer ao visitante café com leite mais ou menos açucarado, de acordo com o paladar do presidente em função. 579 As esperanças falhavam recorrentemente e a desilusão saltava aos olhos, até o próximo sopro de vida que reascendia as esperanças para as subsequentes frustrações. O Norte de Goyaz alimentava uma expectativa ingênua de certo porvir de progresso sempre anelado, mas nunca atingido. Nos termos do filósofo inglês Chesterton, “progresso deveria significar que estamos sempre caminhando para a Nova Jerusalém. 578 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1924.p.2; 15/05/1925. p.1-2 579 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/05/1925. p.1-2. 270 Realmente significa que a Nova Jerusalém está sempre se afastando de nós”.580 Ayres defendia que para progredir seria indispensável melhoramentos de viação para aproximar Porto Nacional das possibilidades civilizadoras. Mas, como os melhoramentos desejados não se materializavam, duas décadas depois do surgimento do jornal, ou seja, no último ano da sua primeira fase, foi desferido um parecer conclusivo, espécie de desabafo que sintetiza o misto de sensações vivenciadas simultaneamente, que dizia “todo sonho de progresso parece uma utopia”.581 O progresso aparece como sonho, sua realização não é, mas apenas se assemelha, à utopia, difícil, porém não irrealizável. O fato de crer num futuro de prosperidades, que teimava em não chegar, embora já presente em outros lugares, tal qual imaginou Ayres, de ver a mais viva esperança sendo “golpeada de morte”, fazia os sentimentos fervilharem, deixando certa uma percepção, ao que tudo indica compartilhada, de que “Sentimo-nos mal”.582 A percepção desse sentimento indica que a expetativa pelo futuro e suas correspondentes imagens de uma cidade, região e/ou estado do futuro talvez seja antes de qualquer coisa uma forma de negação do presente. Esse estado emocional, sentimento desconfortável e incômodo porque algo parecia estar errado, provocado graças ao processo de modernização em curso no mundo, que fez muitos nativos estranharem sua própria terra natal, ou mudarem sua percepção sobre ela, pelo simples fato de a mesma ter permanecido como é, foi determinante para a construção de imagens e representações do Norte de Goiás, como lugar atrasado, isolado e abandonado. 3.4 MODERNIZAÇÃO E SENSIBILIDADES: ATRASO, ABANDONO E (ISO)LAMENTO As sensações de atraso, abandono e isolamento exploradas no jornal de Francisco Ayres formam o tripé para toda obra, que ajudou a sustentar o norte goiano como região. Nessa narrativa, por uma questão meramente didática, discutirei ponto por ponto de forma sucinta. Contudo, sem perder de vista que as três escoras do tripé precisam ser entendidas como interligadas e interdependentes, como resultado do processo de modernização e suas disputas em torno dos melhoramentos imaginados como modernos. 580 ______. Ortodoxia. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2007. p. 112. 581 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1925. p. 2. 582 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1911. p. 2. 271 Como a forma de ler e discutir o norte de Goiás estava sendo feita a partir dos parâmetros e pressupostos da modernidade, especialmente no que diz respeito às transformações e desenvolvimento material dos grandes centros urbanos, nas representações do jornal, a região norte, ainda em formação, era concebida como atrasada porque estava isolada dos centros ditos modernos e civilizados, e isolada porque estava abandonada pelo poder público. Abandonada inicialmente porque não tinha um representante político oriundo da região, depois da eleição de Francisco Ayres era abandonada por outros tantos motivos, dentre os quais a negligência dos governos em não aproveitar as riquezas naturais e demais potenciais do norte do estado central do país. Quanto ao atraso, é preciso tomar algum cuidado principalmente para não cair no engodo da simplista relação de duplos opostos, na atraente, mas fatídica dicotomização da realidade. É preciso ressaltar que as elaborações dualistas sobre a modernidade do final do século XIX e primeira metade do XX são comuns, sobretudo porque boa parte dos documentos referentes ao período privilegia intencionalmente leituras dicotômicas, todavia isso não significa que a realidade, infinitamente mais complexa e ambígua, coincida exatamente com elas. Por isso, interessa mais aqui tentar entender os sentidos e as intenções que permearam o argumento do atraso presente nas páginas do Norte de Goyaz do que fatiar as tensões e embates desse momento histórico em duas partes antagônicas. Pelas representações do jornal de Francisco Ayres da Silva, o norte de Goiás não é atrasado no sentido de um estado permanente, perpétuo e inerente ao lugar e às pessoas que lá habitam, muito menos no sentido de ser oposto, contrário ou obstáculo ao moderno e seu progresso. Não se tratava de ser, mas apenas de estar atrasado, ou seja, a região em determinado momento se tornou atrasada, ou melhor, foi tornada atrasada por ter sido impedida de acompanhar com precisão um ritmo de transformação que contagiou o mundo. A noção de atraso aqui pode ser compreendida mais como descompasso, porque pressupõe um ritmo diferente e não necessariamente uma condição inferior e ultrapassada de ausência de desenvolvimento econômico, cultural, de conhecimento ou de civilização. Uma região em descompasso porque passou a ser observada não a partir de si mesma, mas em relação a outros lugares que, tendo também o mesmo alvo central, seguiam em compasso diferente e mais adequado ao estabelecido 272 pelo alvo, ou seja, o progresso. Como afirmou um correspondente da cidade de Pedro Afonso sobre o norte do estado, Todo lugar sente o desejo de progredir e, embora desprovido das classes industriaes, verdadeira alavanca progressiva, impulsionada pela união dos povos, força motora a base essencial para o engrandecimento social, se desenvolve maios ou menos, inda mesmo de modo lento, e vai trilhando proporcionalmente a senda do progresso. 583 O jornal portuense, através das linguagens que o constituíam, demonstrava sentimento de que a vida em Goiás tomava certa distância de outros centros urbanos do país, tornava-se mais difícil, especialmente pela falta das vias de comunicação. Evidenciar o descompasso foi um meio de evidenciar que a cidade deveria e merecia que o progresso se instalasse mais rapidamente por aquelas paragens, a ideia era acelerar o desenvolvimento que, como acreditavam, por certo chegaria. Os pares de Ayres, pautados na lógica de que toda cidade haveria de se modernizar, estavam convictos de que o interior do estado goiano participaria desse processo de desenvolvimento, por isso desejavam apressá-lo. 584 Mesmo diante, ou melhor, como parte do discurso do atraso, não se pode perder de vista que para Francisco Ayres da Silva, a terra goiana embora “Retardatária em muitos domínios marcha, no entretanto, segura e efficazmente no caminho do progresso”.585 O descompasso ficava ainda mais evidente quando se falava das novas tecnologias de transporte e comunicação instaladas pelo mundo, comparadas com as formas de viajar e se comunicar que prevaleciam no norte. Como se anunciasse uma necessidade. Numa crônica, Francisco Ayres se vale da ironia para demonstrar o que percebia como abismo entre o ideal e o atual, e não entre o velho e o novo. Dizia que todos se espantaram com um barulho que ocorreu na cidade, muitos saíram nas ruas e olharam pelas janelas para conferir do que se tratava, era o som de “uma carroça puxada por um monstruoso jaboti”, ficaram na duvida sobre o que era aquilo, se uma alma penada ou o “acabamento do mundo”, até que uma criança percebeu pelo que estava escrito e gritou “é o correio mamãe”.586 583 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1909. p.2. 584 WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.463-467 585 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1924. p.2 586 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1908. p.2-3. 273 Para incutir no público a sensação de atraso, requisito indispensável para fortalecer a ideia da necessidade de melhoramentos e consequentemente a importância de um mentor que os fomentariam, Ayres falava sobre cidades servidas com bondes, automóveis, ferrovias, grandes vapores, aeroplanos e linhas telegráficas, em seguida, apontava para os métodos de navegação e comunicação das cidades nortenses, qualificados como remotos porque eram ainda inalterados pela falta de melhoramentos. Ele dizia sobre a troca de notícias que hoje “na época dos automóveis, na época de fúria da electricidade, o serviço está pontualismo quando as noticias vem-nos com um mez e dez dias”. Sobre as viagens expunha que “em pleno século XX, para se comunicar com um centro beira mar, gastam se de seis a oito mezes, isto é, tanto quanto qualquer touriste gastaria para fazer umas quatro viagens em volta de todo o mundo!”587 Ora, assim se consolidou o paradoxo, aquele que se qualificou como o maior entusiasta do progresso e do adiantamento do norte de Goyaz foi, na verdade, o principal responsável por disseminar a percepção do atraso em sua população. A pauta do atraso era recorrente tanto nas páginas dos jornais como nos discursos e projetos de Francisco Ayres, quase sempre utilizada unicamente para se referir à condição material, ou seja, para demonstrar qual era a situação do norte de Goiás no que diz respeito à expressão material da modernidade. Entretanto, não se tratava da formulação do atraso como um fim em si mesmo, mas como argumento na disputa por melhoramentos, no convencimento para atrair investimentos, na persuasão para validar um projeto, na justificativa para se eximir das responsabilidades diante de medidas que se mostraram equivocadas ou que não foram realizadas, na justificativa de deficiências das cidades, até mesmo na valorização dos pontos positivos e vantagens da região e sua população, na crítica contra administrações ou políticos adversários, entre outros. Apenas a título de exemplo, quando se quis depreciar “o reino de S. M. D. Bulhões” e seu “progresso de assombrar”, o atraso aparece como culpa do governo bulhonista reiterado na consideração de que ‘quando se empreendem viagens cá por estas bandas não há sinao andar ao compasso de jaboti e do caranguejo (...) por toda parte por onde se ande, so se respira, so se apalpa miséria e atraso”.588 Apesar de reforçar a ideia de atraso quando conveniente, por vezes Francisco Ayres negou e combateu insinuações de atraso em outros aspectos que não o do descompasso quanto 587 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1905. p.2; 31/05/1911. p.4. 588 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1911. p.2. 274 ao progresso material, rechaçou veementemente ideias como a de que o norte é despovoado, ou povoado por índios bravios, de que sua capacidade produtiva é insignificante, de que está alheia à civilização, de que é uma terra insalubre e moribunda etc. 589 Atrelada ao atraso estava a sensação de isolamento. O processo de modernização com a noção de progresso universal marginalizou espaços, não apenas a nível mundial, hierarquizando os países numa escala linear, evolutiva e padronizada de desenvolvimento, mas também a nível nacional, provocando diferenciação entre os estados de uma federação por receber os influxos do progresso desproporcionalmente, essa lógica se estendeu também para o interior de um estado e pode ser identificada até mesmo no interior das cidades. As considerações de André Gorz são significativas nesse sentido, quando o mesmo propõe uma espécie de colonialismo por dentro e assinala que as fronteiras entre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento, entre potencias econômicas dominantes e populações dominadas, entre colonizadores e colonizados, não ocorrem apenas entre as nações, e sim que essas fronteiras ocorreram também no interior de cada uma das nações do mundo capitalista. 590 Ainda com base em André Gorz, pode-se afirmar que a modernização contribuiu para a concentração geográfica do processo de acumulação capitalista que contribuiu para o “empobrecimento relativo, quando não absoluto, de outras regiões”. Esse fenômeno não se restringe apenas à tradição colonial norteamericana, mas esteve disseminada ao longo do século XX na América Latina. 591 A sensação de isolamento enunciada por Francisco Ayres testifica essa máxima, pois o centro de poder e decisão econômica se concentrou, em algumas regiões do país, a certa distância do estado de Goiás. A concentração geográfica dos melhoramentos materiais fez sentir com mais intensidade o isolamento. Os elementos modernizadores, sobretudo os de comunicação, como a ferrovia e o telégrafo, foram entendidos como uma forma de colocar os estados em relação, de aproximá-los para a consolidação da nação brasileira e integração do seu território. Interligar os estados para dinamizar o comércio, facilitar o trânsito de mercadorias, agilizar o fluxo de notícias e informações de todos os tipos entre as regiões, mormente 589 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1910.p.2; 31/10/1908. p.1; 30/09/1918. p.1; 15/12/1906. p.2; 31/10/1909. p.1; 31/07/1924.p.1; 31/12/1924. p.1; 31/05/1912. p.1 590 Gorz, André. O socialismo difícil. Rio de Janeiro: Zahar, 1968. p.159. 591 Idem. Ibdem. p. 161-162. 275 as de caráter político, administrativo e comercial e permitir maior controle do governo até mesmo nos lugares mais distantes da Capital da República, como já visto, importantes inclusive sob o ponto de vista militar, pois facilitaria o controle e a defesa de toda extensão territorial. Enfim, o processo de modernização foi apropriado como instrumento republicano, que corroboraria para estabelecer e reafirmar a ideia de Nação e República, até nos lugares considerados mais remotos, a saber, o interior do país. 592 Se a interiorização da nação se daria por meio das vias rápidas de comunicação, também havia índices para medir o grau de desenvolvimento material das cidades. Ao perceber que capitais ou cidades menores de muitos estados já haviam recebido o telégrafo, ferrovia, estradas de rodagem ou navegação a vapor, enquanto o Norte de Goiás ainda não, soou como se a região não estivesse integrada ao país. Logo, de forma gradativa, tornava-se supostamente cada vez mais isolada da vida nacional, em função daquilo que se converteu em dificuldade de comunicação, especialmente com o centro nervoso do país a partir do litoral. Para combater a ampliada sensação de isolamento, além das lutas políticas por melhoramentos, Francisco Ayres defendia e publicitava o projeto do então Deputado Eduardo Socrates para tornar o planalto central a nova capital da República, ou seja, estabelecer o Distrito Federal em solo goiano como estratégia para atrair os benefícios de viação que tornaria Goiás muito mais do que um centro meramente geográfico. 593 Francisco Ayres pontua do que era feito tal isolamento, “em quanto os outros Estados vão sendo cortados e recortados de estradas de ferro o nosso infeliz Goyaz que vá se contentando com seus carros tirados a bois”. Como se falasse em nome dos comerciantes e fazendeiros, reafirmava “em quanto presenceamos os nossos co-irmãos se desenvolverem, vemo nos tolhidos de avançar na estrada do progresso impossibilitados de movimentarmos um dos principaes produtos de nossa atividade, devido a falta completa de meios de transporte”.594 Assim identificou, e ao mesmo tempo participou, do processo de construção do isolamento, que só podia ser percebido por quem ampliasse sua referência para além da cidade de Porto Nacional, ou do norte goiano. Certamente muitos conterrâneos contemporâneos de Ayres não se sentiam 592 MACIEL, Laura Antunes. Cultura e tecnologia: a constituição do serviço telegráfico no Brasil. In. Ver. Bras. Hist.. vol.21, nº41. São Paulo, 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 01882001000200007#nota. Acesso em: 23/03/2016. 593 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/12/1911. p.1 594 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1909. p.4; 30/07/1916. p.3. 276 isolados, estranhariam por completo qualquer percepção nessa direção, quem sabe alheios ao sentido que o mesmo tentou empreender por meio dos apelos, quem sabe apenas indiferentes ao assunto, o bastante para não compartilhar da mesma sensação. Entretanto, Ayres seguia criticando o projeto republicano de interiorização da nação por não conseguir, na sua visão, alcançar o interior. não é possível senhor presidente que ante perspectivas tão animadoras e promissoras, ante o progresso que se vae a pouco e pouco infiltrando por toda a parte, por todos os estados do Brasil, somente Goyaz seja mantido cruelmente fora desse intercambio, isto pelo simples fato de que o governo federal, si não levou ainda aos mais longinguos centros o influxo da viacção terrestre e da viação fluvial. a nossa cidade permaneça infelizmente ainda na triste contingencia de se ver privada do influxo do progresso, sem que possa usufruir dos salutares benefícios proporcionados pelas vias de comunicações com os centros civilizados, dada a circunstancia de se achar colocada no interior 595 Para aqueles que desejaram facilitar o deslocamento e agilizar a comunicação, seja por qual motivo dentre a multiplicidade de interesses, identificaram-se com as considerações de Ayres, tomando consciência e assimilando o isolamento, pois se em tantos lugares o contato por água, terra e até mesmo pelos ares se dava com facilidade e rapidez, inclusive nos estados limítrofes, e se os meios que permitiam essa possibilidade não chegavam até o interior do interior do Brasil, o isolamento parecia fazer todo sentido. Práticas corriqueiras como encomendar uma mercadoria, receber ou enviar uma correspondência, escoar produtos, receber ou fazer uma visita em outros estados, saber sobre uma nova lei aprovada, entre outros, que outrora não inquietavam, a partir de então passaram a testificar a sensação, pois se submetiam a novos critérios de exigência, pautados num tempo mais apressado, acelerado do qual às vezes só se tinham notícias. Mas que para outros tantos não fazia o menor sentido. Se a rapidez nas comunicações, do ponto de vista geográfico, significou o encurtamento das distâncias como é corrente afirmar, o Norte de Goyaz indica que significou também, para muitas cidades, o alargamento das distâncias, evidenciando que até mesmo a alteração da percepção e da noção de espaço e tempo é plural. De qualquer maneira, é fato que os melhoramentos criaram necessidades, urgências mesmo onde não se materializaram, e, por sua vez, reforçaram a impressão de que se estava isolado, ou 595 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1924. p.1; 30/11/1914. p.1. 277 pelo menos não conectados com outros centros como gostariam, por isso as cobranças. A interiorização promovida pelos melhoramentos pode até não ter acontecido no norte de Goiás, o mesmo não se pode dizer sobre o que provocou em termos de sensibilidades interiorizadas. Ainda sobre o isolamento, é preciso entender que está atrelado à concepção de localização, que por sua vez é também fruto de uma construção. Possivelmente o Brasil é a maior prova dessa assertiva já que construiu, por razões que não cabem nesse estudo, em praticamente todo processo histórico a partir da colônia, uma espécie de centralização da margem litorânea, e uma marginalização do centro interiorano. Diante do processo de modernização republicana apoiada nos ditos melhoramentos de viação e comunicação, Francisco Ayres acreditava que a navegação a vapor e o telégrafo, por exemplo, seriam capazes de transformar tudo a sua volta, portanto, tinha a expectativa de que o norte goiano poderia adquirir um novo sentido de localização. Ao longo dos anos, na medida em que os benefícios não chegavam, o senso de localização foi se alterando e a posição daquela parte de Goiás, para muitos, parecia cada vez mais distante, marginalizada e isolada do restante do Brasil, já contemplados com as linhas telegráficas e a malha ferroviária, inclusive no sudoeste do estado. Segundo o geógrafo Denis Castilho, Se observarmos a posição de Goiás no território nacional no final do século XIX, podemos compreender a ideia de “isolamento” ou as dificuldades de conexões com as regiões onde o capitalismo já se expandia. A concepção de localização, aqui, não é como um dado acabado, mas como uma construção. Por isso é necessário entender a formação de Goiás, assim como de sua política e de sua infraestrutura como processos. No caso específico das redes técnicas, como exemplo da estrada de ferro, estas vieram dar novos sentidos para a localização de Goiás no contexto do território nacional e também para a política. Por meio das redes se construiu um novo sentido de posição e também de função. 596 O terceiro e último ponto do mencionado tripé foi o abandono, também travestido de esquecimento. Durante algum tempo foi a tese de explicação para o atraso, a causa do isolamento. Foi um (res)sentimento intenso e largamente explorado no norte de Goiás, com múltiplas finalidades estratégicas, seja de identificação, pertencimento, 596 CASTILHO, Denis. Estado e rede de transportes em Goiás-Brasil (1889-1950). In. Scripta Nova: Revista electronica de geografia y ciencias sociales. Universidad de Barcelona: Vol. XVI, n. 418 (67), 1/11/2012. 278 regionalização, separação, política, justificativa, entre outras. Enunciado por diferentes sujeitos e de variadas formas, o abandono coloca em relação diferentes espaços geográficos, transformados em lugar, hora se remete a Porto Nacional, preterida em relação às cidades circunvizinhas, noutra hora diz respeito ao norte goiano como desprezado em relação ao sul do estado, em alguns momentos se refere a Goiás, esquecido na comparação com outros estados da federação, noutros momentos ainda se alude ao norte do país como olvidado no que concerne à atenção dispensada ao sul do país. O abandono era caracterizado majoritariamente pela falta ou ausência de melhoramentos, cuja responsabilidade quase sempre era atribuída ao poder público de forma geral nas suas correspondentes esferas, ou a políticos em particular. 597 As representações do jornal de Francisco Ayres faziam questão de apresentar uma “esquecida e imensa região, que desde remotos tempos coloniaes jaz no mais condenável e ingrato abandono”.598 Ao longo de toda existência do periódico, que leva o mesmo nome da região, essa condição é (re)afirmada, renovada e (re)elaborada, às vezes como um problema que demandava a eleição de determinados homens supostamente mais capacitados para solucioná-lo, outras vezes como um problema que impedia que esses mesmos homens depois de eleitos fossem capazes de cumprir as promessas que os elegeram, a despeito do empenho. Seja nessas elaborações ou em outras, o que pouco ou nada se alterou foi a associação do abandono com os ditos melhoramentos modernos, ou melhor, com a falta destes. A partir das considerações de Eudes Guimarães, nota-se que no início do século passado, devido aos avanços tecnológicos, as ideias de modernização e as transformações da linguagem passaram a fazer parte do imaginário social que muitas cidades do interior, que se submeteram a um processo histórico parecido com o da maioria das cidades nortenses, eram como “lugar do abandono” ou “lugar de ausências”.599 597 Cabe aqui fazer uma distinção, o abandono já era um tema colocado anteriormente ao Norte de Goyaz. O jornal Folha do Norte (1891-1894), no final do século XIX, já tateava a questão com contornos diferentes, exemplo disso é o artigo O Enjeitado (30/09/1892). Naquele momento a reclamação principal era a falta de proteção dos governos para o norte, sobretudo pela disparidade em relação ao sul. O abandono não passava necessariamente pela questão da modernização e dos melhoramentos de viação rápida, como se dava a partir do Norte de Goyaz, “Vivemos abandonados sem possuirmos viacção de espécie alguma” (N.G.15/03/1917). CAVALCANTE, Maria do Espírito Santo Rosa. Tocantins: o movimento separatista do Norte de Goiás 1821-1988. São Paulo: a. Garibaldi, Editora da UCG, 1999. p. 75-76. 598 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1906. p.1. 599 GUIMARÃES, Eudes Marciel Barros. Um painel com cangalhas e bicicletas: os (des)caminhos da modernidade no alto sertão da Bahia (Caetité, 1910-1930). 2012. 151 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2012. p.13. 279 Diante de cada ausência dos melhoramentos pleiteados, a imagem não só do norte de Goiás, mas de todo estado como lugar de abandono, hipertrofiava-se, conforme se identifica nas menções de Francisco Ayres, quando dizia, “duplicam-se os meios de transporte para as capitaes de beira mar, duplicam-se as linhas de ferro para algumas capitaes centraes e no entanto, deixam-se no mais completo abandono as regiões centraes do Brazil”. A percepção de uma situação de absoluta injustiça era instigada pela leitura de que os benefícios estavam sendo mal distribuídos, como a denúncia em relação ao telégrafo e ao tratamento privilegiado dedicado a algumas regiões em detrimento de outras, já que “o paiz inteiro está grandemente cortado de fios telegráficos para os lados de leste, o oeste também já está servido, no que concerne exatamente ao centro do Brasil, o abandono é inteiro, é completo”.600 Caso se pense na distribuição dos dois principais benefícios pelos quais as cidades brasileiras de forma geral mais se empenharam no final do século XIX e início do século XX, o telégrafo e a ferrovia, é perceptível que a construção do abandono ao qual nos referimos não se deu a partir do nada. Havia um contexto propício para ser explorado no sentido de direcionar as pessoas a sentirem tal impressão. Ao tratar sobre o circuito telegráfico brasileiro, Laura Maciel informa que até a proclamação da República, quando as extensões das linhas construídas já atingiam aproximadamente 19 mil quilômetros, alcançando quase todos os estados do país, Goiás ainda não as havia recebido, assim como Mato Grosso e Amazonas. 601 Sobre a malha ferroviária não é diferente, foi iniciada a partir do Rio de Janeiro na década de 1850, ainda no século XIX, alcançou a maioria dos estados, sobretudo os litorâneos. Segundo o historiador Borges, em solo goiano o primeiro trecho da estrada de ferro chegou em 1911, na divisa com Minas Gerais. 602 A instalação tanto do telégrafo como da ferrovia demorou a chegar em Goiás, se comparado a outros estados brasileiros, e quando chegou se limitou ao que se configurou como a parte centro-sul do estado. A situação agrava caso se pense no principal ponto do projeto de Francisco Ayres, ou seja, a navegação a vapor nos rios Tocantins e Araguaya, porque a viação fluvial que teve certa proeminência no período monárquico pouco empolgou os governos durante a República, assunto praticamente “abandonado” em prol da ferrovia, aviação e estradas. Diante dessa conjuntura Ayres insistia em evidenciar a condição de 600 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 28/02/1922.p.1; 31/10/1921. p.1. 601 MACIEL, Laura Antunes. Op. Cit. 602 BORGES, Barsanufo Gomides. O despertar dos dormentes. Goiânia: Ed. UG, 1990. 280 seu estado como “despresado e abandonado na monarchia e na republica, sem meios de transporte rápidos de espécie alguma”, para cobrar maior atenção e agilidade nas iniciativas que satisfariam seus anseios. 603 Dizia ele, quando todos os estados tem progredido a olhos vistos, graças aos constantes auxílios directos e indirectos da federação. Goyaz queda-se num esquecimento deplorável à falta de meios que deem impulso à suas multíplices riquezas. Viacção férrea não a tem, viacção fluvial, embora seu solo seja cortado por um crescido numero de rios importantes, não a possue; serviço telegráfico tem no reduzidíssimo e insignificante, mal chegando para algumas cidades do sul. Não param ahi as deficiência de que Goyaz se resente, o despreso da federação para com o pobre estado central encontral-o-à em tudo o observador que se ao trabalho de cojetar as grandes prodigalidades que são feitas ao favor dos outros estados. 604 Engana-se quem pensa que o abandono destacado pelo jornal portuense foi apenas uma tática para distinguir a porção norte do restante de Goiás, como algo inerente apenas àquela região. Essa condição era atribuída a todo o estado, e mesmo considerando que o sul se beneficiava mais que o norte na busca por modernização, não se negava que sofria do mesmo incômodo. Quando o abandono estava associado às críticas ao poder público federal, o estado como um todo aparecia como vítima, quando era associado às críticas ao poder público estadual a vítima era o norte. Porém, essas não são as únicas variações, por exemplo, durante o tempo que Francisco Ayres estava na condição de aliado do governo estadual o abandono mesmo do norte era atribuído à negligência do governo federal por não aprovarem os projetos ou não executarem as leis que beneficiariam o centro do país propostas pelos representantes políticos goianos. Como elucidava, “o infeliz estado central é o paria para quem o governo federal encara com verdadeira má vontade. Tal má vontade se vem fazendo sentir em tudo”. Em contrapartida, deve-se ressaltar que o reconhecimento de que o estado central padece do referido mal coloca imediatamente o norte numa posição ainda mais agravante, como o quis Francisco Ayres, a região abandonada pelos abandonados. Já que “dia a dia o norte goyano vae ficando mais abandonado pelo poder publico de Goyaz e esse abandono como que começa a irritar aqui, ali e além”.605 Nos períodos eleitorais quando se disputam os votos dos eleitores nortenses a denúncia do abandono do norte e privilégio do sul ganha contornos mais vibrantes e de 603 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1917. p.1. 604 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1909. p.1. 605 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/11/1919.p.1-2; 15/11/1919. p.2. 281 maior relevo, deixando a impressão de uma clara diferenciação entre as regiões. A ideia é qualquer coisa como mostrar que, assim como o governo federal pretere “o coração do Brasil”, este mesmo também despreza o norte, que por fim se torna duplamente esquecido ou ignorado, não atendido em seus desejos, travestidos de necessidades, nem por um nem pelo outro. Como no trecho abaixo produzido em plena campanha eleitoral, nesse grande território do Brazil está encravado o estado de Goyaz “coração do Brazil” cujos governos, por seu turno, se alguma cousa tem legado ao sul – nada tem dado ao norte e, n’esse vae e vem constante de annos e de promessas faladas, ca fica emaranhada, entorpecida, paralytica a grande faixa norte, a maior porção do estado a que é mudo e surdo o governo. [...] é doloroso confronto do governo nacional com o do estado que, infelizmente conjuga-se nos mesmos resultados para o pobre norte, quando mais recta devia ser a justiça do ultimo em relação ao estado que governa (...) cada chefe de nação que vae guindado ao poder pela escadinha à que pressurosos corremos a bater um prego – é uma centelha de esperança que raia até nossos contornos e que, tempos mais tarde, qual eclypse, vae se tornando sombra e depois esvae-se. Alguem disse que Goyaz é a estrela solitária do Brasil e nós dizemos que o norte é a estrela de Goyaz. 606 No Norte de Goyaz, o uso do abandono não tem viés separatista, ao contrário de usos posteriores ou mesmo de alguns contemporâneos a Francisco Ayres. Embora, coloque em foco o pertencimento através de questionamentos como “O norte não pertence a Goyaz?” feito para criticar o governo estadual acusado de fazer melhoramentos em riachos do sul e esquecer do rio Tocantins. Ou noutra dimensão, “Será que a parte central do Brasil607 não é Brasil?” feito para solicitar melhoramentos que reparassem estragos feitos em cidades ribeirinhas que sofreram com as cheias, da mesma forma como alguns estados como Rio de Janeiro e Bahia eram atendidos pelo poder público diante de alguma aflição. Enfim, Perguntas retóricas que apelam para tratamento igual muito mais como forma de reafirmar a pertença ao estado e à nação, do que propriamente a separação. 608 A analogia de Goiás como coração do país sugere o grau de importância que se queria conferir ao estado, apresentar o norte como a “grande faixa, a maior parte” desse órgão vital da nação significa apresentar um silogismo diluído no conjunto dos textos do jornal de Francisco Ayres da Silva, qual seja: investir em Goiás redunda em grandes 606 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/06/1920.p.2. 607 Nesse caso especifico a Parte central do Brasil, refere-se não apenas a Goiás, mas também Maranhão e Pará. 608 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1906. p.1; 15/11/1919.p.2. 282 utilidades benéficas para o Brasil; promover melhoramentos e auxílios para o norte é a melhor maneira de investir em Goiás; logo, todo melhoramento para o norte goiano faz o país progredir. Dito de outro modo, abandonar o norte é um prejuízo para o estado, que por sua vez prejudica todo o Brasil. A partir do raciocínio expresso nessas premissas se apresentavam aos eleitores as melhores alternativas para mudar tal condição. Apenas apresento parte das variações para aludir que a questão é complexa e para ser entendida carece de análise minuciosa de contexto, afirmar simplesmente que o norte goiano ou Goiás era abandonado simplifica a discussão e propicia equívocos de interpretação que mais confundem do que esclarecem o momento histórico. A tese do abandono, com suas síndromes de desprezo e rejeição, foi disseminada de tal forma em Goiás não apenas por Francisco Ayres da Silva e seu jornal, mas por grande parte da imprensa e políticos goianos, que ajudou a instaurar uma “serie de mal estar” que de alguma maneira ainda aflige goianos e, principalmente, tocantinenses, como espécie de ferida aberta na e pela modernidade, mas ainda não cicatrizada. 609 As sensações de atraso, isolamento e abandono propiciadas pelo processo de modernização, como vimos, além de provocarem mal estar foram amplamente utilizadas no jogo político. Se munir Porto Nacional e toda sua região com os melhoramentos modernos para levá-los ao progresso material desejado era, naquele período, o tema mais capaz de suscitar as emoções dos eleitores mais indiferentes, Francisco Ayres da Silva, como homem da imprensa e da política, não titubeou em apresentar esta causa como incontestável e se colocar como seu principal agente. Nos períodos eleitorais o tripé de sensações, aqui tratado, era levado ao paroxismo, com o objetivo de fazer surgir temores e esperanças. O líder portuense se valia de uma técnica de persuasão política, que Pierre Ansart denominou de “dialética do inquietar/tranquilizar”, que consiste em assumir as inquietudes, ou até mesmo potencializá-las, para depois se apresentar como o seu agente tranquilizador. Segundo o autor, O líder político não nega os perigos; ao contrário, ele confirma os temores dos auditores, sublinha os perigos que as ações dos adversários fazem a comunidade correr, legitima os medos e os descontentamentos. Assim, ele apaga as diferenças e as contradições, forja temores comuns, hostilidades comuns nas quais são dissolvidas as desconfianças internas. Mas ao mesmo tempo ele designa a si próprio como o agente melhor capacitado para resolver as 609 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1919. p.1. 283 insatisfações, o mais apto para assumir as inquietudes e, por essa razão, o melhor para responde-las. O lider trata a angustia persistente, assume as inquietudes (e/ou finge assumi-las), agrupa e anula as divergências, apresenta-se como o agente tranquilizador, encarnando as expectativas da audiência. [...] o partido deve ser capaz de continuamente persuadir de que ele é efetivamente o melhor representante dos interesses mais amplos. Para isso, deve utilizar-se também dos meios da persuasão afetiva: agradar, reter atenção, criar sentimentos de cumplicidade, de indignação, de orgulho, engendrar a ilusão da proximidade. 610 Na posição de líder político, era dessa forma que Francisco Ayres atuava. Sendo assim, pode-se considerar que as sensações a que nos referimos foram relevantes para a projeção política que obteve. O processo de modernização com suas novas tecnologias e o consumo de bens materiais excitavam os desejos, estimulados ainda mais pelo Norte de Goyaz. Simultaneamente ao despertar dos desejos surgiam as decepções, sobretudo pelo fracasso em não alcançar os objetos transformados em símbolos gratificantes de distinção, ou, nos termos de Simmel, diante da dificuldade em acompanhar o supercrescimento do “espírito objetivo”, ou seja, da “cultura objetiva”.611 Daí as angústias e inquietações vinham também experimentadas como injustiça e rejeição. Era justamente no seio dessa contradição que Francisco Ayres visava persuadir os (e)leitores da importância do seu ativismo na construção de uma realidade em que os desejos de progresso não seriam sucedidos por decepções, superando assim o estado de carência em que se sentiam enredados. Quando Ayres ainda não havia se sagrado deputado falava sobre a importância de se ter representantes nortenses na câmara federal, para assim obter as tão desejadas vias rápidas de comunicação, para tirar a região norte daquele suposto atraso, isolamento e abandono, convocando os nortenses e jogando para eles a responsabilidade de votar no candidato apresentado como o mais digno da preferência dos mesmos, por que acreditava que a desproporção de melhoramentos entre o sul e o norte se dava pelo descaso dos nortenses na escolha dos seus representantes. “Eia nortenses, avante, avante sempre, temos necessidade de representantes nossos nas camaras federaes, nas camaras estaduais e na própria vice presidência do Estado”.612 Assim advogava, 610 ANSART, Pierre. Mal-estar ou fim dos amores políticos?. In. HISTÓRIA & PERSPECTIVAS. n. 25 e 26 – jul/dez, 2001. Jan/jun, 2002. Uberlândia-MG: Universidade Federal de Uberlândia (Curso de História e Programa de Mestrado em História). p.70-71. 611 SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p.25-26. 612 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1912. p.2. 284 o norte precisa por excellencia de vias de comunicação, pois que incravado e degradado no interior do paiz, sem via de comunicação alguma que nos facilite a lucta pela vida, que nos aproxime dos centros civilizados, é bem de ver-se quaesquer auxílios e benefícios dispendidos em prol de outras cousas que não o problema da viação estão sujeitas a fracassar, ante a dificuldade primacial não removida. [...] Por ventura si os nortenses tivessem seus representantes nas capitaes do paiz seus mais vitaes interesses estariam ao abandono em que se acham, a ponto de, as legislaturas se sucederem umas sobre as outras e nenhum projecto de valor real transparecer ao favor do norte? [...] o balanço que ahi fica é um argumento a mais a evidenciar que os nortenses devem quanto antes tomar suas medidas si de facto querem deixar o letargo em que jazemos (...). 613 A modernização não se concretizou, pelo menos não da forma como se imaginava, mas as sensações de atraso, isolamento e abandono oriundas desse processo reverberaram por muito tempo, apropriadas posteriormente por múltiplos interesses assumindo contornos plurais. Principalmente porque esse tripé se mostrou como poderoso elemento no trabalho de identificação e pertencimento, para agregar força. Outro assunto que merece atenção, ainda tendo em vista os usos políticos, é o que Ayres defendeu como significado de ser nortense, sensação de pertencimento que também sofreu interferência frente ao debate em torno da modernidade e modernização. 3.5 NORTE DE GOYAZ, O JORNAL DO POVO ENSINANDO O QUE É SER-TÃO NORTENSE Para aprofundar num ponto peculiar da posição de Francisco Ayres sobre como qualificou o povo nortense diante da experiência do processo de modernização, começarei com as polêmicas envolvendo o Norte de Goyaz com outro periódico editado em Porto Nacional, nomeado estrategicamente de Jornal do Povo. Antes de abordar diretamente o assunto em questão, peço um pouco mais da paciência dos leitores resistentes que ainda não sucumbiram ao enfado do texto e persistiram até aqui, e licença também para os leitores que saltaram direto para esse ponto em busca de algo mais pontual, para situá-los dos pormenores desse embate em papel e tinta, que pode também ajudar a elucidar outros aspectos já tratados. O Jornal do Povo era um quinzenal com 4 páginas que surgiu no início de 1922, e foi extinto provavelmente entre meados de 1923 e início de 1924, somando quase dois anos de duração, aproximadamente. 613 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1913. p.1. 285 FIGURA 10: Primeira página do Jornal do Povo. FONTE: Jornal do Povo. Porto Nacional, 05/04/1922. p.1. 286 O periódico dirigido por Abilío Nunes era uma nítida tentativa de fazer oposição ao Norte de Goyaz e à família Ayres. Pela quantidade de críticas que desferiu contra o jornal, epitetado de “Mentira Fresca”, e de denúncias contra Francisco Ayres, pode-se afirmar que esta era a razão maior da sua existência. Confirmada ainda pelo apoio que recebia do Major Raphael Belles, provavelmente um dos financiadores do Jornal do Povo, adversário político da família Ayres e bastante questionado por ela já que naquele período era o intendente municipal de Porto Nacional. Vale lembrar que Abílio Nunes trabalhou no Norte de Goyaz, desempenhando várias funções e se destacando como assíduo colaborador com a publicação de artigos e poemas. Na ausência dos irmãos Ayres era ele quem assumia a frente do jornal e coordenava o trabalho na oficina tipográfica. Além de aliado parecia ter certa proximidade com Francisco Ayres, a ponto de ser levado por ele ao Rio de Janeiro em algumas de suas viagens. Foi um dos responsáveis por ajudar na implantação das estações meteorológicas na região, e militante na luta contra o analfabetismo, sendo aplaudido por criar a aula noturna para ensinar leitura para a mocidade portuense. 614 Por alguma razão que não se pode precisar, provavelmente por motivações políticas, por ter sido preterido na indicação para alguma candidatura, Abílio Nunes rompeu com Francisco Ayres e passou a considerá-lo um desafeto, lançando contra ele acusações de todos os tipos, por meio das páginas do Jornal do Povo, que era distribuído em muitas cidades do norte. O objetivo era desmoralizar o deputado, desconstruindo a imagem apresentada até então pelo jornal rival. Até sua capacidade intelectual foi colocada em cheque quando afirmou em tom de ironia que “A ilustração do sr. Ayres da Silva é tão aprimorada que fundando o Norte de Goyaz deu-lhe a função de PERIÓDICO BIMENSAL (...) querendo q. – bimensal – não fosse de 2 em 2 mezes, e sim duas vezes no mez. (...) ilustradíssimo! Sapientíssimo!” Abílio Nunes se colocou como o responsável por alertar o redator do equívoco. De fato, o jornal que saía nos dias 15 e 30 de cada mês foi apresentado como bimensal até 15 fevereiro de 1914, ficou alguns números sem identificar a periodicidade, até que em 30 de julho de 1914 corrigiu e alterou para “PUBLICAÇÃO QUINZENAL”.615 O Jornal do Povo seguia a fundo seu intento, apresentando um lado mais obscuro de Francisco Ayres, muito próximo das práticas hoje caracterizadas como 614 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1911. p. 3; 31/10/1915. p. 3; 31/03/1915. p. 3; 30/04/1914. p. 2; 31/08/1915. p. 3; 31/01/1915. p. 2. 615 Jornal do Povo. Porto Nacional, 20/04/1922. p. 3. 287 coronelísticas. Para os que até aqui ainda estranham ou consideram o traço desse personagem como mais ameno em relação à postura típica dos coronéis autoritários e violentos, ficarão mais contemplados com as imagens diretas e explícitas associadas ao médico, deputado e jornalista no impresso de Abílio. Entre as atenuações do Norte de Goyaz e as intensificações do Jornal do Povo, e a problematização dos dois, parece surgir uma imagem mais concisa do perfil deste portuense controverso. Observe como Francisco Ayres foi descrito no poema abaixo, (...) entre nós elle tem se insinuado/ querendo que por gente alguém o tome/ e o ponha num lugar de deputado! do bode tem a barba e tem o cheiro;/ da rapoza as astucias e a esperteza/ quando come parece com certeza/ ter o ventre de lobo carniceiro/ Qual a cobra é maligno e traiçoeiro;/ tem do asno a ronceira natureza,/ do abutre o espirito da avareza/ pra o alheio o farejar de perdigueiro/ quando acaso nas ruas aparece,/ causa a gente certo medo, só em vel-o/ pois com urso, ou bem com a onça se parece/ pra ser um macaco... não tem cabelo./ advinhe-me o leitor que bicho é esse/ e quem o advinhar lhe sove o pelo! (digam: é o bicho deputado) 616 Veja algumas acusações antes de tratar do assunto que trouxe a discussão até o Jornal do Povo. Abílio Nunes indaga sobre o poder que está nas mãos de Francisco Ayres, a ponto de agir da maneira como bem entender sem que isso lhe traga consequências. Acusa-o de ser responsável por suspender a liberdade individual, usando a força policial para invadir casas, açoitar, prender qualquer “cidadão inofensivo”, sem motivo plausível, apenas pelo simples fato de ter seus interesses contrariados. Nesse mesmo sentido, coloca-o como responsável pelos conflitos armados que ocorriam nas cidades de Pedro Afonso e São José do Duro, questionando que as pessoas sabendo dos desmandos “entenderão talvez que sejam as fornalhas do Duro alimentadas pelo sr. Ayres da Silva?”617 Acusa-o de ter adquirido e vendido os bens de um falecido por nome Chaves, sem ter direito já que não era o herdeiro natural. Diz que Francisco Ayres usava indevidamente o título de médico para enriquecer ilicitamente, como fez no caso de certo Fortunato Bentes que em Porto Nacional adoeceu e faleceu, quando aquele estava no Rio de Janeiro, ainda assim meses depois teria apresentado à família do falecido “uma conta de três contos e tanto de intervenção cirúrgica!!” Aproveitava o poder e seus recursos para comprar mercadorias e ter o monopólio dos gêneros 616 Jornal do Povo. Porto Nacional, 05/04/1922. p.1. 617 O jornal do povo dava noticias sobre os acontecimentos do São José do Duro de forma favorável aos Wolney, ao contrário do que fazia o Norte de Goyaz, pois a família Wolney havia se tornado adversário da oligarquia a qual Francisco Ayres pertencia. 288 oferecidos no mercado, promovendo escassez com a única finalidade de aumentar o preço dos produtos para a população. Foi acusado também de ter abusado de uma órfã e virgem que, depois de ser mãe de diversos filhos supostamente de Ayres, tornou-se meretriz. O Jornal do Povo, em tom de protesto, afirmava que a liberdade de imprensa estava sendo destruída em Porto Nacional, visto que sofria perseguição por parte do deputado “agora nos ameaçando mandar-nos para o outro mundo, como expediente pratico da vilania e da torpeza”. Abílio Nunes cita o jornal Folha do Norte como forma de apresentar que as atitudes de desmandos e hegemonia da família Ayres eram hereditárias, mas também como forma de se apresentar como oposição, à semelhança daquele. O diretor do Jornal do Povo afirmava que a “folha de 1893 que nesta cidade se editava, dizia melhor do que nós hoje da prepotência antiga srs. Ayres, a qual perpetua- se”. Para ele não havia diferença entre os atos de Joaquim Ayres da Silva com os dos seus filhos, especialmente Francisco Ayres da Silva, pois, assim como o primeiro atentava contra os responsáveis pelo Folha do Norte, o segundo também atentava contra o responsável pelo Jornal do Povo. Sobre o cargo de deputado Federal, Abílio era taxativo e dizia que o fato de Porto Nacional, bem como o Norte do estado, não ter melhoramentos era porque o representante político não queria fazer “o menor beneficio publico”, já que dependia unicamente da sua vontade. Por isso, sugeria que Ayres abandonasse a cadeira já que não servia ao povo conforme havia se comprometido. “Há oito annos de câmara federal, vae e volta contando histórias de projectos e emendas. Não tem influencia perante seus pares para adquirir, é simples, desocupe o lugar”. 618 O Norte de Goyaz, a partir do advento do jornal de Abílio Nunes, embora afirmasse não mais “perder nosso tempo em controvérsias infrutíferas com esse peçonhento animalejo”, dedicou em seus números muito espaço para acusar, responder a acusações e descaracterizar o jornal, que epitetou de “pasquim e Caça Nikeis”, e seu diretor, “moleque torpeza”, responsável por causar desordem social, inventar histórias, insultar pessoas, malfeitor que tentou assassinar sua própria mulher e que se associa a jagunços para conflagração do Norte. Enfim, Ayres comemorou a pausa que o Jornal do Povo fez após quatro meses de publicação, e posteriormente a extinção definitiva do mesmo com a saída de Abílio Nunes da cidade, ou, como preferiu dizer, a fuga. 619 Sem 618 Jornal do Povo. Porto Nacional, 20/04/1922. p. 2-3. 619 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/04/1922. p.2; 31/08/1922. p.3; 15/06/1923. p.1; 15/01/1924. p.2; 289 mais divagações, melhor retomar o debate sobre a concepção de Ayres sobre o povo nortense, a começar pela polêmica entre os dois jornais referente à questão. O Jornal do Povo publicou um texto na primeira página, com o título “Negros...Ociosos e Indolentes”, para apontar contradições na posição do Norte de Goyaz. A ideia era demonstrar que a defesa que o periódico dizia fazer em relação ao povo nortense não representava o verdadeiro conceito que tinha seu redator sobre o mesmo. Nessa perspectiva, Abílio Nunes selecionou trechos de textos publicados pelo Norte de Goyaz que, na sua interpretação, atribuíam aos nortenses as características de negros, ociosos e indolentes, além da culpa pela falta de progresso, ou seja, justamente os pontos mais combatidos por Francisco Ayres. O Jornal do Povo, já pelo nome, reivindicando ser o verdadeiro representante e porta voz da população nortense, desqualificando assim seu adversário para tais funções, mostrava que aquilo que o Norte de Goyaz considerava como insulto outrora aparecia como acusações desferidas pelo próprio jornal. Assim dizia, “cheguemos para mais perto das acusações do jornal de 1906 e vel-o-emos ferir de perto o ócio dos habitantes nortenses”.620 Mais que rapidamente o jornal de Francisco Ayres da Silva apresentou sua defesa, obviamente negando a proposição de Abílio e apontando aquilo que afirmava ser sua posição de sempre, de insurgir “contra conceitos tão deprimentes”. Argumentou da seguinte maneira: o moleque cynico fossando nossas collecções, la encontro algum artigo em que, a proposito de falta de transporte e viacção, descrevíamos o estado de cousas dos nossos sertões e mostrávamos a decadência e marasmo em que se ia cahindo não pelo ócio e indolência dos habitantes, mas carência de escoadouro para o produto do trabalho nativo. 621 O que interessa nessa polêmica não é saber quem estava ou não com a razão, se o Jornal do Povo com suas denúncias, ou se o Norte de Goyaz com sua defesa. Mais relevante do que tomar partido de Abílio Nunes ou de Francisco Ayres é entender a razão pela qual a defesa pública do povo se tornou pauta tão importante na imprensa 15/02/1923. p.2. 620 Jornal do Povo. Porto Nacional, 20/04/1922. p.1. Os trechos extraídos por Abílio Nunes para defender sua argumentação foi de um artigo intitulado Em prol de nosso futuro, publicado na primeira página do jornal Norte de Goyaz de 30/08/1906. Em que Ayres argumentava sobre a necessidade de dinamizar a produção da indústria da criação e pecuária, criticando algumas práticas comuns em Goiás, mostrando o atraso da produção goiana em relação a outros estados, devido a falta de transportes. 621 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1922. p.2. 290 portuense. A razão pela qual se mostrar como defensor dos interesses dos habitantes do norte goiano se tornou alvo de disputa e passava necessariamente pela maneira de qualificar o que significava ser nortense. No contexto em que a maioria das leituras atribuía o atraso de algum lugar como consequência natural do atraso dos seus habitantes, no norte de Goiás soava absolutamente negativa qualquer consideração que atribuísse o atraso ao povo, nesse sentido, qualquer um que imputasse aos nortenses a condição de ocioso e indolente cometia suicídio político. Francisco Ayres, como homem político, absolutamente interessado nos votos da população que se identificava como pertencente ao norte do estado, fazia questão de apresentar no jornal e nos seus discursos públicos um conceito diferente da percepção da maioria dos viajantes e estrangeiros que por diferentes motivos passaram pela região. Entre tantas percepções, destaco a dos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, que fizeram um diagnóstico assustador da condição sanitária da região Norte, para ser mais exato, do caminho entre Porto Nacional e a cidade de Goiás, percorrido pela missão científica liderada por Arthur Neiva e Belisário Penna. O jornal Norte de Goyaz chegou a informar que segundo informações repassadas pelos membros da missão 90% dos goianos desse percurso estavam contaminados com a moléstia de Chagas. 622 Além das condições sanitárias Arthur Neiva e Belisário Penna, entendendo Porto Nacional e Goiás como dois pontos mais importantes daquele percurso, discorreram sobre os modos de vida e a população isolada entre eles. Segundo os mesmos, população constituída por negros e mestiços, dispersos em arraiais e pequenos lugarejos à beira de riachos, produção agrícola e pecuária quase nula voltada para o consumo local, lugar onde a moeda não tinha valor, pois “à exeção dos fazendeiros e alguns indivíduos viajados, ninguém liga importância ao dinheiro, e pode-se oferecer quantias relativamente grandes por uma dúzia de ovos, ou por um fango, que são recusadas desdenhosamente”. Os pesquisadores concluíam sobre a população que “A ausência de esforço e de iniciativa dessa pobre gente é proveniente do abandono em que vive, e da 622 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1912. Segundo publicação posterior, “Esse diagnóstico foi superestimado, levando-se em conta que o bócio e suas formas nervosas ainda eram considerados pelos cientistas de Manguinhos como manifestações particulares da doença. No relatório de viagem, os papudos, cretinos, paralíticos e anões, encontrados as centenas, são considerados portadores da doença de Chagas, equivoco que só seria desfeito na década de 1930, quando se comprovou que o bócio constituía uma patologia distinta da moléstia transmitida pelo barbeiro.” FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ; CASA OSWALDO CRUZ. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições cientificas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: FIO CRUZ/Casa Oswaldo Cruz, 1991. p.58. 291 incapacidade física e intelectual, resultante de moléstias deprimentes e aniquiladoras, cabendo nessas regiões, à moléstia de Chagas, a primazia desse malefício”. 623 Francisco Ayres, num discurso proferido na câmara federal em 1918 e publicado em seu jornal no mesmo ano, apropriou-se do relatório de Neiva e Penna para reafirmar a tese do abandono e sua convicção da necessidade dos melhoramentos de viação rápida, além de aproveitar para defender a população nortense. Se assumindo como “humilde e despretensioso clinico da roça, sem negar aqueles quadros quase dantescos traçados pelos cientistas brasileiros”, teceu conclusões que retiravam dos nortenses toda responsabilidade por aquele cenário de insalubridade, reiterando que sem resolver o problema dos transportes não haveria de ser diferente. Interessante observar que Francisco Ayres se valeu do argumento em que os pesquisadores estavam pautados, por ocasião da elaboração do relatório, de que “a medida que a civilização penetra, o bócio vae desaparecendo”. Ou seja, que a doença estava ligada às condições de vida dos lugares onde a civilização ainda não era plena. Como exemplo dessa afirmativa, citaram São Paulo onde o bócio era muito comum, mas que foi desaparecendo com a penetração do progresso. O portuense, com base nessa lógica, chamou a atenção para os meios de transporte, em especial, para a navegação numa rede fluvial interna, ligada por estrada de rodagens que proporcionaria um sistema de viação interestadual, que uma vez instalada mudaria as condições de vida dos habitantes daquela região, promovendo a vitória sobre as endemias. Favorável à ideia de que poderia acontecer com o norte o mesmo que houve com São Paulo através da “energia civilizadora da sociedade”, considerou que “tão logo esse amparo se faça sentir efetivamente, essa raça hoje estigmatizada de inaproveitável, lá, como em qualquer outro ponto, patenteará que mesmo doente, o brasileiro sabe desempenhar seus deveres em prol do progresso do nosso paiz”.624 Outro parecer questionado foi o do engenheiro Pires do Rio, que, a serviço da estrada de ferro Tocantins, afirmou que o norte era paupérrimo e sofria com o fantasma do impaludismo. Ayres ponderou que o impaludismo do norte não tinha diferença do impaludismo do Rio de Janeiro, colocando ambos os estados no mesmo patamar quanto à referida doença, reforçou ainda que graças aos esforços dos nortenses a região 623 FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ; CASA OSWALDO CRUZ. op.cit. p.59.; ver também: PENNA, Belisário & NEIVA, Arthur. Expedição pelo norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a SUL de Goiás. In. Memórias do Instituito Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Instituto Oswaldo Cruz, 1916. p. 215 624 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/09/1918. p.1; 31/10/1918. p.1. 292 estabelecia comércio com Maranhão, Bahia, Minas Gerais e Pará, com futuro promissor, ao contrário do que previa a apreciação do engenheiro. Em entrevista para o jornal A Rua, o deputado portuense acreditava que a fama de insalubridade do norte era um exagero, para ele “o impaludismo no Tocantins é tao facilmente evitável como por outra paragem qualquer (...) de-se-lhe transporte, e ver-se-a d’ali surgirem elementos de vida de toda a ordem”625, pois, o que os ribeirinhos já faziam mesmo sem as condições necessárias era uma demonstração da capacidade, agilidade, força e resistência do sertanejo nortense. Nas disputas por melhoramentos, Ayres discorria na imprensa carioca sobre as vantagens que o norte oferecia como clima, solo, grandes estradas líquidas e um povo avido por progresso. No periódico Brazil Industrial fez um elogiou a seus conterrâneos pela reação diante da expectativa por melhoramentos, apresentado como uma prova que contradizia aqueles que pensavam de forma contrária. Ante o primeiro estimulo chegado aos centros ubérrimos de Goyaz, aquele povo se mostrou digno, operoso e progressista e se não fizeram tardes os resultados de tal estimulo, e aquella gente considerada doente, apathica, quiça inaproveitável e não sabemos quanta cousa mais, dava surpreendentes exemplos de operosidade 626 Quanto à questão da salubridade, sobretudo da luta contra o impaludismo, Francisco Ayres sempre questionava comparando o norte com os grandes centros urbanos que em sua opinião também sofriam com o mesmo mau. Por vezes mencionou o “ultra sanado Rio de Janeiro”, onde era comum surtos epidêmicos de impaludismo e febre amarela. Aconselhava, inclusive, conforme aprendeu numa revista médica e pôde comprovar em todas suas viagens, “o uso e abuso do mosquiteiro” ao invés da quinina. Pois muitos quininizados, tanto na capital da república como nas margens dos rios, sofriam com as manifestações de impaludismo o que segundo ele não acontecia com aqueles que usavam o método simples, mas eficiente do mosquiteiro. Convicto da ideia de que os nortenses não eram mais suscetíveis a doenças do que a população de outros estados e que a doença dos nortenses não era a causa do descompasso do norte goiano, elucidava sua experiência nos mais diferentes lugares, “à margem dos nossos grandes rios, em uma modesta rede, ou nos palácios do Rio de Janeiro e na modesta casa do pobre roceiro, jamais abandonamos nossos mosquiteiros de campo”.627 625 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/05/1919. p.1-2; A Rua. Rio de Janeiro, 21/05/1920. 626 Brazil Industrial. Rio de Janeiro, 30/06/1920 627 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. 293 Francisco Ayres se mostrou no Norte de Goyaz como um combatente em prol do seu sertão 628 e dos sertanejos, e fez sua defesa pelo sertão, entendido nesse caso como o interior do país, na crítica ao litoral ou àqueles que o tinham como referência para falar do Brasil central. Perante as considerações de um periodista mineiro que falava de um sertão de assombros, repleto de inimigos traiçoeiros e povoado de terrores, Ayres expôs se tratar de um juízo falso, errôneo e generalizante elaborado por quem desconhecia o sertão, “que percorrendo meia dúzia de quilômetros de via térrea, reclinados em carro pulman, relina fixa nas avenidas luxuosas, se arrogam ao direito de julgadores”. Reivindicando a autoridade de um viajante que percorreu muitos estados faz a defesa dos sertanejos imbuída numa espécie de crítica ao litoral e sua modernização, inclusive apontando para uma superioridade dos mesmos, carentes apenas dos benefícios materiais da modernidade que tornaram a vida do homem mais confortável. Nesse aspecto, desviando um pouco do tom geral das suas assertivas, o político e jornalista nortense faz uma distinção entre progresso material e sua não correspondência com o plano moral nas metrópoles. À semelhança de críticos da modernidade como Simmel e Castoriadis, quando afirmaram que apesar da facilidade da vida proporcionada pela modernidade, nota-se um retrocesso na cultura do indivíduo, em que a forma subjetiva da vida foi transformada cada vez mais numa forma estritamente objetiva, Francisco Ayres diz o sertão é falho de quanto a conquista da civilização tem dado ao homem para conforto; mas, essa falta é dos governos. O que lhes competia era dar estradas ao sertanejo, garantir a ordem, manter a paz. O resto temos nós e abundantemente, pois que o sertanejo é um lutador, e a vitória se divisa no horizonte do trabalho. Se temos inimigos, o sertanejo os combate. Peor que os raros casos de ophidismo é a cifra apavoradora dos suicídios, nulla nos sertões; peor que o impaludismo é a dissolução moral das grandes capitaes, calamidade de que nos livramos pela barreira dos princípios que encouraçam o caracter sertanejo. Por isso valha o nosso sertão, onde, principalmente, no hinterland goyano, se vive despreocupado dos terrores da mizera e da atmosfera pesada, maléfica da insinceridade ou da mentira. 629 Em linhas gerais, seja pelos editoriais ou pelos textos dos colaboradores, a imagem do sertanejo nortense que sobressai no Norte de Goyaz, é de um povo “dotado 628 Não é nosso objetivo discutir o termo sertão conceitualmente, como uma categoria física, geográfica, social, cultural e simbólica. Embora, reconheçamos que a documentação aqui analisada oferece um rico veio de investigação nesse sentido, que pode colaborar com o debate histórico da temática. 629 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/01/1925. p.2. 294 de capacidade, dotado de uma maneira essencialmente sertaneja. Em geral, o sertanejo é dotado de um coração generoso; são francos, hospitaleiros e intelligentes. (...) espirito altivo e nobre”. Os habitantes do norte são ‘extraordinariamente inteligentes e empreendedores”, apesar das suas peculiaridades como “a rustica e bem conhecia linguagem cá do sertão”. Os sertanejos são honestos, trabalhadores, esforçados e fazem o sertão produzir, faltando-lhes apenas os meios para escoar a produção. 630 Os exemplos que associam essa ideia a Francisco Ayres são inúmeros. Falando sobre a navegação dos rios e o que ela permitiria em termos de tornar mais acessíveis os progressos ulteriores para os habitantes da zona, Ayres faz um alerta, tomando como exemplo estados vizinhos que segundo ele tinham lanchas a vapor em córregos, por isso afirmava “chega de criminosa indolência, lesiva de nossos brios de povo amante do progresso, da civilização”, como se fosse mais próprio àquele povo o desejo ardente de progredir do que a indolência. Criticou a ideia, ou “voz geral”, que considerava o norte como uma terra habitada por índios bravios, afirmando que ali medravam “milhares de bons pacatos brasileiros sempre accessiveis a todos e qualquer progresso”. Diante da apresentação da candidatura de Ayres, e do apoio recebido e declarado em diversas cidades, a conclusão foi incisiva “O povo parece que está no firme proposito de batalhar e torno de um só ideal – o progresso e a união do norte”.631 Até mesmo quanto ao analfabetismo Ayres tirava a culpa do povo e a imputava aos líderes do governo bulhonista. Como se a culpa fosse daquele governo que colocou nos cargos públicos não os mais aptos, mas sim os ignorantes mais servis que na opinião dele eram incapazes de ensinar. Quanto à consolidação da República no norte, entendia que o povo estava apto para “compreender a praticar conscientemente o regimem republicano, assim auxiliem-no os governos”. O auxílio aqui mencionado significa proporcionar viação, elemento apresentado como indispensável para o sucesso do regime nos “longínquos recantos” do país.632 Ao se enveredar sobre a dificuldade em materializar o prolongamento da estrada de ferro, com ramais de ligação do norte ao sul, sobre a ausência de estradas de rodagem, ao identificar a evolução de estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, entre outros que progrediam dia a dia de forma surpreendente e 630 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1914.p.1; 31/07/1906.p.2; 15/03/1909.p.3; 31/12/1924.p.1; 31/12/1924. p.4. 631 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1909. p.1; 15/01/1912. p.1; 15/12/1911. p.1; 15/12/1912. 632 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1911.p.1; 15/03/1917.p.1. 295 maravilhosa, um colaborador do jornal fez um questionamento, seguido por resposta correspondente, ao mesmo tempo defendendo o povo e explicando porque Goiás não acompanhava os demais estados. Será porque Goyaz é indulgente, será porque os nossos patrícios do campo não trabalham, não reviram as mattas virgens de suas propriedades para d’alli arrancar café, a canna, a marmelada, os cereais de consumo e tantos outros proveitos de alta monta que estão sepultados no vasto seio do E. de Goyaz? Não. Goyaz palpitante, ancioso pelo bem, sonha o progresso (...) mais do que somos não seremos – sem que meio faça633 Há diferenças na elaboração sobre o que significa ser nortense nos discursos de Francisco Ayres quando se considera o meio em que a mensagem é empregada. Nos discursos públicos para a imprensa ou para a câmara federal se sobressai a defesa veemente da população que representa. Todavia, quando se observa seu diário de viagens se nota uma perspectiva, não excludente daquela, porém mais crítica, detalhada e criteriosa, em outros termos, mais livre. Obviamente que essa nuança é natural por vários motivos que os leitores já supõem. Não se quer com isso apenas evidenciar contradições no pensamento de Ayres, igualmente natural, mas elucidar aquilo que lhe chamou atenção e se tornou digno de nota. 634 Nos diários de viagem as diferenças no interior da população nortense aparecem com contornos mais nítidos, inclusive a designação unificadora “nortense” quase nunca é utilizada se comparada ao uso que tem nos jornais. Destaca-se as diferenças sociais, graus de civilização, termos como matuto, caboclo e roceiro são usados para distinguir grupos de pessoas, hábitos são condenados, etc. Assim o fez ao falar sobre como os “matutos” usavam e abusavam do fumo para várias coisas, não apenas para “pitar”, mas também como rapé e masca, no trato de doenças, nevralgia nos dentes, afastar mosquitos, ganhar tempo de repouso, como diziam “folgam no cigarro”, visto que havia todo um ritual para se fumar, entre outros. 633 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1916. p.2. 634 Não ignoro que a privacidade do diário pode ser questionada, principalmente porque a forma como Francisco Ayres narrou suas viagens indica certa pretensão em publicar. Mesmo assim se deve reconhecer que a liberdade nos diários para expor seu pensamento é absolutamente maior, até porque antes de se tornar público poderia ser modificado, ou quem sabe pensou em aguardar o momento ideal para publicação dos mesmos em suporte livro. Tendo em vista sua crença no poder do progresso material, é presumível que poderia utilizar os diários como parâmetro para apresentar as transformações que supostamente ocorreriam depois que os melhoramentos fossem efetivados, como a própria abertura de estrada e os automóveis que adquiriu. Aproveito para reiterar que o livro Caminhos de Outrora, ou seja, os diários publicados postumamente merecem análise minuciosa. 296 Com exceção da necessidade de espantar mosquitos Francisco Ayres condenava essas práticas como “irracionais, sem fundamento algum plausível, mas que passam de geração em geração a espera de que a civilização penetre por esses recantos, de modo a fazer daqui um povo feliz, mais produtor, pois que tudo ajuda para tanto”. Observa que em alguns lugares por onde passou com os automóveis do Rio de Janeiro em direção a Porto Nacional alguns matutos sequer observaram os carros, absolutamente indiferentes e frios em relação àqueles símbolos de progresso. Hierarquizando os grupos sociais sugere, devido ao sumiço de ferramentas, que “a honestidade por entre certos indivíduos da plebe é muito elástica”, complementando que mesmo em alguns da classe média ela deixa a desejar, como se estes devessem ser mais honestos que aqueles. Condenou a “mandinga” dos caboclos seja para fazer parar a chuva ou para evitar doenças.635 Mesmo assim, com a descrição mais pormenorizada e aberta do diário, Francisco Ayres reafirma sua concepção em relação aos nortenses e à importância dos transportes. Diz-se por ai que o jeca e o capiau tendo peixe, a farinha e o sal está com a vida feita, pouco trabalha porque não tem aspirações e o horizonte se circunscreve num âmbito muito restrito, máxime quando a instrução e a educação ainda são quase nenhumas. Efetivamente o fato é real; (...) todavia, a nosso ver isso independe mais da boa vontade do lavrador do que da escassa facilidade de transporte, uma vez que o existente por excessivamente explorado não está ao alcance do lavrador, se caso quisesse realizar verdadeiros surtos na sua lavura. Assim comprimido, o homem reduz os seus esforços ao mínimo de suas necessidades mais urgentes e assim vai vegetando num meio farto, e onde poderia viver mais do que em folgada abastança. 636 A concepção de Francisco Ayres da Silva sobre os nortenses seria apenas retórica para finalidades políticas? Seria essa imagem dos habitantes do norte apenas argumento para justificar e reivindicar melhoramentos? Estaria ele, na construção dessa imagem, referindo-se a toda população do norte indistintamente a despeito das diferenças, ou apenas aos seus pares, eleitores ou aos seus conterrâneos portuenses? Outros tantos questionamentos poderiam ser feitos em torno do processo de identificação. É plausível que Francisco Ayres, como homem da política e figura pública, colocasse seu periódico a serviço de atacar governos e adversários políticos ao passo que suavizava a denúncia contra os (e)leitores. Como elucida Pierre Ansart, 635 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999.p. 29, 131, 116, 121. 636 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.95. 297 criando bodes expiatórios para imputar sobre eles os descasos de uma realidade indesejada, porém engendrada, direta ou indiretamente, pelos próprios nortenses. Isso explicaria as mensagens elogiosas para os cidadãos nortenses, ao passo que rica em bodes expiatórios, pois assim agregaria maior número de adesão. Porque, como já foi dito, seus discursos públicos remontam à fórmula estratégia de não se negar os problemas e inquietudes, mas sim de se colocar como a solução para os mesmos, de igual forma colocar a justificativa sempre fora dos seus eleitores em potencial. 637 Igualmente plausível seria considerar que o enaltecimento dos nortenses era parte do discurso que intenta demonstrar as vantagens de se implantar melhoramentos de viação e comunicação no norte de Goiás. Francisco Ayres, ao construir essa imagem dos habitantes do norte, além de desconstruir estigmas, assinalava que não seriam em vão os gastos para promover a navegação a vapor e outros benefícios modernos, pois no norte havia população trabalhadora, inteligente e ávida pelo progresso que faria bom aproveito dos melhoramentos a ponto de transformar não apenas a própria realidade estadual, mas também a nacional. Era uma forma de rebater os argumentos que consideravam inútil qualquer investimento numa região improdutiva, com população esparsa, doente, inculta e indolente. Outra interpretação razoável seria considerar que a imagem do sertanejo nortense construída por Francisco Ayres teve como referência seus pares, negando a generalização de que todos os habitantes do norte fossem como os índios, ou como os lavradores e demais homens simples; ele propôs uma generalização visualizando a reduzida parcela de homens viajados, estudados, comerciantes e fazendeiros, ou seja, de posição social elitizada. Ou de forma semelhante, embora menos aceitável, que a noção de povo nortense para Ayres era restritiva e considerava apenas os eleitores. Quem sabe uma tentativa de estabelecer um parâmetro a ser alcançado ou uma defesa em causa própria já que se entendia como nortense. É ainda admissível que essa concepção sobre os nortenses seja fruto do desejo do líder portuense, naquele contexto de modernização, de englobar as diferenças, encobrir os distanciamentos, criar identificação e unir força em torno de um objetivo, que se quis comum a todos. Todas essas hipóteses são aceitáveis, mas seja qual for não se pode ignorar um fato. Francisco Ayres estava em meio a uma disputa pelo que significa ser nortense, 637 Ansart, Pierre. Mal-estar ou fim dos amores políticos?. In. HISTÓRIA & PERSPECTIVAS. n. 25 e 26 – jul/dez, 2001. Jan/jun, 2002. Uberlândia-MG: Universidade Federal de Uberlândia (Curso de História e Programa de Mestrado em História). p.70. 298 bastante influenciada pelo processo de modernização, por isso reivindicou o direito e a autoridade para poder enunciar essa significação. O pensar-se, conceber-se, perceber-se, querer-se como parte pertencente àquela noção de povo nortense sofreu influência dos debates sobre os melhoramentos modernos, absolutamente entranhados no processo de identificação. Seja como for, não se pode negar que Francisco Ayres, com perspectiva otimista, realmente acreditava no poder transformador dos elementos de progresso. 3.6 NORTE DE GOYAZ: FORMAS (CON)TORNADAS EM PAPEL E TINTA. As imagens referentes aos nortenses pressupõem o reconhecimento do pertencimento e identificação com determinado espaço, por sua vez também construído. Em Goiás as disputas políticas e pelos melhoramentos de infraestrutura, transporte e comunicação, bem como o anúncio do novo provocaram tensões, encaradas em forma de regionalização, que (re)colocaram as diferenças entre norte e sul do estado. Dessa maneira, interessa pensar sobre a ideia de região Norte de Goyaz construída nas páginas do jornal que carrega o mesmo nome. O historiador Gilberto Noronha, ao estudar a região Oeste de Minas, na esteira de Voltaire e Kosseleck, faz uma diferenciação interessante entre o Oeste de Minas (com Maiúsculo), que seria um conceito expresso nas fontes que trabalhou e oeste de Minas (com minúsculo), que seria uma categoria científica, ou um substantivo comum que comporta várias representações, inclusive aquela dos documentos históricos que analisou. Com base nesse autor entende-se que o espaço pode ser representado de múltiplas formas, o hebdomadário portuense não esgota todas as possibilidades de compreensão arroladas no substantivo comum norte de Goyaz, mas não restam dúvidas que a partir dele é possível apresentar algumas das formas de representação do espaço que compõem a referida categoria de regionalização. 638 Ao realizar a leitura das linguagens que constituem o periódico de Francisco Ayres da Silva, tentando entender o que corresponde ao dito Norte de Goyaz, percebe- se certa oscilação, instabilidade, flexibilidade, elasticidade, termo absolutamente fugidio que parece não se deixar apreender. Revelando que se tratava de uma tentativa de percepção do espaço imprecisa, em pleno processo de elaboração, ainda não 638 NORONHA, Gilberto Cezar de. Viangens aos sertões enunciados: Comphigurações do Oeste de Minas Gerais. Uberlândia: UFU/Pós-graduação em História, Linha Política e Imaginário, Universidade Federal de Uberlândia, 2011. (Tese de Doutorado). p.37. 299 completamente estabelecida ou rigidamente fixa. Como pesquisador por vezes a sensação foi de estar literalmente perdido, hora pelo excesso de referências, hora pela ausência delas. As configurações do espaço se mostravam mais complexas e com dinamicidade maior do que aquela tentadora, porém simplista, explicação que cristaliza o norte de Goyaz, encaixando-o perfeitamente com o atual estado do Tocantins, como forma de ligar harmoniosamente passado e presente em busca de uma origem natural, lógica e coerente para o recém-emancipado estado. Alguém poderia arguir que uma discussão sobre o espaço, como a que se propõe, faria mais sentido no início do Trabalho e não ao final. Apesar de concordar, não resisti à tentação de compartilhar com o leitor, embora tenha deixado algumas pistas ao longo do texto, sensações como a falta de orientação, a angústia da imprecisão, a frustração da busca obsessiva por uma referência geográfica pronta, definida e acabada. Sensações que não se restringem apenas ao pesquisador, mas, também, de maneira semelhante, aos próprios produtores do jornal e seus contemporâneos. No impresso de Francisco Ayres o norte de Goyaz assumiu diferentes formas e nomeações, em busca de referência e orientação espacial, diante da necessidade de se localizar e, ao mesmo tempo, tomar consciência e criar seu raio de atuação, assim, o espaço foi ganhando forma(s) não apenas do ponto de vista geográfico, mas social, cultural, histórico e simbólico. O Norte de Goyaz ao enunciar o Norte de Goyaz foi produzindo suas percepções espaciais, que trata-se de “um jogo que passa necessariamente pela linguagem”. A noção de região Norte é produto dos discursos realizados naquele dado momento histórico, que pensa e confere sentido ao espaço, instituindo-o na realidade muito mais do que simplesmente o representando. 639 Para romper com a noção de um espaço cristalizado é necessário se debruçar sobre as práticas e discursos que a forjaram. Conforme recomenda Durval Muniz, “Definir a região é pensa-la como um grupo de enunciados e imagens que se repetem, com certa regularidade, em diferentes discursos, em diferentes épocas, com diferentes estilos e não pensa-la uma homogeneidade, uma identidade presente na natureza”. Pois isso, a tarefa que urge é tentar desnaturalizar a região, pensar de que forma Francisco Ayres da Silva por meio do seu periódico tentou definir seus contornos. Seria ingênuo considerar que o título do jornal apenas indica uma região de circulação inalterável já estabelecida e reconhecida a despeito do mesmo. 639 NORONHA, Gilberto Cezar de. Op. cit. p.29, 30 300 Mais coerente é perceber como o próprio título já indica uma estratégia de aprisionamento do espaço, uma tentativa de dar forma ao norte de Goyaz. 640 O Norte de Goyaz não foi o único periódico que influenciou os contornos da regionalização do estado goiano, além dos jornais da capital, outros também foram importantes como os produzidos em Catalão, na fronteira com Minas Gerais. O Sul de Goiaz, por exemplo, que surgiu pouco depois da criação do hebdomadário de Ayres, dirigido pelo jornalista goiano Moyses de Sant’Anna, jornal catalano que já adotava a ortografia fonética proposta pela Academia de Letras do Rio de Janeiro, por isso Goiaz aparece no seu título com I e não com Y. Mudança que não foi adotada em toda história do Norte de Goyaz que até a década de 1980, independente das reformas ortográficas, manteve o título inalterável. Outro periódico sugestivo foi o intitulado Fronteira ed Sul, também editado “na adiantada cidade de Catalão”641, aproximadamente na época da construção da ferrovia em Goiás, que chegou a publicar em suas páginas um texto publicado no Norte de Goyaz, comentando uma entrevista dada por L. de Bulhões. Já o Sul de Goiaz foi chamado por Francisco Ayres de “paladino das inverdades, no tocante ao município do Porto Nacional” porque foi usado por seus adversários políticos com o objetivo de depreciá-lo. Essas menções são indícios de certo contato e intercâmbio entre os periódicos das duas regiões. Certamente uma análise minuciosa sobre os periódicos produzidos ao sul de Goiás, dentre outras questões, abriria novo veio de reflexões sobre as estratégias de regionalização e fronteiras no estado goiano. Por hora, as investigações através do Norte de Goyaz têm se revelado trabalho o suficiente. A região nortense por vezes se confundiu, misturou-se com o território ao longo da extensão dos rios; foi enunciada com nomes/formas diferentes tais como “valle Tocantins Araguaya”, região do “Alto Tocantins”642, ou apenas “valle Tocantins”. Seja discorrendo sobre deficiências do correio, sobre a necessidade de postos fiscais para 640 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011. p.35. 641 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/05/1914. p.3 642 Ao que tudo indica, entendia-se por Alto Tocantins o curso do rio de Goiás, passando pelo Maranhão, até aproximadamente a Praia da Rainha, no estado do Pará. O Baixo Tocantins seria o curso do rio aproximadamente de Alcobaça e Patos até a cidade de Belém do Pará. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1908.p.1; 15/04/1917.p.1; 30/07/1920.p.2. Essa forma de regionalização também serviu para apresentar as disputas por melhoramentos, no jornal portuense o Baixo Tocantins aparecia como a parte do rio mais beneficiada e estudada pelas as companhias que lá se instalavam, onde primeiro se instalou a navegação regular em lanchas a vapor, onde se iniciou de fato a ferrovia que ligaria Alcobaça até a Praia da Rainha, por ser o trecho mais encachoeirado do rio etc. O Alto Tocantins aparecia como a parte mais olvidada e carente de melhoramentos, apesar da maior capacidade de navegabilidade franca devido às poucas e menores zonas encachoeiradas. 301 impedir comércio de gado sem pagamento de impostos para Goiás, sobre a construção de estradas de rodagem ou de ferrovia que colocassem o “valle tocantino” em contato com o resto do país, os rios eram a principal referência dada à importância que tinham ou que se queriam dar a eles, sobretudo o Tocantins, principal meio por onde planejavam passar a tão desejada integração econômica. Esta forma de delimitação era utilizada principalmente quando se referia a melhoramentos, que, se materializados, margeariam o rio, como telégrafo e ferrovia, ou a própria navegação a vapor permitida pela desobstrução da estrada que anda. O norte aparecia tendo como recorte os “núcleos de população do importante caudal”. As localidades “as margens do alto Tocantins” foram definidas, por exemplo, por um colaborador que felicitava o jornal portuense por mais um aniversário, como “paragens longínquas que se apelidam “Norte de Goyaz””.643 A opção por essas formas de regionalização pela perspectiva natural, definidas com referência num elemento físico, por motivos de outras ordens, pode ser explicada, dentre outros fatores, pela abrangência, no sentido de que dizia respeito às localidades e moradores ribeirinhos numa extensão que transcendia o estado goiano. Muito mais um vínculo de aproximação com outros estados do norte do país, como Pará e Maranhão, motivado por interesses comuns, do que propriamente uma distinção ou oposição a outros espaços de Goiás. Explica-se ainda como uma forma de conferir centralidade à cidade de Porto Nacional como principal ponto no estado da assim chamada “Região Tocantins”644, categorias que naquele momento pouco vínculo guardava com a atual configuração do Estado do Tocantins, e menos ainda com a pretensão de criação do mesmo, mas expressava o fluxo, por meio do rio, de atividades econômicas, sociais e culturais de uma parte do território goiano em direção ao norte. 645 A pesquisadora Olivia Macedo Cormineiro, ao estudar os sertanejos pobres no século XIX e primeira metade do XX, definiu como recorte espacial de sua investigação, com base nos lugares de movimentação e vida desses sujeitos, a região denominada “vales dos rios Araguaya e Tocantins”, que sugere espaços geográficos e sociais que apreende o extremo norte de Goiás, Sul do maranhão e Sul do Pará. Nesse sentido, chama a atenção o fato de que a opção por essa noção, muito próxima das utilizadas pelo Norte de Goyaz conforme 643 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1905.p.4; 01/03;1906.p.2; 31/12/1906.p.1; 30/04/1907.p.2,3; 15/09/1908.p.4; 31/05/1911.p.4; 30/09/1916. p.1. 644 O rio também dava nome a comarca do alto Tocantins, cuja sede era Porto Nacional. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1908. p.1; 15/01/1925. 645 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1914. p.1. 302 mencionado acima, indica que não havia “uma rígida fronteira separando os homens e os modos de viver nestes espaços”.646 Essas formas de regionalização que tomavam os rios como referência tinham relativa eficiência para unir as cidades e arraiais edificados nas suas margens, especialmente as que participavam mais intensamente das relações comerciais. Entretanto, não tinham, ao que parece, a mesma eficiência em relação aos pontos habitados mais afastados. Daí que a opção pela categoria norte de Goyaz foi preferível porque era mais inclusiva e próxima dos interesses daqueles que a enunciavam, não se limitando apenas às localidades diretamente ligadas às atividades atreladas aos rios. De qualquer jeito, as diferentes formas de tomada de consciência do espaço, seja como vales Tocantins Araguaya ou como norte de Goyaz, indicam uma região em construção com contornos indefinidos. Uma rápida passagem pela participação do jornal Norte de Goyaz, no sentido de atribuir forma para a região norte goiana, inclusive nas suas representações sob o ponto de vista geográfico, deixa perceptível o quanto as fronteiras em todas as direções e sentidos ainda eram alvo de altercação. O território do norte de Goyaz estava envolvido com muitas questões de limites com diferentes estados vizinhos. Na década de 1910, por exemplo, o governo de Urbano Gouvea foi insistentemente criticado, acusado de se omitir diante das pendências de “limites com quatro estados limítrofes, qual a mais importante e mais ambicioso em abocanhar aquillo que é nosso”647, ainda que essa constatação tenha sido motivada pela oposição ao referido presidente do estado e pelo desejo de mostrar que o norte de Goyaz era mais valorizado pelos vizinhos do que pelos políticos goianos. É preciso considerar que a pauta das fronteiras perdurou por tempo significativo como tema importante pelo espaço que ocupou na imprensa escrita e pela preocupação franqueada. Deve-se, portanto, perscrutar as fronteiras do norte de Goyaz, não apenas as territoriais, mas também as culturais, político-administrativas, assim como propôs o historiador Luiz Ségio Duarte, quando elucida que as Fronteiras são construções. São processos social e historicamente – vale dizer, simbolicamente – produzidos. Devem ser concebidas mais como abertura e atualidade do que como dado e acabamento. São 646 CORMINEIRO, Olivia Macedo Miranda. Trilhas, Veredas e Ribeiras: os modos de viver dos sertanejos pobres nos vales dos rios Araguaia e Tocantins (séculos XIX e XX). Uberlândia: UFU, 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, 2010. p.16,17,58. 647 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/08/1911. p.1. 303 locais de mutação e subversão: regidos por princípios como os da relatividade, multiplicidade, reversibilidade. 648 Goiás teve problemas de limites com Mato Grosso por um território entre o Araguaia e o rio das Mortes, o litígio foi vencido por Mato Grosso; 649 Também com a Bahia, que chegou a ocupar com contingente militar parte do Jalapão a partir de Pedra de Amolar, mas a desocupação foi rápida e comemorada por Ayres. O problema demorou a ser resolvido a ponto de dez anos depois se reunirem comissões representando os dois estados, num congresso de geografia em Belo Horizonte, para discutirem e acharem solução para a divisa entre os mesmos. Nesse entremeio o líder portuense fazia questão de alertar seus leitores e o poder público de Goiás sobre seus limites com a Bahia “a fim de que mais um trecho precioso de nossa terra não passe as mãos alheias como tem-se dado para outros lados do estado e de outras regiões”.650 Nos arredores do planalto jalapense o estado do Piauí também se envolveu no imbróglio reivindicando a posse do território. “Os três estados do triângulo” - Bahia, Goiás e Piauí -, para tentarem estabelecer a paz e acharem consenso, combinaram de colocar guardas nas cidades fronteiriças até que a situação fosse solucionada definitivamente. 651 Com o Pará, especialmente quanto ao território à margem esquerda do Araguaya, mais precisamente o território de Conceição do Araguaya, “hontem goyana e hoje, de facto paraense”. Nos desdobramentos da disputa por esse território supostamente perdido por Goiás, já que acreditavam possuí-lo, o jornal Norte de Goyaz apresentou um episódio emblemático, que foi a monção enviada ao governo paraense, feita em nome do povo daquela zona, solicitando pertencer ao Pará e não a Goiás. Caso ideal para se criticar o governo e mostrar a insatisfação dos representados, no entanto, aqui é preferível observar pelo prisma de que o elo de identificação e pertencimento com aquela região era frágil. 652 Mas os limites com o Pará não eram questionados apenas do lado oeste, mas no extremo norte também, conforme documento produzido em 1920, por Americano do Brasil, na época “Secretario de Estado dos Negócios do Interior e Justiça”, reivindicando que o território goiano deveria seguir “da ponta septentrional da cachoeira 648 SILVA. Luiz Sérgio Duarte da. Teses sobre o sertão e cidades de fronteira: labirinto e barroco. In. O Público e o privado. Nº7- janeiro/junho, 2006. p.172. 649 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1915. p.1; 30/04/1921. 650 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/08/1909. p.3; 31/10/1919; 31/01/1914. p.1. 651 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/02/1925. p.1. 652 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1909. p.1-2; 31/08/1911. p.1; 15/08/1919. p.4. 304 do Itaboca no Rio Tocantins, até o rio Paranahyba”, ou seja, o Pará havia se estabelecido em terras goianas. Nesse documento, além de definir os limites de Goiás, com algumas divergências em relação ao que foi defendido no Norte de Goyaz, Americano do Brasil fez um histórico das discussões por pendências de limites que se arrastavam ou que já tinham sido teoricamente resolvidas, dente outras, a perda da cidade de Carolina para o Maranhão, que Ayres ainda tratava como se fosse mais próxima a Goiás do que ao estado maranhense. Americano do Brasil ponderou o quando o assunto era delicado e atual, reafirmando a necessidade de estabelecer e fixar os limites do estado, principalmente a partir do pertencimento. Dizia ele, “é necessário que cada goyano fortaleça em seu intimo o amor à terra natal, que cada professor propague na consciência de seus discípulos os verdadeiros limites do Estado (...) afim de legarmos à posteridade uma consciência geographica definida”. 653 Francisco Ayres insinua que os estados do Pará, Maranhão e Bahia tinham interesse em ver o “Valle Tocantins” ligado ao litoral, inclusive se esforçavam para o desenvolvimento do norte goiano, dispensando maior cuidado do que os governantes de Goiás, situação que poderia ocasionar um “desagregamento fatal”, ou seja, a anexação do norte e identificação dos nortenses com um desses estados. É notável que a situação é levada ao exagero para chamar a atenção do governo para a região, porém não é absurdo conjecturar que os respectivos estados se interessavam em anexar parte do território goiano, principalmente se observarmos que grande parte dos conflitos ocorriam nas divisas, com interferências de outro estados, sobretudo o Pará e a Bahia. 654 Na querela sobre por onde deveria passar a linha telegráfica, Ayres rebate supostas insinuações de políticos do sul que teriam afirmado ser inútil passar com o melhoramento pelo norte por ser uma terra despovoada, nesse sentido, aproveita para mencionar as estratégias de aproximação dos estados limítrofes que, ao contrário do governo goiano, acreditava no potencial do Norte de Goyaz. É de lastimar-se que saiam de Goyaz echos depreciativos da zona norte goyana quando é sabido e reconhecido que os Estados limítrofes divisam nessas paragens uma nova California e todos a um tempo, quase a porfia, disputam chamar a si o commercio de tao importante pedaço de solo que somente está sendo desconhecido pelos goyanos e 653 BRASIL, Americano do. Questão de limites: Goyaz----Pará. Goyaz: Correio Oficial, 1920. p.V. 654 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 01/03/1910.p.1. 305 pelo governo de Goyaz, que nada encherga a não ser a acanhada politiquice rasteira e torva. 655 Eu poderia discorrer sobre as motivações das contendas por territórios ou ainda sobre as questões de pertencimento, mas não é oportuno já que o interesse é apenas acenar que o Norte de Goyaz ainda era uma região em construção em muitos aspectos, inclusive o geográfico. Os limites do norte de Goyaz estavam envoltos por “nuvens escuras”, conforme atribuía o título de um texto escrito por Francisco Ayres sobre o assunto. Todavia, nublada não era apenas a divisa do norte goiano com outros estados vizinhos, mas também a fronteira entre as duas regiões que se formaram em Goiás, dividindo-o em norte e sul. 656 Pouquíssimas vezes a região Norte de Goyaz foi delimitada pelo periódico nortense, não porque já se sabia com exatidão da sua extensão ou porque já estaria tão presente e precisa no imaginário que tornava desnecessário qualquer detalhamento, pelo contrário, creio que essa carência se explique muito mais pela impossibilidade de detalhamento que poderia incluir ou excluir localidades estratégicas. A definição dos contornos da região oscilava dependendo da pauta que estava sendo tratada e que evocava a necessidade de regionalização. A faixa territorial entre a cidade de Goyaz e São José do Duro era uma zona absolutamente nebulosa, indeterminada, que oscilava entre as duas mais sólidas categorias de regionalização, reivindicada ora como parte de uma, ora como parte de outra, ou simplesmente como parte desconsiderada, quando o sul parecia ser da capital para baixo e norte de Porto Nacional para cima. Em 1902, o agrimensor Dr. Francisco Ferreira dos Santos, a serviço do governo, fez uma “Carta geográfica do Estado de Goyaz”, e, logo nos primeiros anos do jornal, Francisco Ayres da Silva fez uma análise sobre a mesma, apontando que “o curioso não deixará de reparar uma differença bem sensível entre o sul e o norte do mesmo estado”. O que o médico jornalista portuense estava acentuando era a forma como as regiões foram representadas no mapa, o sul quase todo povoado por cidades e villas, e o norte como se fosse praticamente despovoado, exceto por duas cidades, uma vila e alguns poucos arraiais. O jornal criticava afirmando que a maior parte dos territórios que aparece deserta no mapa era na verdade povoada. Além disso, Porto Nacional fora representada como uma “pequena ilha mergulhada num oceano de sertões não somente brutus mais ainda temerosos por serem elles desconhecidos”. Imagem esta muito 655 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/12/1910.p.2. 656 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1909. p.1 306 incômoda para Francisco Ayres que, através do jornal, desfez o mau feito reivindicando, em sua opinião, o justo título de princesa/rainha do norte para sua cidade, que não condizia com a apresentada no mapa, já que o município do Porto, como acreditou, poderia rivalizar com qualquer outro do sul. Na construção cartográfica de Francisco Ferreira dos Santos, a região norte de Goyaz estava “encerrada entre os 14º e 6º de latitude”, localização não questionada por Francisco Ayres que parecia concordar com tal delimitação. Preocupava-se com outra produção da diferença entre as regiões, ou seja, a da povoação, em outras palavras, a construção do norte do estado como sendo a parte menos povoada e urbanizada. Nessa lógica relacional, veementemente rebatida, o norte seria onde acabam as zonas mais populosas e urbanizadas do estado e começam as “zonas completamente ou quase desertas”.657 Os limites apresentados nessa ocasião, que localiza o norte entre os paralelos 14º e 6º, têm diferença significativa em relação ao território do Estado do Tocantins, apresentado pelos movimentos separatistas a partir da década de 1930, compreendido entre os paralelos 13º e 5º, conforme previa um decreto da Câmara Municipal de Porto Nacional. 658 Seja ao norte do paralelo 13º ou ao norte do paralelo 14º, a construção da fronteira entre sul e norte de Goiás apregoa o princípio esboçado por Luiz Sérgio Duarte, “a fronteira é zona cinzenta. Onde os contornos são mal definidos a separação e a ligação dos campos opostos se faz sem vergonha”.659 Discorrendo sobre a distribuição do circuito telegráfico, Francisco Ayres da Silva identificou São José do Tocantins, parte do território da atual cidade de Niquelândia, como ponto de referência para o Norte de Goyaz, “um dos menos prósperos núcleos da zona nortense”. Quando se referia à região por interesses políticos, como por ocasião das suas candidaturas por exemplo, a fronteira se tornava ainda mais elástica, de alguma forma ainda ligada à antiga noção de 2º distrito, da época em que seu pai Joaquim Ayres da Silva disputava os votos da região eleitoral que incluía o território da atual cidade Jaraguá. Ou seja, o norte era qualquer núcleo acima da então capital Goyaz. As listagens em que apresentava os municípios que o apoiavam quase sempre terminavam com “e outros”, recurso que deixava abertos os limites do norte goiano. Conforme um eleitor de Francisco Ayres mencionou em carta publicada no 657 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/12/1906. p. 2; 31/12/1910. p. 2. 658 COSTA, Célio. Fundamentos para criação do Estado do Tocantins. Goiânia: Editora Líder, 1982.p.33,35; DIAS, João da Rocha Ribeiro. Tocantins: a força de um ideal. Goiânia: O popular, 1989. p.77. 659 SILVA. Luiz Sérgio Duarte da. Op. Cit. p.174. 307 “Norte de Goyaz, de fato não se compreende a linha divisória desde muito existente entre a zona sul e a zona norte do Estado”, ligadas por “laços frouxos”.660 Outro acontecimento que contribuiu para a produção da diferença e a regionalização foi a proposta de separação do bispado de Goyaz para criar o bispado do Norte de Goyaz com sede em Porto Nacional, sob o argumento da grande extensão do estado, a longa distância das cidades nortenses até a capital sede do bispado goiano, os obstáculos da viação rápida que dificultavam a visita das lideranças e consequentemente o controle do norte segundo os interesses da religião. Francisco Ayres se uniu com as principais autoridades de Porto Nacional, aliados e adversários, em prol de criar o bispado no norte. Formaram uma comissão central encarregada de tomar as providências necessárias para encaminhar o projeto e articular apoio às paroquias. Vale observar que parte das exigências para concretizar o desejo de tornar a cidade em sede da diocese implicava em edificações em Porto Nacional, tais como prédio para o bispado, prédio para o seminário, meios de transporte para o prelado etc. Não por acaso a ideia foi interpretada como “um passo firme para o progresso de toda a zona”, já que, além dos novos prédios que mudariam a fisionomia da cidade, também proporcionariam “a instalação desta casa de educação no centro da zona norte goyana”, que contribuiria para a alfabetização preenchendo uma lacuna deixada pelo governo do estado. O futuro bispado foi defendido pela comissão como um forte braço que auxiliaria o governo a atuar na região, não apenas um melhoramento espiritual e religioso, mas também material e intelectual. 661 Após cinco anos aproximadamente debatendo e propagandeando o assunto no jornal Norte de Goyaz, consolidando a ideia, anunciou-se a concretização do projeto, “o que hontem parecia um sonho, uma utopia, é hoje (...) uma feliz realidade, e está creada mais uma diocese no etado de goyaz com sede em porto nacional, justamente no coração do norte [...] em uma extensão de 300.000 kilometros quadrados”.662 Certamente essa conquista foi mais que simplesmente uma divisão de bispado com desdobramentos muito além dos meramente religiosos, uma vez que reforçou a identificação com o Norte, intensificou a diferenciação com o sul, avigorou a condição de Porto Nacional como centro/capital daquela parte do estado, contribuiu para 660 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1913. p.1-3 661 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1912. p.3; 13/08/1913. p.3; 15/10/1913. p.5; 31/05/1914. p.1; 15/01/1916. p.1. 662 Goiás, segundo o jornal, tinha extensão total de 747,311 quilômetros quadrados. Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/07/1916. p.1. 308 naturalizar a ideia de região etc. Desvincular-se religiosamente de Goyaz foi um passo decisivo que reverberou de diferentes formas em diferentes projetos, tanto para aqueles como Ayres que queriam demonstrar o potencial do Norte para atrair melhoramentos e colocá-lo em sintonia com outros centros urbanos, como para aqueles que almejaram separação política-administrativa. Muito embora, anos depois do realizado feito, houve dificuldade para encontrar um bispo disposto a ir para a diocese portuense, há indícios de que a provável resistência de alguns bispos escolhidos ocorreu justamente pela falta de melhoramentos urbanos e novas tecnologias, como é notório pelo questionamento do jornalista Abílio Nunes “Mas, acaso, os padres brasileiros não poderão viver onde não haja automóveis, bonds elétricos etc?”663 O que é importante salientar nesse momento da discussão é como a criação do bispado do Norte de Goyaz interferiu na compreensão do que correspondia ao território da região nortense. Nos argumentos da comissão central, o bispado de Porto Nacional seria responsável pela vida religiosa do Norte, que incluía municípios “do Rio do Somno, S. José do Duro, Natividade, Conceição, Taguatinga, Arrayas, Chapéo, S. Domingos, Cavalcante, Forte, Flores, Sta. Rosa e Formosa”. Ou seja, sob essa concepção o limite entre as regiões norte e sul estaria abaixo do paralelo 15º, porém, quando a diocese de Goyaz foi definitivamente dividida, o novo bispado do norte assumiu o controle de quatorze paroquias 664 , que abrangiam norte, leste e oeste, os mesmos limites de Goiás com os estados vizinhos, mas ao sul foi necessário (re)definir a separação da jurisprudência, portanto, estabeleceu-se da seguinte forma “ao sul, os limites septentrionaes das parochias – S. Domingos, Flores, Nova Roma, Cavalcanti e Amaro Leite, que continuão a pertencer à Diocese de Goyaz”. Isto é, o limite entre as regiões norte e sul sob esta concepção estaria mais próximo do paralelo 13º, logo, mais próximo também da atual configuração geográfica do estado do Tocantins. 665 Se pela perspectiva da comissão central, encabeçada por Ayres, a região norte goiana incluía até mesmo parte do território abaixo da linha da cidade de Goiás, como Sta. Rosa, a atual cidade de Santa Rosa de Goiás, que, após efetivar a divisão da diocese a região passou a ser concebida ao norte do paralelo 13º, houve disputas na construção da fronteira entre o norte e sul, o norte de Goyaz que ulteriormente foi transformado em 663 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/07/1918. p.2. 664 As paroquias são: Porto Nacional, Boa Vista do Tocantins, Pedro Affonso, Carmo, Peixe, Chapada, Natividade, S. Miguel e Almas, Duro, Taguatinga, Conceição-Palma, Arrayas e Chapeo. 665 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1913. p.2-3; 15/07/1916. p.3. 309 estado do Tocantins é fruto desse embate. Nesse prisma o norte goiano tem mais relação com a concepção do espaço construída no/pelo sul do que propriamente com a concepção do espaço efetivamente proposta no/pelo norte. Em outras palavras, que podem contrariar a atual memória construída sobre o estado tocantinense, o norte de Goyaz, do ponto de vista territorial, é mais uma criação do sul do que do norte. Quando ainda a diocese de Porto Nacional estava a pleitear um bispo que assumisse o controle das paroquias nortenses, surgiu uma proposição de separação política-administrativa da região norte, apresentada pelo senador Luiz Monteiro, residente na então capital do estado. A proposta foi publicada pelo jornal Goyaz, estrategicamente nas comemorações de 7 de setembro, da independência do Brasil, incitando que os nortenses se desagregassem do sul para se constituírem como estado independente sob a denominação de “Estado de Goyaz do Norte”, mais um nome/forma para expressar a relação com o espaço, representação que com uma simples inversão dos termos altera os sentidos não apenas de localização, mas também de pertencimento, projetos, intenções e interesses. Os argumentos apresentados pelo propositor foram que a separação se justificava por ser uma antiga aspiração que deveria ser retomada no presente, que a chamada separação espiritual recém promovida deveria ser inspiração para a separação também no âmbito político, havia abandono do norte pelo poder público e a distância entre as regiões. Durante algum tempo o assunto foi abordado pelos jornais da capital, sobretudo os jornais adversários representando as duas principais forças políticas do momento, jornal Goyaz e o jornal O Democrata. O periódico Norte de Goyaz, estrategicamente nas comemorações de 15 de novembro, Proclamação da República, toma parte no debate reivindicando ser “orgam de publicidade unico no norte Goyano”, com autoridade para tratar sobre a “momentosa questão que se entende visceralmente com o progresso de nosso Estado”.666 Francisco Ayres da Silva argumenta contra a proposta do político de Goyaz, dizendo que embora tivesse se empenhado pela separação espiritual ela não tem relação alguma com as ideias separatistas aventadas e descabidas, sem razões plausíveis e justas. Visto que a divisão do estado contribuiria para o enfraquecimento do mesmo, pois, se unido o estado já era relativamente fraco se comparado a outros, seria ainda mais caso desunido, ou seja, “cada qual norte e sul pleiteando cegamente por interesses 666 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1918. p.2. 310 meramente regionais sem atenção aos interesses do todo (...) affectando diretamente contra a carta magna da República”. Não nega, mas explica a diferença de progresso entre norte e sul como um problema de ordem nacional, o que por sua vez não justificaria a separação do Brasil em dois países independentes, como se pleiteava a nível estadual. Como parte do governo naquele momento queria demonstrar que o poder público já estava voltando a atenção para o norte no sentindo de promover um progresso integral, principalmente porque já se via representado tanto no poder estadual como no federal. Assim abre espaço para que os municípios do norte emitissem parecer sobre o assunto, obviamente os colaboradores que não contrariariam sua opinião, mas que a confirmariam monstrando que os nortenses não desejavam a separação. 667 Assim as tramas de regionalização foram tensionadas, consolidando e acirrando as diferenciações entre as regiões e as configurações do espaço em busca de oferecer uma correspondência do espaço físico com os espaços cultural, político, espiritual, social e econômico. Seja como Norte de Goyaz, ou como Goyaz do Norte, a tomada de consciência do espaço estava associada naquele período com a experiência da modernização, ou melhor, com as diferentes maneiras de experimentá-la em cada lugar. Naturalizando cada vez mais a ideia de que “Goyaz está francamente dividido em duas grandes fachas territoriais, uma tocando as extremas lindeiras de Minas e a outra alcançando pelos seus confins septentrionaes as fronteiras paraenses; uma e outra tão afastadas e tão longinguas que seus habitantes se desconhecem”668; duas grandes faixas sem melhoramentos modernos de viação rápida que pudessem encurtar a distância entre elas, assim as diferenças e divergências entre norte e sul foram sendo animadas a cada melhoramento, reforçando a regionalização. De maneira que a configuração do Norte de Goyaz, mais eficiente e dotada de sentido, construída e representada na primeira fase do jornal portuense, foi aquela que expressava espaços destituídos dos elementos modernizadores, principalmente quando o sudoeste goiano já estava servido de estrada de ferro, o telégrafo já havia chegado na capital por minas, estradas de rodagem cortando praticamente todos os municípios ao sul de Goiás, assim como o serviço de automóveis, obras públicas, entre outros. Quando ao norte boa parte desses benefícios ainda não havia se materializado. 667 Idem. 668 Brazil Industrial. Rio de janeiro, 30/06/1920; Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1920. p.1. 311 O Norte de Goyaz, apresentado como a porção do território goiano mais carente dos recursos pelos quais se acreditava alcançar o progresso, foi uma fórmula recorrente, repetida com tanta insistência nas páginas impressas a ponto de cristalizar, dentre outros significados, a própria noção de região e sua principal demanda. Nesse sentido, o norte era uma espécie de livro aberto com folhas em branco para todas as localidades que desejassem se inscrever, por se sentirem desfavorecidas, preteridas e/ou esquecidas no processo de distribuição dos melhoramentos modernos. Uma noção de região com capacidade de comunicar com diferentes espaços, que expressava uma configuração geográfica imprecisa, mas aberta e abrangente assim como desejava Francisco Ayres da Silva, como se nota quando o mesmo, ao criticar uma mensagem presidencial de Urbano Gouveia que, para ele, falava apenas de alguns benefícios pelas bandas do sul, observou que “sabe a todo o publico, o norte do Estado não conta em toda a sua vastíssima extensão, segundo alguns, maior que o sul, uma só estrada, um só trilho, um pontilhão siquer mandado fazer por conta do governo”.669 O Norte de Goyaz como região onde os principais elementos modernos ainda não teriam aparecido correspondia a uma “vastíssima extensão”, sem forma definida, “segundo alguns, maior que o sul”, indicando uma fronteira ainda em meio às disputas e dissensões. Com a modernização surge também uma nova forma de olhar o espaço, que faz com que a percepção espacial, a consciência e a identidade regional estejam muito mais sujeitas às determinações históricas, culturais e simbólicas do que às determinações naturais, embora aquilo que é historicamente fabricado tende a ser naturalizado pelos discursos que tentam caracterizar a região. À medida que os melhoramentos eram estabelecidos a noção do Norte de Goyaz como lugar de ausência dos ditos benefícios modernos ganha vulto, e a região passa a ser identificada como espaço abandonado pelos governos, ou, nos termos apresentados por Gilberto Noronha, pela “lembrança do esquecimento” recorrentemente mobilizada pelos discursos como um sentimento compartilhado. Recurso que se mostrou altamente eficiente para construção de outra relação de um nós, que inclui não todo o estado, mas apenas uma parte, tornando, no processo de identificação, a parte não incluída como um “outro”.670 O historiador Gilberto Noronha, tendo como referência o oeste de Minas, fez uma observação que pode ser aplicada também ao norte de Goyaz, quando representada nessa condição de região que deveria ser, porém, não tem sido. 669 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1911. p.1. 670 NORONHA, Gilberto Cezar de. Op. cit. p. 109-110. 312 Representação que funciona, por sua vez, como estratégia de identificação de um nós. Ainda que pela falta, pelo não reconhecimento, pelo abandono ou apostasia, pelo esquecimento, pela falta de registros. Sentimento que institui uma temporalidade pensada na retomada de um desejo de futuro que advém do passado. Esperança renovada no presente, mesmo diante da constatação de sua não concretização. Um lugar que não tem sido, que não foi e que ainda não é objeto de determinada ação esperada. Mas poderá ainda ser, porque o tempo daquelas expectativas passadas parece esticado e reposto a cada constatação. Portanto, de algum modo, a retomada desses enunciados possibilita tanto re-visitar os sentimentos experimentados no passado em relação ao futuro acontecimento-alvo, quanto aproximar quem o retoma a essa forma de enunciação como uma estratégia para renovar os projetos de futuro que circulam na região como um “justo apelo” que “não é de hoje” mas que ainda mobiliza pessoas. 671 O norte como o lugar que não tem sido foi uma forma de enunciação utilizada ao longo de todo século XX em defesa e para o fortalecimento dos mais diferentes projetos. Marca até mesmo a história do jornal Norte de Goyaz em todas as suas fases até a década de 1980. Mas, retomando o debate associado à trajetória de Ayres e sua batalha em papel e tinta, pode-se afirmar que mesmo no norte de Goyaz, como uma categoria em construção, o processo de modernização incendiou a rivalidade entre as regiões norte e sul, porque, como bem afirmou João Carlos de Souza, o anúncio do novo provoca tensões entre as cidades, e se pode acrescentar que também entre as regiões, até mesmo representadas por suas principais cidades. 672 As obras públicas ou privadas, sobretudo de viação e comunicação, poderiam promover centralidade. Assim, o anúncio na imprensa sobre a construção de determinado símbolo da modernidade, em determinada localidade, com previsão de grande passo rumo ao progresso, (re)colocava a questão das diferenças entre as regiões. Francisco Ayres, além das pretensões políticas, desejou promover não apenas o influxo do progresso para sua região, mas também conferir centralidade para Porto Nacional, transformada em principal cidade do norte. Por isso questionava se “Goyaz é nossa capital, cabeça 671 Idem. Ibdem. p. 345-346 672 O autor disserta sobre como o anúncio da criação do telégrafo e da ferrovia alterou a relação entre as cidades de Cuiabá, a capital do estado, com Corumbá, cidade portuária. Pois esta última ao receber melhoramentos impulsionando a região que representava gerou certo temor daqueles mais ligados a Cuiabá, que temiam inclusive perder seu status de capital e sede administrativa do estado, além da percepção do abandono e distância de outras regiões. Interessante essa referencia, pois indica uma situação diferente, ou seja, uma cidade constituída como centro, que em função da modernização se sentee ameaçada de se tornar periférica. Mais sobre isso ver: SOUZA, João Carlos de. Sertão Cosmopolita: tensões da modernidade de Corumbá (1872-1918). São Paulo: Almeida, 2008. p.5-52. 313 portanto e coração do nosso estado. A qual orgam será assemelhada a região norte? Seremos pé? Seremos mão? Ou menos ainda?” Através da metáfora lembrou que o bem estar ou mal estar do centro vital dependia grandemente dos “membros periféricos”, que deveriam, portanto, ganhar maior centralidade dada sua importância para o corpo. 673 A rivalidade se aguçava, sobretudo quando algum símbolo moderno era colocado entre as regiões, como ocorreu, por exemplo, quando foi aprovado um projeto que previa passar praticamente todas as aulas secundárias para o sul. Rapidamente o jornal da família Ayres se manifestou, justificando sobre o quanto o norte carecia mais de instrução do que o sul, afirmando que tais projetos não visam “outra cousa mais que enfeitar o sul com mais algumas mostras de civilização arrancadas, extorquidas ao norte!” As divergências entre sul e norte, estimuladas pelo processo de modernização e atiçadas via imprensa, só eram atenuadas, não desfeitas, diante de algum interesse comum, sob a fórmula “antes de goyanos, devemos ser brasileiros, e eu antes de filho do Norte de Goyaz, sou goyano”.674 As representações do norte de Goyaz, além de estratégicas para as disputas políticas, foram importantes também para destacar a cidade de Porto Nacional. A atual condição de capital cultural do estado do Tocantins começou a ser construída no Norte de Goyaz. Esse título tão mencionado na contemporaneidade certamente remonta o período em que Francisco Ayres da Silva construiu um projeto de modernização para a região que deu ainda mais proeminência para sua cidade natal. De princesa e/ou rainha do Norte, título conferido especialmente pela centralidade e importância comercial e econômica, que aos poucos foi perdendo o sentido pela perda da hegemonia do comércio, a cidade passa a ser motivo de destaque a partir do século XX pelo aspecto cultural. A ênfase no aspecto cultural no período estudado indicava muito mais a condição de cidade com maior grau de civilização e progresso intelectual letrado do norte do que propriamente uma cidade histórica rica em expressões culturais, como sugere o uso atual do título. O termo capital cultural surgiu ulteriormente, não foi cunhado ou usado pelo jornal portuense na sua primeira fase, mas a ideia de cidade mais civilizada e por isso a capital do norte do estado se construía a cada edição do mesmo. Os últimos anos do século XIX, sobretudo as primeiras décadas do século XX, foram determinantes, pois ocorreu uma série de mudanças na cidade que, somada às expectativas do processo de 673 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/03/1908. p.1. 674 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/07/1909. p.1; 31/07/1906. p.1. 314 modernização, deu a impressão de que Porto Nacional se tornaria rapidamente num grande centro urbano moderno. A cidade foi considerada como “a mais importante d’entre as do interior do prospero Estado de Goyaz”, mais pelo que prometia se tornar do que efetivamente pelo que era. O Conego Luso dizia que Porto Nacional seguia nos últimos dias, “sem exagero: a marcha acelerada (...) principalmente no tocante ao seu desenvolvimento moral e intelectual”, acreditando que o desenvolvimento material fosse consequência natural e certa. 675 Naquele período a cidade se muniu com muitos elementos até então inexistentes na maioria das cidades goianas, o que provocou significativo efeito aos que acompanharam o processo. Vale lembrar que a essência do caráter blasé de que fala Simmel, a incapacidade de reagir adequadamente aos novos estímulos, espécie de disposição anímica própria dos habitantes das grandes cidades, não era uma característica inerente dos portuenses. Todavia, a partir dessa consideração de Simmel se observada por outro ângulo, pode-se presumir que nas cidades como Porto Nacional a reação diante das mudanças seja mais intensa e perceptível. Talvez por isso uma pequena e sutil mudança assuma grande proporção, podendo significar muitas sensações, expectativas e alardes, diferente do que normalmente se vê nos grandes centros urbanos. 676 Para se ter uma ideia, as edificações da catedral, convento e colégio alteraram a fisionomia da cidade de tal forma que foram ostentadas nas narrativas do 113º aniversário de Porto, como se o motivo para a importância da cidade fosse as “grandes remodelações na sua planta, edificando novos monumentos, hoje salientando alguns prédios”.677 675 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1906. p.1-2. 676 SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Ótavio Guilherme. O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1967. p.18-19. 677 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/06/1923. p. 1. 315 FIGURA 11: Porto Nacional: Templo dominicano, Convento e rua 7 de setembro em 1912. 678 FONTE: FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ; CASA OSWALDO CRUZ. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições cientificas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: FIO CRUZ/Casa Oswaldo Cruz, 1991. p.87. Apesar de ser, dentre as principais cidades nortenses, a mais distante de outros centros urbanos considerados modernos, justamente porque estava no interior, mais centralizada geograficamente, Porto Nacional foi se constituindo por outros fatores como “município de mais alta importância do norte, a capital do norte, no dizer de alguns enthusiastas de nossa cidade”. Como a cidade de Goyaz era vista como distante das cidades ditas nortenses, desejou-se que Porto assumisse as atribuições de uma capital para a região norte. Nas palavras do Frei Reginaldo Tournier, “é o centro, a cabeça que rege, o coração que manda os effluvios vitaes a essas regiões nortenses”, os elementos que garantiam essa condição de uma cidade que já apresentava suas glórias foram apresentados, segundo ele: “O povo da cidade é culto e brioso. Porto Nacional tem seus formados, filhos do logar, tem seu bem elaborado jornal (...) tem sua eschola 678 A rua 7 de setembro com o Largo das Mercês era o principal espaço urbano da cidade, pois nessa rua estavam as principais edificações e símbolos modernos. Na fotografia feita pela comitiva de Arthur Neiva e Belisário Penna, destaca-se o templo dominicano e o convento que estava ainda em processo de construção, conforme se nota pelos andaimes e pessoas trabalhando no telhado da edificação. Como já mencionado, foi narrado no Norte de Goyaz como obra feita “debaixo das regras da architetura moderna que buscava de perto ao progresso e desenvolvimento da nossa sociedade.” Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1922. p. 2; 30/06/1912. p. 3; 15/10/1913. p. 2. 316 secundaria pelos Padres Dominicanos leccionada; tem seu collegio de meninas equiparado e regido pelas irmãs dominicanas”.679 Interessante observar que o jornal recorrentemente apresentava imagens de Porto Nacional, elaboradas por estrangeiros como se estes tivessem mais autoridade e legitimidade para tecer considerações “fiéis” sobre o lugar, o reconhecimento dos “outros” se tornou alvo do impresso portuense. Francisco Ayres da Silva escreveu um texto bastante significativo sobre o que Porto Nacional representava para o norte, ou melhor, o que ele desejava que ela representasse. A imagem da cidade apresentada por ele foi uma contra argumentação ao texto de Elpidio de Medeiros, publicado no jornal A Imprensa, em que a mesma é chamada de “logar retrógado”, em outras palavras, conforme entendimento da época, retrógado significava “andar em sentido inverso do progresso”. Rejeitando essa qualificação, com suas próprias palavras e texto extraído do periódico Estado de Goyaz, o jornalista portuense explicou que Porto Nacional se avultava, apesar da perda da hegemonia comercial, explicação que dá sentido à ulterior e ainda cultivada atribuição de capital cultural. Sr. Elpidio não conhece Porto Nacional que, incontestavelmente, é a melhor cidade do norte do Estado. [...] O Porto começou a decahir comercialmente nas eras de 1885 a 1890, entretanto d’hai para cá, as construções da cidade tem aumentado, não se encontram casas fechadas. Está concluída a construção de um templo maior do estado, arquitetura moderna e elegantíssima; lá está o estabelecimento educandário das distinctas irmãs de S. Domingos, em casa própria para esse fim construída (...) lá está uma escola de marcinaria da qual aqui na capital não tem (...) lá está finalmente mantido como raro exemplo de civismo e poder de vontade o Norte de Goyaz, essa única centelha de luz que se projecta por toda a zona!? Como pois retrógado? 680 Além desses elementos se pode acrescentar Clube Recreativo Portuense, que recebeu incentivo e financiamento de Ayres por ser uma iniciativa que poderia despertar “o gosto pela literatura e pela arte, infelizmente tão descuradas entre nós”; Eschola de Música Nossa Senhora das Mêrces; além do Norte de Goyaz, outros tantos periódicos de pequena duração, dentre os quais alguns manuscritos como O Porvir, de Oswaldo Ayres, que depois se tornou imprenso pela tipografia nortense, e O Precursor, “jornalzinho manuscripto” mensal, produzido pelos “Sympathicos e esperançosos mocinhos de nossa cidade, animados pela louvável ideia do seu desenvolvimento 679 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/01/1912. p.4; 15/10/1912. p.1. 680 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1912. 317 intelectual; Código de postura”; médico nativo, entre outros. À medida em que Porto Nacional não se desenvolvia materialmente da maneira como se desejou ou que se esperava, que a fisionomia do seu espaço urbano não se alterava bruscamente, sem muita discrepância em relação a outras cidades nortenses, cada vez mais “sua grandeza depende do seu grau cultural”. Pois se, em 1906, o jornal mostra um lugar em que a arte e a literatura eram negligenciadas, a visão em 1923 se altera para um lugar que “Possue homens ilustres, homens de letras e afinal homens de artes”. A cidade se mostrava assim não porque realmente era rica do ponto de vista cultural e intelectual, mas porque era a alternativa mais viável para sustentar certa posição de evidência e demonstrar algum avanço que justificasse seu protagonismo e liderança na defesa dos interesses da região norte. 681 Assim, Porto Nacional foi se formando como capital cultural, em grande medida remontando o período e a atuação de Francisco Ayres da Silva e seus contemporâneos, renovando a principal imagem construída pelo Norte de Goyaz a de um, logar relativamente adeantado, sendo sede de um bispado, possuindo aluns collegios de instrucção secundária, sendo um deles equiparado a escola normal do estado, tendo um seminário, uma biblioteca anexa a um jornal alli existente, há quase vinte anos. Porto nacional foi sempre uma cidade pacifica e seus habitantes primaram em todo o tempo pela urbanidade, cortesia e hospitalidade. (...) Porto Nacional só tem ao seu desfavor o facto de se encontrar isolado no centro do paiz, vegetando vida precária a falta dos necessários meios de comunicação porque assim o tem querido os governos do paiz. 682 Essa definição de “logar relativamente adeantado”, é muito significativa, pois indica que a cidade portuense foi lida em relação a outros tantos espaços. Ser reconhecida como cidade adiantada ou não estava sujeito ao espaço tomado como referência. Sua condição em termos de progresso e desenvolvimento não dependeu unicamente de si, das suas demandas específicas próprias da sua realidade, do seu tempo e necessidades de transformação, mas foi estabelecida por comparação com cidades absolutamente diferentes, assim como pela subordinação aos princípios da modernidade que estabeleceram padrões, apesar de proporcionar experiências plurais. A trajetória de Francisco Ayres da Silva e as representações veiculadas em seu periódico sugerem que a busca para estar em sintonia, tornou-se, para muitos, obsessão, 681 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 31/03/1906. p.4; 31/03/1916. p.3; 31/08/1922. p.3; 31/12/1914. p.3; 30/06/1923. p.2. 682 Norte de Goyaz. Porto Ncional, 15/08/1924. p.3. 318 presença incômoda e inseparável, qualquer coisa como uma obrigação da qual parecia impossível se esquivar, até mesmo, ou principalmente, nos lugares em que a urbanização e a modernização não se materializaram conforme os paradigmas da época. Segundo Prudêncio Gomes da Silva, “Porto Nacional, apesar de segregado dos meios fáceis de comunicações (...) é uma cidade que procura elevar-se ao nível dos povos civilizados”. Em certa medida a corrida incessante pelos melhoramentos, símbolos da modernidade, foi uma forma de se tornar moderno, independente da posse dos mesmos. A experiência da modernização do/no Norte de Goyaz vivenciada por Francisco Ayres da Silva inseriu Porto Nacional no infindável ciclo do vir a ser. Na recorrente necessidade de lembrar o(s) futuro(s) desejado(s), em meio aos escombros amontoados, encerro esse capítulo, não as reflexões, com um fragmento do poema enviado para o nortense Luiz Leite Ribeiro, escrito por Leon Gheur, um Belga que esteve em Porto Nacional. “Vois Porto Nacional, cette citè nouvelle,/ Quis sera dés demain le centre glorieux,/ D’une immense region, aussi riche que belle. (...) Elle marche en avant dans la voie du progres”.683 683 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/10/1912. p.2. 319 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nós somos, talvez, cidadãos sem bússola... Cornelius Castoriadis Pode acontecer então que voltar atrás seja uma maneira de seguir adiante... Marshall Berman Avante, pois, nortenses! Francisco Ayres da Silva “Quais as estradas de ferro que passam pelo município? Quaes as estações nelle existentes? Trafegam diariamente quantos trens?” Resposta: “Nenhuma”. “Há navegação fluvial regular? Quaes os navios (typo) e a que companhias ou firmas pertencem?” Resposta: “Sim, no Tocantins alto navegam botes, igarités e canoas tocados a força braçal, embarcações todas de preparo e construcção dos naturaes”. “Há estrada de rodagem que comuniquem o município com outros ou só para o serviço do próprio município? Quais os pontos terminaes dessas estradas?” Resposta: “Não.” “Há canaes navegáveis? Que pontos ligam?” Resposta: “Não”. “Há serviço de telegráfico? Qual? Quantas estações? Onde? Há serviço postal? Quantas agências? Onde?” Resposta: “Há apenas uma agencia postal nesta cidade e outra no arraial do Carmo.” “Os portos são servidos por linhas regulares de navios? De que companhias e de que tonelagem? Quaes as médias de entradas e saídas mensais?” Resposta: “Não”.684 No início do século XX eram essas algumas das perguntas mais importantes que qualquer pessoa faria para saber mais sobre alguma cidade. A grandeza, o nível de desenvolvimento, a civilização e o progresso de qualquer centro urbano dependia das respostas dadas para essas perguntas. As questões acima fazem parte de um questionário elaborado em 1917 pelo IHGB para criação de um Dicionário Histórico Geográfico do Brasil. As repostas apresentadas foram elaboradas de próprio punho por Francisco Ayres da Silva, além dessas, muitas outras relacionadas à indústria foram simplesmente deixadas em branco. Por certo que as perguntas não foram elaboradas tendo Porto Nacional como referência. Possivelmente descrever a cidade portuense a partir delas 684 IHGB. Comissão directora do diccionário histórico, geográphico do Brasil. Rio de Janeiro: IHGB, 1917. p. 23-26, 30. 320 não foi um exercício muito confortável e agradável para um sujeito como Francisco Ayres, especialmente por constatar que sua terra natal estava distante do que parecia ser a cidade ideal subentendida, com não dito naquelas indagações. Mas, seria possível pensar sobre a edificação de uma cidade ideal universal em Porto Nacional? A resposta é sim. Essa cidade internacionalmente ideal seria uma espécie de capital universal, construída com a colaboração de todas as nações, planejada por escultores, artistas, engenheiros e cientistas, onde todas as aspirações da humanidade seriam contempladas social, cultural, científica e politicamente. A cidade ocuparia um território de dez milhas quadradas nas proximidades de qualquer parte acessível ao mar. Com ampla área para as casas dos seus habitantes, plantas comerciais e manufatureiras, com edifícios que unificariam os interesses internacionais. Com palácios, na grande avenida das nações para os embaixadores e delegados dos respectivos países. Uma “Gigantesca Torre do Progresso”, com 320 metros de altura, no alto da torre “uma planta de telegrafia sem fio e no andar de baixo da sua base colossal encontrar-se-á uma imprensa universal”. Teria ainda um porto universal com navios de todos os lugares do mundo interligando os centros comerciais de toda parte. Seria uma cidade de luz, saúde, largas avenidas, parques, campos de jogos, fontes, lagoas e com edificações nobres. ““Será uma cidade sem bairros baixos e depravados, uma cidade de atividade, conveniência e beleza. Não só em estrutura, plano e equipamento será a cidade ideal, mas está ideada para ser a capital artística, prática e internacional do mundo””. Assim Francisco Ayres da Silva compartilhou com o público do seu jornal um artigo da Edição portuguesa do Boletim Mensal da União Panamericana, publicado em Washington, que comentava os planos elaborados durante uma década por Hendrik Cristian Anderson, um escultor norte americano que residia em Roma. 685 Qual a razão de publicar as impressões sobre o relato de uma cidade ideal no interior de Goiás? Qual o sentido de descrever uma cidade que existia apenas no campo das ideias e como projeto? Os itens que deveriam compor uma cidade ideal para o mundo eram semelhantes aos que deveriam ter na Porto Nacional ideal? O que significou tirar os olhos do jornal após ter lido o referido artigo e voltá-los para atual realidade da cidade portuense? Qual a relação entre o formulário do IHGB, a descrição da capital universal e Porto Nacional? Outros questionamentos como esses poderiam ser formulados, não para se oferecer respostas pontuais e satisfatórias, mas apenas para 685 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 30/04/1915. p.1-2; 15/05/1915. p.1-2. 321 suscitar reflexões ou novas perguntas diante do leque de possibilidades que se apresenta frente tais indícios. O que parece certo é que as aspirações para a planejada capital universal eram também as aspirações de Ayres para Porto Nacional, guardadas as proporções aquela seria uma referência interessante para se inspirar, tornar sua terra natal numa capital ideal para o norte do estado goiano. Ao detalhar os símbolos modernos que constituiriam a cidade do desejo se estabelecia comunicação e identificação com muitos nortenses, pois se tratavam de elementos de alguma forma compartilhados e reconhecidos universalmente. A capital do mundo, assim como boa parte do projeto de Francisco Ayres, não saiu do papel, ficou por décadas pairando como sonho, desejo ou utopia. Mas, ao menos simbolicamente, a “gigantesca torre do progresso” já estava edificada, tão alta que poderia ser avistada em qualquer parte do globo, tão atraente que dificilmente se poderia desviar o olhar. Qualquer coisa como uma torre de babel moderna, em que todos deveriam se mirar, com capacidade para conferir celebridade a qualquer povo. Monumento que tentou estabelecer para todo mundo, a despeito da dispersão, uma linguagem apenas, a do progresso. Com certo êxito a torre moderna estabeleceu a linguagem do progresso como única, todavia com muitas maneiras de falar. Da sua base colossal ao cimo ela anunciava para os filhos dos homens de todos os lugares uma mensagem, ou melhor, uma crença, semelhante à conclusão que Deus teve quando avistou a torre que se edificava nas planícies da babilônia, “Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer”.686 Convicto nessa crença, assimilada e potencializada, Ayres percebia sua cidade e região como uma terra de futuro promissor. Movido pela ideologia do progresso, o futuro parecia ser a única dimensão de tempo realmente interessante para Francisco Ayres da Silva, pois se apresentava como aberta a incontáveis possibilidades. O passado era uma dimensão temporal da qual pouco ou nada se queria recuperar, já que os olhos se voltavam para um porvir que não guarda relação com o mesmo. Em Ayres não havia espaço para saudosismo, nem para um passado glorioso com o qual se desejasse aprender, repetir ou retomar. O presente surgia quase sempre como uma tarefa de transformação que deveria ser feita, mas deixada para depois. O agora, justamente porque não muito diferente do que se passou, era recorrentemente preterido em função do promissor amanhã. A inspiração estava no 686 BIBLIA SHEDD. São Paulo: Vida Nova, 1997. Livro de Gênesis 9:5-6. 322 futuro vislumbrado. Mas, os caminhos do porvir não seriam os mesmos de agora ou os mesmos Caminhos de Outrora? Ao que parece Porto Nacional está sempre pronta para começar outro novo caminho, estabelecendo não a continuidade ou a tentativa de repetir os já percorridos, mas pronta para estabelecer sempre que necessário um novo começo, para de novo começar um caminho em direção aos futuros que se abrem. 687 Nesse sentido, o Hino de Porto Nacional, escrito por um contemporâneo de Francisco Ayres da Silva, é bastante emblemático, trata-se de um convite ao futuro. A necessidade de superar os desafios do presente para atingir a ambicionada cidade de um futuro que se conjecturava a partir do que os esperados melhoramentos prometiam proporcionar. A brasília cidade de Porto/ no seu todo se mostra garbosa/ a natureza fê-la mais bela/ Eia! Vamos fazê-la ditosa./ Muito em paz portuenses marchamos/ Eia! Filhos da terra querida/ o sertão quer progresso e ventura/ trabalhemos para dar-lhe mais vida./ Dediquemos aos nossos vindouros/ altos feitos da quadra presente/ uma herança de amor pelo berço/ Tocantins entre todos fulgente/ Ao porvir, ao porvir bravo povo/ com valor nosso Porto elevar/ entre palmas e glórias brilhantes/ A goiana cidade exaltai. 688 O mais próximo que Francisco Ayres da Silva chegou de executar o seu projeto e inscrever sua região ao porvir, foi o percurso que traçou e abriu picada para construção da improvisada estrada da Barra até Porto Nacional, ligando as bacias do rio Tocantins e do rio São Francisco. Talvez a imagem que mais caracteriza a modernização do/no norte de Goyaz seja a descrita no diário de viagem transformado em livro sobre a condução dos automóveis até a cidade portuense, de longe, o feito mais visível e lembrado de todos os Caminhos de Outrora desejados ou percorridos por Francisco Ayres da Silva. Trata-se do precioso veículo Chevrolet, que ao chegar ao arraial do Carmo, para impressionar a população, teve que ser ligado “utilizando de uma roda de fiar para fazer funcionar o dínamo”. Ou ainda, tanto o Chevrolet como o caminhão Ford sendo puxados por bois na picada feita de estrada para vencer as serras, 687 SEIXAS. Jacy Alves de. Brasil, país do futuro: políticas do esquecimento e imagens identitárias da denegação. In. Impulso. Piracicaba: Ed. Unimep, v. 25 n.64, 161-178, set.-dez. 2015. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/impulso/article/view/2835/1683. Acesso em: 20/07/2016. 688 O hino portuense, com letra de Luiz Leite Ribeiro, música de Sebastião José de Oliveira e Adelino Golçalves, foi oficializado por decreto municipal nº20 de 15/11/1931. Em data imprecisa, provavelmente em algum período próximo à criação oficial do estado do Tocantins, ao que tudo indica o último verso da última estrofe foi alterado de “A goiana cidade exaltai”, para “A tocantinense cidade exaltai”, provavelmente a mudança foi feita por José Teodoro Negre. 323 brejos, grotas, bancos de areia, pedras, raízes, tocos e outros obstáculos próprios do cerrado-caatinga. 689 Nas palavras do próprio idealizador, Presentemente viajo com dois bois no automóvel que vão pegando bem e seis no caminhão que agora já vão pegando regularmente, unimos, pois, hoje os instrumentos do progresso com os elementos do atraso e com esse comboio vamos hoje prosseguindo a viagem morosamente em face do terreno que palmilhamos. 690 Essa significativa imagem seria o atraso imbricado, atado ao progresso? Ou quem sabe apenas uma representação de que no sertão goiano o progresso só chegaria caso arrastado pelo atraso? Estaria o atraso à frente do progresso ditando seu ritmo e direção? O que seria dos instrumentos do progresso não fossem os elementos do atraso? Talvez passe a ideia de que só com a força ou sacrifício do atraso se poderia mover o progresso? No norte goiano os instrumentos do atraso seriam mais imprescindíveis que os elementos do progresso? Ou poderia simbolizar o progresso do atraso e o atraso do progresso? Seria possível pensá-los separadamente, como duplos opostos, ou apenas como partes integrantes do mesmo comboio? Seja como for o fato é que Francisco Ayres constata categoricamente que “nessas paragens, o boi e o muar vão levando vantagem ao automóvel”691, prenúncio de que a modernização nortense teve suas peculiaridades. Se tal constatação é positiva ou negativa depende da perspectiva que se analisa. Caso a vantagem dos animais sobre os autos, símbolos modernos, seja julgada a partir da perspectiva hegemônica da modernidade e sua ideologia do progresso certamente será negativa. O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Primeiro Automóvel, oferece outra possibilidade de leitura ao expor uma experiência parecida com a de Ayres e dos nortenses ao se depararem pela primeira vez com os veículos modernos. Que coisa-bicho que estranheza preto-lustoza evém-vindo pelo barro afora? É o automóvel do Chico Osório é o anúncio da nova aurora é o primeiro carro, o Ford primeiro 689 SILVA, Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. Porto Nacional: Prefeitura Municipal, 1999. p.156, 149, 150 690 Idem; Ibdem. p.134. 691 Idem; Ibdem. p. 131. 324 é a sentença do fim do cavalo do fim da tropa, do fim da roda do carro de boi Lá vem puxado por junta de bois 692 A obsessão de Ayres expressa nessa aventura com os autos e na sua atuação no norte goiano lembra o personagem interpretado por Klaus Kinski no filme Fitzcarraldo, do diretor Werner Herzog. 693 O imigrante irlandês chamado Brian Sweeney Fitzgerald, ou simplesmente Fitzcarraldo, era um sonhador excêntrico que desejou construir um teatro no meio da floresta Amazônica no início do século XX, para apresentações de óperas europeias aos nativos de Iquitos. Antes de se lançar nessa empreitada, já havia direcionado seus recursos e energia num frustrado projeto de construção de uma ferrovia que ligasse o interior da floresta ao oceano pacífico, ideal que não foi adiante resultando apenas nas ruínas de uma estação de trem abandonada e tomada pelo mato, deixada aos cuidados de um suposto maquinista desavisado representado pelo ator Sebastião Prata, mais conhecido como Grande Otelo. O que torna os sonhos de Fitzcarraldo excêntricos é o lugar que assume grande importância e destaque no filme. Seus desejos de criar uma casa de ópera, uma ferrovia ou uma fábrica de gelo numa remota cidade peruana lhe deram o título entre a elite local de “conquistador do inútil”. A despeito do ceticismo de muitos, Fitzcarraldo teve a ideia de financiar seu sonho de edificar uma casa de operas através dos recursos obtidos com a exploração do caucho, mas para transportar o produto deveria atravessar montes e matas com um barco a vapor. No meio dessa aventura, vista como impossível e sem propósito pela maioria, algumas cenas chamam muito a atenção. Dentre as quais, no alto da embarcação, um gramofone tocando músicas do compositor italiano Enrico Caruso, ao mesmo tempo e em aparente harmonia com os batuques indígenas que ecoavam das matas, como se diferentes culturas estivessem se comunicando por meio da música. A outra cena é o barco a vapor atravessando um monte com a ajuda dos indígenas, que também tinham seus próprios interesses naquele feito. Em muitos aspectos a história retratada no filme se assemelha à história de Francisco Ayres da Silva narrada no diário de viagem. Não estranharia caso fosse 692 ANDRADE, Carlos Drummond de. Boitempo II. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1994. p.71. 693 FITZCARRALDO. Escrito e dirigido por Werner Herzog. Direção de Fotografia de Thomas Mauch. Musica Original de Popol Vuh. Produzido por Werner Herzog, e Lucki Stipetic. Alemanha / Peru: Film produktion – Zeigt, ZDF, 1982. 325 epitetado de Fitzcarraldo do norte goiano, embora não seja imigrante, mas sim um nativo. Dentre as muitas semelhanças, destaco em ambos que o esforço para realizar um sonho é mais significativo do que a própria conquista obtida. O que um sujeito é capaz de fazer no afã de ver sua região se modernizar parece se sobrepor ao que ele realmente conseguiu converter em termos de realização material. Para realizar um sonho de progresso vale enfrentar até mesmo o que parece impossível. O que Ayres alcançou efetivamente, a importância do feito para sua cidade, os benefícios que os veículos proporcionaram numa região praticamente desprovida de estradas apropriadas e recursos para manutenção dos autos e o que mudou após esta realização não importa muito, mas sim o que ele vivenciou e experimentou. Levar um carro e um caminhão do Rio de Janeiro a Porto Nacional atravessando o cerrado e abrindo caminho serviu basicamente para criar demandas e renovar a crença de que se poderia acertar o passo com o progresso. Destaco ainda que histórias como as de Firtazcarraldo e Francisco Ayres foram comuns, e lembram a história de muitas pessoas em diferentes lugares que agiram de forma semelhante, guardadas as particularidades de cada caso. Ou seja, como sujeitos de seu tempo, marcados pelo espírito de sua época. Como, por exemplo, certo nortense por nome de Sr. Preto Solino, provavel inspiração de Ayres, “que resolveu então por mãos a obra e levar adiante aquillo que os governos da Monarchia e da República não quiseram fazer” e criou uma estrada com pontes e serviço de balsa ligando o vale do Sapão ao vale do rio do Somno. 694 Depois das frustrações com seus planos de modernização do norte goiano, Francisco Ayres da Silva se organizou para conseguir levar para o norte as “machinas cuja descoberta data de poucos annos e cujas vantagens tem assombrado o mundo inteiro à ajuizar-se pela enormíssima quantidade que actualmente está em ação por todos os países civilizados”. Ainda mais porque “na capital goyana, já é mais ou menos ensurdecedor o fonfonar dos autos, fendendo os ares com seus silvos rouquenhos e encurtando as distâncias em velozes corridas”.695 De longe este foi o empreendimento mais extravagante feito pelo portuense, o que mais mobilizou pessoas e atraiu a atenção dos nortenses. Talvez o de menor utilidade para a região, todavia o mais significativo, pois a presença material de dois itens símbolos do moderno passando pelas cidades, 694 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/11/1918. p.1. 695 Norte de Goyaz. Porto Nacional, 15/09/1907. p.3; 15/03/1921. p.1; 15/10/1920. p.1. 326 povoados, fazendas e arraiais, soou como se estivesse aberta efetivamente a primeira picada rumo ao progresso. Ainda mais depois de décadas de propaganda sobre melhoramentos de viação rápida sem nehuma demonstração como aquela até então. Não por acaso, ao chegar a Porto Nacional, numa manhã em que “o dia amanheceu muito limpo”, foi recebido com “grandiosa manifestação” e muitos discursos, tal como o do Dominicano Frei Reginaldo Tournier. 696 Vossa Exa. aí vinha, tal qual o Messias prometido arrastando montes, enchendo vales, endireitando os caminhos tortuosos, aplainando os escabrosos, trazendo-nos, a custa de mil sacrifícios, os veículos do progresso destinado a renovar a face deste nosso torrão tão querido, deste Norte de Goiás de quem sois o muito digno e muito operoso representante na Alta Câmara Federal. (...) Louvado sejais, Exmo. Sr. Dr. [...] temos automóvel, temos caminhão no Porto! Ontem parecia- nos essa maravilha um sonho irrealizável, quase que um paradoxo; hoje porém é um fato consumado, um sucesso notável digno de ser consignado no nosso arquivo como um dos mais felizes acontecimentos de nossa história portuense. 697 A comparação com Jesus Cristo não parece exagerada, até mesmo para um povo extremamente religioso, pois para muitos aquele gesto representou realmente que Ayres havia realizado o impossível e para salvação dos nortenses. Principalmente naquele momento de êxtase diante da maior evidência física do moderno vista até então, elementos que identificavam o homem com a modernidade. Esta última peripécia de Ayres, simbolicamente, foi um divisor de águas que marcou sua saída da câmara federal onde era deputado. Presumo que depois da euforia da sua chegada com os autos pouca importância se deu para o feito. É provável que os preciosos veículos outrora festejados tenham tido “o mesmo fim melancólico” que o carro que José do Patrocínio adquiriu na Europa e levou para o Rio de Janeiro, “foi vendido ao ferro velho”.698 Os resultados obtidos com a posse dos automóveis se mostraram insatisfatórios antes mesmo de se tornarem obsoletos. Como afirma Antonie Compagnon, um dos traços da modernidade é a renovação incessante que implica em obsolescência súbita, ou seja, “a passagem do novo para o velho é, a partir daí, instantânea”.699 696 SILVA, Francisco Ayres da. Op. Cit. p. 160, 161. 697 Idem; Ibdem. p. 161, 162. 698 SANTOS, Regma Maria dos. Memórias de um plumitivo: impressões cotidianas e históricas nas crônicas de Lycidio Paes. Uberlândia: Asppectus, 2005. p. 220. 699 COMPAGNON, Antonie. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. p. 40. 327 Com o correr dos dias a obra salvadora de Francisco Ayres parece ter caído no esquecimento até ser retomada por ocasião da comemoração do centenário do seu nascimento, com a publicação de Caminhos de Outrora, uma parceria entre a prefeitura de Porto Nacional e o governo de Goiás. Por que essa lembrança naquele momento? Se tivesse que responder a essa pergunta diria: porque era preciso sinalizar mais um novo começo para o futuro. Nas palavras do prefeito da época Olegário José de Oliveira, porque é “quando o culto ao passado não constitui um retrocesso, mas a lembrança dos caminhos andados e a mística para se prosseguir na caminhada”.700 Nada mais apropriado do que se lembrar do episódio que redundou nos primeiros automóveis do Norte de Goyaz, no momento em que a BR-153 se tornava uma realidade, assim como a ponte sobre o rio Tocantins. Posteriormente, na década de 1980, foi representado no Brasão oficial da cidade. Desde então, esse passado recortado da biografia de Ayres (o futuro por ele desejado) se faz presente, silenciosamente, como lembrança de um futuro que cada vez mais faz parte do esquecimento. 701 700 SILVA, Francisco Ayres da. Op. Cit. 701 SEIXAS, Jacy Alves de. Op. Cit. 328 FIGURA 12: Brasão Oficial de Porto Nacional. FONTE:http://portonacional.to.gov.br/pagina-hino-de-porto-nacional-brasao-oficial-de-porto- nacional.html. Acesso em: 25/06/2015. FIGURA 13: Fotografia do automóvel Chevrolet e do caminhão Ford adquiridos por Ayres. FONTE: Arquivo da Família Ayres. O processo de modernização, o jogo político, as disputas por melhoramentos, a busca por sintonia e para entrar em compasso com o progresso deu certa evidência a Porto Nacional, que, ainda que a tenha colocado numa condição desconfortável, paradoxalmente ganhou visibilidade e foi se consolidando como centro urbano 329 importante na dinâmica do estado goiano, estabeleceu uma elite política influente e com poder de decisão. Apesar de não ter se modernizado como Francisco Ayres da Silva desejou, alicerçou as pautas e argumentos que foram fulcrais para projetos políticos posteriores, como a própria emancipação do estado que veio a se chamar Tocantins. Apesar de não ser o período mais lembrado pela memória da criação do estado, justamente porque as forças políticas mais importantes da época foram contrárias às primeiras tentativas mais consistentes da divisão do estado de Goiás, a história oficial movida pelo desejo de origem, remonta que a gênese da separação de 1988 já estava presente desde Teotônio Segurado no início do século XIX. Todavia a virada do século XIX para o XX, sobretudo o período que perseguimos pela trajetória de Joaquim Ayres e principalmente de seu filho, constituiu certamente um momento decisivo e essêncial para as diferentes intenções separatistas consolidadas ao longo do XX. Francisco Ayres e seu jornal Norte de Goyaz, apesar de advogar contra a divisão do estado, paradoxalmente e quem sabe a contragosto, tiveram papel importante no amadurecimento deste projeto, especialmente pela corrida por melhoramentos modernos; não por acaso os movimentos mais expressivos pela criação do estado do Tocantins foram arquitetados a partir de Porto Nacional. O processo de modernização a que nos referimos acrescentou os ingredientes necessários que tornaram possível pensar a divisão do Estado goiano. Na medida em que melhoramentos modernos se materializavam mais ao sul, esta centelha era atiçada. Caso fosse impelido a estabelecer uma origem para o estado do Tocantins, colocaria como marco o processo de modernização que permeou a trajetória de Francisco Ayres da Silva, presença (in)visível ao longo de todo percurso e dos diferentes projetos que culminaram com a divisão de Goiás. Talvez a maior evidência dessa hipótese não seja os desdobramentos que se tentou apresentar a partir do jornalista portuense, nem a modernização e a forma como foi sentida e vivenciada em solo goiano, mas sim o espectro de inferioridade e baixa autoestima que parece assolar o ainda em construção estado do Tocantins. O problema é que com tal marco não seria possível naturalizar a tocantinidade, muito menos criar heróis, no máximo se poderia identificar as vítimas mais evidentes do turbilhão da vida moderna e sua ideologia de progresso. Atualmente o estado do Tocantins está servido pelos principais recursos de comunicação disponíveis, cortado por rodovias, faz parte da linha nacional de transporte aéreo. Além de ser cortado pelos trilhos da ferrovia Norte-Sul, ainda uma promessa, 330 porém praticamente realizada. O rio Tocantins tem desempenhado importante papel na economia do estado, embora não como “viatura líquida” ou “estrada que anda”. O estado tem atraído atenção de indústrias e principalmente do agronegócio. Possui inúmeras universidades e demais instituições de ensino. As suas cidades se urbanizam e modernizam ainda que em ritmo diferente. De Francisco Ayres até a contemporaneidade houve muitas transformações, somente as regras do jogo político e as indesejáveis sensações, propícias para baixa autoestima, não sofreram alterações significativas, insistem em se renovar. De qualquer forma, parece que enfim o estado está acertando o passo e (pros)seguindo a estrada considerada certa, no interior daquele projeto de futuro desejado, do desenvolvimento e progresso, trilhada também por diferentes lugares do mundo. Se este é o melhor caminho, diria que não, para não dizer que muito provavelmente se trata da estrada errada, mas essa é outra discussão. Depois das análises e reflexões sobre Porto Nacional e a modernização no Norte de Goyaz na picada de Francisco Ayres, e observar a forma como o estado do Tocantins vai caminhando ao longo dessa estrada, diria que é urgente pensar no que Cornelio Castoriadis sugeriu, considerando a crise ecológica, a extrema desigualdade da repartição das riquezas entre países ricos e países pobres, a quase impossibilidade do sistema em continuar sua atual corrida, o necessário é uma nova criação imaginária de importância sem igual no passado, uma criação que poria no centro da vida humana outras significações além da expansão da produção e do consumo, que colocaria objetivos de vida diferentes, que pudessem ser reconhecidos pelos seres humanos como valendo a pena. Isso exigiria evidentemente uma reorganização das instituições sociais, das relações de trabalho, das relações econômicas, políticas e culturais. Ora esta orientação está muito longe do que pensam e, talvez, do que desejam os seres humanos atualmente. Esta é a imensa dificuldade que devemos enfrentar. Deveríamos desejar uma sociedade na qual os valores econômicos deixassem de ser centrais (ou únicos); em que a economia fosse recolocada em seu lugar de simples meio de vida humano e não de fim ultimo; onde, portanto, se renunciasse a essa corrida louca para um consumo cada vez maior. Isso não é necessário apenas para evitar a destruição definitiva do meio ambiente terrestre, mas também, e sobretudo, para sair da miséria psíquica e moral dos homens contemporâneos. 702 Olhar para a modernidade do tempo de Francisco Ayres pode ser uma boa forma de criticar a modernidade atual e a lógica do progresso que impera, em que o esforço 702 CASTORIADIS, Cornelius. A ascensão da insignificância. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 110-111. 331 para transformar a realidade no sentido de adaptá-la ao ideal é sempre um trabalho ingrato e insatisfatório, porque se move sempre em velocidade inferior à da alteração do ideal. Possivelmente, o aforismo do inglês Gilbert Chesterton sirva como um alerta para a sociedade contemporânea. Dizia ele, “quando estamos na beira do abismo, a única maneira de progredir é retroceder”. Honestamente não sei se Porto Nacional e o estado do Tocantins estão à beira do abismo, mas é urgente avaliar de que forma se vai progredir, se é retrocedendo, mudando o rumo, ou simplesmente encontrando um local seguro em que se possa parar. Diante das novas demandas e desafios que se apresentam para a cidade, estado e seus habitantes, torço para que saibam encontrar as melhores soluções, todavia torço ainda mais para que tenham realmente a capacidade de identificar os principais problemas. 703 Por fim, uma comparação entre a escrita da história e o processo de modernização não é absurda, pois tanto uma como a outra deixam sempre no ar a possibilidade da obsolescência súbita e a sensação angustiosa da incompletude, tanto pelo que foi feito, como pelo que se desejou fazer. Sendo assim, é com essa sensação que interrompo essas reflexões com a imagem da Typographia Nortense e seus responsáveis. FIGURA 14: Tipografia Nortense em 1911. FONTE: FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ; CASA OSWALDO CRUZ. Op.Cit. p.26 703 CHESTERTON, G. K. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013. CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2007. 332 FONTES E BIBLIOGRAFIA 1 – FONTES A) PERIÓDICOS Almanak Laemmert. Rio de Janeiro. 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